carregando…
carregando…
Revisão dos dois extremos do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal: hipercortisolismo endógeno e iatrogênico com o algoritmo da Endocrine Society (cortisol salivar, urinário e teste de supressão com dexametasona, ACTH e cateterismo dos seios petrosos) e insuficiência adrenal primária e secundária, incluindo reposição com doses e manejo da crise adrenal.
[1] Nieman LK, Biller BMK, Findling JW, et al. The Diagnosis of Cushing's Syndrome: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2008;93(5):1526-1540 · DOI 10.1210/jc.2007-2882 | [2] Bornstein SR, Allolio B, Arlt W, et al. Diagnosis and Treatment of Primary Adrenal Insufficiency: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2016;101(2):364-389 · DOI 10.1210/jc.2015-1710 | [3] Lacroix A, Feelders RA, Stratakis CA, Nieman LK. Cushing's syndrome. Lancet. 2015;386(9996):913-927 · DOI 10.1016/S0140-6736(14)61375-1 | [4] Charmandari E, Nicolaides NC, Chrousos GP. Adrenal insufficiency. Lancet. 2014;383(9935):2152-2167 · DOI 10.1016/S0140-6736(13)61684-0 · DOI 10.1210/jc.2007-2882
O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal mantém o cortisol, hormônio vital para a resposta ao estresse, ao metabolismo e à tolerância hemodinâmica. Suas duas grandes doenças primárias são simétricas e opostas: na síndrome de Cushing há excesso de glicocorticoide, com obesidade central, hipertensão, diabetes, miopatia e osteoporose; na doença de Addison há deficiência, com fadiga, hiperpigmentação, hipotensão, perda de peso e risco de colapso circulatório. Um dado que organiza toda a discussão: a causa mais frequente de síndrome de Cushing é iatrogênica (glicocorticoide exógeno), e a causa mais frequente de insuficiência adrenal também é iatrogênica (supressão do eixo por corticoide terapêutico). Para a prova, o estudante precisa dominar o algoritmo de duas etapas do hipercortisolismo (rastrear o excesso, depois localizar a fonte), os cortes de ACTH que separam doença dependente de independente, as doses de reposição do Addison e o tratamento da crise adrenal, que é emergência médica com mortalidade alta quando tardia.
O hipotálamo libera corticotrofina releasing hormone (CRH) e vasopressina, que estimulam a hipófise a produzir ACTH a partir do proopiomelanocortina (POMC); o ACTH ativa a esteroidogênese adrenal (via receptor MC2R e cascata do AMPc), com conversão do colesterol em cortisol. O cortisol circula ligado à transcortina (CBG) e à albumina, com apenas a fração livre ativa, e exerce feedback negativo hipotalâmico e hipofisário. Duas propriedades sustentam os testes funcionais: o ritmo circadiano, com pico entre 6 e 8 horas da manhã e nadir por volta da meia-noite (por isso o cortisol salivar noturno rastreia o excesso), e a supressibilidade pelo feedback (por isso a dexametasona, potente glicocorticoide que não interfere na dosagem de cortisol, suprime o eixo normal). A aldosterona, por sua vez, é regulada principalmente pelo sistema renina-angiotensina e pelo potássio, dependendo do ACTH apenas de forma menor: isso explica por que a deficiência de aldosterona é exclusiva da insuficiência primária, em que a glândula inteira é destruída.
Síndrome de Cushing é o conjunto de sinais e sintomas decorrentes da exposição crônica a excesso de cortisol, seja endógeno, seja exógeno. O termo doença de Cushing reserva-se ao adenoma corticotrófico hipofisário secretere de ACTH, a causa mais frequente da forma endógena. A classificação funcional separa os casos em ACTH-dependentes e ACTH-independentes, distinção que comanda toda a investigação subsequente.
