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Revisão completa de como prescrever com segurança em doença renal crônica, lesão renal aguda e cirrose: fórmula de Cockcroft-Gault, categorias KDIGO de TFGe, regras de dose de ataque e manutenção, monitorização terapêutica, classificação de Child-Pugh e ajustes fármaco a fármaco com doses e limiares numéricos.
[1] KDIGO CKD Work Group. KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney Int. 2024;105(4S):S117-S314 · DOI 10.1016/j.kint.2023.10.018 | [2] Verbeeck RK, Musuamba FT. Pharmacokinetics and dosage adjustment in patients with renal dysfunction. Eur J Clin Pharmacol. 2009;65(8):757-773 · DOI 10.1007/s00228-009-0678-8 | [3] Verbeeck RK. Pharmacokinetics and dosage adjustment in patients with hepatic dysfunction. Eur J Clin Pharmacol. 2008;64(12):1147-1161 · DOI 10.1007/s00228-008-0553-z | [4] Lewis JH, Stine JG. Review article: prescribing medications in patients with cirrhosis - a practical guide. Aliment Pharmacol Ther. 2013;37(12):1132-1156 · DOI 10.1111/apt.12307 | [5] Biggins SW, Angeli P, Garcia-Tsao G, et al. Diagnosis, Evaluation, and Management of Ascites, Spontaneous Bacterial Peritonitis, and Hepatorenal Syndrome: 2021 Practice Guidance by the AASLD. Hepatology. 2021;74(2):1014-1048 · DOI 10.1002/hep.31801 | [6] Vilstrup H, Amodio P, Bajaj J, et al. Hepatic encephalopathy in chronic liver disease: 2014 Practice Guideline by AASLD and EASL. Hepatology. 2014;60(2):715-735 · DOI 10.1002/hep.27210 | [7] U.S. Food and Drug Administration. Guidance for Industry: Pharmacokinetics in Patients with Impaired Hepatic Function - Study Design, Data Analysis, and Impact on Dosing and Labeling. Rockville: FDA; 2003 · https://www.fda.gov/regulatory-information/search-fda-guidance-documents/pharmacokinetics-patients-impaired-hepatic-function-study-design-data-analysis-and-impact-dosing-and · DOI 10.1016/j.kint.2023.10.018
Prescrever para o paciente com órgão de eliminação comprometido é uma das competências mais cobradas em farmacologia clínica e a fonte mais frequente de erro evitável de medicação. A doença renal crônica afeta cerca de 10% da população adulta e a maioria dos pacientes cirróticos usa, ao mesmo tempo, cinco ou mais fármacos. A lógica é sempre a mesma: identificar a via de eliminação do fármaco, estimar a função do órgão com a ferramenta certa, decidir entre reduzir dose ou aumentar intervalo e monitorar com níveis séricos quando disponível. Este artigo percorre o raciocínio completo, com limiares numéricos, fórmulas e tabelas de ajuste prontas para a prova e para o plantão.
A consequência dominante é a queda do clearance renal dos fármacos e de seus metabólitos excretados na urina. O parâmetro decisivo é a fração excretada inalterada (fe): fármacos com fe maior que 0,3 a 0,5 acumulam-se clinicamente quando a taxa de filtração glomerular cai, enquanto fármacos com eliminação predominantemente hepática, como a warfarina e a maioria dos benzodiazepínicos biotransformados, pouco mudam de exposição. Além do clearance, a uremia altera a distribuição: redução da ligação proteica por deslocamento da albumina aumenta a fração livre de fármacos ácidos como fenitoína e warfarina, o edema intestinal e a gastroparesia diabética alteram a absorção, e a albuminúria da síndrome nefrótica pode aumentar a perda urinária de fármacos ligados a proteínas. Por fim, o paciente urêmico tem sensibilidade aumentada a depressores do sistema nervoso central e maior risco de hiperpotassemia com drogas que atuam no eixo renina-angiotensina-aldosterona.
Na doença renal crônica há ainda hipertrofia das vias de biotransformação extrarrenal: a glicuronidação e algumas enzimas intestinais podem estar aumentadas, enquanto o clearance não renal de fármacos como a cimetidina e alguns betabloqueadores cai progressivamente à medida que a TFGe se reduz, mesmo com via hepática majoritária. Moral de prova: doença renal muda não só a excreção, mas absorção, distribuição e metabolismo.
