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Revisão completa da genética do câncer para provas: mutações somáticas e germinativas, oncogenes, genes supressores e de reparo, hipótese dos dois eventos de Knudson, vias moleculares, síndromes hereditárias com critérios de Amsterdam e Bethesda, teste genético, vigilância e cirurgias redutoras.
[1] Hanahan D. Hallmarks of Cancer: New Dimensions. Cancer Discov. 2022;12(1):31-46 · DOI 10.1158/2159-8290.CD-21-1059 | [2] Knudson AG Jr. Mutation and cancer: statistical study of retinoblastoma. Proc Natl Acad Sci U S A. 1971;68(4):820-823 · DOI 10.1073/pnas.68.4.820 | [3] Kuchenbaecker KB et al. Risks of Breast, Ovarian, and Contralateral Breast Cancer for BRCA1 and BRCA2 Mutation Carriers. JAMA. 2017;317(23):2402-2416 · DOI 10.1001/jama.2017.7112 | [4] Bray F et al. Global cancer statistics 2022: GLOBOCAN estimates of incidence and mortality worldwide for 36 cancers in 185 countries. CA Cancer J Clin. 2024;74(3):229-263 · DOI 10.3322/caac.21834 | [5] NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology: Genetic/Familial High-Risk Assessment: Breast, Ovarian, Pancreatic, and Prostate. Version 1.2025 · nccn.org | [6] Kandoth C et al. Mutational landscape and significance across 12 major cancer types. Nature. 2013;502(7471):333-339 · DOI 10.1038/nature12634 · DOI 10.1158/2159-8290.CD-21-1059
Câncer não é um evento único, mas a expansão clonal de células que acumularam mutações conferindo vantagem proliferativa, capacidade de invadir e de escapar da morte programada e da vigilância imune. A estimativa GLOBOCAN 2022 contabilizou cerca de 20 milhões de casos novos e 9,7 milhões de mortes por câncer no mundo em um único ano, com projeção de mais de 35 milhões de casos anuais em 2050. Estima-se que 5 a 10% de todos os cânceres decorrem de mutação germinativa herdada em gene de alta penetrância, o que representa, em números absolutos, milhões de famílias nas quais reconhecer o padrão hereditário muda conduta, vigilância e sobrevida. Para a prova, o aluno precisa dominar três eixos: a lógica funcional dos genes (oncogenes, supressores e de reparo), a hipótese dos dois eventos de Knudson e as síndromes hereditárias com seus genes, critérios e condutas.
Mutações somáticas ocorrem em uma célula e são restritas ao tumor: explicam a grande maioria dos casos (90 a 95%), chamados esporádicos, que se concentram em idosos e não mostram padrão familiar. Mutações germinativas estão presente em todas as células desde a concepção, seguem padrão mendeliano e definem as síndromes hereditárias, com início mais precoce, tumores múltiplos e bilaterais. O modelo clássico da carcinogênese em múltiplas etapas vem do câncer colorretal: perda do APC inicia o adenoma, mutação do KRAS promove crescimento, perda de heterozigosidade em 18q e inativação do TP53 completam a transformação maligna, um processo que leva 8 a 10 anos do adenoma ao carcinoma. Cada tumor carrega milhares de mutações, mas apenas 2 a 8 são mutações diretoras (drivers), selecionadas por conferirem vantagem; as demais são passageiras (passengers). Com o tempo, subclones divergentes geram heterogeneidade intratumoral, base da resistência terapêutica.
Funcionalmente, os genes do câncer dividem-se em três categorias com lógica oposta, e essa oposição é a base das questões de prova. Oncogenes são ativados por mutação de ganho de função e bastam um alelo mutado (dominante) para transformar a célula: correspondem a aceleradores pisados até o fundo. Genes supressores tumorais precisam perder os dois alelos para liberar o crescimento (recessivo em nível celular): são os freios do ciclo celular. Genes de reparo ou caretais, quando inativados, não promovem crescimento diretamente, mas permitem que mutações se acumulem em velocidade mutagênica.
