carregando…
carregando…
Revisão completa dos dois domínios da farmacocinética mais cobrados em prova: absorção (mecanismos de transporte, rotas, efeito de primeira passagem) e metabolismo (fases I e II, citocromo P450, inibidores e indutores, farmacogenética, cinética de ordem zero e interações clássicas com mecanismo).
[1] Brunton LL, Knollmann BC. Goodman & Gilman's The Pharmacological Basis of Therapeutics. 14th ed. McGraw-Hill; 2023 | [2] Katzung BG. Basic & Clinical Pharmacology. 15th ed. McGraw-Hill; 2021 | [3] Rowland M, Tozer TN. Clinical Pharmacokinetics and Pharmacodynamics: Concepts and Applications. 4th ed. Lippincott Williams & Wilkins; 2011 | [4] Zanger UM, Schwab M. Cytochrome P450 enzymes in drug metabolism: regulation of gene expression, enzyme activities, and impact of genetic variation. Pharmacol Ther. 2013;138(1):103-41 · DOI 10.1016/j.pharmthera.2012.12.007 | [5] FDA. Drug Development and Drug Interactions: Table of Substrates, Inhibitors and Inducers. https://www.fda.gov/drugs/drug-interactions-labeling/drug-development-and-drug-interactions-table-substrates-inhibitors-and-inducers · DOI 10.1016/j.pharmthera.2012.12.007
Farmacocinética é o que o organismo faz com o fármaco, resumido no acrônimo LADME: liberação (desintegração e dissolução da forma farmacêutica), absorção (passagem para a circulação sistêmica), distribuição (saída do plasma para os tecidos), metabolismo (biotransformação, predominantemente hepática) e excreção (rim, bile, pulmão e secreções). Farmacodinâmica é o inverso: o que o fármaco faz com o organismo. Este artigo cobre em profundidade a absorção e o metabolismo, os dois domínios nos quais as provas concentram pegadinhas: efeito de primeira passagem, pró-fármacos, inibição e indução enzimática, farmacogenética e interações com mecanismo definido. Distribuição e excreção, com meia-vida, volume de distribuição e depuração, fecham o ciclo em material próprio.
A maioria dos fármacos atravessa as membranas por difusão passiva, proporcional ao gradiente de concentração, à superfície de troca e à lipossolubilidade, e inversamente proporcional à espessura da membrana (lei de Fick). Somente a fração não ionizada atravessa a bicamada lipídica: o pH desloca o equilíbrio de ionização de ácidos e bases fracos conforme Henderson-Hasselbalch. Ácidos fracos (aspirina, fenobarbital, varfarina) estão menos ionizados em meio ácido; bases fracas (diazepam, anfetaminas, lidocaína), menos ionizadas em meio alcalino. Apesar da vantagem química do estômago para os ácidos, a superfície enorme das vilosidades intestinais faz do intestino delgado o principal sítio de absorção para praticamente tudo.
A ionização também sustenta manobras terapêuticas de intoxicação: alcalinizar a urina com bicarbonato ioniza os ácidos fracos (salicilatos, fenobarbital), trava sua reabsorção tubular e acelera a excreção; acidificar a urina faz o simétrico com as bases fracas (anfetamina).
| Mecanismo | Gasta ATP | Saturável | Exemplos |
|---|---|---|---|
| Difusão passiva | Não | Não | Maioria dos fármacos lipossolúveis na fração não ionizada |
| Difusão facilitada por transportadores | Não | Sim | Glicose pelos GLUT, nucleosídeos |
| Transporte ativo | Sim (ATP ou gradiente iônico) | Sim | Absorção de aminoácidos e peptídeos no enterócito; efluxo por P-glicoproteína (digoxina) |
| Pinocitose | Sim | Sim | Moléculas muito grandes e partículas |
Biodisponibilidade (F) é a fração da dose administrada que chega íntegra à circulação sistêmica e disponível ao sítio de ação. Na via intravenosa F é 100% por definição. Para as outras vias, F é estimada pela comparação de exposições: F = (AUC da via oral / AUC da via intravenosa) x 100, com correção das doses. Genéricos precisam demonstrar bioequivalência com o produto de referência, ou seja, razão de AUC e Cmax dentro do intervalo de 80 a 125%.
