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Revisão completa da farmacologia dos antitrombóticos (varfarina, heparinas, DOACs, AAS e P2Y12) e das regras de manejo perioperatório da diretriz CHEST 2022 e do consenso ACC 2017: tempos de suspensão, bridging, reversão com antidotos e reintrodução.
[1] Douketis JD, Spyropoulos AC, Duncan J, et al. Perioperative Management of Antithrombotic Therapy: An ACCP Clinical Practice Guideline. Chest. 2022;162(5):e207-e243 · DOI 10.1016/j.chest.2022.07.025 | [2] Doherty JU, Gluckman TJ, Hucker WJ, et al. 2017 ACC Expert Consensus Decision Pathway for Periprocedural Management of Anticoagulation in Patients With Nonvalvular Atrial Fibrillation. J Am Coll Cardiol. 2017;69(7):871-898 · DOI 10.1016/j.jacc.2016.11.023 | [3] Douketis JD, Spyropoulos AC, Kaatz S, et al. Perioperative Bridging Anticoagulation in Patients with Atrial Fibrillation (BRIDGE). N Engl J Med. 2015;373(9):823-833 · DOI 10.1056/NEJMoa1501035 | [4] Healey JS, Eikelboom J, Douketis J, et al. Pacemaker or Defibrillator Surgery without Interruption of Anticoagulation (BRUISE CONTROL). N Engl J Med. 2013;368(22):2084-2093 · DOI 10.1056/NEJMoa1302946 | [5] Devereaux PJ, Mrkobrada M, Sessler DI, et al. Aspirin in patients undergoing noncardiac surgery (POISE-2). N Engl J Med. 2014;370(16):1494-1503 · DOI 10.1056/NEJMoa1401105 | [6] Brasil. Ministério da Saúde / Conitec. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Tromboembólica Venosa. Brasília: MS · www.gov.br/conitec | [7] Katzung BG, Vanderah TW (eds). Basic and Clinical Pharmacology. 16ª ed. McGraw-Hill; 2023 · DOI 10.1016/j.chest.2022.07.025
Uma parcela crescente dos pacientes que chegam às salas de cirurgia usa antitrombóticos de forma contínua: anticoagulantes para fibrilação atrial (FA), próteses valvares mecânicas e doença tromboembólica venosa (TEV), e antiagregantes após intervenção coronária percutânea (ICP) ou acidente vascular cerebral isquêmico. Estimativas de coortes norte-americanas indicam que cerca de 10% desses pacientes são submetidos a algum procedimento invasivo por ano, o que obriga o médico a equacionar dois riscos em direções opostas: o tromboembolismo da suspensão e a hemorragia da manutenção. A decisão não pode ser intuitiva: suspender a varfarina por tempo insuficiente gera sangramento; prolongar demais a pausa ou omitir a reintrodução gera AVC, embolia pulmonar e morte. Esta revisão reúne a farmacologia essencial de cada classe (mecanismos, meias-vidas, depuração renal, antidotos) e as regras práticas de manejo perioperatório consolidadas pela diretriz ACCP/CHEST 2022 e pelo consenso ACC 2017, com as tabelas de tempo que as provas de farmacologia e de clínica cirúrgica cobram com frequência.
A varfarina é um anticoagulante oral que inibe a epóxido-redutase da vitamina K (VKORC1), bloqueando a reciclagem da vitamina K e, portanto, a gamacarboxilação dos fatores II, VII, IX e X e das proteínas C e S. É um racemato: o enantiômero S (mais potente) é metabolizado pelo CYP2C9 e o R pelo CYP1A2 e CYP3A4, o que explica o enorme número de interações (amiodarona, macrolídeos, metronidazol, fluconazol, AINH e mudanças dietéticas de vitamina K). A meia-vida é de 36 a 42 horas, com início de ação antitrombótico pleno em 5 a 7 dias: o efeito anticoagulante demora porque os fatores já carboxilados precisam ser consumidos (a proteína C, de meia-vida curta de 6-8 horas, cai primeiro, o que explica a hipercoagulabilidade transitória inicial e a necrose cutânea da warfarinização sem cobertura parenteral em deficiência de proteína C). A monitorização é feita pelo INR, com alvo usual de 2 a 3 (2,5 a 3,5 em próteses mecânicas de alto risco). Atravessa a placenta e é teratogênica, sendo contraindicada na gestação. No perioperatório, suspende-se 5 dias antes e reinicia-se 12 a 24 horas após o procedimento, quando a hemostasia estiver assegurada.
