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Revisão completa da avaliação do nódulo tireoidiano: TSH e ultrassonografia com TI-RADS, punção com agulha fina pelo sistema Bethesda, condutas por categoria, tratamento cirúrgico e com iodo radioativo do câncer diferenciado, supressão de TSH e seguimento com tireoglobulina.
[1] Haugen BR, Alexander EK, Bible KC, et al. 2015 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Thyroid Nodules and Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid. 2016;26(1):1-133 · DOI 10.1089/thy.2015.0020 | [2] Maia AL, Ward LS, Carvalho GA, et al. Nódulos de tireóide e câncer diferenciado de tireóide: consenso brasileiro. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia e Metabologia. 2007;51(5):867-893 · https://www.scielo.br/j/abem | [3] Tessler FN, Middleton WD, Grant EG, et al. ACR Thyroid Imaging, Reporting and Data System (TI-RADS): White Paper of the ACR TI-RADS Committee. Journal of the American College of Radiology. 2017;14(4):587-595 · DOI 10.1016/j.jacr.2017.01.046 | [4] Cibas ES, Ali SZ. The 2017 Bethesda System for Reporting Thyroid Cytopathology. Thyroid. 2017;27(11):1341-1346 · DOI 10.1089/thy.2017.0500 | [5] Lim H, Devesa SS, Sosa JA, Check D, Kitahara CM. Trends in thyroid cancer incidence and survival in the United States, 1974-2013. JAMA. 2017;317(13):1338-1348 · DOI 10.1001/jama.2017.27109 · DOI 10.1089/thy.2015.0020
O nódulo tireoidiano é o achado endócrino mais frequente na prática clínica: cerca de 4 a 7% dos adultos têm nódulos palpáveis, 19 a 68% os têm ao ultrassom e até metade das glândulas examinadas em autópsias contém algum nódulo. O problema clínico central é simples de enunciar e difícil de resolver barato: excluir os 5 a 15% que são malignos sem submeter a maioria benigna a punções e cirurgias desnecessárias. A incidência do câncer de tireoide triplicou nas últimas quatro décadas nos Estados Unidos (de cerca de 5 para 14 casos por 100.000 pessoas-ano entre 1974-1977 e 2010-2013), aumento dirigido sobretudo por carcinomas papilíferos de pequeno porte detectados por imagem, sem mudança proporcional da mortalidade. Para a prova, o aluno deve dominar a sequência TSH, ultrassonografia com TI-RADS, punção pelo sistema Bethesda e a conduta em cada categoria, além dos princípios do tratamento do carcinoma diferenciado: extensão da cirurgia, iodo radioativo e alvo de TSH.
Nódulo tireoidiano é qualquer área focal de alteração morfológica do parênquima percebida clinicamente ou por método de imagem, distinguindo-se do parênquima adjacente. Classifica-se quanto ao número (solitário ou bócio multinodular — a presença de múltiplos nódulos NÃO protege contra malignidade, pois cada nódulo mantém risco individual semelhante), quanto à função (tóxico ou autônomo versus não funcionante) e quanto à natureza (coloidal, hiperplásico, cístico, neoplásico folicular ou maligno). Os cânceres se dividem histologicamente em diferenciados (papilífero, folicular e de células de Hürthle), medular (origem das células C parafoliculares) e indiferenciado (anaplástico), além do linfoma primário da tireoide.
| Tipo histológico | Proporção aproximada | Origem celular | Marcadores moleculares clássicos |
|---|---|---|---|
| Carcinoma papilífero | 80-85% | Célula folicular | BRAF V600E (cerca de 45-60%) e rearranjos RET/PTC (10-20%) |
| Carcinoma folicular | 10-15% | Célula folicular | Mutações RAS (30-50%) e rearranjo PAX8-PPARG |
| Carcinoma de células de Hürthle | 3-5% | Célula folicular oncocítica | Mutações mitocondriais (DNAmt) e GRIM19 |
| Carcinoma medular | 1-2% | Célula C parafolicular (corpo ultimobranquial) | RET germinativo (MEN 2A e 2B, cerca de 25% são hereditários); calcitonina e CEA |
| Carcinoma anaplástico | 1-2% | Desdiferenciação de tumor pré-existente | TP53, TERT promotor, BRAF V600E e PIK3CA |
| Linfoma primário | menos de 1% | Linfócitos (usualmente em tireoidite de Hashimoto) | CD20 positivo, MALT ou difuso de grandes células |
Nódulos são mais frequentes em mulheres (relação de aproximadamente 4:1), em idosos, em áreas de deficiência de iodo e após irradiação de cabeça e pescoço na infância. O risco de malignidade, ao contrário, é proporcionalmente maior em homens, em menores de 30 e maiores de 60 anos e em nódulos solitários de crescimento rápido. O câncer de tireoide representa 1 a 2% de todas as neoplasias e é o tumor maligno endócrino mais comum; no Brasil, o carcinoma papilífero também predomina, com sobrevida em 10 anos superior a 90% para doença diferenciada bem tratada. O carcinoma anaplástico, embora raríssimo, responde por parcela desproporcional das mortes por câncer de tireoide, com sobrevida mediana de 3 a 5 meses.
