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Revisão completa da desnutrição, sarcopenia e anemia na doença hepática crônica: fisiopatologia, rastreamento com RFH-NPT, alvos nutricionais com doses (30-40 kcal/kg, 1,2-1,5 g/kg de proteína, lanche noturno), mecanismos das citopenias, interpretação laboratorial e tratamento específico de cada causa de anemia.
[1] European Association for the Study of the Liver. EASL Clinical Practice Guidelines on nutrition in chronic liver disease. J Hepatol. 2019;70(1):172-193 · DOI 10.1016/j.jhep.2018.06.024 | [2] Plauth M, Bernal W, Dasarathy S, et al. ESPEN guideline on clinical nutrition in liver disease. Clin Nutr. 2019;38(1):485-521 · DOI 10.1016/j.clnu.2018.12.022 | [3] Singal AK, Wong RJ, Dasarathy S, et al. ACG Clinical Guideline: Malnutrition and Nutritional Recommendations in Liver Disease. Am J Gastroenterol. 2025;120(5):950-972 · PMID 40314389 | [4] Merli M, Riggio O, Dally L, et al. Does malnutrition affect survival in cirrhosis? PINC. Hepatology. 1996;23(5):1041-1046 · DOI 10.1002/hep.510230516 | [5] Tsochatzis EA, Bosch J, Burroughs AK. Liver cirrhosis. Lancet. 2014;383(9930):1749-1761 · DOI 10.1016/S0140-6736(14)60121-5 | [6] Lai JC, Sonnenday CJ, Tapper EB, et al. Frailty in liver transplantation: an expert opinion statement. Liver Transpl. 2019 · DOI 10.1002/lt.25583 · DOI 10.1016/j.jhep.2018.06.024
A cirrose afeta mais de 100 milhões de pessoas no mundo e é causa crescente de mortalidade prematura; no Brasil, ela responde por dezenas de milhares de internações e óbitos por ano, predominantemente por doença hepática alcoólica e esteatohepatite não alcoólica. Dois achados ubíquos e sistematicamente subtratados nesse cenário são a desnutrição proteico-calórica com sarcopenia e a anemia. Estima-se que 20% a 60% dos cirróticos compensados e até 80% a 100% dos descompensados sejam desnutridos, e a anemia acomete cerca de metade a dois terços dos pacientes com doença avançada. O estudo multicêntrico italiano PINC e suas replicações demonstraram que a desnutrição se associa a maior mortalidade independentemente do grau Child-Pugh, e a sarcopenia dobra aproximadamente o risco de óbito em lista de transplante. Para a prova, o aluno precisa dominar três eixos: como rastrear desnutrição na cirrose (e por que o peso e o IMC enganam na ascite), os alvos nutricionais com números (30-40 kcal/kg/dia e 1,2-1,5 g/kg/dia de proteína, sem restrição proteica na encefalopatia) e a interpretação da anemia por mecanismo, do ferroprivado por sangramento digestivo à anemia dilucional e às células esporuladas.
Doença hepática crônica é qualquer agressão hepática persistente (álcool, vírus, esteatose metabólica, colestases, autoimunidade, hemocromatose, doença de Wilson) capaz de evoluir para fibrose e cirrose, estágio irreversível definido por nódulos de regeneração e hipertensão portal. A cirrose se classifica em compensada (sem ascite, hemorragia digestiva ou encefalopatia; sobrevida mediana superior a 12 anos) e descompensada (sobrevida mediana de cerca de 2 anos), sendo a descompensação o momento em que desnutrição e sarcopenia se aceleram. Desnutrição, na prática hepatológica, é a perda progressiva de massa muscular e reservas associada a comprometimento funcional; sarcopenia é a perda de massa e força/qualidade muscular, e frailty (fragilidade) é a síndrome de vulnerabilidade fisiológica que englobe força de preensão, equilíbrio e desempenho. A anemia da doença hepática crônica não é uma entidade única: classifica-se pela via fisiopatológica em dilucional (hipervolemia), carencial (ferro, folato, B12), inflamatória, hemolítica, por hiperesplenismo e por depressão medular tóxica ou infecciosa, e a mesma pessoa frequentemente soma dois ou três mecanismos.
A prevalência de desnutrição varia com o método e o estágio: cerca de 20% a 60% nos cirróticos compensados e 60% a 100% nos descompensados e em candidatos a transplante. A sarcopenia por imagem (índice de massa muscular em L3) afeta de 30% a 70% dos cirróticos, com predomínio masculino (até cerca de 60% dos homens em lista de transplante), mesmo em pacientes obesos, a chamada sarcopenic obesity da esteatohepatite. A anemia está presente em aproximadamente 50% a 66% dos cirróticos avançados e a plaquetopenia é a citopenia mais frequente do hiperesplenismo. A deficiência de vitamina D ocorre em mais de 60% dos cirróticos e a de zinco é quase universal na doença avançada. No Brasil, as principais etiologias são o álcool e a doença hepática gordurosa associada a fatores metabólicos, com a hepatite C caindo progressivamente após a era da cura antiviral.