A maioria das bulas foi escrita usando o clearance de creatinina estimado pela fórmula de Cockcroft-Gault: CrCl (mL/min) igual a (140 menos idade) multiplicado pelo peso em kg, dividido por 72 vezes a creatinina sérica em mg/dL, multiplicando-se o resultado por 0,85 em mulheres. Na obesidade usa-se o peso ajustado; no idoso sarcopênico a creatinina pode ser baixa por falta de massa muscular, mascarando insuficiência renal grave. A TFGe reportada pelos laboratórios vem das equações MDRD ou CKD-EPI, corrigidas para superfície corporal de 1,73 m2 e, desde 2021, sem a variável raça; a CKD-EPI é a equação recomendada pelo KDIGO 2024 para estadiamento, mas como as bulas referem Cockcroft-Gault, ambos devem ser comparados nas decisões de dose, escolhendo a estimativa mais conservadora.
| Categoria KDIGO | TFGe (mL/min/1,73 m2) | Conduta prática de prescrição |
|---|---|---|
| G1 | 90 ou mais | Doses plenas; atenção a fatores de risco e albuminúria |
| G2 | 60 a 89 | Doses plenas; evitar nefrotoxinas desnecessárias |
| G3a | 45 a 59 | Revisar fármacos com fe alta; ajustes pontuais (ex.: dabigatrana em idosos) |
| G3b | 30 a 44 | Ajuste sistemático; metformina no máximo 1 g/dia e não iniciar; revisar DOACs |
| G4 | 15 a 29 | Ajuste obrigatório; evitar nitrofurantoína, aminoglicosídeos programados e contraste quando possível |
| G5 | Menos de 15 | Dialético e não dialético diferem; doses pós-diálise quando o fármaco é dialisável |
Situação especial é a lesão renal aguda: a creatinina sérica muda horas ou dias atrás do clearance real, de modo que a equação de Cockcroft-Gault subestima a disfunção durante a piora. Em vigência de lesão renal aguda, assume-se TFGe menor que a calculada, ajusta-se para o pior cenário e reavalia-se diariamente; fármacos de janela estreita exigem monitorização de níveis, e a diálise intermitente exige programar a dose suplementar após a sessão para os fármacos dialisáveis.
| Fármaco | Dose padrão | Ajuste renal |
|---|---|---|
| Metformina | 500 a 2550 mg/dia, via oral | TFGe 30 a 44: não iniciar, dose máxima 1 g/dia; TFGe abaixo de 30: contraindicada |
| Apixabana (FA) | 5 mg de 12 em 12 h | 2,5 mg de 12 em 12 h se 2 de 3: idade 80 anos ou mais, peso 60 kg ou menos, creatinina 1,5 mg/dL ou mais |
| Rivaroxabana (FA) | 20 mg/dia | 15 mg/dia se clearance 15 a 50 mL/min; evitar em diálise |
| Dabigatrana (FA) | 150 mg de 12 em 12 h | 75 mg de 12 em 12 h se clearance 30 a 50 mL/min; contraindicada abaixo de 30 mL/min |
| Enoxaparina (tratamento) | 1 mg/kg de 12 em 12 h | Clearance abaixo de 30 mL/min: 1 mg/kg de 24 em 24 h |
| Vancomicina | 15 a 20 mg/kg de 8 em 8 ou 12 em 12 h | Guiar por AUC24/MIC 400 a 600 com níveis; sem regra fixa de intervalo |
| Nitrofurantoína | 100 mg de 12 em 12 h | Evitar com TFGe abaixo de 30 mL/min: risco de neuropatia e falha terapêutica |
| Gabapentina e pregabalina | Gabapentina até 3600 mg/dia | Titulação lenta e intervalos maiores; a gabapentina praticamente só é eliminada por via renal |
| Alopurinol | Iniciar 100 mg/dia | Iniciar baixo e titrar; não exceder cerca de 200 mg/dia com TFGe abaixo de 30 mL/min |
| Alendronato | 70 mg/semana | Contraindicado com TFGe abaixo de 30 a 35 mL/min |
| Digoxina | 0,125 a 0,25 mg/dia | Preferir 0,125 mg/dia no idoso e na DRC; monitorar nível (alvo 0,5 a 0,9 ng/mL) |
| Morfina | 2,5 a 10 mg por dose | Evitar na DRC avançada (acúmulo de morfina-6-glicuronídeo); preferir fentanil ou buprenorfina |
Fármacos dialisáveis como a vancomicina (removida parcialmente por hemodiálise), a gabapentina, a metformina e vários antibióticos betalactâmicos devem ser administrados após a sessão de hemodiálise, quando a decisão terapêutica permitir, para evitar perda de dose. Antes de contraste iodado em risco moderado a alto, hidratação com solução salina isotônica, mínima dose necessária de contraste e suspensão temporária de metformina por 48 horas com reavaliação da função renal são as medidas padrão; a diálise profilática não é indicada. O SGLT2i representa a grande inversão paradigmática do KDIGO 2024: indicado para proteção cardiorrenal mesmo com TFGe entre 20 e 45 mL/min, ainda que o efeito glicemiático caia, e suspenso em doença aguda com risco de depleção de volume.
