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Revisão completa da osteoporose pós-menopausal e senil: classificação por T-score, epidemiologia, vias moleculares (RANK, RANKL, OPG, esclerostina), critérios de tratamento, doses dos antirreabsortivos e anabólicos, férias medicamentosas e complicações.
[1] Eastell R, Rosen CJ, Black DM, Cheung AM, Murad MH, Shoback D. Pharmacological management of osteoporosis in postmenopausal women: an Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2020;105(3):587-594. DOI 10.1210/clinem/dgaa048 | [2] Radominski SC, Bernardo W, Paula AP, et al. Diretrizes brasileiras para o diagnóstico e tratamento da osteoporose em mulheres na pós-menopausa. Rev Bras Reumatol. 2017;57(Supl 2):S452-S466. DOI 10.1016/j.rbr.2017.07.001 | [3] Camacho PM, Petak SM, Binkley N, et al. American Association of Clinical Endocrinologists/American College of Endocrinology Clinical Practice Guidelines for the Diagnosis and Treatment of Postmenopausal Osteoporosis 2020 Update. Endocr Pract. 2020;26(Supl 1):1-46. DOI 10.4158/GL-2020-0424SUPPL | [4] Kanis JA, Johnell O, Oden A, et al. The use of clinical risk factors enhances the performance of BMD in the prediction of hip and osteoporotic fractures in men and women. Osteoporos Int. 2008. DOI 10.1007/s00198-007-0342-y | [5] Black DM, Delmas PD, Eastell R, et al. Once-yearly zoledronic acid for treatment of postmenopausal osteoporosis. N Engl J Med. 2007;356:1809-1822. DOI 10.1056/NEJMoa067312 | [6] Cummings SR, San Martin J, McClung MR, et al. Denosumab for prevention of fractures in postmenopausal women with osteoporosis. N Engl J Med. 2009;361:756-765. DOI 10.1056/NEJMoa0809493 · DOI 10.1210/clinem/dgaa048
A osteoporose é a doença metabólica óssea mais frequente e se caracteriza por massa óssea reduzida e deterioração da microarquitetura, com aumento da fragilidade esquelética e do risco de fraturas por traumatismo de baixa energia. É uma doença silenciosa: costuma manifestar-se apenas quando o osso já falhou, sob a forma de fratura vertebral, de quadril ou de punho. A Organização Mundial de Saúde estima que osteoporose afete mais de 200 milhões de pessoas no mundo, com cerca de 8,9 milhões de fraturas osteoporóticas por ano. A fratura de quadril é o evento sentinela da doença, com mortalidade de 20 a 30% no primeiro ano. Para a prova, o aluno precisa dominar três eixos: interpretar o T-score da densitometria, calcular e interpretar o FRAX e conhecer doses e critérios de escolha dos fármacos, incluindo o sequenciamento anabólico-antirreabsortivo.
O diagnóstico densitométrico segue os critérios da OMS, estabelecidos em 1994 e mantidos até hoje, baseados no T-score da densidade mineral óssea (DMO) medida por absortometria por dupla emissão de raios X (DXA) na coluna lombar, no colo femoral ou no fêmur total, utilizando o menor valor válido. O T-score expressa quantos desvios-padrão a DMO do paciente está abaixo da média de adultos jovens saudáveis do mesmo sexo. Importante: existe também diagnóstico clínico, independente da densitometria, pois a presença de fratura por fragilidade de quadril ou coluna já define osteoporose e indica tratamento, qualquer que seja o T-score.
| Categoria (OMS) | T-score na DXA | Conduta prática |
|---|---|---|
| Normal | Maior ou igual a -1,0 | Manter medidas de base e reavaliar conforme risco |
| Baixa massa óssea (osteopenia) | Entre -1,0 e -2,5 | Calcular FRAX e estratificar; tratar se risco elevado |
| Osteoporose | Menor ou igual a -2,5 | Tratamento farmacológico indicado |
| Osteoporose grave | Menor ou igual a -2,5 com fratura por fragilidade | Candidato a terapia anabólica, se muito alto risco |
Quanto à classificação clínica, a osteoporose primária divide-se em pós-menopausal (tipo I), ligada à deficiência estrogênica, com perda acelerada de osso trabecular e fraturas vertebrais e de punho, e senil (tipo II), relacionada ao envelhecimento, com envolvimento de osso cortical e trabecular e fraturas de quadril e vertebrais. A osteoporose secundária ocorre em associação a doenças e fármacos; a induzida por glicocorticoides é a forma secundária mais comum e a única considerada obrigatoriamente prevenível quando se inicia corticoide em dose prednisônica igual ou superior a 2,5 mg/dia por mais de 3 meses. Em homens e em mulheres antes da menopausa, usa-se o Z-score (comparação com iguais em idade e sexo): Z-score menor ou igual a -2,0 é considerado abaixo do esperado para a idade e obriga a investigar causas secundárias.