A desnutrição do cirrótico é multifatorial e segue uma cadeia lógica que cai em prova. Primeiro, a ingestão cai: anorexia por citocinas inflamatórias (TNF-alfa, IL-6), saciedade precoce pela compressão gástrica da ascite, disgeusia, náuseas, depressão e restrições dietéticas mal orientadas (incluindo a restrição proteica indevida). Segundo, o gasto energético aumenta: cerca de um terço dos cirróticos é hipermetabólico, com elevação do gasto energético de repouso mediada por inflamação, hipertensão porta e hiperdinamia circulatória. Terceiro, o metabolismo intermediário se desorganiza: as reservas de glicogênio hepático são mínimas, de modo que um jejum noturno comum já obriga o organismo a mobilizar aminoácidos musculares para gliconeogênese; compara-se metabolicamente um jejum de aproximadamente 12 horas no cirrótico a um jejum de cerca de 72 horas no indivíduo saudável. Quarto, sinais anabólicos falham: queda do IGF-1 hepático, resistência à insulina, hiperamonemia que inibe a via mTOR no músculo e ativa o eixo miostatina/autofagia, promovendo catabolismo muscular; a amônia é captada pelo músculo como tampão, o que torna a massa muscular um verdadeiro órgão destoxificador, criando um círculo vicioso entre sarcopenia e encefalopatia. Somam-se má absorção de gorduras na colestase por déficit de sais biliares, esteatorreia, deficiências de tiamina, folato, zinco, magnésio e vitamina D, e o efeito tóxico direto do etanol sobre enterócitos e pâncreas.
A desnutrição do cirrótico é silenciosa: procure à oxigenoscopia do exame físico a wasting da musculatura temporal, a atrofia tenar e hipotenar, o afilamento da cintura escapular, edema e sinais de hipovitaminose (glossite, quelite, dermatite). A ascite mascara a perda de peso: um IMC normal ou alto não exclui sarcopenia, e o peso deve ser interpretado como peso seco, descontando-se o líquido ascítico estimado (por exemplo, a partir do volume removido na paracentese; cerca de 1 kg por litro). A EASL recomenda triar TODO paciente com cirrose em cada contato com ferramenta específica: o RFH-NPT (Royal Free Hospital-Nutritional Prioritizing Tool), que combina retenção hídrica, grau Child-Pugh, ingestão alimentar e IMC e estratifica risco em A, B e C; alternativas são o LDUST (Liver Disease Undernutrition Screening Tool) e o MUST genérico. Para diagnóstico de sarcopenia: dinamometria de preensão palmar (padrões por sexo e idade), índice esquelético muscular em L3 na tomografia (abaixo de 50 cm2/m2 no homem e de 39 cm2/m2 na mulher) e o Liver Frailty Index, que adiciona equilíbrio e levantar da cadeira. Albumina e pré-albumina são marcadores ruins de nutrição na cirrose porque dependem da síntese hepática e do estado inflamatório.
| Ferramenta | O que mede | Pontos de prova |
|---|---|---|
| RFH-NPT | Risco nutricional específico para doença hepática (A, B, C) | Recomendado pela EASL para triar todos os cirróticos |
| Dinamometria preensão palmar | Força muscular (sarcopenia funcional) | Barata, reprodutível, resposta precoce à terapia nutricional |
| Índice muscular esquelético L3 (tomografia) | Massa muscular no nível L3 | Homem < 50 cm2/m2 e mulher < 39 cm2/m2 definem sarcopenia |
| Liver Frailty Index | Força, equilíbrio e desempenho (fragilidade) | Prevê mortalidade em lista de transplante além do MELD |
| IMC e peso | Peso corporal relativo à altura | Invalidados pela ascite e pelo edema; usar peso seco |
A investigação começa no hemograma com o volume corpuscular médio: microcitose e VCM baixo apontam para ferroprivação; macrocitose sugere folato, B12, álcool, reticolocitose ou hipotireoidismo; VCM normal e normal alto é o mais comum na doença hepática por somarem-se mecanismos (alvo e macrocitos na mesma lâmina é descritivo). Reticulócitos elevados com LDH alta, haptoglobina baixa e bilirrubina indireta alta indicam hemólise, com uma pegadinha importante: a haptoglobina é sintetizada pelo fígado e já é baixa na cirrose mesmo sem hemólise, então dê peso maior ao conjunto LDH, reticulócitos e esfregaço. No esfregaço, procure acantócitos (células esporuladas) da cirrose grave, esferócitos, macro-ovalócitos e neutrófilos hipersegmentados. Na ferroprivação em contexto inflamatório, a ferritina é reator de fase aguda e engana: use saturação de transferrina abaixo de 20% com ferritina menor que 100 ng/mL (ou menor que 200 ng/mL se inflamação ativa) para definir deficiência funcional de ferro; dosagens de B12 e folato completam o painel. Coombs direto positivo sugere autoimunidade (hepatite autoimune, HCV). Endoscopia digestiva alta está indicada na suspeita de perda oculta ou como rastreio de varizes. Hiperesplenismo: esplenomegalia com plaquetopenia e/ou leucopenia associadas.