| Categoria | Mecanismo e nº de eventos | Exemplos germinativos (síndrome) | Exemplos somáticos |
|---|---|---|---|
| Oncogenes | Ganho de função; um evento (dominante) | RET (NEM 2A e 2B, carcinoma medular de tireoide); MET (papilar renal hereditário); ALK (neuroblastoma familiar) | HER2 em 15-20% das mamas; RAS (KRAS em ~90% dos pancreáticos e 40% dos colorretais); BRAF V600E em ~50% dos melanomas; MYC em Burkitt; BCR-ABL1 na LMC; KIT em GIST; JAK2 V617F em mieloproliferativos |
| Supressores tumorais | Perda de função; dois eventos (recessivo celular) | RB1 (retinoblastoma), TP53 (Li-Fraumeni), APC (polipose adenomatosa familiar), PTEN (Cowden), VHL (von Hippel-Lindau), NF1, CDH1 (gástrico difuso hereditário), WT1 (Wilms) | TP53 em ~40% de todos os tumores; APC e TP53 na sequência colorretal; PTEN em endométrio |
| Genes de reparo (caretais) | Perda de função; dois eventos; fenótipo mutador | MLH1, MSH2, MSH6, PMS2 e EPCAM (Lynch); BRCA1 e BRCA2 (mama e ovário hereditários); MUTYH (recessivo); ATM, CHEK2, PALB2 | MLH1 metilado em ~15% dos colorretais esporádicos; BRCA em ovário e mama triple-negative; POLE ultramutado em endométrio |
Estudando retinoblastomas, Knudson propôs em 1971 que são necessárias duas mutações no RB1 para o tumor surgir. Na forma hereditária, a primeira mutação vem na linhagem germinativa em todas as células e a segunda acontece somaticamente na retina: por isso os tumores são bilaterais, multifocais e aparecem antes dos 2 anos. Na forma esporádica, as duas mutações somáticas precisam ocorrer na mesma célula: o tumor é unilateral, único e surge mais tarde. O portador herda um alelo normal e um mutado e é, na aparência, normal, porque o alelo selvagem basta: a herança é dominante na família, mas o mecanismo é recessivo na célula. O segundo evento costuma ser perda de heterozigosidade (LOH) por deleção cromossômica, recombinação mitótica, não disjunção ou metilação do promotor do alelo intacto, e é encontrada em virtualmente 100% dos retinoblastomas, prova da atuação do RB1 como evento iniciador.
Hanahan e Weinberg organizaram as capacidades adquiridas pelo tumor em hallmarks, ampliados para quatorze em 2022: sinalização proliferativa sustentada (RAS, MYC, receptores de fator de crescimento), evasão de supressores de crescimento (RB e TP53), resistência à morte celular (BCL-2 no linfoma folicular, alvo de venetoclaxe), imortalização replicativa via telomerase, angiogênese indutora (VEGF), invasão e metástase (caderinas, metaloproteinases), reprogramação do metabolismo (efeito Warburg), evasão da destruição imune (PD-L1), duas capacidades habilitadoras (instabilidade genômica e inflamação promotora) e quatro dimensões novas (reprogramação epigenética, plasticidade fenotípica, microbioma polimórfico e células senescentes). O estudo pan-cancer do TCGA mostrou TP53 como o gene mais alterado (cerca de 40% dos tumores, superando 90% no carcinoma seroso de alto grau de ovário), seguido de PIK3CA e de KRAS em pâncreas, cólon e pulmão. BRCA1 e BRCA2 perdem função no câncer de ovário e na mama triplo negativa; o complexo APC-axina-GSK3-beta controla a beta-catenina na via WNT, central no câncer colorretal.
Cinco síndromes concentram a maior parte das questões: Lynch, polipose adenomatosa familiar, mama e ovário hereditários por BRCA, Li-Fraumeni e von Hippel-Lindau. A regra de leitura é sempre a mesma: gene, padrão de herança, tumores principais, idade de início da vigilância e a intervenção que muda o prognóstico.