| Categoria | Causa | Frequência aproximada | Marcador |
|---|---|---|---|
| Iatrogênica | Glicocorticoide exógeno (oral, inalatório, tópico, injetável) | Causa mais comum de Cushing na prática clínica | História farmacológica detalhada é obrigatória |
| ACTH-dependente | Doença de Cushing (adenoma corticotrófico) | 60-70% dos endógenos | ACTH normal ou elevado |
| ACTH-dependente | Síndrome de ACTH ectópico (tumor carcinoide, câncer de pulmão de pequenas células, feocromocitoma) | 10-15% | ACTH muito elevado, hipocalemia alcalose, tumor oculto |
| ACTH-independente | Adenoma adrenal secretor de cortisol | 10-15% | ACTH suprimido, massa adrenal à imagem |
| ACTH-independente | Carcinoma adrenal | 2-5% | Massa grande (> 4-6 cm), androgênio concomitante |
| ACTH-independente | Hiperplasia macronodular e displasia pigmentada primária | Raros | Síndromes genéticas (Carney, McCune-Albright) |
Existem ainda o pseudo-Cushing (estados com ativação fisiológica do eixo: obesidade mórbida, alcoolismo, depressão major, diabetes mal controlado, gravidez, estresse grave), que eleva o cortisol sem as características catabólicas completas, e o Cushing cíclico, com flutuação entre hipersecreção e normosecreção, que exige testes repetidos quando a suspeita persiste.
A incidência da síndrome de Cushing endógena é estimada em 0,7 a 2,4 casos por milhão de habitantes por ano, com predominância feminina de cerca de 3:1 na doença de Cushing, pico entre 25 e 45 anos, e predomínio de idosos no ACTH ectópico e no carcinoma adrenal. Em populações específicas a prevalência salta: em diabetes mellitus tipo 2 mal controlado com características cushingoides, séries relatam prevalências de 2 a 5%, e a mortalidade não tratada é relevante, com razão de mortalidade padronizada de cerca de 2 a 4 vezes a esperada, por eventos cardiovasculares, infecciosos e tromboembólicos. A insuficiência adrenal primária (doença de Addison) tem incidência de 4 a 6 casos por milhão por ano e prevalência de 100 a 140 por milhão em países ocidentais, com predominância feminina discreta e pico entre 30 e 50 anos; a etiologia autoimune responde por 80 a 90% no ocidente, frequentemente integrando síndromes poliglandulares (tipo 1: candidíase mucocutânea crônica, hipoparatireoidismo, doença de Addison; tipo 2 ou síndrome de Schmidt: Addison, tireoidite autoimune, diabetes tipo 1).
O cortisol em excesso produz efeitos catabólicos, metabólicos, imunológicos e minerais. Nos músculos e pele, a proteólise e a inibição da síntese de colágeno explicam a miopatia proximal (dificuldade para levantar-se de cadeira baixa sem apoio), as estrias violáceas largas, a pele fina com hematomas espontâneos e a dificuldade de cicatrização. No tecido adiposo, o cortisol induz adipogênese visceral (via lipoproteína lipase) com redistribuição centrípeta: obesidade central com membros relativamente preservados, facies lua cheia e acúmulo supraclavicular e dorocervical (giba). No fígado, estimula gluconeogênese e resistência à insulina, gerando intolerância a glicose em 20 a 50% e diabetes franco em 15 a 20% dos casos. No osso, suprime o osteoblasto e aumenta a reabsorção (osteoporose e fraturas por fragilidade). No rim, concentrações muito altas de cortisol saturam a 11-beta-hidroxiesteroide desidrogenase tipo 2 e ativam o receptor mineralocorticoide, produzindo hipertensão (75 a 85% dos casos) e hipocalemia com alcalose, típicas do ACTH ectópico. Soma-se a imunossupressão (infecções oportunistas, tuberculose, candidíase), hipercoagulabilidade (risco de tromboembolismo venoso 4 a 10 vezes maior, sobretudo perioperatório) e efeitos neuropsiquiátricos (depressão, labilidade, psicose em 40 a 80% conforme a série). Na doença de Cushing, mutações somáticas do USP8 e de outras vias (USP48, TP53) ativam a célula corticotrófica em parte dos adenomas; no ectópico, o SCLC e os carcinoides bronquiais secretam ACTH precursor ou big-ACTH.