| Mecanismo | Padrão laboratorial típico | Conduta principal |
|---|---|---|
| Dilucional | Hb baixa com VCM normal, sem reticolocitose, massa eritrocitária normal | Tratar hipertensão porta e volemia; não transfundir por número |
| Ferroprivada | VCM baixo, ferritina < 100-200 ng/mL, saturação de transferrina < 20% | Ferro oral ou venoso e tratamento do foco digestivo |
| Folato (alcoolista) | VCM alto, neutrófilos hipersegmentados, folato sérico baixo | Ácido fólico 1 mg/dia VO, tiamina e abstinência |
| Hemolítica | Retilócitos altos, LDH alta, bilirrubina indireta alta, acantócitos ou esferócitos | Definir causa (Zieve, Wilson, imune); abstinência no Zieve |
| Hiperesplenismo | Citopenias combinadas com esplenomegalia | Conduta conservadora; raramente intervenção |
| Depressão medular | Pancitopenia, macrocitose do etanol, histórico de ribavirina | Suspender agente tóxico; suporte transfusional restritivo |
| Inflamatória | Ferritina alta com saturação baixa, hepcidina elevada | Tratar a doença de base; ferro apenas se deficiência associada |
A terapia nutricional é tratamento que muda desfecho e deve ser prescrita com dose, como um fármaco. Energia: 30 a 35 kcal/kg/dia segundo a ESPEN e 35 a 40 kcal/kg/dia segundo a EASL, usando o peso real (seco); em obesos com IMC entre 30 e 40, alveja-se 25 a 30 kcal/kg/dia. Proteína: 1,2 a 1,5 g/kg/dia para todos os cirróticos, E INCLUSIVE na encefalopatia hepática, pois a restrição proteica piora a sarcopenia e não melhora a encefalopatia; se houver intolerância proteica, fracione a proteína em 4 a 6 refeições, priorize proteínas vegetais e lácteas e use suplementos de aminoácidos de cadeia ramificada. Fracionamento: 4 a 6 refeições por dia, sem intervalos diurnos de jejum superiores a 3-4 horas, e LANCHE NOTURNO com cerca de 50 g de carboidratos (aproximadamente 200 kcal) 30 a 60 minutos antes de dormir, para abreviar o jejum noturno e reduzir o catabolismo muscular; essa é uma das recomendações mais cobradas da EASL/ESPEN. Na ascite, restrinja sódio a 80-120 mmol/dia (4,7 a 7 g de sal) e só restrinja líquidos (1.000-1.500 mL/dia) se sódio sérico menor que 125 mEq/L. Micronutrientes: tiamina 200-300 mg/dia por via parenteral por 3 a 5 dias (SEMPRE antes ou junto da glicose, para prevenir Wernicke) em alcoolistas e desnutridos graves, depois via oral; ácido fólico 1 mg/dia; vitamina D 800-2.000 UI/dia conforme dosagem; zinco (por exemplo, sulfato de zinco 220 mg duas vezes ao dia) na deficiência e como adjuvante na encefalopatia; vitaminas lipossolúveis A, D, E e K na colestase, com K vitamínico (10 mg) se INR elevado por colestase.
