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Revisão completa das reações cutâneas adversas a medicamentos: classificação morfológica e cronológica, drogas de alto risco e associações HLA, fisiopatologia imunológica de SSJ/NET, DRESS e PEAG, diagnóstico com SCORTEN e RegiSCAR, diferencial com SSSS e eritema multiforme, e tratamento com suspensão da droga, suporte intensivo e imunomoduladores.
[1] Svensson CK, Cowen EW, Gaspari AA. Cutaneous drug reactions. Pharmacological Reviews. 2001;53(3):357-379 · PMID 11546834 | [2] Mockenhaupt M, Viboud C, Dunant A, et al. Stevens-Johnson syndrome and toxic epidermal necrolysis: assessment of medication risks with emphasis on recently marketed drugs. The EuroSCAR-study. J Invest Dermatol. 2008;128(1):35-44 · DOI 10.1038/sj.jid.5701033 · PMID 17805350 | [3] Bastuji-Garin S, Fouchard N, Bertocchi M, et al. SCORTEN: a severity-of-illness score for toxic epidermal necrolysis. J Invest Dermatol. 2000;115(2):149-153 · DOI 10.1046/j.1523-1747.2000.00061.x · PMID 10886507 | [4] Lerch M, Mainetti C, Beretta-Piccoli BT, Harr T. Current perspectives on Stevens-Johnson syndrome and toxic epidermal necrolysis. Clin Rev Allergy Immunol. 2018;54(1) · DOI 10.1007/s12016-018-8698-6 | [5] Habif TP. Clinical Dermatology: A Color Guide to Diagnosis and Therapy. 7th ed. Elsevier; 2021 · DOI 10.1038/sj.jid.5701033
Farmacodermias são reações cutâneas adversas a medicamentos, e a pele é o órgão mais acometido por eventos adversos a fármacos: cerca de 2% a 3% dos pacientes hospitalizados desenvolvem alguma manifestação cutânea medicamentosa, e as reações cutâneas respondem por parcela substancial de todas as notificações em farmacovigilância. A maioria é benigna e autolimitada — o exantema maculopapuloso e a urticária somam mais de dois terços dos casos —, mas as síndromes cutâneas adversas graves (SCAR), como necrólise epidérmica tóxica (NET), síndrome de Stevens-Johnson (SSJ), DRESS e pustulose exantemática aguda generalizada (PEAG), cursam com mortalidade de 5% a 30% e exigem reconhecimento em horas. Para a prova, o aluno precisa dominar três eixos: a cronologia de aparecimento das lesões, a morfologia que diferencia cada síndrome e a lista das drogas de alto risco associadas a cada quadro.
Farmacodermia é qualquer reação cutânea ou mucocutânea nociva e não intencional provocada por um fármaco em doses habituais de uso diagnóstico, profilático ou terapêutico, incluindo medicamentos isentos de prescrição, fitoterápicos, contrastes e vacinas. Classificam-se em reações tipo A (farmacológicas, previsíveis, dose-dependentes, correspondem a cerca de 80% dos eventos, como xerose por retinoides) e tipo B (hipersensibilidade, imprevisíveis, independentes de dose, incluem as SCAR). O tipo B subdivide-se em alérgicas imunomediadas (mediadas por IgE ou por linfócitos T) e pseudoalérgicas (ativação direta de mastócitos, sem IgE, como ocorre com opioides, AINEs e contrastes). Para a clínica, porém, a classificação mais útil é a morfológica, orientada pelo padrão da lesão elementar e pelo tempo entre exposição e surgimento.
Farmacodermias predominam em mulheres (razão de aproximadamente 1,5:1), em adultos e nos contextos de polifarmácia, infecção por HIV, lúpus eritematoso sistêmico, mononucleose e outros estados de ativação imune — a clássica erupção em paciente com mononucleose tratado com amoxicilina é o exemplo didático de interação droga-vírus. Os grupos farmacológicos mais implicados globalmente são antibióticos (betalactâmicos, sulfonamidas), AINEs, anticonvulsivantes aromáticos, alopurinol e antirretrovirais. O estudo EuroSCAR, maior caso-controle populacional sobre SSJ/NET, demonstrou que o risco concentra-se em poucas classes: alopurinol (a droga isolada mais frequentemente implicada na Europa), carbamazepina, fenitoína, fenobarbital, sulfametoxazol-trimetoprima, AINEs do grupo dos oxicans (piroxicam), nevirapina e lamotrigina, com riscos aumentados em dezenas a centenas de vezes em relação a não expostos, enquanto betalactâmicos de uso corrente, apesar de frequentes, mostraram risco baixo. No Brasil, as farmacodermias graves devem ser notificadas ao sistema de farmacovigilância da Anvisa (VigiMed, antigo Notivisa), o que ainda é marcadamente subutilizado.
