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Revisão de cuidados paliativos para a enfermaria clínica: conceitos da OMS, ortotanásia e diretivas antecipadas, avaliação de sintomas (ESAS, PPS), manejo farmacológico com doses (opioides, adjuvantes, sedação paliativa), protocolo SPIKES, efeito Rashomon nas reuniões de família e cuidado espiritual com a ferramenta FICA.
[1] World Health Organization. Palliative care: fact sheet (definição de 2002) · https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/palliative-care | [2] Temel JS, Greer JA, Muzikansky A, et al. Early Palliative Care for Patients with Metastatic Non-Small-Cell Lung Cancer. N Engl J Med. 2010;363(8):733-742 · DOI 10.1056/NEJMoa1000678 | [3] Baile WF, Buckman R, Lenzi R, et al. SPIKES - A six-step protocol for delivering bad news: application to the patient with cancer. The Oncologist. 2000;5(4):302-311 · DOI 10.1634/theoncologist.5-4-302 | [4] Bruera E, Kuehn N, Miller MJ, et al. The Edmonton Symptom Assessment System (ESAS): a simple method for the assessment of palliative care patients. J Palliat Care. 1991;7(2):6-9 · PMID 1714502 | [5] Puchalski C, Ferrell B, Virani R, et al. Improving the quality of spiritual care as a dimension of palliative care: the report of the Consensus Conference. J Palliat Med. 2009;12(10):885-904 · DOI 10.1089/jpm.2009.0141 | [6] Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 3.681, de 7 de maio de 2024: institui a Política Nacional de Cuidados Paliativos (PNCP) no âmbito do SUS · https://www.in.gov.br/web/dou/-/portaria-gm-ms-n-3.681-de-7-de-maio-de-2024-561223717 | [7] Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 1.995/2012: dispõe sobre as diretivas antecipadas de vontade dos pacientes · https://www.cfm.org.br · DOI 10.1056/NEJMoa1000678
Cuidados paliativos são a abordagem que melhora a qualidade de vida de pacientes e familiares enfrentando doenças graves, pela prevenção e alívio do sofrimento, com identificação precoce, avaliação impecável e tratamento da dor e de outros problemas físicos, psicossociais e espirituais. A OMS estima que apenas cerca de 14% das pessoas que necessitam de cuidados paliativos no mundo os recebem, e o Atlas Global contabiliza dezenas de milhões de pessoas com sofrimento grave relacionado à saúde a cada ano, a maioria em países de renda baixa e média. No Brasil, a Portaria GM/MS nº 3.681, de 7 de maio de 2024, instituiu a Política Nacional de Cuidados Paliativos organizando a oferta em toda a Rede de Atenção à Saúde, da atenção primária ao domicílio. O ensaio de Temel no New England Journal of Medicine mudou a lógica da especialidade: cuidados paliativos precoces, simultâneos ao tratamento oncológico, melhoraram qualidade de vida, humor e reduziram cuidados agressivos inúteis no fim da vida, com sobrevida mediana maior (11,6 vs 8,9 meses). Para a prova de clínica médica, o aluno deve dominar os conceitos ético-legais (ortotanásia, distanásia, diretivas antecipadas), o manejo farmacológico com doses e as ferramentas de comunicação e de cuidado espiritual.
A definição da OMS deixa três pontos que caem em prova: os cuidados paliativos (1) não têm como objetivo nem antecipar nem adiar a morte, (2) integram os aspectos psíquicos, sociais e espirituais do cuidado e (3) oferecem sistema de apoio para a família durante a doença e no luto. Eles não substituem o tratamento da doença de base: devem ser oferecidos simultaneamente, desde o diagnóstico de doença grave que ameaça a vida. O Código de Ética Médica (Resolução CFM 2.217/2018) proíbe abreviar a vida do paciente, ainda que a pedido, mas permite, em paciente terminal, limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem artificialmente a vida, desde que com consentimento do paciente ou de seu representante, garantindo os cuidados necessários para alívio do sofrimento.
