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Revisão completa das aneuploidias humanas: mecanismos de não-disjunção, trissomias 21, 18 e 13, aneuploidias dos cromossomos sexuais, métodos diagnósticos (cariótipo, FISH, QF-PCR, array e cfDNA) e riscos de recorrência. Inclui tabelas comparativas, números para prova e 10 questões com gabarito comentado.
[1] Antonarakis SE, Skotko BG, Rafii MS, et al. Down syndrome. Nat Rev Dis Primers. 2020;6:9 · DOI 10.1038/s41572-019-0143-7 · PMID 32042149 | [2] Sybert VP, McCauley E. Turner's syndrome. N Engl J Med. 2004;351(12):1227-38 · DOI 10.1056/NEJMra030089 | [3] Groth KA, Skakkebaek A, Host C, Gravholt CH, Bojesen A. Klinefelter syndrome - a clinical update. J Clin Endocrinol Metab. 2013;98(1):20-30 · DOI 10.1210/jc.2012-2380 · PMID 23118429 | [4] Morris JK, Mutton DE, Alberman E. Revised estimates of the maternal age specific live birth prevalence of Down's syndrome. J Med Screen. 2002;9(1):2-6 | [5] Gardner RMK, Sutherland GR, Shaffer LG. Chromosome Abnormalities and Genetic Counseling. 5th ed. Oxford University Press; 2018 · DOI 10.1038/s41572-019-0143-7
A citogenética é o estudo dos cromossomos ao microscópio óptico e continua sendo a porta de entrada para o diagnóstico das síndromes por aneuploidia — as alterações de número cromossômico mais frequentes na espécie humana. Para a prova e para a prática clínica, o estudante precisa dominar três eixos: reconhecer as síndromes clássicas (trissomias 21, 18 e 13 e as aneuploidias dos cromossomos sexuais), entender os mecanismos de erro meiótico que as produzem e saber escolher o exame correto em cada situação — cariótipo, FISH, QF-PCR, array CGH ou DNA fetal livre. Aproximadamente 1 a cada 150 nascidos vivos carrega alguma aberração cromossômica, e cerca de metade dos abortamentos espontâneos de primeiro trimestre é aneuploide, o que torna este tema simultaneamente frequente em provas e central na genética do consultório.
O cariótipo é a fotografia ordenada dos 22 pares de autossomos mais o par sexual, obtida após cultura de linfócitos (ou de amniócitos, vilos coriais, fibroblastos e medula óssea), bloqueio da mitose em metáfase e coloração. O bandamento G (GTG), produzido por digestão com tripsina e coloração por Giemsa, gera padrões de bandas claras e escuras que identificam cada cromossomo; a resolução convencional de 400 a 550 bandas detecta desequilíbrios de aproximadamente 5 a 10 megabases. A nomenclatura internacional ISCN padroniza a leitura: primeiro o número de cromossomos, depois o sexo cromossômico, depois a alteração. O resultado deve sempre ser interpretado considerando o tecido examinado, porque mosaicismo confinado a outros tecidos pode passar despercebido no sangue.
Aneuploidia é qualquer número cromossômico que não seja múltiplo exato do conjunto haploide (n = 23); o indivíduo normal é diplóide, 2n = 46. As euploidias anormais — triploidia (3n = 69) e tetraploidia (4n = 92) — são quase sempre letais, correspondendo a uma parcela relevante dos abortos precoces. A classificação clinicamente útil das aneuploidias é: monossomias autossômicas (letais em forma livre, com exceção de raros mosaicos), trissomias autossômicas viáveis (21, 18 e 13), aneuploidias dos cromossomos sexuais (45,X, 47,XXY, 47,XXX, 47,XYY e mosaicos) e aneuploidias estruturais derivadas de rearranjos, como a trissomia 21 por translocação robertsoniana. As aneuploidias sexuais têm fenótipo muito menos grave que as autossômicas equivalentes porque o mecanismo de inativação do X silencia as cópias adicionais: o número de corpúsculos de Barr equivale ao número de cromossomos X menos um — mulher 46,XX tem um corpúsculo; 47,XXX tem dois; e o homem 47,XXY, apesar do fenótipo masculino, apresenta um corpúsculo de Barr, achado clássico de prova.
