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Revisão completa do idoso multimórbido: definição, epidemiologia brasileira (PNS 2019), fisiologia do envelhecimento, Avaliação Geriátrica Ampla com instrumentos e pontos de corte (Katz, Lawton, MEEM, TUG, Fried), apresentações atípicas, prescrição segura com critérios de Beers 2023 e STOPP/START v3, deprescrição e direitos do idoso no Estatuto do Idoso.
[1] NICE. Multimorbidity: assessment, optimisation and management. Clinical guideline NG56. Londres: National Institute for Health and Care Excellence. 2016 (atualizada 2021). nice.org.uk/guidance/ng56 | [2] 2023 American Geriatrics Society Beers Criteria Update Expert Panel. American Geriatrics Society 2023 updated AGS Beers Criteria for potentially inappropriate medication use in older adults. J Am Geriatr Soc. 2023;71(7):2052-2081 · DOI 10.1111/jgs.18372 | [3] O'Mahony D et al. STOPP/START criteria for potentially inappropriate prescribing in older people: version 3. Eur Geriatr Med. 2023;14(4):625-632 · DOI 10.1007/s41999-023-00777-y | [4] Fried LP et al. Frailty in older adults: evidence for a phenotype. J Gerontol A Biol Sci Med Sci. 2001;56(3):M146-M156 · PMID 11253156 | [5] Brasil. Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. Estatuto do Idoso. Diário Oficial da União · planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.741.htm | [6] IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde 2019. Rio de Janeiro: IBGE. 2020 · DOI 10.1111/jgs.18372
O Brasil envelhece em ritmo acelerado: o Censo 2022 contabilizou 10,9% da população com 65 anos ou mais (cerca de 22 milhões de pessoas) e em torno de 15% com 60 anos ou mais, transição que transformou o idoso com várias doenças crônicas no paciente padrão da clínica médica. O paradoxo central é que cada diretriz de doença isolada, aplicada ao mesmo tempo a quem tem cinco ou seis condições, produz metas incompatíveis, interações medicamentosas e iatrogenia. Este artigo organiza o que a prova cobra: conceito e classificação de multimorbidade, números brasileiros, fisiologia do envelhecimento que muda a farmacocinética, Avaliação Geriátrica Ampla com instrumentos e pontos de corte, apresentações atípicas, prescrição segura com Beers 2023 e STOPP/START versão 3, deprescrição passo a passo e os direitos garantidos pelo Estatuto do Idoso.
Multimorbidade é a coexistência de duas ou mais condições crônicas de saúde na mesma pessoa, incluindo, na definição da NICE, doenças crônicas, fatores de risco (hipertensão, dislipidemia) e sintomas persistentes (dor crônica, insônia). Difere do termo comorbidade porque este pressupõe uma doença-índice de referência, enquanto a multimorbidade aborda a pessoa como um todo. Não se trata apenas de contar doenças: importam os agrupamentos (clusters), com destaque para o par cardiometabólico (hipertensão, diabetes, dislipidemia, obesidade, doença renal) e para a associação entre condição física e mental (depressão-dor, depressão-doença cardiovascular), que piora desfechos de forma desproporcional.
Na Pesquisa Nacional de Saúde 2019, mais da metade dos idosos brasileiros — estimativas entre 53% e 58%, conforme o critério — referiu duas ou mais doenças crônicas, com prevalência maior em mulheres, nos mais velhos e nos com obesidade. Entre os adultos de todas as idades, cerca de 1 em cada 4 brasileiros já apresenta multimorbidade, e praticamente 80% dos idosos têm pelo menos uma doença crônica. A polifarmácia acompanha essa carga: estudos brasileiros e internacionais encontram de 25% a 40% de idosos comunitários usando cinco ou mais medicamentos, proporção que ultrapassa a metade entre hospitalizados e institucionalizados. Cerca de 30% das pessoas com 65 anos ou mais caem ao ano, e quedas recorrentes dobram esse risco de lesão grave, o que faz do idoso multimórbido o principal alvo de internações evitáveis.
O conceito unificador é a homeostenose: redução progressiva da reserva funcional de todos os sistemas, que mantém o idoso estável em repouso mas perde a capacidade de responder a agressões. Destacam-se a sarcopenia (perda de 1% a 2% da massa muscular ao ano a partir dos 50 anos, acelerada por imobilidade e inflamação), o inflammaging (elevação basal de IL-6, TNF-alfa e proteína C reativa que sustenta caquexia subclínica, anemia e osteopenia) e a imunossenescência (redução da imunidade vigilante, com reativação de herpes zoster e resposta vacinal menor). A velocidade de marcha abaixo de 0,8 m/s é marcador prático de sarcopenia e fragilidade no consultório.