| Rota | Biodisponibilidade típica | Ponto de prova |
|---|---|---|
| Intravenosa | 100% | Sem fase de absorção; efeitos adversos imediatos e irreversíveis no bolus |
| Oral | Muito variável (5 a quase 100%) | Mais usada; sofre pH gástrico, esvaziamento, quelação e primeira passagem |
| Sublingual | Alta e rápida | Escapa da primeira passagem: nitroglicerina 0,3-0,6 mg na crise de angina |
| Retal | Parcial (cerca de 50% escapa do fígado) | Útil em vômitos e pediatria; absorção irregular |
| Inalatória | Rápida, alta para pequenas moléculas | Anestésicos inalatórios e broncodilatadores chegam direto ao alvo |
| Transdérmica | Lenta e sustentada | Adesivos de fentanila, nicotina e escopolamina evitam picos e primeira passagem |
| Intramuscular | Alta, permite formulações depot | Penicilina benzatina e antipsicóticos depot liberam por semanas |
Entre a luz intestinal e a veia cava existem três filtros em série: as enzimas do enterócito (CYP3A4 intestinal e efluxo pela P-glicoproteína), o trajeto portal e o metabolismo hepático. Esse efeito de primeira passagem reduz drasticamente a biodisponibilidade oral de nitroglicerina (por isso a via sublingual na crise), propranolol, lidocaína (jamais administrada por via oral para efeito sistêmico), morfina (biodisponibilidade oral de 20 a 30%, motivo pelo qual a dose oral analgésica equivale a cerca de três vezes a parenteral) e levodopa (descarboxilada perifericamente; a associação com carbidopa bloqueia a dopa-descarboxilase periférica e aumenta a fração que atravessa a barreira hematoencefálica). Condições que abrem desvios ou reduzem o metabolismo pré-sistêmico aumentam a biodisponibilidade desses fármacos e causam toxicidade com doses habituais: cirrose com shunts portossistêmicos e insuficiência cardíaca congestiva com fluxo hepático reduzido.
Três parâmetros descrevem o resultado da absorção: Cmax é a concentração plasmática máxima (relacionada a eficácia e toxicidade imediatas), Tmax é o tempo para atingi-la (reflete velocidade de absorção) e AUC é a área sob a curva concentração-tempo (reflete a extensão total da exposição). Para antimicrobianos, índices farmacocinéticos derivados desses parâmetros orientam o esquema: relação AUC/MIC para fluoroquinolonas, tempo acima da MIC para betalactâmicos e pico/MIC para aminoglicosídeos.
O objetivo do metabolismo é tornar as moléculas mais polares e excretáveis. As reações de fase I (oxidação, redução e hidrólise) expõem ou introduzem grupos funcionais; as de fase II conjugam o fármaco ou seu metabólito com glucuronato, sulfato, acetato, metila ou glutationa. A maior parte das oxidações de fase I é catalisada pelo citocromo P450, um sistema de monoxigenases do retículo endoplasmático liso que usa NADPH, oxigênio molecular e a citocromo P450 redutase. Outras enzimas de fase I caem em prova: álcool e aldeído desidrogenases, xantina oxidase, monoaminoxidases e as pseudocolinesterases plasmáticas, que hidrolisam a succinilcolina. O fígado domina a biotransformação, mas intestino, pulmão, rim, plasma e sistema nervoso central participam.
| Característica | Fase I | Fase II |
|---|---|---|
| Reações | Oxidação, redução, hidrólise | Glicuronidação, sulfatação, acetilação, metilação, conjugação com glutationa |
| Enzimas principais | CYP450, álcool desidrogenase, MAO, esterases, xantina oxidase | UGT, SULT, NAT1 e NAT2, TPMT e COMT, GST |
| Efeito usual | Ativa pró-fármacos ou inativa parcialmente; pode gerar metabólitos tóxicos (NAPQI do paracetamol pelo CYP2E1) | Quase sempre inativa e aumenta a solubilidade em água |
| Exceção de prova | Codeína vira morfina pelo CYP2D6; clopidogrel é ativado pelo CYP2C19 | Os glicuronídios M6G da morfina são analgésicos ativos |
A nomenclatura usa CYP seguido de família (número), subfamília (letra) e isoforma (número); o asterisco indica variantes alélicas, como CYP2C19*2. O genoma humano tem 57 genes CYP funcionais, mas cerca de 12 enzimas realizam quase todo o trabalho: o CYP3A4 responde por aproximadamente 40 a 50% dos fármacos clinicamente usados, o CYP2D6 por 20 a 25% e o par 2C9/2C19 por 10 a 15%. Polimorfismos de 2D6, 2C9 e 2C19 têm tradução clínica direta e aparecem em questões de farmacogenética.
