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Revisão completa do aconselhamento genético em oncologia para provas: definição e etapas do processo, construção do heredograma, pista de síndrome hereditária, principais síndromes (HBOC, Li-Fraumeni, Lynch, FAP) com genes e riscos, critérios de encaminhamento, interpretação de variantes incluindo VUS, manejo de risco com números e aspectos éticos e legais no Brasil.
[1] NCCN. Clinical Practice Guidelines in Oncology: Genetic/Familial High-Risk Assessment: Breast, Ovarian, and Pancreatic. National Comprehensive Cancer Network. 2025 · https://www.nccn.org | [2] Resta R, Biesecker B, Bennett RL, et al. A new definition of genetic counseling: National Society of Genetic Counselors' Task Force report. J Genet Couns. 2006;15(2):77-83 · DOI 10.1007/s10897-005-9014-3 · PMID 16761103 | [3] de Freitas Ribeiro AA, et al. Systematic review of the molecular basis of hereditary breast and ovarian cancer syndrome in Brazil: the current scenario. Eur J Med Res. 2024 · PMID 38504328 | [4] Giacomazzi J, et al. Prevalence of the TP53 p.R337H mutation in breast cancer patients in Brazil. PLoS One. 2014 · PMID 24936644 | [5] Pinto EM, Zambetti GP. What 20 years of research has taught us about the TP53 p.R337H mutation. Cancer. 2020 · PMID 32875577 | [6] Gomes R, et al. Haplotypic characterization of BRCA1 c.5266dupC, the prevailing mutation in Brazilian hereditary breast/ovarian cancer. Genet Mol Biol. 2020 · PMID 32453342 · DOI 10.1007/s10897-005-9014-3
Entre 5% e 10% de todos os cânceres decorrem de uma variante germinativa de alta penetrância transmitida na família, e identificar essas famílias mudou de status: saiu do campo da curiosidade acadêmica e virou fator terapêutico, porque o resultado do teste germinativo define hoje o uso de inibidores de PARP, a indicação de cirurgias redutoras de risco e o rastreio de parentes. O instrumento clínico que organiza tudo isso é o aconselhamento genético, processo formal definido pela National Society of Genetic Counselors e executado no Brasil por geneticistas médicos e equipes multidisciplinares de oncogenética. Este artigo cobre o percurso completo que a prova cobra: o processo de aconselhamento, a leitura do heredograma, as síndromes hereditárias com genes e riscos, os critérios de encaminhamento para teste, a interpretação de variantes — com o tratamento correto da variância de significado incerto — e o manejo de risco, incluindo as particularidades brasileiras, como a variante fundadora TP53 p.R337H.
A definição clássica, do relatório da força-tarefa da National Society of Genetic Counselors (Resta e colaboradores, 2006), descreve o aconselhamento genético como o processo de ajudar pessoas a compreender e a se adaptar às implicações médicas, psicológicas e familiares da contribuição genética para uma doença. A definição explicita os componentes que a prova cobra: interpretação da história familiar e da árvore genealógica para estimar probabilidades de recorrência e de risco, educação sobre genética, testes, manejo, prevenção e recursos de pesquisa, e aconselhamento centrado em promover escolhas informadas e adaptação ao risco ou à condição — com o princípio da não diretividade, em que o profissional apresenta caminhos sem impor decisões reprodutivas ou cirúrgicas. O processo tem momentos formais: sessão pré-teste (educação, consentimento livre e esclarecido, avaliação psicossocial e definição da melhor estratégia de teste), coleta da amostra e sessão pós-teste (entrega do laudo, explicação do resultado e plano de manejo). Aconselhar não é o mesmo que solicitar o exame: o teste sem aconselhamento produz resultados mal interpretados, como tratar variante incerta como mutação patogênica.