Nenhum sinal isolado é diagnóstico: a força da suspeita vem da combinação e da progressão. Os achados mais discriminativos para diferenciar de pseudo-Cushing e obesidade simples são a miopatia proximal, as estrias violáceas largas (maiores que 1 cm), os hematomas fácies e a fraqueza ao levantar-se agachado; a obesidade isolada com estrias claras finas e pele normal é muito mais frequente na população geral.
| Achado | Frequência aproximada | Mecanismo |
|---|---|---|
| Obesidade central, facies lua cheia, giba | 80-95% | Adipogênese visceral induzida por cortisol |
| Hipertensão arterial | 75-85% | Efeito mineralocorticoide e ativação do sistema renina-angiotensina |
| Plethora facial e acne, hirsutismo em mulheres | 60-90% | Hipercortisolismo e androgênios adrenais concomitantes |
| Estrias violáceas largas, hematomas, pele fina | 40-70% | Proteólise e inibição do colágeno |
| Miopatia proximal | 40-70% | Catabolismo muscular (quadril e cintura escapular) |
| Intolerância a glicose ou diabetes | 20-50% | Gluconeogênese e resistência insulínica |
| Distúrbios menstruais e infertilidade | 50-80% das mulheres | Supressão do eixo gonadotrófico e androgênio excessivo |
| Depressão, labilidade, psicose | 40-80% | Efeitos neuropsiquiátricos do cortisol |
| Osteoporose com fraturas | 30-50% | Supressão osteoblástica e reabsorção aumentada |
| Infecções oportunistas recorrentes | 10-15% | Imunossupressão celular |
Nas crianças, o padrão clássico é ganho ponderal com estagnação da estatura, diferente da obesidade exógena, em que a estatura avança acima da curva. No ACTH ectópico com hipercortisolismo muito rápido e intenso, o paciente pode nem ter tempo de engordar: apresenta-se com hipocalemia grave, fraqueza proximal marcada, hiperpigmentação e diabetes de início abrupto.
Etapa zero, invariável: excluir glicocorticoide exógeno, incluindo formulações intranasais, inalatórias, tópicas e infiltrações articulares, antes de qualquer teste. Etapa 1, rastrear o excesso de cortisol com um dos três testes de primeira linha (ou dois, para maior segurança); etapas 2 e 3, diferenciar a fonte.
| Teste de rastreio | Como realizar | Desempenho | Comentários |
|---|---|---|---|
| Cortisol salivar noturno | Amostra de saliva entre 23 e 24 h, em 2 noites separadas | Sensibilidade de 92-100% e especificidade de 93-100% | Explora a perda do nadir circadiano; não sofre interferência da transcortina |
| Cortisol livre urinário de 24 h | Duas coleitas completas com creatininina urinária | Sensibilidade de 45-71%, especificidade alta em saudáveis | Reflete a fração livre; falso-baixo em insuficiência renal (TFGe menor que 60) |
| Teste de supressão overnight com 1 mg de dexametasona | Dexametasona 1 mg VO às 23 h; cortisol sérico às 8 h | Sensibilidade maior que 95%, especificidade em torno de 80% | Positivo com cortisol maior ou igual a 1,8 mcg/dL (50 nmol/L); estrogênio exógeno eleva a transcortina e gera falso-positivo |
O objetivo é normalizar o cortisol e suas complicações, preservando os outros eixos. Na doença de Cushing, o tratamento de escolha é a cirurgia transesfenoidal seletiva por cirurgião experiente, com remissão de 70 a 90% dos microadenomas e recorrência de 10 a 25% em 10 anos, o que impõe seguimento vitalício com testes de rastreio anuais. Persistência ou recorrência abre a sequência: nova cirurgia, radioterapia hipofisária (fração única ou fracionada, com controle gradual em 2 a 5 anos e risco de hipopituitarismo em parcela significativa), terapia farmacológica e, como última linha, adrenalectomia bilateral, que cura o hipercortisolismo mas exige reposição gluco e mineralocorticoide definitiva e carrega risco de expansão do remanescente corticotrófico (síndrome de Nelson, descrita em 8 a 47% das séries, com hiperpigmentação e crescimento do adenoma hipofisário). Nos tumores adrenais, a adrenalectomia laparoscópica cura adenomas; o carcinoma exige cirurgia aberta ampla e, na doença avançada, mitotano em doses escalonadas de 2 a 6 g/dia visando níveis séricos de 14 a 20 mg/L, com efeitos adversos gastrintestinais, neurológicos e adrenal-insuficientes.