| Isoforma | Substratos clássicos | Inibidores marcantes | Indutores marcantes |
|---|---|---|---|
| CYP3A4 | Sinvastatina, ciclosporina, tacrolimo, amiodarona, inibidores de protease | Cetoconazol, itraconazol, claritromicina, eritromicina, ritonavir, suco de toranja | Rifampicina, carbamazepina, fenitoína, fenobarbital, erva-de-são-joão |
| CYP2D6 | Codeína, tramadol, tamoxifeno, metoprolol, nortriptilina, flecainida | Fluoxetina, paroxetina, quinidina, bupropiona | Não sofre indução clinicamente relevante |
| CYP2C9 | Varfarina, fenitoína, losartana, AINEs não seletivos | Fluconazol, amiodarona, cotrimoxazol | Rifampicina |
| CYP2C19 | Omeprazol, clopidogrel (pró-fármaco), voriconazol | Omeprazol, fluoxetina, ticlopidina | Rifampicina |
| CYP1A2 | Teofilina, clozapina, olanzapina, cafeína | Ciprofloxacino, fluvoxamina | Tabagismo (hidrocarbonetos), carnes grelhadas, brócolis |
| CYP2E1 | Paracetamol (gera NAPQI), etanol, anestésicos halogenados | Dissulfiram | Etanol crônico e estados cetóticos |
A inibição enzimática é imediata em termos farmacológicos: começa quando o inibidor acumula-se em concentração inibitória (horas a dias, o tempo de atingir o estado estacionário), eleva a concentração do substrato e produz toxicidade. Exemplos que decidem prova: varfarina com cotrimoxazol ou metronidazol (inibição do 2C9, INR disparado e hemorragia), sinvastatina com claritromicina ou itraconazol (inibição do 3A4, rabdomiólise) e teofilina com ciprofloxacino (inibição do 1A2, convulsões e arritmias). A indução, ao contrário, exige síntese de novas enzimas: instala-se em cerca de 1 a 2 semanas e leva o mesmo tempo para desaparecer quando o indutor é suspenso. A pegadinha clássica é o transplantado estável em tacrolimo que recebe rifampicina (as concentrações do imunossupressor desabam e a dose precisa multiplicar) e, semanas depois da retirada da rifampicina, sofre toxicidade grave porque a indução cedeu enquanto a dose continuava alta.
Os polimorfismos enzimáticos definem fenótipos: metabolizador lento (PM, duas cópias sem função), intermediário (IM), extensivo normal (EM) e ultrarrápido (UM, genes duplicados). A consequência depende de o fármaco ser inativado ou ativado pela enzima.
| Enzima ou variante | Fenótipo | Consequência clínica |
|---|---|---|
| CYP2D6 nulo | Metabolizador lento | Codeína e tramadol sem analgesia (não convertem o pró-fármaco); nortriptilina e metoprolol acumulam |
| CYP2D6 duplicado | Ultrarrápido | Conversão excessiva de codeína em morfina: risco de toxicidade opioide, inclusive em lactentes amamentados |
| CYP2C19 sem função (*2) | Metabolizador lento | Clopidogrel não ativado: trombose de stent, preferir prasugrel ou ticagrelor; voriconazol acumula |
| TPMT baixa atividade | Metilação deficiente | Mielossupressão grave com azatioprina e 6-mercaptopurina: reduzir a cerca de 10% da dose ou trocar |
| NAT2 lenta | Acetilador lento | Isoniazida com níveis mais altos: neuropatia periférica e lúpus induzido |
| Pseudocolinesterase deficiente | Hidrólise plasmática lenta | Apneia prolongada (horas) após succinilcolina: enzima plasmática, não hepática |
| UGT1A1 reduzida (Gilbert) | Glicuronidação reduzida | Toxicidade aumentada do irinotecano; icterícia de estresse benigna |
Na cinética de primeira ordem, uma fração constante do fármaco é eliminada por unidade de tempo: a concentração cai exponencialmente, a meia-vida é constante e independe da dose. É o comportamento da grande maioria dos fármacos em doses terapêuticas. Na cinética de ordem zero (saturação enzimática, descrita por Michaelis-Menten com Vmax e Km), uma quantidade fixa é eliminada por unidade de tempo: a meia-vida aumenta com a dose e pequenos incrementos de dose elevam desproporcionalmente a concentração plasmática. O trio clássico: etanol (cerca de 7 a 10 g por hora em adultos), fenitoína (cinética não linear dentro da própria faixa terapêutica, motivo de ajustes cautelosos de 25 a 50 mg) e salicilatos em doses altas de intoxicação. Também por saturação de primeira passagem, o etanol muda de farmacocinética em bebedores crônicos de forma distinta do que a intoxicação aguda sugere.
