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Revisão completa de obstrução intestinal para provas de Clínica Cirúrgica: classificação, fisiopatologia do estrangulamento, sinais de alarme, tomografia, teste do Gastrografin, prazos do tratamento clínico e indicações cirúrgicas com doses de antibióticos e condutas específicas.
[1] Di Saverio S, Coccolini F, Galati M, et al. Bologna guidelines for diagnosis and management of adhesive small bowel obstruction (ASBO): 2017 update of the evidence-based guidelines from the World Society of Emergency Surgery ASBO working group. World J Emerg Surg. 2018;13:24 · DOI 10.1186/s13017-018-0185-2 | [2] Miller G, Boman J, Shrier I, Gordon PH. Etiology of small bowel obstruction. Am J Surg. 2000;180(1):33-36 · PMID 11036136 | [3] Abbas SM, Bissett IP, Parry BR. Oral water soluble contrast for the management of adhesive small bowel obstruction. Cochrane Database Syst Rev. 2007;(3):CD006459 · DOI 10.1002/14651858.CD006459.pub2 | [4] Brunicardi FC, Andersen DK, Billiar TR, et al. Schwartz's Principles of Surgery. 12ª ed. McGraw-Hill, 2023 · DOI 10.1186/s13017-018-0185-2
Obstrução intestinal é uma das emergências cirúrgicas mais frequentes e um dos temas mais cobrados em provas de Clínica Cirúrgica. Responde por cerca de 12 a 16% das internações cirúrgicas por abdome agudo, e a obstrução por bridas é a causa de até 74% das obstruções de intestino delgado em adultos previamente operados. O reconhecimento precoce da complicação temida, o estrangulamento com isquemia e necrose da parede intestinal, é o que separa um tratamento clínico bem-sucedido de uma laparotomia de urgência: a mortalidade de 2 a 5% na obstrução simples pode ultrapassar 20% quando há necrose intestinal. O aluno precisa dominar três eixos: diferenciar obstrução mecânica de íleo adinâmico, reconhecer sinais clínicos e tomográficos de estrangulamento e saber exatamente quando indicar a cirurgia.
Obstrução intestinal é a interrupção total ou parcial do trânsito do conteúdo intestinal em qualquer ponto do trato digestivo, por causa mecânica (barreira intraluminal, parietal ou extrínseca) ou funcional (falha da motilidade sem barreira anatômica, o íleo adinâmico ou paralítico). A classificação clínica útil para provas combina quatro eixos: mecanismo (mecânica x funcional), grau (completa x parcial), topografia (delgado x cólon) e, principalmente, vitalidade da alça (simples x estrangulada).
| Característica | Obstrução de intestino delgado | Obstrução de cólon |
|---|---|---|
| Causa mais comum | Bridas pós-operatórias (60 a 75%); hérnias (10 a 15%) | Câncer colorretal (50 a 60%); volvo sigmoide (10 a 15%) |
| Vômitos | Precoces e abundantes, biliosos (proximal) ou fecalóides (distal) | Tardios; fecalóides apenas se insuficiência da válvula ileocecal |
| Distensão | Central, de intensidade variável, maior nas distais | Importante, em ferradura, com timpanismo |
| Dor | Cólica periumbilical, em ondas | Cólica hipogástrica de menor intensidade |
| Parada de gases e fezes | Tardia | Precoce e completa |
| Riscos principais | Estrangulamento por brida ou hérnia, desidratação grave | Perfuração cecal por hiperdistensão, obstrução maligna |
No intestino delgado, a série clássica de Miller e colaboradores (834 casos) demonstrou adesões em 74%, doença de Crohn em 7%, neoplasias em 5%, hérnias em 2% e radioterapia em 1%; em séries populacionais gerais, hérnias respondem por 10 a 15% e devem ser ativamente procuradas no exame físico de todo paciente com obstrução. Cerca de 70 a 80% dos pacientes com obstrução por bridas podem ser tratados inicialmente sem cirurgia, segundo as diretrizes de Bolonha da World Society of Emergency Surgery. No cólon, o adenocarcinoma colorretal é a causa de 50 a 60% dos casos, seguido do volvo sigmoide (típico de idosos institucionalizados ou portadores de doença de Chagas), estenose diverticular, estenose isquêmica e pseudo-obstrução colônica idiopática (síndrome de Ogilvie).