| Fármaco | Mecanismo | Dose usual | Principais efeitos adversos |
|---|---|---|---|
| Metirapona | Inibe a 11-beta-hidroxilase | 250 mg 2 a 3x/dia, titulando até 6 g/dia | Hiperandrogenismo (hirsutismo, acne), hipertensão, hipocortisolismo |
| Cetoconazol | Bloqueia múltiplas enzimas da esteroidogênese | 200 mg 2x/dia, até 400-600 mg 2x/dia | Hepatotoxicidade (monitorar transaminases), interações pelo CYP3A4 |
| Osilodrostat | Inibe a 11-beta-hidroxilase (mais potente) | 2 mg 2x/dia, titulando até 10 mg 2x/dia | Hipocortisolismo, hiperandrogenismo, prolongamento do QT |
| Pasireotida | Análogo da somatostatina com afinidade sst5 | 600-900 mcg SC 2x/dia | Hiperglicemia importante, diarreia, cálculos biliares |
| Mifepristona | Antagonista do receptor de glicocorticoide | 300 mg/dia, até 1.200 mg/dia | Hipocalemia, espessamento endometrial; cortisol não serve para monitorar |
| Cabergolina | Agonista dopaminérgico D2 (uso off-label) | 1 a 3 mg/semana | Tolerância com o tempo; sonolência, náusea |
Em qualquer via terapêutica do Cushing, três cuidados perioperatórios são cobrados: cobertura com glicocorticoide na adrenalectomia e após cirurgia transesfenoidal (até a recuperação do eixo, que pode levar meses a anos), profilaxia de tromboembolismo venoso no perioperatório (risco várias vezes maior) e vigilância de infecções. A iatrogenia merece capítulo próprio: paciente sob corticoide crônico deve receber a menor dose eficaz, preferindo dias alternados quando possível; a suspensão precisa ser lenta (reduzir 10 a 20% da dose a cada 1 a 2 semanas até a dose fisiológica e depois mais lentamente), porque a supressão do eixo dura de meses até 1 a 2 anos e a retirada abrupta desencadeia crise adrenal.
Insuficiência adrenal é a deficiência de produção de cortisol, classificada em primária (destruição ou disfunção das glândulas adrenais, com deficiência de cortisol e aldosterona e ACTH elevada), secundária (doença hipofisária com deficiência de ACTH, na qual a aldosterona se mantém) e terciária (supressão hipotalâmica por glicocorticoide exógeno, a causa mais frequente na prática). A doença de Addison designa a primária, descrita por Thomas Addison em 1855.
| Grupo | Causas | Particularidades |
|---|---|---|
| Primária autoimune | Adrenalite autoimune isolada ou em síndromes poliglandulares tipo 1 e 2 | Anticorpos anti-21-hidroxilase; 80-90% dos casos ocidentais; associar rastreamento de tireóide, diabetes, vitiligo, doença celíaca |
| Primária infecciosa | Tuberculose, histoplasmose, paracoccidioidomicose, CMV em HIV avançado | Tuberculose e fungos endêmicos são causas relevantes no Brasil; adrenal calcificada à tomografia |
| Primária vascular e infiltrativa | Hemorragia adrenal bilateral (meningococcemia, anticoagulação), metástases (pulmão, melanoma), amiloidose, hemocromatose | Instalação aguda com dor lombar e choque (síndrome de Waterhouse-Friderichsen) |
| Primária genética | Hiperplasia adrenal congênita, adrenoleucodistrofia ligada ao X | Crianças e homens jovens; medir ácidos graxos de cadeia muito longa |
| Secundária | Adenoma hipofisário, cirurgia ou radioterapia hipofisária, apoplexia, síndrome de Sheehan, hipopituitarismo isolado | ACTH baixa ou inapropriadamente normal; aldosterona preservada |
| Terciária (iatrogênica) | Supressão por glicocorticoide exógeno (dose equivalente a prednisona de 5 mg/dia ou mais por mais de 3 a 4 semanas) | Causa mais frequente de insuficiência adrenal; recuperação lenta do eixo |
| Drogas e imunoterapia | Cetoconazol, etomidato, rifampicina (acelera o metabolismo), inibidores de checkpoint (ipilimumabe, mais que anti-PD-1) | Infarto hipofisário ou adrenalite imune; suspeitar em oncologia |
A destruição ou disfunção de mais de 90% do córtex adrenal instala deficiência progressiva. Sem cortisol, cai a vascular responsividade às catecolaminas (hipotensão), aumenta a secreção de ADH (dilui o sódio), caem a gliconeogênese e a insulinoclarência (hipoglicemia) e a inibição de citocinas pró-inflamatórias (astenia, mialgias, febre baixa). Na forma primária, a falta de aldosterona soma perda urinária de sódio, hipercalemia e acidose metabólica, com hiperreninemia; e o excesso de POMC/ACTH estimula receptores de melanocortina na pele, gerando a hiperpigmentação difusa que inclui mucosas, pregas palmares, cicatrizes e áreas de pressão, sinal praticamente patognomônico que não existe nas formas secundárias (em que o defeito está a montante da produção de ACTH). Na secundária predomina palidez por deficiência concomitante de ACTH, LH e FSH.