| Droga ou classe | Síndrome classicamente associada | Ponto-chave para a prova |
|---|---|---|
| Alopurinol | SSJ/NET e DRESS | Risco maior com doses acima de 200 mg/dia e na doença renal; associado a HLA-B*58:01 |
| Carbamazepina | SSJ/NET | HLA-B*15:02 em asiáticos: rastreio genético recomendado antes de prescrever |
| Sulfametoxazol-trimetoprima | SSJ/NET e DRESS | Drogas implicadas com frequência em pacientes com HIV |
| Fenitoína e fenobarbital | SSJ/NET e DRESS | Anticonvulsivantes aromáticos com reatividade cruzada descrita entre si e com oxcarbazepina |
| Oxicans (piroxicam) e outros AINEs | SSJ/NET e eritema fixo | Dipirona e nimesulida são causas frequentes no Brasil |
| Betalactâmicos | Exantema maculopapuloso, urticária, DRESS | Amoxicilina é a droga isolada mais implicada em exantemas na comunidade |
| Vancomicina e minociclina | DRESS | DRESS tardio e prolongado, com eosinofilia intensa |
| Nevirapina e abacavir | SSJ/NET, DRESS e hipersensibilidade | Abacavir: rastreio de HLA-B*57:01 obrigatório antes do uso |
As reações tipo B encaixam-se na classificação de Coombs e Gell atualizada: tipo I (IgE) produz urticária e anafilaxia; tipo II (citotóxica) produz púrpura por trombocitopenia; tipo III (imunocomplexos) produz vasculite; e o tipo IV, mediado por linfócitos T, subdivide-se em IVa (Th1, dermatite de contato), IVb (eosinofílica, com IL-5, típica do DRESS), IVc (citotóxica, por linfócitos T CD8, típica de SSJ/NET e do líquen plano medicamentoso) e IVd (neutrofílica, com IL-8, típica da PEAG). Na NET, linfócitos T CD8 específicos ao fármaco infiltram a epiderme e liberam perforina e granzima B, ativam a via Fas-FasL e, sobretudo, secretam granulisina, identificada como o mediador citotóxico de maior concentração no líquido de bolha de pacientes com NET — nome cobrado literalmente em provas. A apresentação antigênica é restrita por HLA, o que explica as associações farmacogenéticas clássicas.
No DRESS, a combinação de predisposição genética, metabolismo lentificado do fármaco (deficiência de epóxido hidroxilase nos anticonvulsivantes aromáticos) e reativação de herpesvírus — classicamente HHV-6, mas também HHV-7, EBV e CMV — gera uma resposta T desordenada, com eosinofilia, linfócitos atípicos e falência orgânica, semelhante a uma doença do enxerto contra o hospedeiro. Na PEAG, linfócitos T CD4 específicos ao fármaco secretam IL-8 (CXCL8) e GM-CSF, que recrutam neutrófilos para as pústulas estéreis. O eritema fixo é uma reação de memória de linfócitos T CD8 residentes na pele previamente afetada, o que explica a recorrência no mesmo sítio em 24 a 48 horas.
O espectro SSJ/NET inicia com pródromo febril e sintomas gripais por 1 a 3 dias, seguido de dor ou queimação cutânea (sintoma valioso e frequentemente negligenciado), máculas-alvo atípicas (duas zonas, sem anel central edemaciado) em face e tronco, evoluindo para eritema confluente, bolhas flácidas e descolamento em lençol, com sinal de Nikolsky positivo. Mucosas são acometidas em mais de 90% dos casos, em pelo menos dois sítios (oral, ocular, genital, anal). A gravidade classifica-se pela porcentagem de superfície corporal (SC) com descolamento: SSJ quando menor que 10%, forma de sobreposição SSJ/NET entre 10% e 30%, e NET quando maior que 30%. No DRESS, a febre alta (38 a 40 °C) antecede o exantema morbiliforme que se torna infiltrado e edematoso, com edema facial, linfadenopatia generalizada, eosinofilia (frequentemente acima de 1.500/mm3) e linfócitos atípicos; o fígado é o órgão mais acometido (transaminases acima de duas vezes o limite), seguindo-se rim, pulmão intersticial, coração (miocardite rara, porém letal) e sistema nervoso central. Na PEAG, o quadro é abrupto: pústulas não foliculares disseminadas com acentuação em flexuras e região genital, febre e queimação, com mucosas poupadas ou apenas erosão oral leve e descamação em folhas de papel à resolução, em 1 a 2 semanas após a suspensão da droga.
