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Revisão completa da neurulação primária e secundária, dos mecanismos moleculares (via do folato, PCP, SHH) e dos defeitos do tubo neural: classificação, epidemiologia brasileira, diagnóstico pré-natal com AFP e ultrassom, prevenção com ácido fólico nas doses certas, cirurgia fetal (MOMS) e prognóstico.
[1] Copp AJ, Adzick NS, Chitty LS, et al. Spina bifida. Nat Rev Dis Primers. 2015;1:15007 · DOI 10.1038/nrdp.2015.7 | [2] Greene NDE, Copp AJ. Neural tube defects. Annu Rev Neurosci. 2014;37:221-42 · DOI 10.1146/annurev-neuro-062012-170354 | [3] MRC Vitamin Study Research Group. Prevention of neural tube defects: results of the Medical Research Council Vitamin Study. Lancet. 1991;338(8760):131-7 · DOI 10.1016/0140-6736(91)90131-A | [4] Adzick NS, Thom EA, Spong CY, et al. A randomized trial of prenatal versus postnatal repair of myelomeningocele. N Engl J Med. 2011;364(11):993-1004 · DOI 10.1056/NEJMoa1014775 | [5] Moore KL, Persaud TVN, Torchia MG. The Developing Human: Clinically Oriented Embryology. 11th ed. Elsevier; 2020 | [6] Brasil. ANVISA. Resolução RDC nº 344, de 13/12/2002: regulamento técnico sobre fortificação das farinhas de trigo e milho com ferro e ácido fólico. Diário Oficial da União; 2002 · DOI 10.1038/nrdp.2015.7
Os defeitos do tubo neural (DTN) constituem um dos grupos mais frequentes de malformações congênitas, com incidência mundial média de 1 a 2 casos por 1.000 nascimentos e algo entre 260 mil e 300 mil casos por ano no planeta. A anencefalia é invariavelmente letal, e a mielomeningocele é a principal causa de paralisia e deficiência física de origem congênita na infância. O paradoxo que faz desse tema um favorito de prova é que existe prevenção de altíssima eficácia e baixíssimo custo: o MRC Vitamin Study demonstrou redução de 72% na recorrência com 4 mg diários de ácido fólico periconcepcional. O problema é a janela temporal: o tubo neural fecha por volta do 26º ao 28º dia pós-fertilização, quando grande parte das mulheres ainda não sabe que está grávida. Por isso a suplementação precisa ser pré-concepcional, e o aluno que domina a cronologia, a triagem pré-natal e as doses de prevenção resolve qualquer questão sobre o tema.
Na terceira semana de desenvolvimento, a notocorda e o mesoderma pré-cordal induzem o ectoderma suprajacente a assumir destino neural. O sinal central é a inibição da BMP (proteína morfogenética óssea) por antagonistas secretados pelo organizador notocordal: nogina, cordina e folistatina. Sem essa inibição, o ectoderma segue o destino epidérmico; com ela, as células alongam-se e colunarizam, formando a placa neural por volta do 17º ao 18º dia. Em seguida, os gradientes de sinalização estabelecem o padrão do futuro tubo: SHH (Sonic hedgehog), secretado pela notocorda e depois pelo assoalho, ventraliza o neuroectoderma; BMP e WNT, dorsais, mantêm a identidade do teto. Genes de transcrição como Pax3, Msx e os pares Sox marcam territórios ao longo dos eixos.
Do dobramento da placa neural derivam as duas grandes populações do sistema nervoso periférico e central: o tubo neural origina neurônios e glia do SNC, enquanto a crista neural, formada na borda da placa neural ao longo do fechamento, origina neurônios e glia do SNP, melanócitos, medula da suprarrenal e estruturas craniofaciais. Essa origem comum explica por que síndromes de crista neural (Waardenburg, por exemplo) podem se associar a disrafismos.