Pela temporalidade, os cuidados paliativos são precoces (iniciados junto ao diagnóstico da doença grave, mantendo tratamento modificador) ou tardios (restritos às últimas semanas, modelo ultrapassado que ainda predomina na prática). Pelo nível de complexidade, distingue-se o cuidado paliativo generalista, prestado pela própria equipe que acompanha o paciente (clínico, cardiologista, geriatra, equipe de família), do cuidado paliativo especialista, indicado em sintomas refratários, conflitos de decisão e sofrimento complexo. Pelos cenários de atenção, organizam-se em atenção primária e domiciliar, ambulatório, equipe de consultoria em enfermaria e hospital, e unidades dedicadas. Pelas doenças de base, a carga mundial divide-se entre condições não oncológicas (insuficiência cardíaca avançada, DPOC, doença renal crônica terminal, cirrose, demência, ELA) e câncer avançado; na enfermaria clínica, a maioria dos pacientes elegíveis não tem câncer, e critérios como a pergunta surpresa ajudam a identificá-los.
A avaliação paliativa é multidimensional e serial. O Sistema de Avaliação de Sintomas de Edmonton (ESAS) pede que o próprio paciente gradue de 0 a 10 nove sintomas: dor, cansaço, náusea, depressão, ansiedade, sonolência, apetite, sensação de bem-estar e dispneia, gerando um perfil quantitativo repetível a cada visita. Para a performance, a Escala de Performance Paliativa (PPS, de 10 a 100%) gradua deambulação, atividade, autocuidado, ingestão e nível de consciência; valores abaixo de 40-50% indicam prognóstico habitualmente de dias a poucas semanas. O Karnofsky (0-100%) cumpre papel semelhante. A pergunta surpresa (eu me surpreenderia se este paciente morresse nos próximos 12 meses?) é filtro recomendado para disparar planejamento antecipado. Marcadores clínicos de fim da vida iminente incluem disfagia a sólidos e líquidos, confinamento ao leito, delirium, retenção urinária, disfagia medicamentosa e declínio rápido de performance.
| Instrumento | O que mede | Faixa e interpretação |
|---|---|---|
| ESAS | Nove sintomas autorreportados (dor, cansaço, náusea, depressão, ansiedade, sonolência, apetite, bem-estar, dispneia) | 0-10 por sintoma; 7-10 = sintoma grave que exige intervenção imediata |
| PPS (Escala de Performance Paliativa) | Deambulação, atividade e autocuidado, ingestão, nível de consciência | 10-100%; ≤ 40-50% sugere prognóstico de dias a poucas semanas |
| Karnofsky (KPS) | Capacidade funcional global | 0-100%; ≤ 50% indica dependência importante |
| Pergunta surpresa | Risco de morte em 12 meses | Resposta não me surpreenderia indica iniciar planejamento antecipado de cuidados |
A analgesia segue a escada de três degraus da OMS: degrau 1, anti-inflamatórios não esteroides e dipirona; degrau 2, opioides leves (codeína, tramadol); degrau 3, opioides fortes (morfina, oxicodona, fentanil, metadona), com adjuvantes em qualquer degrau (antidepressivos tricíclicos e gabapentinoides para dor neuropática, corticoides para dor óssea, compressão e obstrução). A morfina de liberação imediata por via oral é o opioide de primeira escolha para dor moderada a grave no paciente opioide-naive: 5-10 mg a cada 4 horas, com dose de resgate equivalente a 10-15% da dose diária total para dor incidental; a via subcutânea é preferida quando a oral é inviável, na proporção oral:parenteral de 3:1 (30 mg VO = 10 mg SC/IV). O adesivo de fentanil (12-25 mcg/h a cada 72 horas) só se inicia em paciente já tolerante a opioides (equivalente a pelo menos 60 mg de morfina oral ao dia por uma semana). Laxante é obrigatório com qualquer opioide prescrito por mais de 48 horas.
