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Abordagem completa da incontinência urinária em geriatria: classificação (urgência, esforço, mista, funcional, transbordamento), mnemônico DIAPPERS, avaliação com diário miccional e resíduo pós-miccional, e tratamento escalonado com doses de antimuscarínicos, mirabegrona, toxina botulínica e cirurgia.
[1] NICE. Urinary incontinence and pelvic organ prolapse in women. NICE guideline NG123. 2019 (atualizações posteriores) · nice.org.uk/guidance/ng123 | [2] Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Protocolo Febrasgo de Ginecologia n. 50: incontinência urinária de esforço. Femina. 2021 · febrasgo.org.br | [3] Milsom I, Coyne KS, Nicholson S, et al. Global prevalence and economic burden of urgency urinary incontinence: a systematic review. Eur Urol. 2014;65(1):79-95 · DOI 10.1016/j.eururo.2013.08.031 | [4] American Geriatrics Society 2023 updated AGS Beers Criteria for potentially inappropriate medication use in older adults. J Am Geriatr Soc. 2023;71(7):2052-2081 · DOI 10.1111/jgs.18372 · DOI 10.1016/j.eururo.2013.08.031
A incontinência urinária (IU) atinge cerca de 30 a 40% das mulheres idosas vivendo na comunidade e mais da metade dos residentes em instituições de longa permanência; em homens idosos, a prevalência fica em torno de 15 a 25%, com predomínio da incontinência de urgência. Revisões sistemáticas globais estimam a prevalência de incontinência de urgência entre 1,6 e 22,8% em mulheres adultas. Longe de ser normal no envelhecimento, a IU é um dos principais preditores de queda (a pressa para chegar ao banheiro), de fratura, de dermatite perineal, de infecção, de depressão, de isolamento social e de institucionalização, além de elevar custos assistenciais em bilhões por ano. Para a prova, o aluno precisa classificar o tipo de perda, reconhecer causas transitórias e iatrogênicas (mnemônico DIAPPERS) e dominar a escada terapêutica, que começa sempre no tratamento conservador e respeita a fragilidade e a cognição do idoso.
A International Continence Society define IU como qualquer perda involuntária de urina. A classificação funcional é a que rende pontos de prova porque direciona o tratamento: incontinência de urgência (perda precedida de desejo miccional súbito e difícil de adiar, decorrente de hiperatividade do detrusor; hoje chamada de sintoma de bexiga hiperativa quando acompanhada de noctúria e aumento de frequência), incontinência de esforço (perda em manobras que elevam a pressão intra-abdominal, como tosse, espirro e levantar peso, por falha esfincteriana e do suporte uretral), incontinência mista (coexistência das duas), incontinência por transbordamento (overflow, por retenção com bexigoma), incontinência funcional (trato urinário íntegro, mas barreiras cognitivas, motoras ou ambientais impedem chegar ao vaso) e incontinência contínua (perda contínua, sugestiva de fístula vesicovaginal ou ureteral ou de esfincter gravemente lesado).
| Tipo | Mecanismo | Gatilho típico | Primeira linha |
|---|---|---|---|
| Urgência | Hiperatividade do detrusor (contrações involuntárias) | Desejo súbito, água corrente, chegar em casa | Treinamento vesical + assoalho pélvico; antimuscarínico ou beta-3 agonista |
| Esforço | Hipermobilidade uretral ou deficiência esfincteriana intrínseca | Tosse, espirro, levantar peso | Exercícios do assoalho pélvico por no mínimo 3 meses; sling se falha |
| Mista | Combinação dos dois mecanismos | Desejo súbito e tosse | Tratar o componente dominante, começando pelo conservador |
| Transbordamento | Bexigoma por obstrução (HPB) ou detrusor hipóxico/arrefléxico | Gotejamento contínuo, hesitação, jeto fraco | Desobstrução: alfabloqueador; alívio com sonda em retenção aguda |
| Funcional | Trato urinário preservado; déficit cognitivo, mobilidade, ambiente | Falta de acesso rápido ao banheiro | Corrigir causa transitória, toileting programado, adaptação ambiental |
A prevalência de qualquer IU em mulheres adultas varia de 25 a 45% nos grandes inquéritos internacionais, subindo com a idade e o índice de massa corporal; após os 70 anos, o predomínio passa da incontinência de esforço (mais comum entre 40 e 60 anos, associada a partos vaginais) para a de urgência (associada a neurodegeneração, diabetes, AVC e mobilidade reduzida). Em homens, a IU é menos frequente e fortemente ligada a hiperplasia prostática, cirurgia prostática e AVC. Nas instituições de longa permanência, 50 a 70% dos residentes são incontinentes, o que torna a IU um dos fatores de maior peso na decisão familiar de institucionalização. A incontinência de urgência é também a de maior custo direto e de maior impacto na qualidade de vida, conforme revisões sistemáticas globais.