| Faixa etária | Causas mais frequentes | Achado de prova |
|---|---|---|
| Neonatos | Atresia duodenal (anel pancreático), atresia de jejuno-íleo, estenose, doença de Hirschsprung, plug e âncara meconial | Vômito bilioso no RN exige investigação de atresia; Hirschsprung retarda passagem de mecônio além de 48 h |
| Lactentes e pré-escolares | Intussuscepção (pico 3 meses a 2 anos), hérnias inguinais encarceradas | Tríade cólica + vômito + fezes em geléia de morango; sinal do alvo à US |
| Adultos jovens | Bridas, hérnias, doença de Crohn, volvo cecal | Obstrução em paciente sem cirurgia prévia levanta hérnia, Crohn e neoplasia |
| Adultos e idosos | Bridas, neoplasias (primárias ou carcinomatose), hérnias, volvo sigmoide, íleo biliar, impactação fecal | Idoso com obstrução de cólon e anemia = câncer colorretal até prova em contrário |
A obstrução mecânica interrompe o fluxo do conteúdo, mas a fisiopatologia é dominada por um paradoxo secretório: a alça obstruída passa a secretar fluido em vez de absorver. Somam-se o ar deglutido (rico em nitrogênio, não absorvido) e os 7 a 8 litros diários de secreções digestivas, que se acumulam proximalmente à barreira. A distensão progressiva eleva a pressão intraluminal; quando ela supera a pressão capilar venosa (por volta de 20 a 30 cmH2O na parede), o retorno venoso é bloqueado, a parede fica edemaciada e a barreira mucosa falha, com translocação bacteriana (Escherichia coli, Bacteroides). O fluxo arterial é mantido até fases tardias, o que explica o intestino estrangulado sangrar para dentro da luz e evoluir para infarto hemorrágico e necrose de parede total em janela de aproximadamente 6 a 8 horas na alça fechada.
O quadro clássico tem quatro sintomas: dor cólica em >90% dos casos, vômitos em cerca de 80%, distensão abdominal em 60 a 80% e parada de evacuação e flatos (obstipação) em 70 a 90%. A sequência e a intensidade dependem do nível: nas obstruções de delgado proximal (jejunal alta) predominam vômitos biliosos precoces e desidratação intensa, com pouca distensão; nas de delgado distal (íleo) predominam distensão importante, cólicas periumbilicares e vômitos tardios que se tornam fecalóides; nas de cólon, a distensão é o sinal mais marcante e a parada de evacuação é precoce. Ruídos hidroaéreos aumentados, metálicos e em jato na ausculta nas fases iniciais da obstrução mecânica são achados favoritos das provas; o silêncio abdominal difuso sugere íleo adinâmico ou peritonite tardia.
| Achado | Obstrução simples | Obstrução estrangulada |
|---|---|---|
| Dor | Cólica, intermitente, em ondas | Contínua, localizada, não cessa com analgésico comum |
| Febre e taquicardia | Ausentes ou leves | Febre acima de 38 graus, taquicardia, hipotensão |
| Exame físico | Abdome distendido, sem irritação peritoneal | Defesa, descompressão brusca positiva, massa dolorosa ou hérnia dolorosa não redutível |
| Leucócitos | Normais ou levemente altos | Leucocitose acima de 12.000 a 15.000 com desvio |
| Lactato e gasometria | Normais | Acidose metabólica com lactato elevado (sinal tardio, não confiável precocemente) |
| Líquido na punção lavado | Limpo | Turvo, com bactérias, ou fecalóide |
Situações específicas cobradas em prova: o íleo biliar surge em idosas com fístula colecistoduodenal, obstrução no íleo terminal e a tríade de Rigler à radiografia (pneumobilia, alças de delgado dilatadas e cálculo ectópico); a intussuscepção infantil tem o pico entre 3 meses e 2 anos, com episódios de cólica com choro e flexão dos membros inferiores, vômitos, fezes com sangue e muco em geléia de morango, sinal de Dance (fossa ilíaca direita vazia) e sinal do alvo à ultrassonografia; o volvo sigmoide cursa com distensão abdominal gigante, abaulamento e, à radiografia, alça em fava de café ou grão de café apontando para o hipocôndrio direito.
Laboratório: hemograma (leucocitose com desvio à esquerda sugere estrangulamento), dosagem de lactato (sensibilidade baixa na isquemia precoce, em torno de 50 a 60%; normal não exclui estrangulamento), gasometria (alcalose hipoclorêmica no vômito; acidose láctica na isquemia), eletrólitos, ureia e creatinina (pré-renal) e proteína C reativa. Radiografia simples de abdome tem sensibilidade de apenas 50 a 60% para obstrução de delgado: procure alças de delgado dilatadas acima de 2,5 a 3 cm com válvulas conniventes (válvulas de Kerckring), níveis hidroaéreos em escada de subir e escassez de gás colônico; três ou mais níveis hidroaéreos com gás no reto são altamente sugestivos. A ultrassonografia, em mãos habilitadas, aproxima-se de 80 a 90% de sensibilidade e é excelente em crianças (intussuscepção). A tomografia com contraste venoso é o padrão-ouro atual: sensibilidade de 90 a 95% e especificidade acima de 95% para obstrução de delgado, identifica o ponto de transição em 60 a 95% dos casos e avalia sinais de isquemia.