| Sintoma | Primeira linha e dose em adulto | Observações de prova |
|---|---|---|
| Dor leve (degrau 1) | Dipirona 500-1000 mg 6/6h VO ou IV; paracetamol 750 mg 6/6h (máx. 3-4 g/dia) | Avaliar eficácia antes de subir de degrau; NSAIDs cautelosos em IRC e sangramento |
| Dor moderada (degrau 2) | Codeína 30-60 mg 6/6h; tramadol 50-100 mg 6/8h (máx. 400 mg/dia) | Tramadol reduz limiar convulsivo e interage com antidepressivos |
| Dor grave (degrau 3) | Morfina liberação imediata 5-10 mg 4/4h VO; titulação conforme dor e resgates | Não existe dose teto; o limite é o efeito adverso |
| Dor neuropática | Amitriptilina 10-25 mg à noite; gabapentina 300 mg 8/8h (titulável); pregabalina 75 mg 12/12h | Adjuvantes potencializam opioides e permitem reduzi-los |
| Náusea e vômitos | Metoclopramida 10 mg 6/6h VO/SC; haloperidol 0,5-2 mg 8/8h; ondansetrona 8 mg 8/8h | Escolher pelo mecanismo (quimiorreceptor, gástrico, vestibular) |
| Dispneia | Morfina 2,5-5 mg VO/SC; posicionamento; ventilador; ar ambiente | Oxigênio só se hipoxemia documentada e sintomática; morfina em doses menores que as da dor |
| Secretações de agonização (death rattle) | Brometo de escopolamina (hioscina) 20 mg SC 6/6h ou escopolamina transdérmica | Explicar à família que o ruído não indica sofrimento; reposicionar lateralmente |
| Delirium terminal e agitação | Haloperidol 0,5-2 mg 8/8h; sedação paliativa com midazolam SC 2,5-5 mg em bolus, seguido de 10-60 mg/24h em infusão | Sedação só para sofrimento refratário, com consentimento e titulação ao alívio |
O protocolo SPIKES, publicado por Baile e Buckman, estrutura a conversa difícil em seis passos que diminuem a ansiedade de ambos os lados e aumentam a compreensão das informações. Antes de qualquer frase ao paciente, a equipe deve alinhar-se em reunião prévia: quais dados já foram ditos, qual o prognóstico compartilhado e qual a mensagem central do dia.
No filme Rashomon (Kurosawa, 1950), quatro personagens narram o mesmo crime de formas inconciliáveis, cada uma conforme seus interesses, culpas e percepções. Na enfermaria, o efeito Rashomon aparece quando o paciente, cada familiar e cada profissional contam histórias diferentes sobre a mesma internação: um filho jura que ninguém avisou da gravidade, a filha que mora longe chega exigindo tudo que a ciência tem, o cônjuge relembra um pedido antigo de não deixar o pai ir para ventilação mecânica, e a equipe acredita que a transição de objetivos já havia sido combinada. Ninguém está mentindo: cada versão é verdadeira para quem a vive, filtrada por culpa, distância, luto antecipado e informação parcial. Não reconhecer esse fenômeno faz a equipe tomar uma narrativa isolada como consenso familiar e colher conflitos, judicialização e distanásia.
O Consenso Internacional publicado por Puchalski e colaboradores estabeleceu o cuidado espiritual como dimensão obrigatória dos cuidados paliativos, ao lado do controle físico e psicossocial. Espiritualidade é a busca de sentido e propósito na vida, que pode ou não incluir prática religiosa; no fim da vida, ela se expressa como sofrimento existencial (perda de sentido, medo da morte, culpa, necessidade de reconciliação e de despedidas). O clínico não precisa ser religioso nem resolver questões existenciais: precisa rastrear, acolher e encaminhar. A ferramenta FICA organiza a conversa em poucos minutos: Fé (tem alguma fé, crença ou prática que sustenta você?), Importância (que importância isso tem na sua vida agora?), Comunidade (faz parte de alguma comunidade que apoia você?) e Ação/Address (como gostaria que a equipe considerasse isso no seu cuidado?). Escuta ativa, silêncio tolerado e respeito à não crença são regras; impor valores religiosos ou prometer curas é violência espiritual. Nos casos complexos, indica-se o apoio do profissional de pastoral/capelania integrado à equipe interdisciplinar.