O erro dominante é a não-disjunção meiótica: na meiose I o par de homólogos não se separa e o gameta recebe o cromossomo inteiro duplicado ou ausente; na meiose II falha a separação das cromátides-irmãs. O atraso anáfásico — perda de um cromossomo que se retarda ao migrar para o polo — gera monossomia e é um dos mecanismos de mosaicismo pós-zigótico, assim como erros mitóticos nas primeiras divisões do embrião. Cerca de 95% dos casos de trissomia 21 livre resultam de não-disjunção, e mais de 90% desses erros têm origem materna, com predomínio na meiose I. A explicação clássica é o envelhecimento do complexo sinaptonêmico e da coesina que mantém os homólogos unidos: a ovogônia permanece em prófase I desde a vida fetal, e a coesão se degrada ao longo de décadas. A idade paterna avançada associa-se a mutações de novo (ponto) e a algumas síndromes dominantes, mas não é fator relevante para aneuploidias — pegadinha recorrente.
| Idade materna | Risco aproximado de trissomia 21 ao nascimento |
|---|---|
| 20 anos | ~1 em 1.500 |
| 25 anos | ~1 em 1.250 |
| 30 anos | ~1 em 900 a 1.000 |
| 35 anos | ~1 em 350 a 400 |
| 40 anos | ~1 em 100 |
| 45 anos | ~1 em 30 |
Os valores da tabela derivam dos registros populacionais ingleses revisados por Morris e colaboradores (2002) e são aproximações úteis para aconselhamento: o risco praticamente dobra a cada dois a três anos após os 35 anos. Nos abortos espontâneos, o padrão é outro: a aneuploidia mais comum é a trissomia 16, encontrada em cerca de um terço dos abortos com trissomia e praticamente incompatível com a sobrevida em forma livre completa; a monossomia X é a aneuploidia única mais frequente entre conceptuses perdidos, correspondendo a cerca de 10% dos abortos cromossomicamente anormais.
| Característica | Trissomia 21 (Down) | Trissomia 18 (Edwards) | Trissomia 13 (Patau) |
|---|---|---|---|
| Prevalência ao nascimento | ~1/700 a 1/1.000 | ~1/5.000 a 1/8.000 | ~1/10.000 a 1/20.000 |
| Cariótipo | livre 47,+21 em ~95%; translocação 3-4%; mosaico 1-2% | 47,+18 na grande maioria | 47,+13 na grande maioria |
| Neurológico | hipotonia neonatal, deficiência intelectual leve a moderada | hipertonia, deficiência intelectual profunda | holoprosencefalia, apneia, deficiência intelectual profunda |
| Craniofacial | fenda palpebral oblíqua para cima, epicanto, face achatada, manchas de Brushfield | micrognatia, occipício proeminente, orelhas baixas | lábio leporino e fenda palatina, microftalmia, aplasia cutânea do couro cabeludo |
| Mãos e pés | prega palmar única, clinodactilia do 5º dedo, sandal gap | punhos cerrados com sobreposição dos dedos, pé em balanço (rocker-bottom) | polidactilia pós-axial, punhos cerrados |
| Cardiopatia congênita | 40-50%, defeito do canal atrioventricular | ~90%, comunicação interventricular e persistência do canal arterial | ~80%, CIA, CIV, dextrocardia |
| Sobrevida | expectativa de 50-60 anos com seguimento moderno | ~50% morrem na primeira semana; menos de 10% completam 1 ano | cerca de 90% morrem no primeiro ano |
Na trissomia 21, além da fenótipo clássico, o estudante deve fixar as associações sistêmicas: cardiopatia congênita em 40 a 50% (o defeito do canal atrioventricular é o mais característico), hipotireoidismo (congênito em ~1% e adquirido acumulando 10 a 20% ao longo da vida), atresia de duodeno, doença de Hirschsprung, maior risco de leucemia (10 a 20 vezes, incluindo a mieloproliferação transitória do recém-nascido, ligada à mutação GATA1s, e a leucemia mielóide associada à síndrome de Down), instabilidade atlantoaxial radiográfica em 10 a 15% (raramente sintomática), ceratocone, catarata congênita e perda auditiva condutiva. Praticamente a totalidade dos indivíduos com mais de 40 anos desenvolve patologia amiloide tipo Alzheimer, porque o gene da proteína precursora do amiloide (APP) está no cromossomo 21. A sobrevida média já supera 50 anos em séries contemporâneas.
As trissomias 18 e 13 são letais na infância na grande maioria dos casos. A trissomia 18 tem predomínio feminino de cerca de 3:1 e seu estereótipo de prova são os punhos cerrados com sobreposição dos dedos (o 5º sobre o 4º e o 2º sobre o 3º), o pé em balanço e a hipertonia; a trissomia 13 associa-se a holoprosencefalia (com arrinencefalia e ciclopia nas formas completas), fendas orais, microftalmia, aplasia cutânea do couro cabeludo e polidactilia pós-axial. Em ambas, a discussão terapêutica é de cuidados confortativos na maior parte dos casos, com aconselhamento individualizado — decisões que caem em provas de ética médica.