A continência depende de quatro elementos coordenados: armazenamento pelo detrusor relaxado (via simpática beta-3 e M3 inibida), fechamento uretral (esfíncter estriado inervado pelo pudendo, esfíncter liso alfa-adrenérgico e suporte do assoalho pélvico), integridade do arco reflexo sacral (S2-S4) e função cognitiva-motora para chegar ao banheiro. No idoso, o envelhecimento reduz a capacidade vesical, aumenta as contrações involuntárias do detrusor, diminui o limiar de sensibilidade, eleva a noctúria (queda da vasopressina noturna e do clearance hídrico) e enfraquece o assoalho pélvico na mulher e obstrui a uretra no homem. O mecanismo farmacológico central para a prova: a acetilcolina age no receptor muscarínico M3 do detrusor causando contração (por isso antimuscarínicos tratam a urgência e causam retenção e boca seca), enquanto o agonista beta-3 relaxa o detrusor sem a carga anticolinérgica central.
Antes de rotular o idoso como incontinente crônico, a geriatria exige excluir causas transitórias, organizadas no clássico DIAPPERS: Delirium (a incontinência aguda em idoso frágil é sinal de alerta de infecção, fármaco ou alteração metabólica até prova em contrário), Infection (ITU sintomática), Atrophic urethritis e vaginite (atrofia estrogênica, tratável com estrogênio tópico), Pharmaceuticals (tabela abaixo), Psychological (depressão, psicose), Excess urine output (descontrol diabetes, insuficiência cardíaca, hipercalcemia, polidipsia, diuréticos noturnos), Restricted mobility (acidente vascular encefálico, artrose, medo de cair) e Stool impaction (impactação fecal que hipertona o esfincter e comprime a uretra, respondendo por parte importante das incontinências agudas em instituições).
| Fármaco | Efeito sobre a continência |
|---|---|
| Diuréticos de alça e tiazídicos | Poliúria e urgência, sobretudo se administrados à noite |
| Anticolinérgicos (amitriptilina, difenidramina, oxibutinina de alta dose) | Retenção por transbordamento, além de delirium e prejuízo cognitivo acumulado |
| Bloqueadores alfa-1 (usam-se na HPB, mas iatrogênicos na mulher) | Relaxamento uretral com incontinência de esforço |
| Descongestionantes orais (pseudoefedrina) | Retenção urinária por contração do esfíncter liso |
| Benzodiazepínicos e hipnóticos | Sedação e imobilidade: incontinência funcional e noctúria |
| Inibidores da ECA e bloqueadores do canal de cálcio | Tosse (IECA) que evidencia incontinência de esforço; edema por bloqueador de cálcio com noctúria por redistribuição |
A avaliação básica obrigatória inclui urina tipo I e urocultura (ITUs assintomáticas não explicam queixa miccional e não devem ser tratadas), creatinina e glicemia quando houver suspeita de doença sistêmica, e ultrassonografia de rins e vias urinárias com medida do resíduo pós-miccional (RPU): valores abaixo de 50 mL são normais, entre 50 e 100 mL são aceitáveis no idoso, e RPU acima de 150-200 mL indica retenção relevante, contraindicando antimuscarínicos e exigindo investigação de obstrução. A urodinâmica não é exame de rotina: reserva-se a casos de falha do tratamento conservador, suspeita de bexiga neurogênica, prolapso avançado, cirurgia prévia ou quadro misto indefinido, quando seu resultado mudará a conduta.