Planejamento antecipado de cuidados é o processo contínuo de conversa sobre valores e preferências, que resulta nas diretivas antecipadas de vontade, na nomeação de representante e em decisões compartilhadas documentadas. No Brasil, a Resolução CFM nº 1.995/2012 determina que as diretivas antecipadas, expressas em documento com duas testemunhas ou registradas, devem ser respeitadas pela equipe, que registra sua discussão no prontuário. Na prática da enfermaria, três perguntas organizam a proporcionalidade: qual a meta terapêutica (curar, estabilizar, confortar)? A intervenção proposta alcança essa meta? Os benefícios superam os ônus para este paciente, com estes valores? Intervenções que falham o teste de proporcionalidade (diálise em multiorgânico irreversível, antibiótico em fase de agonização por demência avançada, nutrição artificial em terminalidade iminente) devem ser discutidas para não início ou retirada, mantendo-se sempre cuidados de conforto, higiene, contato familiar e alívio de sintomas. Em tudo, a diferença entre matar e deixar morrer é a intenção e o ato: retira-se o tratamento inútil que prolonga o morrer, jamais se administra substância com o propósito de causar a morte.
Sintomas não aliviados geram emergências paliativas que exigem ação rápida: dor total refratária, dispneia grave, hemorragia maciça terminal, compressão medular, hipercalemia sintomática e delirium agitado. Quando todos os meios proporcionais falham, indica-se sedação paliativa com midazolam (2,5-5 mg SC em bolus, seguidos de infusão contínua de 10-60 mg/24h titulada ao alívio), sempre com consentimento informado, registro claro da indicação (sofrimento refratário) e reavaliação; a sedação não exige retirar hidratação de conforto e nunca visa abreviar a vida. Sinais de agonização (nas últimas 24-48 horas) incluem declínio rápido de consciência, respiração com pausas ou padrão de Cheyne-Stokes, ruído de secreções, retenção urinária, extremidades frias e livedo: nessa fase, a prioridade é comunicação com a família (explicar o que é normal no morrer, suspender drogas inúteis e sondas desnecessárias), cuidados com boca e pele, e presença. Luto complicado merece vigilância nos familiares de risco (filhos pequenos, cuidador único, luto negado), com encaminhamento para grupos de apoio.
1.Segundo a definição da OMS, os cuidados paliativos:
2.No ensaio randomizado de Temel e colaboradores (NEJM, 2010), cuidados paliativos precoces em câncer de pulmão metastático resultaram em:
3.Sobre os aspectos ético-legais no Brasil, assinale a correta:
4.A sequência correta das etapas do protocolo SPIKES para comunicação de más notícias é:
5.Paciente com dor oncológica grave, opioide-naive, sem disfunção renal ou hepática. A prescrição inicial correta é:
6.Paciente em fim de vida com dispneia intensa, saturando 93% em ar ambiente, sem dor. A conduta mais adequada é:
7.Em reunião de família sobre limitação de esforço terapêutico, o filho que morava longe afirma que ninguém avisou da gravidade, a filha cuidadora acha que tudo foi explicado, e o cônjuge lembra de um pedido antigo do paciente. Essa divergência de narrativas é melhor abordada como:
8.A ferramenta FICA, usada na avaliação espiritual do paciente paliativo, corresponde a:
9.Paciente em agonização com ruído de secreções respiratórias (death rattle), família angustiada. O fármaco de escolha e a orientação correta são:
10.Sobre a sedação paliativa, é correto afirmar que:
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