| Síndrome | Gene e herança | Tumores principais | Conduta que cai em prova |
|---|---|---|---|
| Lynch | MLH1, MSH2, MSH6, PMS2, EPCAM; autossômica dominante | Colorretal (risco de 40-50% até 70 anos), endométrio (30-50%), ovário, urotélio, intestino delgado | Colonoscopia a cada 1-2 anos a partir dos 20-25 anos; aspirina reduz cânceres associados (CAPP2) |
| Polipose adenomatosa familiar | APC; autossômica dominante; variante atenuada e MUTYH recessiva | Mais de 100 adenomas colorretais, câncer em ~100% até 35-40 anos sem colectomia; desmoides, duodenal, tireoide papilífera cribiforme | Colonoscopia anual desde 10-12 anos; colectomia profilática na adolescência ou início dos 20; pesquisa de CHRPE e vigilância duodenal por Spigelman |
| Mama e ovário hereditários | BRCA1 e BRCA2; autossômica dominante | Mama (72% BRCA1 e 69% BRCA2 até 80 anos), ovário (44% e 17%), próstata agressiva, pâncreas | Mamografia e ressonância anual desde 25-30 anos; salpingo-ooforectomia redutora aos 35-40 (BRCA1) ou 40-45 (BRCA2); mastectomia bilateral reduz risco em ~90-95% |
| Li-Fraumeni | TP53; autossômica dominante | Sarcoma ósseo ou de partes moles antes dos 45, mama antes dos 31, córtex adrenal, tumor cerebral, leucemia | Protocolo de vigilância alternada com ressonância de corpo inteiro; evitar radioterapia quando possível |
| von Hippel-Lindau | VHL (3p25); autossômica dominante | Hemangioblastoma de retina e sistema nervoso central, carcinoma renal de células claras, feocromocitoma, tumor neuroendócrino pancreático | Mapeamento de fundo de olho anual, ressonância abdominal e de crânio, metanefrinas plasmáticas; belzutifãno inibidor de HIF-2a para renal |
| NEM 2A e 2B | RET; autossômica dominante | Carcinoma medular de tireoide, feocromocitoma, hiperparatireoidismo (2A); mucosas neuronais e hábito marfanoide (2B) | Tireoidectomia profilática até os 5 anos no códon 634 e no primeiro ano na NEM 2B (códon 918) |
| Cowden | PTEN; autossômica dominante | Mama, tireoide e endométrio; macrocefalia, tricolemomas, papilomatose oral | Vigilância mamária intensificada e tireoidiana anual |
| Neurofibromatose 1 | NF1 (17q11); autossômica dominante | Neurofibromas, tumor maligno da bainha dos nervos periféricos, glioma óptico | Exame dermatológico e neurológico anual; investigar nódulo que cresce ou dói |
| Peutz-Jeghers | STK11; autossômica dominante | Colorretal, pâncreas, mama, estômago, ovário (tumor de células de Sertoli) | Colonoscopia e videoendoscopia periódicas desde a adolescência; pigmentação labial melânica |
| Retinoblastoma hereditário | RB1 (13q14); autossômica dominante | Retinoblastoma bilateral precoce; osteossarcoma na adolescência | Exame oftalmológico sob anestesia mensal no primeiro ano; evitar radioterapia |
A suspeita de síndrome hereditária começa na anamnese, com o pedigree de três gerações. As bandeiras vermelhas são: câncer em idade jovem (colorretal antes dos 50, mama antes dos 45-50, endométrio antes dos 50); múltiplos primários no mesmo paciente; tumores bilaterais ou multifocais; dois ou mais parentes próximos com o mesmo tumor ou tumores do mesmo espectro em gerações sucessivas; tipos histológicos raros e sugestivos (meduloblastoma em adulto, tumor de células de Sertoli); e padrão autossômico dominante claro na família. Para o câncer colorretal, dois conjuntos de critérios são cobrados literalmente em prova.
O teste genético é sempre precedido de aconselhamento genético, que constrói o pedigree, estima o risco, discute implicações psicológicas, de seguro e familiares, e define qual teste indicar. No câncer colorretal, a porta de entrada atual é a triagem tumoral: imuno-histoquímica das proteínas MLH1, MSH2, MSH6 e PMS2 no tecido de todos os novos casos. Perda isolada de MSH2, MSH6 ou PMS2 sugere mutação germinativa e segue direto para painel por sequenciamento de nova geração. Perda isolada de MLH1 exige antes dosar metilação do promotor do MLH1 e mutação BRAF V600E: se presentes, indica mecanismo esporádico; se ausentes, prossegue o teste germinativo. No câncer de mama e ovário, testa-se diretamente o indivíduo afetado com maior probabilidade de portar a variante, preferencialmente painel multigênico (BRCA1, BRCA2, PALB2, ATM, CHEK2, TP53, PTEN).