| Característica | PEAG | DRESS | SSJ/NET |
|---|---|---|---|
| Latência típica | 24-48 horas (às vezes horas) | 2-8 semanas | 4-28 dias |
| Lesão elementar | Pústulas estéreis não foliculares em placa edematosa | Exantema morbiliforme infiltrado e edematoso | Alvo atípico, bolhas flácidas e descolamento |
| Mucosas | Poupadas ou erosão oral leve | Poupadas na maioria dos casos | Acometidas em mais de 90% (dois ou mais sítios) |
| Sinal de Nikolsky | Negativo | Negativo | Positivo |
| Hemograma | Neutrofilia com desvio à esquerda; eosinofilia em um terço | Eosinofilia (maior ou igual a 700/mm3) e linfócitos atípicos | Normal, neutropenia ou anemia |
| Órgãos internos | Raramente acometidos | Hepatite na maioria; rim, pulmão, coração e SNC | Enzimas elevadas em 30-50%; insuficiência renal e pulmonar |
| Febre | 38-39 °C desde o início | 38-40 °C, dias a semanas | Pródromo febril em quase todos |
| Mortalidade | Cerca de 5% | 5-10% | 10-30% conforme SCORTEN |
O diagnóstico de farmacodermia é clínico-cronológico: exige a lista completa de todas as substâncias ingeridas (incluindo isentos de prescrição, fitoterápicos e drogas de uso ocasional), com datas de início e suspensão, correlacionadas ao surgimento das lesões. A probabilidade causal aumenta quando a droga foi introduzida na janela típica da síndrome, quando há melhora após a suspensão e quando a lesão é morfologicamente compatível; o escore ALDEN (Algorithm of Drug Causality for Epidermal Necrolysis) formaliza essa avaliação para SSJ/NET. A biópsia de pele confirma o padrão: necrose de queratinócitos em toda a espessura da epiderme na NET; infiltrado linfocitário perivascular com eosinófilos no DRESS; pústulas subcórneas com neutrófilos na PEAG. Exames de suporte incluem hemograma com contagem diferencial (eosinofilia), transaminases, ureia e creatinina, glicemia, eletrólitos, gasometria, hemoculturas quando há febre e sepse no diferencial, sorologias para HHV-6/EBV/CMV no DRESS e avaliação oftalmológica obrigatória na NET.
| SCORTEN na admissão | Mortalidade esperada (aproximada) |
|---|---|
| 0-1 ponto | 3% |
| 2 pontos | 12% |
| 3 pontos | 35% |
| 4 pontos | 58% |
| 5 ou mais pontos | 90% |
O SCORTEN deve ser calculado na admissão e repetido no terceiro dia (quem pontua 2 ou mais deve ser manejado em ambiente intensivo). Para o DRESS, o escore de validação RegiSCAR classifica o caso como possível, provável ou definido a partir de hospitalização, reação suspeita de DRESS, febre acima de 38 °C, linfadenopatia, envolvimento de pelo menos um órgão interno, eosinofilia de pelo menos 700/mm3 (ou 10% se leucopenia) e exclusão de alternativas; corticoides tópicos prévios e outros achados ajustam a pontuação. O diagnóstico diferencial das SCAR inclui a síndrome da pele escaldada estafilocócica (SSSS), o eritema multiforme major, o exantema viral, a psoríase pustulosa generalizada, a mononucleose com exantema por amoxicilina, a doença do enxerto contra o hospedeiro e o penfigoide bolhoso na apresentação em pessoa idosa.
| Característica | SSJ/NET | SSSS (Staphylococcus aureus) | Eritema multiforme major |
|---|---|---|---|
| Etiologia | Droga (mais de 85% dos casos) | Toxina esfolativa do S. aureus (fago grupo II) | Herpes simplex na maioria; droga é causa rara |
| Idade típica | Adultos, qualquer idade | Lactentes e crianças, geralmente menores de 6 anos | Jovens, com recorrências |
| Mucosas | Duas ou mais, intensamente acometidas | Poupadas (crostas apenas periorais) | Oral frequente; ocular raro |
| Lesão elementar | Alvo atípico, bolha flácida, descolamento difuso | Eritema doloroso difuso com pele em papel de seda | Alvo clássico de três zonas, acral e simétrico |
| Sinal de Nikolsky | Positivo | Positivo | Negativo |
| Histologia | Necrose epidérmica em toda a espessura | Clivagem subcórnea, superficial | Necrose focal de queratinócitos na junção dermoepidérmica |
O passo universal é a suspensão imediata da droga suspeita — na NET, cada dia de exposição contínua aumenta a mortalidade — seguida de substituição por fármaco de classe diferente quando a terapêutica for indispensável, e do registro do evento no prontuário e no sistema de notificação. As SCAR são emergências: SSJ/NET com SCORTEN maior ou igual a 2, DRESS com disfunção orgânica e PEAG extensa exigem hospitalização, e a NET deve ser manejada em unidade de queimados ou terapia intensiva, com equipe multidisciplinar (dermatologia, oftalmologia, ginecologia/urologia, nutrologia e cirurgia).