Estimativas da Federação Internacional de Osteoporose apontam que 1 em cada 3 mulheres acima dos 50 anos e 1 em cada 5 homens sofrerão ao menos uma fratura por fragilidade ao longo da vida. No Brasil, o estudo BRAZOS (Brazilian Osteoporosis Study), maior inquérito epidemiológico nacional sobre o tema, documentou fratura vertebral em cerca de 15% das mulheres com mais de 50 anos, proporção que chega a aproximadamente 38% entre as que ultrapassam os 80 anos. A fratura de fêmur no idoso já é causa relevante de internação no SUS, com letalidade elevada e alto custo. O dado mais importante para a prática é o gap terapêutico: a maioria dos pacientes que sofre fratura por fragilidade no país não recebe investigação nem tratamento para osteoporose, o que expõe a risco de nova fratura nos 1 a 2 anos seguintes (risco imediatamente alto, o chamado risco iminente).
O osso esquelético se renova continuamente por unidades de remodelamento (BMU), em que osteoclastos reabsorvem osso antigo e osteoblastos preenchem a cavidade com osteoide, que é mineralizado. O acoplamento entre as duas fases é regulado pelo sistema RANK/RANKL/OPG: o RANKL, expresso por osteoblastos e células imunes, liga-se ao receptor RANK de precursores osteoclásticos e estimula sua diferenciação e atividade; a osteoprotegerina (OPG) funciona como receptor-isca que sequestra RANKL e bloqueia a reabsorção. O estrogênio inibe a expressão de RANKL e estimula OPG, além de induzir apoptose de osteoclastos. Na menopausa, a queda estrogênica desloca o equilíbrio: aumento da razão RANKL/OPG, reabsorção acelerada e perda rápida de osso trabecular, típica de vértebras, punho e quadril.
A formação osteoblástica depende da via de sinalização Wnt/beta-catenina, tonicamente inibida pela esclerostina, proteína codificada pelo gene SOST e produzida por osteócitos, mecanossensores enterrados na matriz óssea. O romosozumabe, anticorpo monoclonal anti-esclerostina, explora exatamente essa via: destrava a formação óssea e, ao mesmo tempo, reduz a reabsorção. No envelhecimento, somam-se redução da formação (osteoblastos senescentes), deficiência de vitamina D, queda da função renal com menor 1-alfa-hidroxilação, absorção intestinal de cálcio diminuída, hiperparatireoidismo secundário e sarcopenia, que aumenta o risco de quedas. Os glicocorticoides atuam em várias frentes: aumentam apoptose de osteoblastos e osteócitos, elevam RANKL, reduzem OPG, diminuem a absorção intestinal de cálcio e induzem hipogonadismo, com perda óssea de 6 a 12% no primeiro ano de uso.
A osteoporose é assintomática até fraturar. A fratura vertebral típica ocorre após traumatismo banal (tossir, curvar-se, carregar sacola) e produz dor torácica ou lombar aguda, mecânica, que cede em 4 a 6 semanas na maioria dos casos; cerca de dois terços das fraturas vertebrais, porém, não chegam a gerar consulta, e só são detectadas por radiografia ou avaliação morfométrica. Fraturas vertebrais múltiplas geram cifose dorsal (corcunda de viúva), perda de altura maior que 4 cm, protusão abdominal, dobras cutâneas laterais e, nos casos avançados, aproximação costela-pélvica com desconforto e restrição ventilária leve. A fratura de quadril manifesta-se após queda da própria altura com dor inguinal, incapacidade de deambular, rotação externa e encurtamento do membro. A fratura de rádio distal (fratura de Colles) é típica da mulher pós-menopausal que ampara a queda com a mão aberta.
A DXA de coluna lombar (L1-L4) e de quadril (colo femoral e fêmur total) é o padrão-ouro para diagnóstico e monitoração. Indica-se densitometria para todas as mulheres a partir dos 65 anos e homens a partir dos 70, e mais precocemente na presença de fatores: menopausa precoz, fratura por fragilidade após os 50 anos, corticoide oral em dose de prednisolona igual ou superior a 5 mg/dia por 3 meses ou mais, fratura de quadril em pai ou mãe, tabagismo, etilismo, baixo peso, perda de altura, quedas recorrentes e doenças associadas. Para monitorar tratamento, repetir DXA a cada 1 a 2 anos, interpretando a diferença apenas quando maior que a menor diferença significativa (LSC) do serviço. Radiografia simples de coluna toracolombar (ou a avaliação de fratura vertebral pela própria DXA, a VFA) está indicada quando há perda de altura, cifose ou dor dorsal, porque a fratura vertebral morfométrica muda a categoria de risco e a decisão terapêutica.