| Evento | Dia pós-fertilização (semana) |
|---|---|
| Aparecimento da placa neural | 17-18 dias (3ª semana) |
| Formação das pregas neurais e do sulco neural | 19-21 dias (3ª semana) |
| Início da fusão das pregas, na região cervical futura | dia 22 (início da 4ª semana) |
| Fechamento do neuroporo anterior | dias 24-25 (fim da 4ª semana) |
| Fechamento do neuroporo posterior | dias 26-28 (fim da 4ª semana) |
| Neurulação secundária: filo caudal, canalização e fusão | dias 28-42 (5ª a 6ª semanas) |
A fusão não é um zíper único que percorre o eixo de cima a baixo: estudos em modelos humanos indicam múltiplos pontos de fechamento que progridem um ao encontro do outro, o que explica defeitos localizados (encefalocele, mielomeningocele lombossacra) sem falha global do eixo. A neurulação secundária forma as porções mais distais da medula (cone medular e filo) a partir da massa celular caudal, sem placas nem pregas: o tecido sofre canalização, as vesículas coalescem e a luz se une ao canal central do tubo. Falhas da neurulação primária geram os DTN abertos; anomalias da secundária aparecem entre as causas de disrafismo oculto (seno dérmico, lipoma lombossacro, medula ancorada).
O fechamento do tubo é um evento de morfogênese celular coordenado pela via de polaridade celular planar (PCP), com os genes VANGL2, CELSR1, FZD e DISHEVELLED: as células das pregas convergem, alongam-se e dobram o epitélio neuroectodérmico. Mutações de genes da PCP produzem nos modelos a craniorraquisquise total, forma rara e letal com exposição de todo o neuroeixo. A via do folato fornece metilgrupos para a síntese de nucleotídeos e a metilação de DNA: variantes como MTHFR 677C>T reduzem a eficiência do ciclo dos carbonos e aumentam a demanda de folato da gestante; anticorpos contra o receptor de folato alfa também já foram implicados em parte dos casos. O quadro completo é multifatorial: herança poligênica somada a fatores ambientais, com contribuição mendeliana pontual (síndrome de Meckel, trissomias 13 e 18).
| Fator de risco | Efeito sobre o risco de DTN |
|---|---|
| Déficit periconcepcional de folato | Fator modificável central; base da prevenção universal com ácido fólico |
| Valproato no 1º trimestre | Risco absoluto de 1 a 2%, cerca de 10 a 20 vezes o basal; o mais teratogênico dos anticonvulsivantes para DTN |
| Diabetes materna pré-gestacional mal controlada | Risco cerca de 2 a 4 vezes maior, ligado à hiperglicemia periconcepcional |
| Obesidade materna (IMC 30 ou mais) | Risco aproximadamente dobrado, independente dos níveis de folato |
| Hipertermia no 1º trimestre (febre alta, sauna, banho muito quente) | Risco cerca de 2 vezes maior na janela de fechamento |
| História prévia de filho com DTN | Recorrência basal de 3 a 5%, que cai para cerca de 1% com 4 mg/dia de folato |
A divisão que organiza todo o raciocínio clínico é entre DTN abertos, com exposição de tecido neural e elevação da alfafetoproteína (a grande maioria, 80 a 90% dos casos), e DTN fechados, com pele íntegra e alfafetoproteína normal. Cada defeito corresponde ao ponto do fechamento que falhou.
| Defeito | Origem embriológica | Frequência e prognóstico |
|---|---|---|
| Anencefalia (acrania com raquisquise) | Falha do fechamento do neuroporo anterior | Letal em 100%; a maioria evolui com óbito fetal, abortamento ou morte neonatal imediata |
| Craniorraquisquise total | Falha de todo o fechamento primário | Rara e incompatível com a vida |
| Encefalocele (cerca de 75% occipital) | Fechamento parcial da porção cefálica | Sobrevida em torno da metade dos casos; deficiência intelectual e visual frequentes |
| Mielomeningocele | Falha do fechamento do neuroporo posterior, cerca de 80% lombossacra | Mais comum dos DTN abertos entre nascidos vivos; não letal, com déficit motor, sensitivo e esfincteriano variável |
| Meningocele | Hérnia de meninges sem tecido neural dentro do saco | Menos comum; prognóstico motor em geral favorável quando isolada |
| Espinha bífida oculta | Falha de fusão apenas dos arcos vertebrais posteriores (S1) | Presente em 10 a 20% da população; usualmente assintomática, com sinais cutâneos e alfafetoproteína normal |
Quase toda mielomeningocele associa-se à malformação de Chiari II: herniação de vermis, tronco encefálico e quarto ventrículo pelo forame magno, atribuída à perda do efeito de pressão do líquor que empurra essas estruturas. O desfecho neurológico tem, portanto, dois componentes somados: a lesão medular no nível do defeito e a tríade Chiari II, hidrocefalia e siringomielia.