Para a prescrição, o que cai em prova é a farmacocinética do idoso: a água corporal total diminui e a gordura relativa aumenta, elevando o volume de distribuição e a meia-vida de lipofílicos (diazepam acumula); a albumina reduzida aumenta a fração livre de drogas altamente ligadas (fenitoína, varfarina); o fluxo hepático e a capacidade metabólica caem (primeira passagem menor, biodisponibilidade maior de nitratos e betabloqueadores lipofílicos); e a taxa de filtração glomerular declina cerca de 1 mL/min/ano após os 40 anos, o que exige estimar o clearance (Cockcroft-Gault ou CKD-EPI) antes de dosear qualquer droga de eliminação renal. A creatinina engana: com menos massa muscular, o idoso pode ter creatinina normal com TFG francamente reduzida. Somam-se barorreflexo atenuado (hipotensão ortostática e quedas), termorregulação precária (infecção sem febre) e redução da sede, favorendo desidratação e delirium.
A Avaliação Geriátrica Ampla (AGA) é a ferramenta diagnóstica central do idoso multimórbido: avaliação multidimensional (função, cognição, humor, marcha e equilíbrio, nutrição, medicações, ambiente social e rede de apoio) executada por equipe interdisciplinar e convertida em plano de cuidado. Em idosos hospitalizados, unidades de AGA reduzem delirium, institucionalização e mortalidade funcional — evidência que a torna obrigatória em vez de opcional.
| Domínio | Instrumento | Ponto de corte e interpretação |
|---|---|---|
| Atividades básicas de vida diária (AVD) | Índice de Katz | 0 a 6 pontos; avalia banhar-se, vestir-se, usar o banheiro, transferir-se, continência e alimentar-se; escore baixo define dependência básica |
| Atividades instrumentais (AIVD) | Escala de Lawton | 0 a 7 pontos (versões brasileiras adaptadas para homens avaliam 5 domínios); telefone, transporte, compras, culinária, tarefas domésticas, medicamentos e finanças; perda precoce em demências |
| Cognição | Mini Exame do Estado Mental (MEEM) | 0 a 30; suspeita de comprometimento conforme escolaridade: analfabetos abaixo de 20; 1 a 4 anos abaixo de 25; 5 a 8 anos abaixo de 26,5; 9 anos ou mais abaixo de 28 (critérios de Bertolucci) |
| Cognição (rastreio rápido) | Mini-Cog | Memorização de 3 palavras e teste do relógio; sugere demência quando evoca menos de 3 palavras com relógio anormal |
| Marcha e equilíbrio | Timed Up and Go (TUG) | 13,5 segundos ou mais indica risco aumentado de quedas, com sensibilidade de cerca de 80% |
| Fragilidade | Fenótipo de Fried | 3 ou mais de 5 critérios definem fragilidade: perda de peso não intencional (4,5 kg ou 5% ao ano), exaustão, fraqueza de preensão palmar, lentidão da marcha e baixa atividade física; 1 a 2 critérios definem pré-fragilidade |
| Humor | Escala de Depressão Geriátrica (GDS-15) | 6 pontos ou mais sugere depressão, com sensibilidade em torno de 80%; primeira escolha de rastreio no idoso |
| Nutrição | Mini Avaliação Nutricional (MNA) | 24 a 30 normal; 17 a 23,5 em risco; abaixo de 17 desnutrição |
No idoso multimórbido, as doenças agudas se apresentam por descompensação global, e não por síndromes clássicas. A regra prática: febre pode faltar, a dor pode faltar e o delirium é a febre do idoso — sinal inespecífico de quase qualquer agressão. Diante de confusão aguda, a causa é frequentemente uma combinação de gatilhos (infecção, drogas anticolinérgicas, retenção urinária ou fecal, dor, privação de sono, privação sensorial) sobre um cérebro vulnerável.