O objetivo de reconhecer a síndrome é converter risco em plano de vigilância e prevenção com calendário definido. Em Lynch, colonoscopia a cada 1 a 2 anos dos 20-25 anos reduz incidência e mortalidade por câncer colorretal em mais de 50%, e a aspirina em 600 mg/dia por pelo menos 2 anos (ensaio CAPP2) reduziu cânceres associados em cerca de um terço no seguimento prolongado; mulheres devem discutir histerectomia com anexectomia após a reprodução, dado o risco de 30 a 50% de endométrio. Na polipose adenomatosa familiar, a colonoscopia anual começa aos 10-12 anos e a colectomia profilática com reconstrução por pouch ileal é indicada quando os adenomas deixam de ser controláveis endoscopicamente, habitualmente no fim da adolescência; vigilância duodenal por Spigelman, de tireoide e de desmoides é vitalícia. Em portadores de BRCA1 e BRCA2, a salpingo-ooforectomia redutora entre 35-40 (BRCA1) e 40-45 (BRCA2) anos reduz o risco de câncer de ovário em 80 a 90% e a mortalidade por todas as causas; a mastectomia bilateral redutora reduz o risco de mama em cerca de 90-95%; sem cirurgia, a vigilância combina mamografia e ressonância magnética anual alternadas a partir dos 25-30 anos. O tamoxifeno e os inibidores de aromatase reduzem câncer de mama em 50% ou mais em mulheres de alto risco.
A genética deixou de ser apenas prognóstica e virou alvo terapêutico. O conceito de letalidade sintética define o uso de inibidores de PARP (olaparibe, niraparibe, talazoparibe) em tumores com deficiência de reparo por recombinação homóloga por BRCA1 ou BRCA2: a célula tumoral, incapaz de recombinação homóloga, depende de PARP para reparo por excisão de bases, e o bloqueio simultâneo colapsa o genoma seletivamente no tumor. O imatinibe contra BCR-ABL1 na leucemia mieloide crônica foi o paradigma de terapia dirigida; seguiram-se trastuzumabe no HER2, inibidores de BRAF e MEK no melanoma, selpercatinibe no RET e belzutifãno, inibidor de HIF-2a, nos tumores renais de von Hippel-Lindau. Em 2017, o pembrolizumabe tornou-se a primeira aprovação agnóstica de tecido: tumores com instabilidade de microssatélites alta ou deficiência de MMR, independentemente da origem, respondem às taxas mais altas já vistas em tumores sólidos avançados, o que torna a genética do tumor parte do planejamento terapêutico de qualquer oncologia.
1.Qual afirmação define corretamente um oncogene?
2.Na hipótese dos dois eventos de Knudson, como se apresenta o retinoblastoma hereditário em comparação ao esporádico?
3.Qual gene, quando mutado na linhagem germinativa, causa a síndrome de Lynch?
4.Imuno-histoquímica de um adenocarcinoma de cólon em paciente de 46 anos mostra perda isolada da proteína MLH1. Qual o próximo passo antes de indicar teste germinativo?
5.Adolescente com mais de 100 adenomas colorretais, manchas retinais congênitas e histórico familiar de colectomia precoce no pai. Qual o gene e a conduta?
6.Segundo a coorte CIMBA (JAMA 2017), qual o risco acumulado aproximado de câncer de mama até os 80 anos em portadoras de BRCA1?
7.Qual conjunto de tumores sugere síndrome de Li-Fraumeni?
8.Portadora de variante patogênica em BRCA1, com 39 anos e prole constituída. Qual intervenção reduz simultaneamente o risco de câncer de ovário em 80 a 90%?
9.Qual é o significado clínico de uma variante de significado incerto (VUS) em um painel genético?
10.O conceito de letalidade sintética explica a eficácia de qual classe terapêutica em tumores com mutação de BRCA1 ou BRCA2?
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