| Característica | Turner 45,X | Klinefelter 47,XXY | Trissomia X 47,XXX | 47,XYY |
|---|---|---|---|---|
| Incidência ao nascimento | ~1/2.500 meninas | ~1/600 a 1/1.000 meninos | ~1/1.000 meninas | ~1/1.000 meninos |
| Estatura | baixa (média de 143-147 cm sem tratamento) | alta, hábito eunoide, membros longos | normal ou alta | alta |
| Gônadas e fertilidade | disgenesia gonadal (streak), amenorreia primária, infertilidade | testículos pequenos e firmes (menores que 5 mL), azoospermia | geralmente normais | geralmente normais |
| Perfil hormonal | FSH e LH elevados, estradiol baixo | testosterona baixa a normal-baixa, FSH e LH elevados | normal | normal |
| Achados associados | linfedema, pterígio cervical, coarctação da aorta, válvula aórtica bicúspide, rim em ferradura | ginecomastia, risco relativo de câncer de mama 20-50 vezes, síndrome metabólica | dificuldades leves de linguagem e aprendizagem | dificuldades leves de aprendizagem e comportamento |
| Inteligência | em geral normal (poupança de funções verbais, prejuízo visuoespacial) | em geral normal, atraso de fala | QI médio levemente menor | QI médio levemente menor |
A síndrome de Turner é a única monossomia viável em humanos, e mesmo assim cerca de 99% dos conceptuses 45,X são perdidos — as meninas que nascem frequentemente são mosaicos (45,X/46,XX), com fenótipo mais brando e possibilidade de menarca e até gestação espontânea em uma minoria. O seguimento exige ecocardiograma (coarctação e válvula bicúspide implicam risco de dissecção aórtica, sobretudo na gestação), hormonio de crescimento na infância (ganho médio de cerca de 5 cm na altura final) e reposição estrogênica progressiva a partir de 11-12 anos para induzir puberdade. A síndrome de Klinefelter é a aneuploidia cromossômica sexual mais comum ao nascimento e também a mais subdiagnosticada — estima-se que mais da metade dos casos nunca receba diagnóstico. O quadro é hipogonadismo hipergonadotrófico: testosterona baixa com FSH e LH elevados, ginecomastia, infertilidade por azoospermia (a paternidade biológica é possível com microdissecção testicular em cerca de metade dos casos) e necessidade de reposição de testosterona. Nas trissomias 47,XXX e 47,XYY o fenótipo costuma ser discreto ou normal, e a maioria dos casos nunca é detectada.
| Método | Princípio e material | O que detecta | Limitações |
|---|---|---|---|
| Cariótipo convencional | metáfases após cultura de linfócitos, amniócitos ou vilos; bandamento G | aneuploidias e rearranjos estruturais, equilibrados ou não, de forma global | resolução de 5-10 Mb; demora de 7 a 14 dias; falha em mosaicos de baixa fração |
| FISH (hibridização in situ fluorescente) | sondas fluorescentes específicas (13, 18, 21, X, Y) em núcleos em intérfase | resposta rápida em 24-48 h para os alvos escolhidos | só enxerga o que a sonda procura; não substitui o cariótipo |
| QF-PCR | marcadores microsatélites (STR) dos cromossomos 13, 18, 21, X e Y | aneuploidias comuns em 24-48 h; distingue mosaicismo e origem parental | não detecta rearranjos estruturais nem outras trissomias |
| Array CGH / SNP array | hibridização de DNA; detecta perdas e ganhos submicroscópicos | resolução de 10-100 kb; exame de primeira linha em atraso global, autismo e dismorfias sem diagnóstico | não detecta rearranjos equilibrados, triploidia (na aCGH clássica) nem mosaicos abaixo de 20-30% |
| DNA fetal livre (NIPT) | DNA placentário no plasma materno a partir de 10 semanas | rastreio com sensibilidade acima de 99% para trissomia 21 e especificidade elevada | é rastreio, não diagnóstico: resultados falso-positivos por mosaicismo confinado à placenta, gemelar desvanescente e mosaico materno |
A regra prática de seleção: recém-nascido ou criança com síndrome dismórfica reconhecível ou suspeita de aneuploidia pede-se cariótipo — o FISH rápido pode antecipar a resposta em situações críticas, mas o cariótipo define se há translocação, informação que muda o risco de recorrência e obriga ao estudo dos pais. Criança com atraso global do desenvolvimento, autismo ou dismorfias inespecíficas sem síndrome reconhecível: array CGH de primeira linha. Casal com abortamento de repetição, natimorto com anomalias ou infertilidade: cariótipo do casal para procurar translocações equilibradas. O resultado do array pode trazer variantes de significado incerto, o que exige aconselhamento cuidadoso e estudo dos pais antes de qualquer conclusão.