O heredograma (pedigree) mínimo em oncogenética cobre três gerações, de avós a sobrinhos, de ambos os lados da família — porque as síndromes dominantes se expressam em qualquer ramo, e o lado paterno é sistematicamente esquecido na anamnese. Os símbolos são padronizados: quadrado para homem, círculo para mulher, losango para sexo não informado, figura preenchida para afetado, barra transversal para óbito e linha dupla para consanguinidade. A leitura do padrão de herança orienta o teste: autossômica dominante (vertical, ambos os sexos, como BRCA1 e Lynch), autossômica recessiva (irmãos afetados com pais hígidos, como a polipose associada a MUTYH), ligada ao X e mitocondrial. No câncer hereditário, cinco pistas clínicas pedem investigação formal: idade de início precoce para o tipo de tumor, múltiplos tumores primários no mesmo indivíduo, tumores bilaterais ou multifocais em órgão pareado, tumores raros para a idade (carcinoma adrenocortical infantil, coroide plexo) e a associação de tumores primários que compõem síndrome conhecida, além de ancestralidade com efeito fundador, como judia asquenazi ou, no Brasil, o sul e sudeste para TP53.
A maioria dos cânceres (70 a 80%) é esporádica, resultado de mutações somáticas acumuladas ao longo da vida sem componente hereditário mensurável; de 10 a 20% mostram aglomeração familiar por combinação de variantes de baixa penetrância e exposições compartilhadas; e 5 a 10% seguem herança mendeliana de variante germinativa de alta penetrância, quase sempre autossômica dominante. No Brasil, três números organizam a oncogenética local. Primeiro, o câncer de mama é o mais incidente em mulheres depois do câncer de pele não melanoma, com mais de 70 mil novos casos por ano nas estimativas do INCA, o que multiplica o valor absoluto mesmo de uma fração hereditária pequena. Segundo, a variante fundadora TP53 p.R337H, originada no sul do país, alcança cerca de 0,3% (1 em 300) da população geral das regiões sul e sudeste — de longe a maior prevalência de variante de TP53 no mundo, o que justifica atenção especial a tumores precoces nessas regiões. Terceiro, entre as variantes de BRCA1, a c.5266dupC (antiga 5382insC) é a mais frequente no Brasil, caracterizada haplotipicamente como de introdução única, com trabalhos apontando origem ligada à colonização; somam-se efeitos fundadores regionais descritos no Ceará e em outras populações. Em judias asquenazitas, cerca de 2 a 3% carregam uma de três variantes fundadoras (BRCA1 c.68_69delAG, c.5266dupC e BRCA2 c.5946delT), motivo pelo qual a ancestralidade isolada já integra critérios de teste.
As síndromes se organizam pela via molecular alterada: reparo de DNA (BRCA1/2 e companhia na via de reparo por recombinação homóloga; genes de mismatch repair em Lynch), sinalização do crescimento e apoptose (TP53, PTEN, STK11), e regulação da transcrição e vascularização (RET, VHL). A síndrome hereditária de mama e ovário (HBOC) por BRCA1 e BRCA2 é a mais cobrada: com BRCA1, o risco acumulado de mama até 70-80 anos fica entre 55 e 72% e o de câncer epitelial de ovário entre cerca de 40 e 45%; com BRCA2, 45 a 69% para mama e 11 a 20% para ovário, além de aumento de câncer de mama masculino, próstata agressivo e pâncreas. A síndrome de Li-Fraumeni, por variante germinativa de TP53, confere risco acumulado de câncer superior a 90% até a vida adulta, com tumores-característica: sarcoma de partes moles e osteossarcoma na infância, carcinoma adrenocortical pediátrico, tumor de plexo coroide, tumor cerebral e câncer de mama em mulher jovem (diagnóstico antes dos 31 anos é critério de Chompret). A síndrome de Lynch, por variantes em MLH1, MSH2, MSH6, PMS2 ou deleção de EPCAM, eleva o risco de câncer colorretal (de cerca de 10-80% conforme o gene, maiores com MLH1 e MSH2) e de endométrio (15 a 60%), além de ovário, trato urotelial, estômago e intestino delgado; o tumor costuma apresentar instabilidade de microssatélites e perda da proteína na imuno-histoquímica. A polipose adenomatosa familiar, por variante em APC, produz mais de 100 adenomas colorretais e, sem colectomia, risco de câncer praticamente completo até os 35-40 anos, com forma atenuada entre 10 e 99 adenomas; a variante bialélica de MUTYH (MAP) é recessiva.