A história e o exame físico restringem quais nódulos merecem investigação ativa. Os fatores de risco clássicos de malignidade são: exposição a radiação ionizante na infância ou adolescência (risco relativo que permanece elevado por décadas), história familiar de câncer de tireoide ou de síndromes genéticas (MEN 2, polipose adenomatosa familiar, síndrome de Cowden, complexo de Carney), idade extrema, sexo masculino, crescimento rápido do nódulo, disfonia ou rouquidão persistente, nódulo firme e fixo, adenomegalias cervicais laterais e sintomas compressivos de início recente.
O TSH sérico é o primeiro exame de todo nódulo tireoidiano. TSH elevado orienta hipotireoidismo (bócio, tireoidite, raramente malignidade, embora nódulos em hipotireoidismo autoimune tenham risco discretamente maior) e associa-se a maior risco relativo de carcinoma; TSH suprimido sugere nódulo autônomo funcionante, que tem risco de malignidade menor que 1% quando a cintilografia mostra captação focal intensa (nódulo quente). Nesse cenário, indica-se cintilografia com iodo-123 ou tecnécio-99m, e não punção. A calcitonina basal não é rastreio universal, mas deve ser dosada quando há suspeita clínica ou familiar de carcinoma medular; valores basais acima de 100 pg/mL são fortemente sugestivos. A tiroxina livre e anticorpos antitireoperoxidase completam o painel quando o TSH está alterado.
A ultrassonografia é o método de imagem de escolha para caracterizar nódulos e guiar punções. O sistema TI-RADS do American College of Radiology padroniza o laudo por pontos em cinco domínios: composição (cístico ou espongiforme 0 ponto; misto cístico-sólido 1; sólido 2), ecogenicidade (iso ou hiperecogênico 0; hiperecogênico 1; muito hiperecogênico 2), forma (mais largo que alto 0; mais alto que largo 3), margens (lisa ou mal definida 0; lobulada ou irregular 2; extensão extratireoidiana 3) e focos ecogênicos (artefato em cauda de cometa 0; macrocalcificação 1; calcificação periférica 2; focos puntiformes 3). Nódulos espongiformes e totalmente císticos são TI-RADS 1 sem necessidade de punção, independentemente do tamanho.
| Nível TI-RADS | Pontuação | Suspeita | Conduta |
|---|---|---|---|
| TR1 | 0 ponto | Benigno | Sem punção e sem seguimento |
| TR2 | 2 pontos | Não suspeito | Sem punção e sem seguimento |
| TR3 | 3 pontos | Levemente suspeito | Punção a partir de 2,5 cm; seguimento se maior ou igual a 1,5 cm |
| TR4 | 4 a 6 pontos | Moderadamente suspeito | Punção a partir de 1,5 cm; seguimento se maior ou igual a 1,0 cm |
| TR5 | 7 pontos ou mais | Altamente suspeito | Punção a partir de 1,0 cm; seguimento se maior ou igual a 0,5 cm |
A punção aspirativa por agulha fina (PAAF) guiada por ultrassom é o exame decisivo e deve ser feita antes de qualquer decisão cirúrgica, exceto quando a suspeita clínica ou de imagem já é tão alta que a cirurgia está indicada independentemente do resultado. O laudo citopatológico segue o Sistema de Bethesda de 2017, com seis categorias, cada uma com risco de malignidade e conduta associada. Nas categorias Bethesda III e IV, testes moleculares (Afirma GSC, Thyroseq) podem refinar a conduta em serviços com acesso, reduzindo cirurgias diagnósticas.