| Condição | Apresentação clássica no adulto jovem | Apresentação atípica no idoso |
|---|---|---|
| Pneumonia | Febre alta, tosse produtiva, dor torácica | Afebril, confusão aguda, queda, inapetência, taquipneia isolada |
| Infarto agudo do miocárdio | Dor precordial em aperto | Dispneia, sudorese, síncope, confusão, dor epigástrica ou ausência de dor |
| Infecção do trato urinário | Disúria, febre, dor lombar | Delirium, incontinência nova, queda, anorexia sem febre |
| Hipertireoidismo | Perda de peso, taquicardia, intolerância ao calor | Forma apática: letargia, depressão, fibrilação atrial, insuficiência cardíaca |
| Depressão | Humor deprimido referido espontaneamente | Queixas cognitivas (pseudodemência), somatizações, apatia e recusa alimentar |
| Abdômen agudo | Dor intensa com sinais peritoneais | Dor discrepa ou ausente com desconforto vago, constipação e confusão |
O delirium se rastreia com o método CAM (Confusion Assessment Method): 1) início agudo e curso flutuante; 2) desatenção; 3) pensamento desorganizado; 4) alteração do nível de consciência. O diagnóstico exige os itens 1 e 2, mais 3 ou 4. Depois de controlar gatilhos, o tratamento é predominantemente não farmacológico: reorientação, relógio e calendário, óculos e aparelhos auditivos, mobilização precoce, sono protegido e presença familiar — antipsicóticos ficam reservados a agitação grave com risco para o paciente, na menor dose e pelo menor tempo possível.
O diagnóstico do idoso multimórbido não termina na lista de doenças: quantifica-se a carga de tratamento (número de medicamentos, complexidade de esquemas, frequência de consultas e exames, tempo dedicado a autocuidado) e o seu impacto na adesão e na vida diária. A diretriz NICE NG56 estabelece quando abandonar a soma de diretrizes isoladas e adotar a abordagem de multimorbidade.
Duas referências organizam o tema: os critérios de Beers da American Geriatrics Society (atualização 2023) e os critérios STOPP/START em sua versão 3 (2023), que reúnem 190 critérios (133 STOPP, medicamentos a suspender, e 57 START, omissões a corrigir). Medicamento potencialmente inapropriado é aquele cujo risco supera o benefício naquele contexto clínico — não é proibição absoluta, é alerta contextualizado.
| Medicamento ou classe | Risco no idoso | Conduta prática |
|---|---|---|
| Benzodiazepínicos e hipnóticos Z | Quedas, fraturas, prejuízo cognitivo, dependência | TCC e higiene do sono; retirada gradual reduzindo cerca de 25% da dose a cada 2 a 4 semanas |
| Anticolinérgicos (amitriptilina, difenidramina, oxibutinina) | Confusão, delirium, retenção urinária, boca seca, constipação; efeito cumulativo de carga anticolinérgica | Substituir por alternativas com menor carga; revisar somatório de anticolinérgicos |
| AINEs contínuos | Sangramento digestivo, lesão renal aguda, retenção, piora de pressão e insuficiência cardíaca | Paracetamol até 3 g/dia como base analgésica; AINE em curso mínimo e com proteção gástrica |
| Glibenclamida | Hipoglicemias graves e prolongadas por metabólitos ativos | Metformina ajustada ao TFG, inibidores de DPP-4 ou sulfonilreia de ação curta conforme perfil |
| Digoxina acima de 0,125 mg/dia | Toxicidade aumenta com TFG reduzida e hipocalemia | Dose baixa com monitorização de níveis séricos e eletrólitos |
| Nitrofurantoína com TFG abaixo de 30 mL/min | Concentração urinária insuficiente e hepatotoxicidade | Escolher antimicrobiano conforme cultura e função renal |
| Antipsicóticos como sedativos de rotina | Maior risco de acidente vascular cerebral e morte; quedas | Suspender sem indicação psiquiátrica definida; medidas não farmacológicas de delirium e demência |
| Inibidor de bomba de prótons por mais de 8 semanas sem indicação | Fraturas, hipomagnesemia, enterocolite por Clostridioides difficile | Reavaliar indicação e suspender ou reduzir à dose mínima eficaz |
O lado START lembra as omissões perigosas: anticoagulação em fibrilação atrial sem contraindicação, inibidor da ECA (ou sacubitril-valsartana) e betabloqueador em insuficiência cardíaca com fração reduzida, estatinas em alto risco vascular, tratamento da osteoporose após fratura por fragilidade, e ISRS em depressão não tratada. A cascata prescritiva pede a pergunta ritual do geriatra: todo sintoma novo em idoso polimedicado é efeito adverso até que se prove o contrário — o exemplo canônico é a metoclopramida que gera parkinsonismo medicamentoso, diagnosticado como doença de Parkinson e tratado com levodopa, em vez de suspender a droga causadora.