A prevalência varia fortemente com geografia e ingestão de folato: regiões do norte da China, norte do México e partes do Reino Unido historicamente registraram taxas de até 5 a 6 por 1.000, enquanto os Estados Unidos, após a fortificação obrigatória dos cereais a partir de 1998, estabilizaram cerca de 0,3 a 0,5 caso por 1.000 nascimentos. No Brasil, a fortificação obrigatória das farinhas de trigo e milho com 150 microgramas de ácido fólico por 100 g de farinha, definida pela RDC 344/2002 da ANVISA, vigora desde junho de 2004; estudos brasileiros e da rede ECLAMC registraram queda subsequente na faixa de 30 a 40% na prevalência de anencefalia e espinha bífida. Persistem taxas maiores no Norte e Nordeste e problemas de subnotificação, já que partos de anencéfalos e interrupções não entram nas estatísticas de nascidos vivos.
O rastreamento pré-natal ampliou o diagnóstico no primeiro e segundo trimestres. No Brasil, a interrupção da gestação de feto anencéfalo é permitida desde a decisão do STF em 2012 (ADPF 54); para a mielomeningocele, o diagnóstico antecipado abriu caminho à cirurgia fetal em centros de referência.
Anencefalia: ausência de calota craniana e de hemisférios cerebrais, com massa neural exposta coberta por membrana. A ausência de hipotálamo explica as suprarrenais hipoplásicas (falta o efeito trófico hipotalâmico) e o polidrâmnio (alteração da deglutição fetal). É letal. Encefalocele: saco protruso, occipital em cerca de 75% dos casos, contendo meninges e tecido neural; microcefalia, deficiência intelectual e alterações visuais dependem do conteúdo e do tamanho.
Mielomeningocele: placa neural exposta ou saco translúcido na coluna lombossacra. O nível neurológico define o prognóstico motor: lesões torácicas e acima de L3 comprometem a marcha de forma definitiva (cadeira de rodas); lesões entre L3 e L4 permitem marcha com órteses longas e muletas; lesões sacrais baixas permitem marcha comunitária, mantendo como principal sequela a disfunção esfincteriana. Bexiga neurogênica acomete mais de 90% dos pacientes, com risco de uropatia obstrutiva e insuficiência renal se não tratada. Pé torto congênito e luxação do quadril decorrem do desequilíbrio muscular. Hidrocefalia sintomática aparece em 80 a 85% dos casos com reparo pós-natal. Chiari II sintomático no recém-nascido é emergência: estridor inspiratório, apneia, disfagia, engasgo e choro fraco por disfunção de tronco.
Espinha bífida oculta: mancha, tufo de pelos, fosseta, lipoma ou hemangioma na região lombossacra; a maioria permanece assintomática, mas sintomas tardios por medula ancorada (dor lombar, piora progressiva da marcha, escoliose, disfunção esfincteriana) indicam investigação com ressonância.
A triagem bioquímica usa a alfafetoproteína sérica materna (MSAFP) entre 15 e 20 semanas de gestação; valores acima de 2,0 a 2,5 múltiplos da mediana (MoM) sugerem defeito aberto. A pesquisa de acetilcolinesterase no líquido amniótico, combinada com a AFP amniótica, eleva a sensibilidade para DTN aberto acima de 95%. O ultrassom é o método confirmatório: na anencefalia, ausência de calota e de tecido cerebral acima das órbitas, com proptose ocular característica; na espinha bífida aberta, os sinais indiretos de Chiari II são o sinal do limão (escavação dos ossos frontais) e o sinal da banana (cerebelo achatado e curvado ao redor do tronco), além de ventriculomegalia e do defeito vertebral em U aberto nos cortes transversos. A sensibilidade do ultrassom ultrapassa 95% para anencefalia e fica entre 80 e 95% para espinha bífida em centros experientes; a ressonância fetal complementa a avaliação do posterior fossa e do nível da lesão.