| Sintoma ou sinal | Frequência aproximada | Nota |
|---|---|---|
| Astenia e adinamia progressivas | praticamente universal | Piora ao longo do dia; piora com estresse |
| Hiperpigmentação difusa (mucosa, pregas palmares, cicatrizes) | 90% ou mais na primária | Ausente na secundária; com palidez, sugere hipopituitarismo |
| Hipotensão postural e síncope | 85-90% | Podem evoluir para choque refratário na crise |
| Perda de peso e anorexia | 60-90% | Catabolismo e náuseas crônicas |
| Desejo intenso por sal (craving) | 15-25% na primária | Perda renal de sódio por deficiência de aldosterona |
| Náuseas, vômitos e dor abdominal | 50-60% | Pode simular abdome agudo e atrasar o diagnóstico |
| Hiponatremia | 80-90% | Dilucional (ADH) na secundária; com hipercalemia na primária |
| Hipercalemia | 60-70% na primária | Nunca ocorre na secundária, em que a aldosterona está preservada |
| Hipoglicemia | mais comum em crianças e secundária | Deficiência de gliconeogênese |
A crise adrenal (insuficiência adrenal aguda) é a emergência da área: hipotensão ou choque refratário a volume, náuseas e vômitos intensos, dor abdominal que simula abdome cirúrgico, febre, confusão e hiponatremia com hipercalemia, hipoglicemia e acidose. Gatilhos típicos: infecções (sobretudo gastrointestinais com perda de doses), cirurgias, trauma, descontinuação de corticoide e uso de inibidor de checkpoint. A mortalidade é alta quando o tratamento atrasa, e a regra é tratar antes de confirmar: colher cortisol e ACTH e iniciar hidrocortisona IV imediatamente (a dexametasona, 4 mg IV, é alternativa enquanto se aguardam dosagens, pois não interfere nos ensaios de cortisol).
A triagem usa o cortisol sérico colhido entre 6 e 8 horas da manhã: valor maior que 15 mcg/dL (410 nmol/L) praticamente exclui insuficiência em paciente clinicamente estável, e valor menor que 5 mcg/dL (140 nmol/L) com quadro compatível é diagnóstico. Valores intermediários exigem teste de estímulo com ACTH (cosyntropina) 250 mcg IV, medindo cortisol em 30 e 60 minutos: pico menor que 18 a 20 mcg/dL (500 a 550 nmol/L) confirma insuficiência, com sensibilidade em torno de 95%. Feito o diagnóstico, a ACTH diferencia o nível do defeito: elevada define primária (dosar também renina, aldosterona e anticorpos anti-21-hidroxilase, além de tomografia de adrenal) e baixa ou inapropriadamente normal define secundária ou terciária (investigar os demais eixos hipofisários e ressonância da sela). O teste com 1 mcg de cosyntropina, o teste da metirapona e o teste de hipoglicemia insulínica são reservados para casos selecionados de suspeita de deficiência recente ou central.
A reposição de base usa hidrocortisona oral 15 a 25 mg/dia, fracionada em 2 a 3 doses com dois terços ao acordar e um terço no início da tarde (por exemplo, 15 mg às 8 h e 5 a 10 mg às 14-15 h), imitando o ritmo circadiano; alternativas são acetato de cortisona (25 a 37,5 mg/dia) e prednisona (3 a 5 mg/dia) quando a adesão ao múltiplo esquema é difícil. Na insuficiência primária soma-se fludrocortisona (acetato de fludrocortisona) 0,05 a 0,2 mg/dia VO, ajustada pela pressão em pé, sódio, potássio e renina; ela é desnecessária na secundária. Educação do paciente é parte do tratamento: duplicar a dose oral em febre, trauma ou procedimentos ambulatoriais, usar hidrocortisona injetável (100 mg IM) em vômitos, portar carteira ou pulseira de alerta e orientar familiares.