| Parâmetro | Alvo na cirrose | Observação de prova |
|---|---|---|
| Energia | 30-40 kcal/kg/dia do peso seco | 25-30 kcal/kg/dia se IMC 30-40 |
| Proteína | 1,2-1,5 g/kg/dia | Sem restrição na encefalopatia; BCAA se intolerância |
| Refeições | 4 a 6 por dia + lanche noturno | Lanche noturno com ~50 g de carboidratos antes de dormir |
| Sódio (ascite) | 80-120 mmol/dia (4,7-7 g de sal) | Restrição hídrica apenas se Na < 125 mEq/L |
| Tiamina (risco Wernicke) | 200-300 mg/dia IV/IM por 3-5 dias | Antes ou concomitante à glicose |
| Ácido fólico | 1 mg/dia VO | Profundamente deficiente no alcoolismo |
Trate a causa, não o número. Ferroprivação: ferro elementar 60-100 mg/dia por via oral (ex.: sulfato ferroso 325 mg uma a duas vezes ao dia, longe de chá, laticínios e inibidores de bomba; alternativa de melhor tolerância é o hidróxido de ferro polimaltosado); ferro venoso (sacarose férrica 200 mg IV em diluição, em esquemas fracionados até 1.000 mg, ou carboximaltose 500-1.000 mg IV em dose única) quando há intolerância oral, absorção ruim ou perda persistente, lembrando do risco de hipofosfatemia com a carboximaltose e de evitar ferro venoso na infecção ativa não controlada. Deficiência de folato: ácido fólico 1 mg/dia VO com melhora hematológica em semanas. Deficiência de B12: cianocobalamina 1.000 mcg IM semanal por 4 a 8 semanas e depois mensal (ou 1.000-2.000 mcg VO/dia em regimes de alta dose oral). Anemia dilucional: manejo da hipertensão portal e do estado hiperdinâmico; betabloqueadores não seletivos (propranolol ou carvedilol) na profilaxia de varizes. Sangramento varicoso agudo: reposição restritiva com alvo de hemoglobina de 7 a 8 g/dL, pois a transfusão liberal eleva a pressão portal. Depressão medular alcoólica: abstinência completa, com recuperação medular em semanas. Ribavirina: reduzir dose ou interromper quando a queda de hemoglobina for maior que 2 g/dL. Agentes estimuladores de eritropoese têm papel restrito (doença renal crônica concomitante, terapia antiviral histórica com ribavirina). Hiperesplenismo grave com citopenias clinicamente significativas é predominantemente conservador; esplenectomia e derivações são exceção.
A desnutrição é fator de risco independente para infecções bacterianas (inclusive peritonite bacteriana espontânea), ascite refratária, encefalopatia, má cicatrização, sangramento, internações longas e mortalidade; na lista de transplante, a sarcopenia aproxima o risco relativo de óbito de 2 quando comparada à ausência dela, e a fragilidade mensurada pelo Liver Frailty Index acrescenta prognóstico ao MELD precisamente porque o MELD ignora a massa muscular. O MELD também não pontua a albumina, que só aparece no Child-Pugh, e é justamente essa cegueira nutricional dos escores que faz o exame perguntar por triagem nutricional ativa. A anemia, por sua vez, marca descompensação e piora a tolerância ao esforço, a qualidade de vida e a reserva cardíaca; a anemia de células esporuladas indica doença terminal. Após transplante, o desnutrido grave tem mais infecções, mais tempo de UTI e maior mortalidade em 90 dias. O seguimento exige reavaliação nutricional a cada 3-6 meses no compensado e a cada contato no descompensado, com metas de peso seco, força de preensão e ingestão documentadas.
1.Paciente com cirrose Child C e encefalopatia hepática grau II em uso de lactulose. A equipe prescreve dieta com 0,5 g/kg/dia de proteína por medo de piora da encefalopatia. Qual a conduta correta segundo EASL e ESPEN?
2.Qual instrumento a EASL recomenda como triagem nutricional específica para todos os pacientes com cirrose em cada contato clínico?
3.O principal racional fisiológico para o lanche noturno com cerca de 50 g de carboidratos no cirrótico é:
4.Cirrótico alcoólico grave com hemoglobina de 7,8 g/dL, reticulócitos elevados, LDH alta e esfregaço com numerosas células com projeções irregulares e desiguais. O achado e o prognóstico correspondem a:
5.Alcoolista com VCM de 112 fL e neutrófilos hipersegmentados no esfregaço. A deficiência mais provável e a suplementação padrão são:
6.Em um cirrótico com hepatite alcoólica aguda (estado inflamatório intenso), qual critério melhor define deficiência de ferro concomitante?
7.Sobre a interpretação de marcadores de hemólise na cirrose, qual afirmação é correta?
8.Paciente com ascite volumosa tem IMC de 27 kg/m2 e perda de massa muscular evidente à inspeção. Qual a melhor abordagem para estimar o estado nutricional real?
9.Alcoolista desnutrido internado com risco de encefalopatia de Wernicke precisa hidratação venosa. Qual a medida obrigatória antes ou junto da administração de glicose?
10.Cirrótico com esplenomegalia importante tem hemoglobina de 10 g/dL, leucócitos de 2.800/mm3 e plaquetas de 68.000/mm3, sem sangramento e sem deficiências nutricionais. O mecanismo das citopenias é:
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