Deprescrição em 5 passos: 1) reconciliar todos os medicamentos, incluindo isentos de prescrição e fitoterápicos; 2) identificar medicamentos potencialmente inapropriados com Beers e STOPP/START e priorizar pelo risco imediato (queda, hipoglicemia, sangramento); 3) planejar retirada de um fármaco por vez, com desmame para benzodiazepínicos, antidepressivos e betabloqueadores; 4) combinar monitoramento de sintomas de retirada e de recaída; 5) reavaliar em consulta marcada e registrar o que foi suspenso e por quê.
A intervenção com melhor evidência para prevenir quedas e fragilidade é o exercício multicomponente: ao menos 150 minutos semanais de atividade aeróbica moderada, mais treinamento de força duas vezes por semana e treinos de equilíbrio (tai chi tem evidência específica). A recomendação proteica é de 1,0 a 1,2 g/kg/dia no idoso saudável e de 1,2 a 1,5 g/kg/dia na sarcopenia, distribuída entre as refeições; a suplementação de vitamina D fica restrita à deficiência documentada, pois megadoses não previnem quedas na população geral de idosos. No controle da dor crônica, paracetamol até 3 g/dia é a base, evitando-se opioide potente e AINE contínuo. Hipertensão e diabetes têm metas individualizadas: pressão abaixo de 140/90 mmHg tolera valores mais permissivos no fragilizado, e o alvo de HbA1c no idoso frágil costuma situar-se entre 7,5% e 8,5% para evitar hipoglicemias.
O Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003) define como idosa toda pessoa com 60 anos ou mais e garante proteção integral. O médico precisa conhecer os dispositivos de saúde e serviço, porque orientar sobre direitos é parte do plano de alta e da vigilância de violência.
A trajetória típica do idoso multimórbido sem cuidado integrado é a espiral fragilidade-queda-fratura-imobilização: a fratura de fêmur por fragilidade carrega mortalidade em torno de 20% a 30% no primeiro ano e alta taxa de perda de independência. Delirium hospitalar associa-se a declínio cognitivo persistente, institucionalização e mortalidade aumentada; a polifarmácia independente da multimorbidade eleva risco de internação e mortalidade em metanálises de coortes. O prognóstico, contudo, muda com intervenção precoce: programas de AGA, revisão sistemática de medicamentos com deprescrição, exercício multicomponente e cuidado centrado em objetivos reduzem quedas, internações evitáveis e institucionalização, e melhoram a qualidade de vida. Na fragilidade avançada e na doença limitante de órgão, integra-se cuidado paliativo precoce, com planejamento antecipado de decisões e conforto como meta explícita.
Em resumo: frente ao idoso multimórbido, troque a pergunta qual doença eu trato por o que importa para este paciente. Avalie função e fragilidade com os instrumentos da AGA, limpe a receita com Beers e STOPP/START, proteja contra quedas e iatrogenia, vacine, exercite e garanta os direitos do Estatuto — nessa ordem de prioridade diária.
1.Multimorbidade é definida como:
2.O instrumento que avalia atividades instrumentais da vida diária (usar telefone, administrar medicamentos e finanças) é:
3.No Timed Up and Go (TUG), o ponto de corte associado a risco aumentado de quedas é:
4.Segundo o fenótipo de Fried, quantos dos cinco critérios definem o idoso frágil?
5.Idosa de 82 anos, analfabeta, com MEEM de 19 pontos. A interpretação correta é:
6.Nos critérios de Beers 2023, benzodiazepínicos de meia-vida longa e hipnóticos são considerados potencialmente inapropriados principalmente por:
7.Idoso em uso de metoclopramida desenvolve tremor e rigidez, e recebe diagnóstico de doença de Parkinson, iniciando-se levodopa. Este é o exemplo clássico de:
8.A sulfonilreia apontada pelos critérios de Beers como inapropriada no idoso, por causar hipoglicemias graves e prolongadas, é:
9.Segundo o Estatuto do Idoso, o paciente internado ou em observação tem direito garantido a:
10.A diretriz NICE NG56 recomenda, para o idoso com multimorbidade, que a abordagem seja:
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