| Síndrome | Gene ou genes | Tumores principais e assinatura |
|---|---|---|
| HBOC (mama e ovário) | BRCA1, BRCA2 (e PALB2, ATM, CHEK2 em painéis) | Mama precoce e triplo negativo, ovário epitelial, mama masculina, próstata, pâncreas |
| Li-Fraumeni | TP53 | Sarcomas infantis, carcinoma adrenocortical, plexo coroide, tumor cerebral, mama antes dos 31 anos |
| Lynch | MLH1, MSH2, MSH6, PMS2, EPCAM | Colorretal e endométrio, ovário, urotelial; instabilidade de microssatélites no tumor |
| Polipose adenomatosa familiar | APC (dominante); MUTYH (recessiva, MAP) | Mais de 100 adenomas, câncer colorretal precoce, CHRPE, desmoide, tireoide |
| Cowden | PTEN | Mama, tireoide, endométrio; tricolemoma e macrocefalia |
| Peutz-Jeghers | STK11 | Pólipo hamartomatoso, pâncreas, mama, estômago; pigmentação labial melânica |
| Câncer gástrico difuso hereditário | CDH1 | Gastrite difusa lobular do estômago e mama lobular; gastrectomia profilática |
| Neoplasia endócrina múltipla tipo 2 | RET | Carcinoma medular de tireoide, feocromocitoma; tiroidectomia profilática precoce |
As diretrizes da NCCN listam indicações pessoais e familiares que autorizam encaminhamento ao serviço de oncogenética e, se indicado, teste germinativo. A regra pedagógica: qualquer tumor diretamente associado a gene de alta penetrância, em idade jovem ou com padrão familiar, encaminha. A lista a seguir reúne os gatilhos de maior rendimento usados em prova e em protocolos de serviço.
O teste germinativo analisa DNA de sangue ou saliva e difere do teste somático, feito no tumor (painel de mutações somáticas para decisões terapêuticas): resultado somático de BRCA alterado, por exemplo, não estabelece herança sem confirmação em sangue. A estratégia pode ser gene único (quando a variante familiar é conhecida) ou painel multigênico por sequenciamento de nova geração, que hoje é o padrão de custo-efetividade em serviço. O resultado é classificado pelo sistema internacional ACMG/AMP em cinco categorias: patogênica, provavelmente patogênica, variante de significado incerto (VUS), provavelmente benigna e benigna. A conduta correta com VUS é o ponto mais cobrado: o manejo clínico não se altera por VUS — não se indica mastectomia, salpingooforectomia nem quimioprevenção baseado em VUS, e a variante deve ser reclassificada conforme novos dados, com a maioria das VUS se tornando benignas com o tempo. Resultado negativo em família com variante conhecida é verdadeiramente tranquilizador (negativo verdadeiro); resultado negativo sem variante conhecida na família é não informativo, porque a agregação familiar pode dever-se a gene não testado ou variante não detectada. Finalmente, o teste preditivo em cascata oferece aos parentes saudáveis o teste dirigido apenas para a variante já identificada no caso-índice — e parentes de primeiro grau têm 50% de chance de ter herdado a variante dominante.