Imunomodulação: no DRESS com acometimento visceral, corticoide sistêmico é o padrão — prednisona 0,5 a 1 mg/kg/dia por via oral (ou metilprednisolona equivalente intravenosa no paciente grave), com desmame lento ao longo de 8 a 12 semanas, pois a redução rápida associa-se a recaídas, às vezes em salva; casos refratários podem receber ciclosporina, imunoglobulina intravenosa ou plasmaférese, com evidência limitada. Na NET, nenhuma terapia imunomoduladora comprovou redução de mortalidade em ensaios randomizados robustos: corticoides sistêmicos em dose moderada iniciados precocemente (nas primeiras 24 a 72 horas, quando a doença ainda está em progressão) e ciclosporina oral (3 a 5 mg/kg/dia, com ajuste renal) são usados com base em evidência observacional crescente; a imunoglobulina intravenosa (historicamente 1 a 3 g/kg, divididos em 3 a 5 dias) perdeu força após estudos negativos e deve ser considerada apenas em protocolos e casos selecionados. Na PEAG, o manejo é basicamente de suporte, com suspensão da droga, curativos e corticoide tópico; corticoide sistêmico reserva-se a formas com falência orgânica. O eritema fixo resolve com a suspensão do fármaco. Após uma SCAR, a reintrodução da droga causadora é contraindicada, e dessensibilização não deve ser realizada; protocolos de dessensibilização existem apenas para drogas essenciais sem substituição em pacientes com reações não graves (por exemplo, sulfonamidas em HIV, alopurinol com teste de provocação lenta).
Os sobreviventes da NET apresentam sequelas frequentes e incapacitantes: oculares em 40% a 50% (xeroftalmia, fotofobia, simbléfaro, ceratite e opacidade corneana, com risco de cegueira), cutâneas (cicatrizes hipocrômicas, distrofia ungueal e onicomadese), mucosas (estenoses faríngea, esofágica, uretral e vaginal, sinequias labiais) e respiratórias (bronquiolite obliterante e distúrbio ventilatório restritivo em parcela substancial dos sobreviventes), além de sequelas psiquiátricas como depressão e estresse pós-traumático. O DRESS pode recair durante o desmame do corticoide e associa-se, meses depois, a doenças autoimunes — tireoidite, diabetes tipo 1, lúpus-like e alopecia areata —, fenômeno atribuído à desregulação imune e à reativação viral. A PEAG cursa com resolução completa na maioria. Os determinantes do prognóstico são o tempo até a suspensão da droga, o SCORTEN, a idade e as comorbidades; o seguimento deve ser prolongado e multidisciplinar, com oftalmologia em todos os casos de NET.
1.Qual é a manifestação morfológica mais frequente entre as farmacodermias?
2.Paciente em uso de alopurinol há 5 semanas apresenta febre, exantema infiltrado, linfadenopatia, eosinofilia de 2.200/mm3 e TGO 4 vezes o limite. Qual o diagnóstico mais provável?
3.A classificação de gravidade entre SSJ, forma de sobreposição e NET baseia-se em qual parâmetro?
4.Qual dos itens a seguir NÃO faz parte do SCORTEN?
5.A associação entre HLA-B*58:01 e risco de SSJ/NET refere-se a qual fármaco?
6.Qual molécula é identificada como o principal mediador citotóxico da apoptose de queratinócitos na necrólise epidérmica tóxica?
7.Qual achado diferencia a PEAG da necrólise epidérmica tóxica?
8.Em relação ao tratamento da NET, qual conduta é correta?
9.Paciente apresenta, a cada uso de dipirona, placa arroxeada bolhosa recorrente no mesmo sítio do lábio, surgindo em 24-48 horas. Qual o diagnóstico?
10.Lactente de 8 meses com febre e eritema difuso doloroso, pele em papel de seda e crostas periorais, sem acometimento de mucosas. Qual o diagnóstico mais provável?
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