A depuração hepática pode ser resumida no modelo do tanque bem misturado (well-stirred): depuração hepática = (fluxo x captação intrínseca) / (fluxo + captação intrínseca), onde a captação combina a fração livre e a atividade enzimática intrínseca. Fármacos de alta razão de extração hepática (maior que 0,7), como propranolol, morfina, lidocaína e nitroglicerina, dependem do fluxo sanguíneo: insuficiência cardíaca congestiva, hipotensão e cirrose avançada derrubam sua depuração. Os de baixa extração (menor que 0,3), como varfarina, diazepam, fenitoína e teofilina, dependem da capacidade enzimática e da ligação proteica: sofrem com inibidores, indutores, hipoalbuminemia e perda de massa funcional no cirrótico. No hepatopata somam-se shunts portossistêmicos que aumentam a biodisponibilidade dos fármacos de primeira passagem: comece com doses menores e titule, com o escore de Child-Pugh orientando o ajuste.
| Perfil | Exemplos | Depende de | Cai em |
|---|---|---|---|
| Alta extração (fluxo-dependente) | Propranolol, morfina, lidocaína, nitroglicerina | Fluxo sanguíneo hepático | Insuficiência cardíaca, hipotensão, cirrose avançada |
| Baixa extração (capacidade-dependente) | Varfarina, diazepam, fenitoína, teofilina | Enzimas e ligação proteica | Inibidores, hipoalbuminemia, cirrose, idade extrema |
| Combinação | Mecanismo | Desfecho |
|---|---|---|
| Varfarina + cotrimoxazol ou metronidazol | Inibição do CYP2C9 | INR elevado e hemorragia |
| Sinvastatina + claritromicina ou itraconazol | Inibição do CYP3A4 | Rabdomiólise |
| Digoxina + amiodarona, verapamil ou quinidina | Inibição da P-glicoproteína | Toxicidade digitálica; reduzir a dose de digoxina à metade |
| Tacrolimo ou ciclosporina + rifampicina | Indução do CYP3A4 | Níveis indetectáveis e rejeição de transplante |
| Contraceptivo oral + rifampicina | Indução do CYP3A4 | Falha contraceptiva e gestação não planejada |
| Teofilina + ciprofloxacino | Inibição do CYP1A2 | Convulsões e arritmias |
| Paracetamol + etanol crônico | Indução do CYP2E1 com formação de NAPQI | Necrose hepática com doses menores |
| Azatioprina + alopurinol | Inibição da xantina oxidase, que inativa a 6-mercaptopurina | Mielossupressão grave; reduzir a azatioprina a 25-33% da dose |
1.Qual fármaco é inadequado por via oral para efeito sistêmico devido à metabolização de primeira passagem quase completa?
2.A via sublingual da nitroglicerina (0,3-0,6 mg) é preferida na crise anginosa porque:
3.A redução da absorção de tetraciclina ingerida com leite ou antiácidos ocorre por qual mecanismo?
4.A conjugação com ácido glucurônico, principal reação de fase II, é catalisada por qual sistema enzimático?
5.Paciente com fenótipo de metabolizador lento do CYP2D6 faz uso de codeína para dor. O que se espera?
6.Mulher em uso de contraceptivo oral combinado inicia rifampicina para tuberculose. O principal risco farmacocinético é:
7.Qual afirmação define corretamente a cinética de ordem zero?
8.Após intubação com succinilcolina, um paciente permanece apneico por horas. A causa é deficiência de qual enzima?
9.A interação entre digoxina e amiodarona, que obriga reduzir a dose do digitálico, ocorre por qual mecanismo?
10.Paciente com insuficiência cardíaca congestiva desenvolve toxicidade por lidocaína usada como antiarrítmico. Por quê?
acesso de membros
Matérias, materiais na íntegra, resumos, quiz e revisões ficam liberados na sua conta — a prévia desfocada é só um gostinho.
Entrar e continuar