O FRAX (Fracture Risk Assessment Tool), derivado dos estudos de Kanis e colaboradores, estima a probabilidade de 10 anos de fratura de quadril e de fratura osteoporótica maior (quadril, vertebral clínica, antebraço e úmero). As variáveis são: idade, sexo, índice de massa corporal, fratura prévia em adulto, fratura de quadril nos pais, tabagismo atual, corticoide oral, artrite reumatoide, ingestão de álcool de 3 ou mais unidades por dia e causas secundárias de osteoporose, com entrada opcional da DMO do colo femoral. Limiares de intervenção amplamente adotados (referência NOF/BHOF e AACE): risco de fratura de quadril de 3% ou mais, ou de fratura osteoporótica maior de 20% ou mais, em paciente com osteopenia, já justificam tratamento farmacológico. O FRAX não capta quedas recorrentes nem doses altas de glicocorticoide, o que exige julgamento clínico complementar.
| Exame de rastreamento de causa secundária | Achado e possível significado |
|---|---|
| Hemograma e velocidade de hemossedimentação | Anemia ou VS elevada sugere mieloma múltiplo, neoplasia ou doença inflamatória |
| Cálcio, fósforo e magnésio séricos | Hipercalcemia aponta hiperparatireoidismo primário ou malignidade; hipocalcemia, deficiência de vitamina D |
| Paratormônio (PTH) | Elevado: hiperparatireoidismo primário ou secundário à deficiência de vitamina D e à doença renal |
| TSH | Hipertirioidismo acelera o remodelamento e causa perda óssea |
| 25-hidroxivitamina D | Deficiência (menor que 20 ng/mL) e insuficiência (20 a 29 ng/mL) para a maioria das sociedades de osso |
| Creatinina e cálculo do clearance | Doença renal crônica, osteodistrofia e contraindicações farmacológicas |
| Fosfatase alcalina | Elevada em doença de Paget, doença hepática e cura de fratura |
| Testosterona total (homens) | Hipogonadismo, causa importante e tratável de osteoporose masculina |
| Eletroforese de proteínas e cadeias leves | Mieloma múltiplo, obrigatório em idosos com anemia, VS alta e dor óssea |
| Anticorpo anti-transglutaminase IgA | Doença celíaca em pacientes com osteoporose de causa não esclarecida |
As diretrizes Endocrine Society 2020, AACE 2020 e a diretriz brasileira da Sociedade Brasileira de Reumatologia convergem: bifosfonatos orais (alendronato ou risedronato) são a primeira linha para a maioria das mulheres pós-menopausadas com osteoporose, por custo, eficácia e segurança de longo prazo. O tratamento farmacológico está indicado quando há fratura por fragilidade de quadril ou coluna (independente do T-score), T-score menor ou igual a -2,5, ou osteopenia com risco elevado pelo FRAX (quadril de 3% ou mais, ou fratura maior de 20% ou mais). Pacientes de muito alto risco, como aqueles com fraturas múltiplas, fratura muito recente, fratura durante o tratamento ou T-score abaixo de -3,0, devem ser considerados para terapia anabólica inicial (teriparatida ou romosozumabe), seguida obrigatoriamente de antirreabsortivo potente.