A heparina não fracionada (HNF) é um heteroglicano que age ligando a antitrombina, acelerando em mais de mil vezes a inibição da trombina (IIa) e do fator Xa em proporção 1:1. Tem meia-vida curta e dose-dependente (60 a 90 minutos em dose terapêutica), biodisponibilidade imprevisível e monitorização pelo TTPa (razão 1,5 a 2,5) ou pela atividade anti-Xa; por isso é a escolha em insuficiência renal grave, em pacientes com alto risco hemorrágico e quando se prevê reversão rápida. O antidoto é a protamina (1 mg para cada 100 UI de HNF infundida na última hora, máximo 50 mg). A heparina de baixo peso molecular (HBPM), representada pela enoxaparina, tem fragmentos menores que inibem preferencialmente o fator Xa (relação anti-Xa:anti-IIa de 3-4:1), meia-vida de 3 a 6 horas com depuração predominantemente renal, biodisponibilidade previsível que dispensa monitorização, e menor risco de trombocitopenia induzida por heparina (HIT, 0,2% a 0,6%, contra cerca de 1% a 5% da HNF). A protamina reverte apenas cerca de 60% a 75% do efeito da enoxaparina. O fondaparinux, pentassacarídeo sintético inibidor indireto seletivo do Xa, tem meia-vida de 17 horas, é quase totalmente renal e é a opção em história de HIT.
| Fármaco | Alvo | Meia-vida | Monitorização | Antídoto |
|---|---|---|---|---|
| Varfarina | VKORC1 (fatores II, VII, IX, X) | 36-42 h | INR (alvo 2-3) | Vitamina K IV + concentrado de complexo protrombínico (PCC4) |
| Heparina não fracionada | Antitrombina: IIa e Xa (1:1) | 60-90 min | TTPa ou anti-Xa | Protamina 1 mg por 100 UI |
| Enoxaparina | Antitrombina: Xa maior que IIa | 3-6 h (renal) | Anti-Xa em gestantes, obesos e insuficiência renal | Protamina (reversão parcial de 60-75%) |
| Fondaparinux | Antitrombina: Xa seletivo | 17 h (renal) | Não rotineira | Não há antidoto específico |
Os DOACs dividem-se em inibidor direto da trombina (dabigatrana, um pró-fármaco de dupla prodroga) e inibidores diretos do fator Xa (rivaroxabana, apixabana e edoxabana). Têm início de ação em 1 a 4 horas (pico), meia-vida de 8 a 17 horas e farmacocinética previsível, o que elimina a monitorização de rotina e, no perioperatório, elimina a necessidade de bridging: a pausa de 1 a 2 dias já produz hipocoagulabilidade mínima, ao contrário da varfarina. O dado farmacocinético mais cobrado em prova é a depuração renal: a dabigatrana elimina cerca de 80% da dose inalterada por via renal (80% do fármaco circulante), seguida da edoxabana (cerca de 50%), rivaroxabana (cerca de 33%) e apixabana (cerca de 27%). Por isso, quanto pior a função renal, mais tempo deve durar a suspensão pré-operatória, especialmente para a dabigatrana. Nenhum DOAC tem antidoto específico além da idarucizumabe (5 g IV, para a dabigatrana) e do andexanete alfa (decoy do fator Xa, para rivaroxabana e apixabana); a hemodiálise remove cerca de 50% a 60% da dabigatrana por sua baixa ligação proteica, mas não remove os inibidores do Xa.