O manejo se organiza em três camadas: vigilância intensificada, cirurgia redutora de risco e terapêutica guiada pelo genótipo. Em portadoras de BRCA, a vigilância de mama combina ressonância magnética anual a partir dos 25 anos com mamografia anual a partir dos 30, em esquemas alternados a cada seis meses; a mastectomia redutora de risco reduz em pelo menos 90% o risco de mama e a salpingooforectomia redutora, recomendada entre 35 e 40 anos na BRCA1 e 40-45 na BRCA2 ao completar a prole desejada, reduz o risco ovariano e a mortalidade por todas as causas, além de permitir o rastreio de trompas e ovários no anatomopatológico. Na síndrome de Lynch, colonoscopia a cada um a dois anos começando entre 20 e 25 anos (ou 2 a 5 anos antes do caso mais precoce da família), com aspirina na quimioprevenção colorretal, e vigilância de endométrio. Na polipose por APC, a colectomia profilática é planejada ao final da adolescência ou início dos 20 anos conforme carga de adenomas, e AINEs como celecoxibe reduzem modestamente o número de adenomas. Em CDH1, discute-se gastrectomia total profilática na vida adulta jovem; em MEN2, a tiroidectomia profilática com paratireoides é indicada na infância conforme o risco da variante de RET. Na terapia sistêmica, variantes germinativas de BRCA conferem sensibilidade a inibidores de PARP: olaparibe tem indicação em câncer de mama metastático HER2-negativo com variante germinativa de BRCA e, na manutenção de câncer de ovário avançado com BRCA, retardando a progressão — a prova moderna conecta diretamente a genética à receita médica.
| Gene ou síndrome | Conduta com número e idade | Observação de prova |
|---|---|---|
| BRCA1 | Ressonância anual desde 25 anos; salpingooforectomia entre 35 e 40 anos | Mama triplo negativo é a assinatura tumoral típica |
| BRCA2 | Mesma vigilância de mama; salpingooforectomia entre 40 e 45 anos | Risco de próstata e pâncreas elevado |
| Lynch | Colonoscopia cada 1-2 anos dos 20-25 anos; aspirina; vigilância de endométrio | Tumor com perda de MSH6 na imuno-histoquímica direciona o gene |
| APC (FAP) | Colectomia profilática ao fim da adolescência; celecoxibe como adjuvante | CHRPE e desmoide acompanham o fenótipo |
| TP53 (Li-Fraumeni) | Protocolos de rastreio abrangentes desde a infância; evitar radioterapia quando possível | Prevalência de p.R337H no sul e sudeste do Brasil |
| CDH1 | Gastrectomia total profilática na vida adulta jovem | Câncer gástrico difuso e mama lobular |
O teste germinativo gera informações sobre quem não foi testado: filhos, irmãos e sobrinhos compartilham risco mensurável, e o aconselhamento trabalha explicitamente a comunicação intrafamiliar e o teste em cascata, respeitando o direito de não saber. No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709, de 2018) classifica dados genéticos como dados pessoais sensíveis, o que impõe consentimento específico e destinação controlada das informações. O teste de menores tem regra ética firme: só se testa em criança quando o resultado muda o manejo pediátrico, como RET na MEN2 (tiroidectomia precoce) e APC na polipose; para BRCA e Lynch, o teste é adiado até a maioridade. Ensaios clínicos e registro de variantes em bancos públicos completam o circuito: parte substancial das variantes raras brasileiras foi caracterizada em coortes locais, e o encaminhamento de famílias a pesquisa é parte legítima do manejo quando o teste comercial não esclarece o fenótipo.
1.Segundo a definição clássica da National Society of Genetic Counselors (Resta e colaboradores, 2006), aconselhamento genético é:
2.Qual proporção aproximada de todos os cânceres decorre de variantes germinativas de alta penetrância transmitidas na família?
3.Criança do sul do Brasil com carcinoma adrenocortical. Qual investigação genética essa apresentação praticamente impõe?
4.A síndrome de Lynch é causada por variantes germinativas em genes de qual via, detectáveis no tumor por qual método?
5.Os critérios de Amsterdam II para suspeita de síndrome de Lynch exigem:
6.Paciente realizou painel multigênico que encontrou variância de significado incerto (VUS) em BRCA2. Qual a conduta correta?
7.Em portadora de variante patogênica de BRCA1 que completou a prole desejada, em qual faixa etária se recomenda a salpingooforectomia redutora de risco?
8.Qual destes achados pessoais, isoladamente, é indicação aceita de encaminhamento para teste germinativo de BRCA?
9.O que é o teste genético em cascata (cascade testing) na prática de oncogenética?
10.Sobre o teste genético preditivo em crianças e adolescentes, a regra ética correta é:
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