| Situação | Esquema de hidrocortisona | Duração |
|---|---|---|
| Doença intercorrente febril em uso ambulatorial | Dobrar a dose oral (ou triplicar se febre alta) | Até 2 a 3 dias após a resolução |
| Vômitos ou diarréia importante | Hidrocortisona 100 mg IM ou IV, buscando atendimento | Avaliação médica imediata |
| Procedimento cirúrgico menor (dentista, biópsia) | 25 a 50 mg VO no dia | Dia do procedimento |
| Cirurgia de grande porte ou trauma | 100 mg IV na indução, depois 50 mg IV de 6/6 h ou infusão de 200 mg/24 h | Taper em 1 a 3 dias pós-operatórios |
| Crise adrenal | 100 mg IV em bolus, seguido de 200 mg/24 h em infusão contínua (ou 50 mg IV de 6/6 h) | Até estabilidade, depois redução gradual |
Na crise adrenal, além da hidrocortisona IV, o tratamento inclui reposição volêmica agressiva com solução salina 0,9% (cerca de 1 litro na primeira hora e vários litros nas primeiras 24 horas, conforme o déficit), glicose 5% se hipoglicemia, correção da hipercalemia (que cede com a reposição de mineralocorticoide ativo) e tratamento do gatilho (antibióticos para sepse, por exemplo). A fludrocortisona só se reinicia quando a dose de hidrocortisona cai abaixo de 50 mg/dia, porque doses altas de hidrocortisona já saturam o receptor mineralocorticoide. Erro clássico: prescrever apenas prednisona ou dexametasona na crise, sem a reposição volêmica, ou esquecer que doses suprafisiológicas de hidrocortisona dispensam fludrocortisona temporariamente.
No Cushing, mesmo após remissão, persistem risco cardiovascular elevado, osteoporose (densitometria e tratamento adjuvante), sequelas psiquiátricas, hipopituitarismo pós-cirúrgico ou pós-radioterapia e risco de recorrência vitalício, justificando cortisol noturno ou urinário anuais; a mortalidade se aproxima da populacional apenas em centros de referência. O carcinoma adrenal tem prognóstico reservado, com sobrevida em 5 anos frequentemente inferior a 50%, mesmo com cirurgia e mitotano. No Addison, a expectativa de vida com reposição e educação adequadas aproxima-se da normal, mas a incidência de crises adrenais permanece em torno de 5 a 8 por 100 pacientes-ano, liderada por infecções, e a mortalidade global é cerca de 2 vezes a esperada, sobretudo por causas infecciosas, cardiovasculares e por doenças autoimunes associadas; seguimento semestral a anual avalia pressão deitada e em pé, eletrólitos, adesão, sinais de excesso (peso, edema, hipertensão) e rastreamento das doenças autoimunes associadas.
1.Mulher de 38 anos com hipertensão, diabetes de início recente, estrias violáceas largas no abdômen e fraqueza para levantar da cadeira sem apoio. Qual o primeiro passo na investigação de síndrome de Cushing?
2.Qual teste de rastreio explora diretamente a perda do nadir noturno do cortisol?
3.Teste de supressão overnight com 1 mg de dexametasona: cortisol às 8 h de 3,2 mcg/dL em paciente que usa anticoncepcional oral combinado. Como interpretar?
4.Confirmado hipercortisolismo endógeno, a ACTH às 8 h foi de 65 pg/mL e a ressonância mostrou lesão hipofisária de 4 mm. Qual o próximo passo?
5.Paciente com hipotensão postural, hiperpigmentação de mucosas e pregas palmares, hiponatremia, hipercalemia e glicemia de 58 mg/dL. Qual a conduta imediata?
6.Qual achado laboratorial NÃO ocorre na insuficiência adrenal secundária?
7.Qual esquema de reposição de base é o mais fisiológico para a doença de Addison?
8.Paciente com doença de Addison em uso de hidrocortisona 20 mg/dia apresenta febre de 38,5 °C e dor de garganta, sem vômitos. Qual a orientação correta?
9.Qual fármaco para o tratamento farmacológico da síndrome de Cushing exige monitorização obrigatória de transaminases hepáticas pelo risco de hepatotoxicidade?
10.Homem de 55 anos em uso de corticoide sistêmico há 8 meses por pneumopatia, com cushingoidismo iatrogênico, precisa suspender a medicação. Qual a razão fisiológica de a retirada ser lenta e escalonada?
acesso de membros
Matérias, materiais na íntegra, resumos, quiz e revisões ficam liberados na sua conta — a prévia desfocada é só um gostinho.
Entrar e continuar