| Fármaco | Classe e mecanismo | Dose usual |
|---|---|---|
| Oxibutinina | Antimuscarínico M3 | Início 2,5-5 mg ao dia; IR 2,5-5 mg 2 a 3x/dia; formulação ER 5-15 mg/dia; evitar como primeira escolha no idoso cognitivamente vulnerável |
| Tolterodina | Antimuscarínico | 2 mg 12/12 h (IR) ou 4 mg/dia (ER) |
| Solifenacina | Antimuscarínico M3 seletivo | 5 mg/dia, podendo aumentar para 10 mg/dia |
| Darifenacina | Antimuscarínico M3 seletivo | 7,5 mg/dia, podendo aumentar para 15 mg/dia |
| Fesoterodina | Antimuscarínico (pró-fármaco) | 4 mg/dia, podendo aumentar para 8 mg/dia |
| Trospio | Antimuscarínico quaternário (baixa penetração central) | 20 mg/dia, até 60 mg/dia em 2 a 3 doses |
| Mirabegrona | Agonista beta-3 adrenérgico (relaxa o detrusor) | 25 mg/dia, aumentando para 50 mg/dia; preferir em risco cognitivo; cautela em hipertensão não controlada |
| Duloxetina | Inibidor da recaptação de serotonina e noradrenalina (aumenta tônus esfincteriano) | 40 mg 12/12 h para incontinência de esforço; segunda linha, risco de hepatotoxicidade e sintomas de retirada |
| Estrogênio vaginal | Creme/ovule de estrogênio conjugado | Uso local em atrofia urogenital na pós-menopausa; estrogênio sistêmico não trata e pode piorar a IU |
Regras de ouro da prescrição no idoso: começar com a menor dose e titular a cada 2 a 4 semanas, reavaliar resposta em 4 a 8 semanas com o diário miccional, checar o RPU antes de iniciar e periodicamente durante o uso de antimuscarínico, não somar dois antimuscarínicos (mas é aceitável combinar mirabegrona a um antimuscarínico em dose baixa, com ganho sinérgico), e suspender gradualmente após 3-6 meses de resposta para testar a necessidade de manutenção. Efeitos adversos mais cobrados: boca seca, constipação, visão turva (acomodação), taquicardia e confusão; a mirabegrona pode elevar a pressão arterial em 1-3 mmHg e é contraindicada na hipertensão grave não controlada.
Na urgência refratária, as opções escalonadas são a neuromodulação da raiz sacral (estimulação de S3, indicada em bexiga hiperativa refratária sem obstrução), o tibial posterior percutâneo (PTNS: 12 sessões semanais de 30 minutos, resposta em torno de 50-60%) e a toxina botulínica do tipo A intradetrusor: 100 U aplicadas em 20 pontos poupando o trígono, com efeito por 6 a 9 meses e repetição com intervalo mínimo de 3 meses; os riscos que caem em prova são ITU (em torno de 20-30% dos tratados) e retenção que exige cateterismo intermitente (até 10-20%), sendo o procedimento contraindicado em quem não consegue ou não aceita realizar autoalbuminação. Na incontinência de esforço com falha do tratamento conservador, o padrão-ouro é o sling suburetral de faixa média (retropúbico ou transobturatório), com cura objetiva em torno de 80-90% em um ano, seguido da colpossuspensão retropúbica de Burch; agentes de volume (injeção periuretral de biomaterial biossintético) têm eficácia menor, porém são opção em mulheres frágeis não candidatas a anestesia. Na obstrução por hiperplasia prostática com transbordamento, iniciar alfabloqueador (tansulosina 0,4 mg/dia) e considerar inibidor da 5-alfa-redutase (finasterida 5 mg/dia) em próstatas maiores que 40 g; retenção aguda exige alívio com sonda de Foley.
As complicações da IU no idoso são frequentemente mais graves que a perda em si: quedas e fraturas na corrida ao banheiro (a IU dobra o risco de queda em séries geriátricas), dermatite perineal e incontinência associada a dermatite por umidade, ITU de repetição, lesão por pressão em pacientes acamados, depressão, ansiedade e perda de autoestima, além do estresse do cuidador. O prognóstico é bom para os tipos revertíveis e para a adesão ao tratamento conservador (melhora em metade a dois terços dos casos), reservado na doença neurodegenerativa avançada. O seguimento inclui reavaliação em 4-8 semanas após cada mudança terapêutica, revisão periódica da necessidade de manter antimuscarínicos, rastreio de RPU em usuários desses fármacos e proteção da pele com barreiras tópicas e troca programada de fraldas (a cada 2-4 h ou imediatamente após episódio de evacuação).
1.Idosa de 79 anos relata perdas de urina ao tossir, espirrar e levantar neto do chão, sem desejo miccional prévio. O tipo de incontinência e a primeira linha de tratamento são:
2.O mecanismo de ação da mirabegrona no tratamento da bexiga hiperativa é:
3.Idoso frágil institucionalizado apresenta incontinência aguda há 2 dias, com confusão mental e constipação de 5 dias ao toque. A primeira medida é:
4.Antes de prescrever antimuscarínico a idoso com incontinência de urgência, o exame que deve ser obrigatoriamente verificado e seu limiar de alerta são:
5.Sobre a toxina botulínica A intradetrusor na bexiga hiperativa refratária, é correto afirmar:
6.A urodinâmica está indicada, rotineiramente, em qual situação?
7.A duloxetina é alternativa farmacológica no tratamento da:
8.No teste do absorvente de 1 hora, a classificação para perda de 12 g é:
9.Homem de 81 anos com gotejamento contínuo, hesitação e jeto fraco; RPU de 320 mL. O mecanismo e a conduta inicial são:
10.Sobre estimativa de prognóstico e complicações, a incontinência urinária no idoso associa-se principalmente a:
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