| Método | Principais achados | Desempenho e papel |
|---|---|---|
| Radiografia de abdome | Alças dilatadas, níveis hidroaéreos, ausência de gás distal; alça em grão de café (volvo) | Sensibilidade 50 a 60%; rápida e disponível, mas não exclui obstrução |
| Ultrassonografia | Alças dilatadas com peristalse aumentada; sinal do alvo (intussuscepção); sinal do redemoinho (volvo) | Sensibilidade 80 a 90% em experientes; primeira linha em crianças |
| TC com contraste venoso | Ponto de transição, calibre das alças, realce parietal, complicações | Sensibilidade 90 a 95%; especificidade superior a 95%; exame de escolha no adulto |
| Contraste hidrossolúvel oral (teste do Gastrografin) | Progressão do contraste até o cólon em até 24 h | Prediz resolução clínica em mais de 90% quando positivo; meta-análise Cochrane mostra redução da necessidade de cirurgia e do tempo de internação |
Todo paciente com obstrução intestinal é tratado inicialmente com reposição volêmica agressiva antes de qualquer decisão operatória, exceto na indicação de cirurgia imediata por peritonite. A perda estimada no terceiro espaço pode superar 3 a 6 litros; use cristaloide balanceado (Ringer com lactato), com bolus iniciais de 500 mL e monitorização de diurese (meta acima de 0,5 mL/kg/h), corrigindo potássio e magnésio. A sonda nasogástrica descomprime o estômago e o delgado proximal, alivia o vômito, reduz o risco de broncoaspiração e permite administrar o contraste hidrossolúvel. Antibioprofilaxia não está indicada na obstrução simples; antibioticoterapia terapêutica plena está indicada se há estrangulamento, perfuração ou peritonite.
| Esquema | Doses em adulto | Comentário |
|---|---|---|
| Piperacilina-tazobactam | 4,5 g IV de 8 em 8 horas | Cobertura ampla incluindo anaeróbios; opção preferencial em estrangulamento |
| Ceftriaxona + metronidazol | Ceftriaxona 2 g IV 1 vez ao dia + metronidazol 500 mg IV de 8 em 8 horas | Alternativa com excelente cobertura gram-negativa e anaeróbia |
| Ertapenem | 1 g IV 1 vez ao dia | Opção em alergia ou infecção hospitalar; sem cobertura de Pseudomonas |
| Cefazolina (profilaxia, se cirurgia) | 2 g IV na indução anestésica, com reposição se >3 h | Apenas profilática na cirurgia de obstrução simples |
As diretrizes de Bolonha (WSES) estabelecem que a obstrução por bridas sem sinais de estrangulamento, sem alça fechada e sem peritonite deve ser tratada clinicamente com o teste do contraste hidrossolúvel, com prazo máximo de 72 horas de tentativa conservadora (alguns serviços aceitam até 5 dias se há progressão clínica). Falha do contraste em alcançar o cólon em 24 a 48 horas, piora clínica ou aparecimento de sinais de isquemia indicam operar. A adesiólise pode ser laparoscópica em pacientes selecionados (primeiro episódio, distensão moderada), com conversão aberta no que encontrarem aderências extensas.
As complicações decorrem da isquemia e da demora no tratamento: necrose e perfuração intestinal com peritonite fecalóide, sepse e disfunção de múltiplos órgãos, broncoaspiração do vômito (síndrome de Mendelson), desidratação grave com lesão renal aguda, e síndrome do intestino curto quando a ressecção é extensa. No pós-operatório somam-se deiscência de anastomose, infecção de ferida, fístula entérica e reformação de aderências: a recorrência de obstrução por bridas em 10 anos varia de 20 a 30%, sendo a adesiólise repetida progressivamente mais difícil. A mortalidade global da obstrução simples fica entre 2 e 5%, sobe para 10 a 20% na estrangulada e pode superar 30% no idoso com necrose e sepse; na obstrução colônica maligna o prognóstico é dominado pelo estadiamento do tumor. O íleo adinâmico pós-operatório resolve habitualmente em 3 a 5 dias; medidas de protocolo ERAS (mobilização precoce, goma de mascar, opioides poupadores, alvimopan 12 mg PO 2 vezes ao dia onde disponível) reduzem sua duração.
1.Homem de 62 anos, com apendicectomia e colectomia prévias, apresenta cólicas periumbilicais, vômitos biliosos, distensão e parada de evacuação. Qual a causa mais provável da obstrução de intestino delgado?
2.Qual achado tomográfico é mais específico de estrangulamento vascular da alça obstruída?
3.No teste do contraste hidrossolúvel (Gastrografin) na obstrução por bridas, a presença de contraste no cólon em até 24 horas indica:
4.Segundo as diretrizes de Bolonha (WSES), qual o prazo máximo usual de tratamento clínico da obstrução por bridas sem sinais de estrangulamento?
5.Paciente com obstrução de delgado distal e vômitos profusos há 3 dias apresenta qual disturbio ácido-base e eletrolítico típico?
6.Na obstrução de cólon com válvula ileocecal competente, qual diâmetro cecal indica alto risco de perfuração?
7.Idoso com volvo sigmoide, abdome muito distendido, sem peritonite e com parede intestinal preservada à TC. Conduta inicial de escolha:
8.Lactente de 14 meses com episódios de cólica com choro, vômitos e fezes em geléia de morango, sem sinais peritoneais. Qual a conduta de primeira linha?
9.Idosa com obstrução de delgado e radiografia mostrando pneumobilia, alças dilatadas e imagem cálculo no quadrante inferior direito. O diagnóstico é:
10.Paciente com obstrução intestinal apresenta dor contínua, febre 38,4 graus, taquicardia e descompressão brusca positiva. Qual a conduta?
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