| Fármaco | Esquema (dose, via, frequência) | Fraturas que reduz | Pontos-chave |
|---|---|---|---|
| Alendronato | 70 mg por via oral 1 vez por semana (ou 10 mg/dia) | Vertebral, quadril e não vertebral | Primeira linha; exigir jejum noturno, copo cheio de água e 30 min em pé sem comer |
| Risedronato | 35 mg por via oral 1 vez por semana ou 150 mg 1 vez por mês | Vertebral, quadril e não vertebral | Primeira linha; apresentação de liberação tardia com posologia diferente |
| Ibandronato | 150 mg por via oral 1 vez por mês ou 3 mg endovenoso a cada 3 meses | Apenas vertebral | Não reduz fratura de quadril; uso restrito a casos selecionados |
| Ácido zoledrônico | 5 mg endovenoso 1 vez por ano, infusão de pelo menos 15 minutos | Vertebral, quadril e não vertebral | Corrigir vitamina D antes; evitar se clearance abaixo de 35 mL/min; pode causar síndrome de fase aguda |
| Denosumabe | 60 mg subcutâneo a cada 6 meses | Vertebral, quadril e não vertebral | Anticorpo anti-RANKL; não atrasar a dose; a suspensão sem cobertura antirreabsortiva causa rebote com fraturas vertebrais múltiplas |
| Teriparatida | 20 mcg subcutâneo por dia, por até 24 meses | Vertebral e não vertebral | Anabólico (fragmento do PTH) para muito alto risco; ao terminar, sequenciar antirreabsortivo |
| Romosozumabe | 210 mg subcutâneo 1 vez por mês, por até 12 meses | Vertebral e não vertebral | Anticorpo anti-esclerostina; contraindicado se infarto ou acidente vascular cerebral prévios; sequenciar antirreabsortivo |
| Raloxifeno | 60 mg por via oral por dia | Apenas vertebral | Modulador seletivo do receptor de estrogênio; aumenta risco de tromboembolismo e causa fogachos; reduz risco de câncer de mama |
| Terapia hormonal | Estrogênio com ou sem progestágeno, dose individualizada | Vertebral e quadril | Não é primeira linha para o osso; reservar quando houver indicação sintomática do climatério, avaliando risco global |
Após terapia anabólica (teriparatida ou romosozumabe), a perda óssea retorna rapidamente se não houver consolidação com antirreabsortivo potente (denosumabe, zoledrônico ou alendronato); essa sequência anabólico seguido de antirreabsortivo é a estratégia de maior ganho de DMO. As férias medicamentosas (drug holiday) aplicam-se apenas aos bifosfonatos, que permanecem anos na matriz: ao completar 5 anos de alendronato ou risedronato, ou 3 anos de ácido zoledrônico em paciente de risco moderado, pode-se pausar e reavaliar com FRAX e DXA; em pacientes de alto risco, estende-se para 10 anos de via oral e 6 anos de via endovenosa. O denosumabe não admite férias: a cada 6 meses a dose precisa ser aplicada ou substituída por outro esquema. A monitoração combina DXA a cada 1 a 2 anos (respeitando a menor diferença significativa) e, quando disponível, marcadores de remodelamento (CTX e P1NP) após 3 a 6 meses para checar adesão e resposta, além de reforçar cálcio, vitamina D e prevenção de quedas em todas as consultas.
A complicação da osteoporose é a própria fratura, e a fratura gera cascata: quem fraturou uma vértebra tem risco várias vezes maior de novas fraturas vertebrais no ano seguinte, e a fratura de quadril cursa com mortalidade de 20 a 30% em 12 meses, além de metade dos sobreviventes não recuperar a deambulação prévia. Fraturas vertebrais múltiplas associam-se a dor crônica, cifose, mortalidade excessiva por causas respiratórias e cardiovasculares. Os fármacos têm complicações específicas que a prova cobra: osteonecrose de mandíbula, raríssima com bifosfonato oral (da ordem de 1 em 10.000 a 1 em 100.000 pacientes-ano) e maior com vias endovenosas e denosumabe, o que recomenda avaliação odontológica prévia; fraturas atípicas de diáfise femoral, associadas ao uso prolongado (mais de 3 a 5 anos) de antirreabsortivos, suspeitadas diante de dor insidiosa na coxa com espessamento cortical na imagem; e hipocalcemia com denosumabe, exigindo cálcio e vitamina D corrigidos antes da aplicação. Com tratamento aderente, espera-se redução de fraturas vertebrais de aproximadamente 60 a 70%, de quadril em torno de 40% e de fraturas não vertebrais de 20 a 30% com os antirreabsortivos potentes.
1.Segundo os critérios da OMS, qual T-score na densitometria (DXA) define osteoporose?
2.Mulher de 62 anos, sem fraturas prévias, tem T-score femoral de -1,8 e FRAX de 10 anos com risco de fratura maior de 24% e de quadril de 3,5%. Conduta:
3.Qual variável integra o cálculo do FRAX?
4.Sobre a orientação de uso do alendronato 70 mg semanal, qual instrução é correta?
5.Qual bifosfonato NÃO demonstrou redução de fraturas de quadril e, portanto, não deve ser escolhido quando o objetivo é proteger o fêmur?
6.Antes de infundir ácido zoledrônico 5 mg endovenoso, qual cuidado é obrigatório?
7.Homem de 71 anos usa denosumabe 60 mg subcutâneo a cada 6 meses, mas decidiu com a família suspender tudo após a próxima dose vencer. Qual o principal risco dessa suspensão sem cobertura farmacológica?
8.Qual a duração máxima usual da teriparatida 20 mcg subcutânea e a conduta ao final?
9.O romosozumabe está formalmente contraindicado em qual situação?
10.Mulher de 58 anos com osteoporose densitométrica, sem fraturas, muito sintomática de fogachos, com risco venotrombótico basal baixo, pergunta sobre raloxifeno. O que explicar?
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