| Categoria Bethesda | Diagnóstico | Risco de malignidade | Conduta habitual |
|---|---|---|---|
| I | Não diagnóstico ou insatisfatório | 5-10% | Repetir a punção com guia ultrassonográfica; nódulo cístico pode ser observado |
| II | Benigno | 0-3% | Seguimento clínico e ultrassonográfico sem punção adicional |
| III | Atipia de significado indeterminado ou lesão folicular de significado indeterminado (AUS/FLUS) | 10-30% | Repetir punção, teste molecular ou lobectomia diagnóstica |
| IV | Neoplasia folicular ou suspeita de neoplasia folicular (FN/SFN) | 10-40% | Lobectomia diagnóstica ou teste molecular; parte dos casos é adenoma |
| V | Suspeito de malignidade | 50-75% | Tiroidectomia total ou lobectomia, conforme contexto |
| VI | Maligno | 97-100% | Tiroidectomia total com ou sem esvaziamento ganglionar |
Vale a memorização numérica: cada categoria salta de risco em degraus aproximadamente dobrados, e as duas categorias indeterminadas (III e IV) concentram as decisões mais difíceis. O carcinoma folicular e o de Hürthle não podem ser distinguidos citologicamente do adenoma: exigem a demonstração histológica de invasão capsular ou vascular, o que explica por que Bethesda IV conduz frequentemente à lobectomia diagnóstica.
Nódulo benigno (Bethesda II) é seguido com ultrassonografia em 12 a 24 meses; crescimento sustentado (aumento de 20% no diâmetro com mínimo de 2 mm em duas dimensões) ou novos caracteres suspeitos reabrem a investigação. A supressão do TSH com levotiroxina não é recomendada para reduzir nódulos (efeito pequeno e risco ósseo e cardíaco). Cirurgia está indicada quando há sintomas compressivos, bócio substernal, crescimento documentado ou preocupação estética relevante. Nódulos císticos recidivantes podem ser tratados com esclerose por álcool absoluto, e nódulos sólidos benignos sintomáticos com ablação por laser ou radiofrequência em centros especializados. No nódulo autônomo com TSH suprimido, as opções são iodo radioativo (dose única de 15 a 30 mCi), cirurgia (lobectomia) e, cada vez mais, ablação percutânea; a escolha depende do tamanho, de sintomas de hipertireoidismo e de gestação planejada.
A extensão da cirurgia no carcinoma diferenciado segue o risco estimado. Lobectomia (com istmectomia) é aceitável para tumores unifocais intratireoidianos menores que 4 cm sem extensão extratireoidiana grosseira e sem linfonodos clinicamente evidentes, desde que não haja irradiação prévia ou doença familiar. Tiroidectomia total está indicada quando o tumor mede 4 cm ou mais, há extensão extratireoidiana grosseira, metástases ganglionares clinicamente evidentes ou à distância, histologia agressiva (variante célula alta, colunar, insular) ou irradiação prévia. O esvaziamento central do compartimento VI é rotina no carcinoma papilífero com evidência de doença ganglionar; o esvaziamento lateral modificado reserva-se a linfonodos laterais confirmados. A laringoscopia pré-operatória avalia as pregas vocais em casos de disfonia, doença localmente avançada ou cirurgia prévia.