| Droga | Alvo | Dose usual na FA não valvar | Dose usual na TEV | Depuração renal |
|---|---|---|---|---|
| Dabigatrana | Trombina (IIa) | 150 mg 12/12 h (110 mg 12/12 h se maior de 80 anos) | 150 mg 12/12 h após 5-10 dias de anticoagulante parenteral | cerca de 80% |
| Rivaroxabana | Fator Xa | 20 mg 1x/dia com refeição (15 mg se Cle 15-49) | 15 mg 12/12 h por 21 dias, depois 20 mg 1x/dia | cerca de 33% |
| Apixabana | Fator Xa | 5 mg 12/12 h (2,5 mg 12/12 h se 2 de: idade maior ou igual 80 anos, peso menor ou igual 60 kg, creatinina maior ou igual 1,5) | 10 mg 12/12 h por 7 dias, depois 5 mg 12/12 h | cerca de 27% |
| Edoxabana | Fator Xa | 60 mg 1x/dia (30 mg se Cle 15-50, peso menor ou igual 60 kg ou uso de verapamil/dronedarona) | 60 mg 1x/dia após 5-10 dias de parenteral | cerca de 50% |
O ácido acetilsalicílico (AAS) acetila irreversivamente a COX-1 da plaqueta, impedindo a síntese de tromboxano A2; como a plaqueta não tem núcleo, o efeito dura a vida do elemento, 7 a 10 dias. Dose antiagregante: 81 a 100 mg ao dia. O clopidogrel (75 mg/dia, dose de ataque 300 a 600 mg) é um pró-fármaco convertido por CYP2C19 em metabólito ativo que antagoniza irreversivelmente o receptor P2Y12 do ADP; perdedores de função do CYP2C19 têm menor resposta, e o omeprazol compete pela mesma enzima. O prasugrel (10 mg/dia, 5 mg acima de 75 anos) também é irreversível, mais potente, e contraindicado em história de AVC/AIT. O ticagrelor (90 mg 12/12 h) é antagonista reversível do P2Y12 com meia-vida de 7 a 9 horas, mas o efeito plaquetário persiste 3 a 5 dias; causa dispneia e bradicardia por modulação de adenosina. Após stent farmacológico, a dupla antiagregação (DAPT) mínima é de 6 meses na doença coronária estável e de 12 meses na síndrome coronariana aguda. O cangrelor é o único anti-P2Y12 intravenoso, com recuperação plaquetária em 1 hora após o fim da infusão, e os inibidores de GP IIb/IIIa (abciximabe, eptifibatida, tirofiban) têm efeito de horas.
| Fármaco | Mecanismo | Duração do efeito plaquetário | Suspensão pré-operatória |
|---|---|---|---|
| AAS 81-100 mg | Acetilação irreversível da COX-1 | 7-10 dias | 7 dias quando há indicação de suspender; na maioria das cirurgias eletivas mantém-se |
| Clopidogrel 75 mg | Antagonista irreversível do P2Y12 (pró-fármaco CYP2C19) | 5-7 dias | 5 dias |
| Ticagrelor 90 mg 12/12 h | Antagonista reversível do P2Y12 | 3-5 dias | 3 dias |
| Prasugrel 10 mg | Antagonista irreversível do P2Y12 | 7 dias | 7 dias |
| Cangrelor intravenoso | Antagonista reversível do P2Y12 | aproximadamente 1 h | Não suspender: infusão perioperatória de ponte em centros especializados |
A decisão perioperatória começa por duas perguntas paralelas: qual o risco trombótico do paciente se o antitrombótico for suspenso e qual o risco hemorrágico do procedimento se ele for mantido. O risco trombótico usa a doença de base: na FA, o escore CHA2DS2-VASc (insuficiência cardíaca, hipertensão, idade maior ou igual 75 anos igual a 2 pontos, diabetes, AVC igual a 2 pontos, doença vascular, idade 65-74 anos, sexo feminino) e, sobretudo, a recência do evento embólico; na TEV, o tempo desde o último evento e a presença de trombofilia grave ou trombo residual móvel; nas próteses valvares mecânicas, a posição (mitral maior que aórtica) e o modelo. O risco hemorrágico do procedimento classifica-se em alto (cirurgia cardíaca, neurocirurgia, cirurgia major oncológica ou colorretal, cirurgia hepática, prostatectomia, qualquer anestesia neuraxial, com taxa de sangramento maior em torno de 2% a 4%) e baixo (odontologia extrações, cirurgia de pele, catarata, endoscopia diagnóstica), em que sangramento significativo ocorre em menos de 0,5%. Somam-se fatores do paciente: idade avançada, Cle menor que 30 mL/min, plaquetopenia menor que 50.000, anemia, uso concomitante de AINH ou SSRIs, escore HAS-BLED alto e sangramento prévio.
| Risco | Fibrilação atrial | TVP/embolia pulmonar | Prótese valvar mecânica | Conduta |
|---|---|---|---|---|
| Alto | AVC, AIT ou embolia sistêmica há menos de 3 meses; escore 7-9 | Evento há menos de 3 meses; trombofilia grave (deficiência de antitrombina, síndrome antifosfolípide); trombo residual móvel | Qualquer prótese mitral; prótese aórtica de primeira geração (baleta); AVC prévio | Suspender varfarina com bridging parenteral |
| Moderado | Escore 4-6 sem evento recente | Evento há 3-12 meses; trombofilia não grave | Prótese aórtica bidiscal sem outros fatores | Individualizar; na FA isolada não há indicação de bridging |
| Baixo | Escore menor que 4 e último evento há mais de 12 meses | Evento há mais de 12 meses | Prótese aórtica bidiscal isolada | Suspender sem bridging |
O fundamento antimbridging vem do ensaio BRIDGE: em 1.884 pacientes com FA suspenderam-se warfarin e randomizou-se bridging com enoxaparina contra placebo ao redor do procedimento. O desfecho trombótico foi raro e semelhante (0,4% sem bridging vs 0,3% com bridging, não inferioridade atingida), enquanto o sangramento maior dobrou (1,3% vs 3,2%). Conclusão prática: na FA não valvar, mesmo com CHA2DS2-VASc alto, o bridging de rotina abandona-se. Exceções que continuam a exigir bridging são as próteses mecânicas mitrais, a TEV com menos de 3 meses e as síndromes antifosfolípide com eventos recentes, situações não representadas adequadamente no ensaio e mantidas como risco alto pela CHEST 2022.