| Causa de MSAFP elevada | Mecanismo |
|---|---|
| DTN aberto (anencefalia, mielomeningocele) | Passagem de AFP fetal pela superfície neural e vasos expostos |
| Defeitos de parede abdominal (gastrosquise, onfalocele) | Exposição de superfície peritoneal e vasos à AFP |
| Teratoma sacrococcígeo | Tumor vascular rico em produção de AFP |
| Gestação múltipla | Soma das fontes fetais de AFP |
| Óbito fetal e descolamento placentário | Liberação maciça de AFP para o líquido amniótico |
| Erro de datação gestacional | Idade gestacional subestimada faz o valor parecer elevado |
| Nefropatia obstrutiva e hidropsia fetal | Alterações de permeabilidade e superfícies de troca |
| Situação | Esquema recomendado |
|---|---|
| Toda mulher em idade reprodutiva | 400 microgramas/dia, de forma contínua quando há possibilidade de gravidez |
| Planejamento de gravidez na população geral | 400 a 800 microgramas/dia, de 1 a 3 meses antes da concepção até o fim do 1º trimestre |
| Filho prévio com DTN | 4 mg/dia, de 1 a 3 meses antes da concepção até o 3º mês de gestação; redução de recorrência de 72% |
| Diabetes pré-gestacional ou uso de anticonvulsivantes | 4 a 5 mg/dia periconcepcional, pelo risco basal aumentado |
| População brasileira (medida coletiva) | Fortificação obrigatória das farinhas de trigo e milho com 150 µg de ácido fólico por 100 g, desde junho de 2004 |
O Management of Myelomeningocele Study (MOMS, NEJM 2011) randomizou cirurgia fetal entre 19 e 26 semanas contra correção pós-natal padrão. A derivação ventriculoperitoneal até os 12 meses caiu de 82% para 40%; a herniação de tronco (Chiari II) regrediu na ressonância; aos 30 meses, 42% das crianças operadas in útero deambulavam independentes contra 21% do grupo pós-natal. O preço foi significativo: nascimento em média com 34,1 semanas contra 37,3, mais ruptura prematura, olidrâmnio e risco de deiscência uterina em torno de 10%, o que obriga cesárea em todas as gestações futuras. Critérios de seleção tipo MOMS: idade gestacional entre 19 e 26 semanas, lesão aberta com herniação de tronco à ressonância, ausência de outras anomalias fetais e critérios maternos que excluem obesidade mórbida e cicatrizes uteranas prévias incompatíveis com histerotomia.
O seguimento é dominado por complicações previsíveis: hidrocefalia e infecções de derivação, Chiari II sintomático, siringomielia, medula ancorada tardia (nova queixa de marcha, dor ou esfincteres), fraturas por osteopenia e imobilidade, escaras, infecções urinárias de repetição e nefropatia (historicamente a principal causa de morte tardia), alergia ao látex, obesidade e dor crônica. A cognição da maioria fica na média, com pior desempenho em funções executivas e aritmética, agravado por hidrocefalia grave, infecções de shunt e prematuridade. A deambulação segue o nível neurológico: acima de L3, cadeira de rodas; entre L3 e L4, órteses e muletas; lesões sacrais baixas, marcha comunitária. Com acesso a equipe multidisciplinar, a sobrevida na infância supera 90%, e o desafio atual é a transição do cuidado para a vida adulta.
1.O neuroporo anterior fecha-se por volta de qual dia pós-fertilização?
2.Recém-nascido com lesão lombossacra exposta contendo placa neural, déficit motor e sensitivo abaixo da lesão e bexiga neurogênica. O diagnóstico é:
3.A dosagem de alfafetoproteína sérica materna para rastreamento de DTN é realizada entre quais semanas?
4.O sinal do banana no ultrassom fetal indica:
5.Gestante que já teve um filho com mielomeningocele planeja nova gravidez. Qual conduta preventiva é correta?
6.Qual foi o principal desfecho de redução da cirurgia fetal no trial MOMS (2011)?
7.Sobre a espinha bífida oculta, é correto afirmar:
8.Qual anticonvulsivante tem a maior associação com defeitos do tubo neural?
9.Neonato com mielomeningocele desenvolve estridor inspiratório, episódios de apneia e disfagia. A complicação é:
10.Criança com mielomeningocele cujo nível neurológico da lesão é L1-L2. Qual a expectativa de deambulação?
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