O rastreio combinado do primeiro trimestre, entre 11 e 13 semanas e 6 dias, combina a medida da transparência nucal na ultrassonografia com a β-hCG livre e a PAPP-A plasmática: na trissomia 21 a transparência nucal e a β-hCG estão elevadas e a PAPP-A está reduzida; na trissomia 18 todos os marcadores estão baixos. O teste combinado detecta cerca de 85% dos casos de trissomia 21 com taxa de falso-positivo de 5%. O DNA fetal livre no plasma materno (a partir de 10 semanas) eleva a sensibilidade para acima de 99% na trissomia 21 e cerca de 97% na 18 e 90-95% na 13, com falso-positivos abaixo de 1%, e é hoje preferido em muitas linhas de cuidado — sempre como rastreio. Marcadores ultrassonográficos de alerta que autorizam oferta de teste diagnóstico independente do risco calculado incluem transparência nucal igual ou maior que 3,5 mm, higroma cístico, ossos nasais ausentes e malformações estruturais.
A biópsia de vilo corial realiza-se entre 10 e 13 semanas e tem vantagem de antecipar o resultado, com risco de perda gestacional de 0,5 a 1% e o caveat do mosaicismo confinado à placenta em 1 a 2% das amostras, que pode exigir confirmação por amniocentese. A amniocentese, a partir de 15 semanas, carrega risco de perda de aproximadamente 0,5% e reflete com mais precisão a constituição fetal. Indicações clássicas de diagnóstico invasivo: rastreio alterado (combinado, sequencial ou cfDNA), idade materna igual ou superior a 35 anos na data do parto em contextos sem rastreio, ultrassonografia com marcadores ou malformações, cariótipo parental com translocação equilibrada e histórico de aneuploidia prévia. Toda coleta deve ser precedida de aconselhamento genético e consentimento informado.
| Situação | Risco de recorrência de trissomia 21 |
|---|---|
| Filho anterior com trissomia 21 livre (não-disjunção) | ~1% somado ao risco por idade materna |
| Mãe portadora de translocação robertsoniana t(14;21) | ~10-15% de conceptos com trissomia 21 |
| Pai portador de t(14;21) | ~1-3% |
| Portador de t(21;21) | praticamente 100% dos conceptos viáveis terão trissomia 21 |
| Filho anterior com trissomia 18 ou 13 livre | risco de novas aneuploidias próximo de 1%, além do risco por idade |
| Mosaico germinal de um dos pais | risco discretamente aumentado sobre o populacional; nem sempre detectável no cariótipo de sangue |
O aconselhamento para aneuploidias segue princípios não diretivos: informar o risco numérico, explicar o mecanismo (erro esporádico de não-disjunção na grande maioria, sem culpa parental), apresentar as opções de rastreio e diagnóstico e respeitar a decisão reprodutiva do casal. A determinação do cariótipo do probando é o passo que muda o risco de recorrência: um recém-nascido com Down por translocação obriga ao cariótipo dos pais, porque a detecção de um progenitor portador transforma o aconselhamento de risco populacional para risco de portador — um dos pontos mais cobrados em provas de genética.
O prognóstico das aneuploidias sexuais é bom quando acompanhado: Turner exige vigilância cardiovascular aórtica, hormonio de crescimento e reposição estrogênica; Klinefelter, reposição de testosterona, manejo da ginecomastia, rastreio de câncer de mama (palpação e orientação de procura médica precoce) e avaliação de fertilidade. Na trissomia 21, o seguimento multiprofissional mudou a história natural: a sobrevida média já supera 50 anos, e a causa clássica de morte precoce — cardiopatia congênita não operada — é hoje majoritariamente corrigível. O protocolo de seguimento mínimo cobrado em provas está resumido na lista abaixo.
1.O mecanismo mais frequente de trissomia 21 livre é:
2.A aneuploidia mais comum encontrada em abortamentos espontâneos de primeiro trimestre é:
3.Recém-nascido com micrognatia, occipício proeminente, punhos cerrados com sobreposição dos dedos e pés em balanço sugere:
4.Holoprosencefalia, fenda labiopalatina, microftalmia e aplasia cutânea do couro cabeludo caracterizam:
5.Adolescente do sexo masculino, alto, com hábito eunoide, ginecomastia, testículos menores que 5 mL e FSH elevado. O cariótipo esperado e o corpúsculo de Barr são:
6.Menina de 14 anos com baixa estatura, pescoço alado, amenorreia primária, FSH elevado e inteligência normal. O diagnóstico provável é:
7.Um teste de DNA fetal livre (NIPT) positivo para trissomia 21 com fração fetal de 8% exige:
8.A principal limitação do array CGH comparativamente ao cariótipo convencional é:
9.Mãe portadora de translocação robertsoniana t(14;21) equilibrada tem risco aproximado de filho com trissomia 21 de:
10.A complicação mais frequente e que mais mata precocemente na trissomia 21 não corrigida é:
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