| Procedimento | Indicação principal | Complicações típicas |
|---|---|---|
| Lobectomia com istmectomia | Tumor menor que 4 cm, unifocal, intratireoidiano, sem doença ganglionar | Hipotireoidismo em 15-30% (requer levotiroxina); lesão de laríngea recorrente unilateral em cerca de 1% |
| Tiroidectomia total | Tumor de 4 cm ou mais, extensão extratireoidiana, doença ganglionar ou metastática, histologia agressiva | Hipoparatiroidismo permanente em 1 a 3% em cirurgiões experientes; lesão bilateral de nervo recorrente abaixo de 1% |
| Esvaziamento central (compartimento VI) | Papilífero com doença ganglionar central confirmada ou risco alto de micrometástases | Hipoparatiroidismo (transitório em 10-30%) e lesão de recorrente |
| Esvaziamento lateral modificado | Linfonodos laterais documentados por citologia ou punção com dosagem de tireoglobulina no lavado | Lesão de acessório espinal, quilo, seroma |
A ablação com iodo-131 após tiroidectomia total é indicada para remanescentes tumorais de risco intermediário e alto (doença residual microscópica, invasão vascular, metástases ganglionares múltiplas ou volumosas), e é opcional em tumores de baixo risco menores que 1 cm unifocais, nos quais não melhora a sobrevida. As atividades habituais variam de 30 mCi (1,1 GBq, ablação de remanescente em baixo risco) a 100-150 mCi (3,7-5,5 GBq) em doença persistente ou metastática; a preparação exige TSH maior que 30 mUI/L por suspensão da levotiroxina (4 semanas) ou uso de tireotropina recombinante, dieta pobre em iodo por 1 a 2 semanas e teste de gravidez. A supressão de TSH pós-operatória é estratificada por risco: menor que 0,1 mUI/L no alto risco, entre 0,1 e 0,5 mUI/L no risco intermediário inicial e entre 0,5 e 2,0 mUI/L no baixo risco após o primeiro ano, sempre individualizada em idosos e cardiopatas. A reposição padrão pós-tiroidectomia é levotiroxina na dose de 1,6 a 1,7 microgramas por quilo ao dia, em jejum. No carcinoma medular metastático, usam-se inibidores de tirosinoquinase (vandetanibe, cabozantinibe); no anaplástico com mutação BRAF V600E, a combinação dabrafenibe mais trametinibe tornou-se padrão, mudando o histórico fatal dessa doença.
A 8ª edição do AJCC/UICC mudou o corte de idade do carcinoma diferenciado de 45 para 55 anos e simplificou os estágios: pacientes com menos de 55 anos são estágio I se sem metástases à distância e estágio II se com metástases, independentemente do T e do N. A partir de 55 anos: estágio I para T1-T2 N0 M0; estágio II para T3 N0 ou qualquer N1 sem M1 (e T1-T3 N1); estágio III para T4a; estágio IVB para T4b; e estágio IVC para qualquer metástase à distância. O prognóstico do carcinoma diferenciado é excelente: sobrevida específica em 10 anos de 90 a 98%, com recorrências em 10 a 30% ao longo de décadas. No carcinoma medular, o tempo de duplicação da calcitonina é o mais potente preditor de sobrevida; no anaplástico, a sobrevida mediana é de 3 a 5 meses, e o estadio IVB/IVC define quadro sistêmico.
Após tiroidectomia total e ablação, o seguimento combina tireoglobulina (Tg) sérica, anticorpo anti-Tg, TSH estimulado ou sob supressão e ultrassonografia cervical. A resposta ao tratamento é classificada em quatro categorias pela ATA: excelente (imagem negativa e Tg suprimida abaixo de 0,2 ng/mL ou estimulada abaixo de 1 ng/mL), indeterminada, bioquimicamente incompleta (Tg detectável sem doença estrutural) e estruturalmente incompleta (doença recorrente à imagem). Tg detectável e crescente ao longo do tempo é o marcador mais sensível de recorrência; doença estrutural recorrente localizada é preferencialmente ressecada, com radioiodo ou terapias locais quando não ressecável.
1.Qual é o primeiro exame laboratorial indicado em todo paciente com nódulo tireoidiano?
2.Punção retorna categoria Bethesda III (AUS/FLUS). Qual a conduta habitual?
3.Segundo o ACR TI-RADS, nódulo classificado como TR5 (altamente suspeito) deve ser puncionado a partir de qual diâmetro?
4.A forma mais alta que larga (taller-than-wide) na ultrassonografia é característica que:
5.Paciente com nódulo de 3 cm, TSH de 0,05 mUI/L e cintilografia mostrando captação focal intensa (nódulo quente). Qual a conduta?
6.A mutação BRAF V600E é classicamente associada a qual tumor?
7.Mulher de 38 anos com carcinoma papilífero de 1,8 cm, unifocal, intratireoidiano, sem linfonodos e sem irradiação prévia. Qual a cirurgia apropriada segundo a ATA 2015?
8.Qual é o alvo de TSH na supressão hormonal de paciente de alto risco com carcinoma diferenciado persistente?
9.Qual complicação é a mais frequente e temida da tiroidectomia total, além da lesão do nervo laríngeo recorrente?
10.Paciente com carcinoma anaplástico avançado cujo sequenciamento mostra mutação BRAF V600E. Qual terapia mudou o prognóstico histórico dessa doença?
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