A insuficiência hepática altera simultaneamente as quatro fases. Na biotransformação, a atividade do citocromo P450 (fase I, oxidação) cai de forma importante, enquanto a glicuronidação (fase II) é relativamente preservada até fases avançadas: por isso os benzodiazepínicos conjugados lorazepam, oxazepam e temazepam são preferidos quando o uso é inevitável. Na distribuição, a hipoalbuminemia aumenta a fração livre de fenitoína e warfarina; a fenitoína corrigida pela equação de Sheiner-Tozer divide a concentração medida por (0,2 multiplicado pela albumina em g/dL mais 0,1). Na absorção e first pass, o shunt portossistêmico e a redução de massa hepática aumentam a biodisponibilidade de fármacos com extração hepática alta, como opioides orais e propranolol, exigindo começar com doses de 50% e titulação lenta. Somam-se ascite aumentando o volume de distribuição, colestase prejudicando a excreção biliar, e a frequentemente associada síndrome hepatorenal, que soma ao cenário hepático o comprometimento renal funcional.
| Parâmetro | 1 ponto | 2 pontos | 3 pontos |
|---|---|---|---|
| Bilirrubina total (mg/dL) | Menor que 2 | 2 a 3 | Maior que 3 |
| Albumina sérica (g/dL) | Maior que 3,5 | 2,8 a 3,5 | Menor que 2,8 |
| RNI ou tempo de protrombina | RNI menor que 1,7 | RNI 1,7 a 2,3 | RNI maior que 2,3 |
| Ascite | Ausente | Leve a moderada | Refratária ou tensa |
| Encefalopatia hepática | Ausente | Graus I a II | Graus III a IV |
A soma dos pontos classifica Child-Pugh A (5 a 6), B (7 a 9) e C (10 a 15). É a régua usada pelos rótulos da FDA em seus estudos de disfunção hepática e pela maioria das bulas: disfunção leve corresponde a Child A, moderada a Child B e grave a Child C, categoria em que muitos fármacos ficam formalmente contraindicados. A ressalva moderna é que o Child-Pugh foi criado para prever mortalidade cirúrgica, não farmacocinética, e em transplante e hipertensão portosa usa-se o escore MELD; para prescrição do dia a dia, porém, Child-Pugh continua sendo o padrão cobrado em prova.
| Classe ou fármaco | Conduta na cirrose | Motivo |
|---|---|---|
| Paracetamol | Manter, teto de 2 g/dia | Analgesia de escolha; hepatotoxicidade depende de dose e de glutata |
| AINEs | Evitar | Lesão renal mediada por prostaglandinas, risco de síndrome hepatorenal e sangramento por plaquetopenia |
| Opioides | Reduzir dose inicial em cerca de 50%, preferir curta ação | Clearance hepático reduzido e shunt portossistêmico aumentam exposição e risco de encefalopatia |
| Benzodiazepínicos | Evitar; se imprescindível, lorazepam ou oxazepam em dose reduzida | Glicuronidação preservada, mas risco de precipitar encefalopatia |
| Espironolactona e furosemida | Iniciar 100 mg e 40 mg/dia, subir em 100:40 até máximos de 400 e 160 mg/dia | Protocolo da ascite da AASLD; monitorar sódio, potássio e função renal |
| Norfloxacino ou ciprofloxacino | 400 mg/dia ou 500 mg/dia na profilaxia de peritonite bacteriana espontânea secundária | Profilaxia após primeiro episódio ou em proteína ascítica baixa com disfunção renal |
| Estatinas | Podem ser mantidas em Child A e B | Seguras na cirrose compensada, com possível benefício hemodinâmico portal |
| Metotrexato, valproato, amiodarona, isoniazida | Evitar na doença hepática ativa ou descompensada | Risco de hepatotoxicidade aditiva |
Na encefalopatia hepática, os esquemas de referência são lactulose 25 mL por sonda ou via oral a cada 1 a 2 horas até evacuação, ajustando-se depois para 2 a 3 evacuações diárias, e rifaximina 550 mg de 12 em 12 horas como adjuvante para reduzir recorrências. A proteína dietética não deve ser restringida: recomenda-se 1,2 a 1,5 g/kg/dia, com preferência por vegetais e laticínios, porque a restrição proteica piora sarcopenia e não previne crises. Na anticoagulação, a heparina de baixo peso molecular é preferida por previsibilidade; os anticoagulantes orais diretos podem ser usados em Child A com cautela e são evitados em Child C, e a warfarina é de manuseio difícil porque o RNI basal já está alterado pela deficiência de fatores.
1.Sobre a dose de ataque de antibiótico em paciente com doença renal crônica (TFGe 25 mL/min/1,73 m2), a conduta correta é:
2.A fórmula (140 menos idade) x peso / (72 x creatinina), multiplicada por 0,85 em mulheres, corresponde a:
3.Paciente com FA, 82 anos, 58 kg e creatinina de 1,6 mg/dL inicia apixabana. A dose correta é:
4.Com clearance de creatinina de 25 mL/min, o esquema de enoxaparina em dose plena para trombose venosa profunda deve ser ajustado para:
5.O alvo terapêutico atual da vancomicina é:
6.Na doença renal avançada, o opioide com perfil mais seguro quanto a acúmulo de metabólitos ativos é:
7.Paciente cirrótico com albumina de 2,0 g/dL usa fenitoína com nível total de 8 mcg/mL (referência 10 a 20). A interpretação correta é que:
8.Na prescrição para cirrótico com ascite, o esquema diurético de início e os máximos diários clássicos são:
9.Sobre anticoagulação na cirrose, a afirmativa correta é:
10.No manejo da encefalopatia hepática, as condutas corretas incluem:
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