Para o AAS, a mensagem central é dupla e vem de POISE-2 e da CHEST 2022. Primeiro, não iniciar: em 10.010 pacientes sem indicação prévia de AAS submetidos a cirurgia não cardíaca, o AAS não reduziu morte ou infarto (7,0% vs 7,1%) e aumentou sangramento maior (4,6% vs 3,8%); a iniciação primária de AAS no perioperatório abandonou-se. Segundo, na maioria das vezes não suspender: pacientes em uso crônico por indicação secundária (ICP prévia, AVC) devem manter o AAS em cirurgias eletivas não cardíacas de rotina, suspensa apenas a cirurgia de espaço fechado (neurocirurgia, oftalmológica intracular) ou quando o sangramento tenha consequência catastrófica. Já os anti-P2Y12 sempre se suspendem em cirurgia eletiva: clopidogrel 5 dias antes, ticagrelor 3 dias, prasugrel 7 dias, mantendo o AAS na dupla terapia. Cirurgia eletiva em paciente com stent farmacológico com menos de 6 meses (ou 12 meses pós-síndrome coronariana aguda) deve ser postergada; se inevitável, mantém-se o AAS e considera-se ponte intravenosa com cangrelor ou tirofiban em centros especializados. Em cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea, o AAS mantém-se até o dia do procedimento.
O pós-operatório imediato é a janela de maior risco trombótico: hipercoagulabilidade cirúrgica, imobilização e endotélio lesado configuram a tríade de Virchow plena, com pico de eventos embólicos entre o 3º e o 5º dias. A reintrodução segue o risco hemorrágico do procedimento: DOACs em dose plena 24 h após cirurgias de baixo risco e 48 a 72 h após as de alto risco (dose profilática pode antecipar-se a 24 h em Tromboprofilaxia); varfarina em 12 a 24 h, lembrando seus 5 a 7 dias até o efeito pleno, período em que pacientes de risco alto podem necessitar de cobertura parenteral; AAS em 24 h; anti-P2Y12 em 24 a 72 h. As complicações do manejo incorreto são as duas faces do problema: sangramento maior (reoperação, transfusão, hematoma de espaço fechado com compressão neural) e trombose (AVC isquêmico, embolia pulmonar, trombose de stent coronário, que tem mortalidade em torno de 20% a 45%). Procedimentos de baixo risco com anticoagulação mantida, bridging restrito aos casos de risco alto e reintrodução precoce e vigilante são os três pilares que reduzem ambos os desfechos.
1.Paciente com fibrilação atrial não valvar (CHA2DS2-VASc 5, sem evento embólico prévio) em uso de varfarina será submetido a herniorrafia eletiva. Qual a conduta perioperatória correta?
2.Qual o intervalo mínimo de suspensão do clopidogrel antes de cirurgia eletiva de risco hemorrágico alto?
3.Qual é o antidoto específico e sua dose para reversão de emergência da dabigatrana?
4.Paciente com prótese valvar mecânica mitral precisa de colecistectomia eletiva. Após suspender a varfarina, qual a conduta?
5.Sobre o AAS em pacientes submetidos a cirurgia não cardíaca, o ensaio POISE-2 demonstrou que:
6.Qual DOAC exige maior intervalo de suspensão pré-operatória em paciente com clearence de creatinina de 25 mL/min antes de cirurgia de alto risco hemorrágico?
7.Paciente em varfarina (INR terapêutico) apresenta hematoma intracraniano. Qual a reversão correta?
8.Paciente com marca-passo para implante de novo dispositivo está com INR 2,5 em uso de varfarina por FA. Conduta:
9.Quando reiniciar o DOAC após colectomia eletiva (alto risco hemorrágico) sem complicações?
10.Sobre a protamina como antidoto, assinale a correta:
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