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Revisão completa dos fios de sutura, mecânica dos nós cirúrgicos, técnicas de fechamento por planos e prevenção de infecção do sítio cirúrgico. Traz tabelas comparativas de fios, tempos de retirada de pontos, regra de Jenkins e pegadinhas clássicas de prova.
[1] Berrios-Torres SI, Umscheid CA, Bratzler DW, et al. Centers for Disease Control and Prevention Guideline for the Prevention of Surgical Site Infection, 2017. Infect Control Hosp Epidemiol. 2017;38(8):920-934 · DOI 10.1017/ice.2017.156 | [2] World Health Organization. Global Guidelines for the Prevention of Surgical Site Infection. Genebra: WHO; 2016 · ISBN 978-92-4-154988-2 · https://apps.who.int/iris/handle/10665/250680 | [3] van Rijssel EJC, Trimbos JB, Booster MH. Mechanical performance of square knots and sliding knots in surgery: a comparative study. Am J Obstet Gynecol. 1990;162(1 Pt 1):93-97 | [4] Romeo A, Asencio FA, Zomer MT, et al. What is the Best Surgeon's Knot? Evaluation of the Security of the Different Laparoscopic Knot Combinations. J Minim Invasive Gynecol. 2018;25(5):902-911 · DOI 10.1016/j.jmig.2018.01.032 | [5] Townsend CM Jr, Beauchamp RD, Evers BM, Mattox KL, eds. Sabiston Textbook of Surgery: The Biological Basis of Modern Surgical Practice. 21ª ed. Elsevier; 2022 · DOI 10.1017/ice.2017.156
O fechamento adequado da ferida operatória é a competência técnica que melhor traduz as bases da cirurgia: escolher o fio correto, executar o nó seguro e aproximar os planos sem isquemá-los determina se a cicatriz evolui sem deiscência, sem infecção e com bom resultado estético. A infecção do sítio cirúrgico (ISC) é a infecção relacionada à assistência à saúde mais frequente em pacientes operados, acometendo cerca de 1 a 5% das cirurgias limpas e mais de 25% das feridas sujas, com impacto direto em tempo de internação, custos e mortalidade. Para a prova, o aluno precisa dominar três eixos: a classificação dos fios (absorção, estrutura e reatividade), a mecânica dos nós (quadrado versus falso nó, número de arremates) e os princípios do fechamento por planos, incluindo a regra 4:1 de Jenkins e os tempos de retirada dos pontos de pele.
Os fios são classificados por três eixos independentes, e cada eixo tem implicação prática direta. O primeiro eixo é a absorção: fios absorvíveis perdem resistência tensil e são degradados em semanas a meses (suficientes para tecidos que cicatrizam rápido, como subcutâneo, mucosa e fáscia em pacientes selecionados), enquanto os não absorvíveis mantêm resistência por anos e são escolhidos quando a cicatriz suportará tensão permanente, como em parede abdominal de alto risco, tendões, vasos e pele com tendência a deiscência. O segundo eixo é a estrutura: monofilamentados têm superfície lisa que atravessa o tecido com menor trauma e não abrigam bactérias em suas tramas, porém têm alto índice de memória e baixo coeficiente de atrito, exigindo mais arremates; multifilamentados (trançados) têm melhor manejo, mais nó de segurança por atrito, mas a trama funciona como corpo estranho e capilar (efeito pavio), aumentando o risco de infecção. O terceiro eixo é a origem: naturais (seda, catgut) são mais reativos, e sintéticos são menos inflamatórios.
A espessura segue a escala USP: quanto maior o número de zeros, mais fino o fio. A ordem crescente de calibre é 2, 1, 0, 2-0, 3-0, 4-0, 5-0, 6-0, 7-0 e 8-0, ou seja, um fio 6-0 é muito mais fino que um 2-0, e um 2 é mais espesso que um 0. Em provas, a associação clássica é: 0 a 1 (ou fio de loop duplo) para fáscia abdominal, 2-0 a 3-0 para subcutâneo, 3-0 a 4-0 para pele de tronco e membros, 5-0 a 6-0 para face e pescoço, 7-0 a 8-0 em microcirurgia e 10-0 em cirurgia ocular. O calibre é escolhido pela menor espessura capaz de suportar a tensão esperada: fio espesso demais deixa marcas e reação de corpo estranho; fino demais corta o tecido (efeito de corte de queijo).
| Fio (marca) | Classe | Perda de resistência | Absorção completa | Usos típicos |
|---|---|---|---|---|
| Poliglactina 910 (Vicryl) | Absorvível sintético multifilamentado | cerca de 50% em 2-3 semanas | 56-70 dias | Subcutâneo, mucosa, ligaduras de vasos, sutura intestinal |
| Poliglactina rápida (Vicryl Rapide) | Absorvível sintético multifilamentado | grande parte em 7-14 dias | cerca de 42 dias | Mucosa oral, pele de crianças, amigdalectomia, fixação de enxertos |
| Polidioxanona (PDS II) | Absorvível sintético monofilamentado | cerca de 50% em 4 semanas; 25% em 6 semanas | 180-240 dias | Fáscia e fechamento abdominal, tecidos com tensão e risco de infecção |
| Poliglecaprone 25 (Monocryl) | Absorvível sintético monofilamentado | 50-60% em 1 semana; perda quase total em 2-3 semanas | 90-120 dias | Sutura intradérmica de pele, derme, pele de face |
| Catgut cromado | Absorvível natural multifilamentado | cerca de 2-3 semanas | cerca de 90 dias | Uso declinante; mucosa e ligaduras em locais sem sintéticos |
| Seda | Não absorvível natural multifilamentado | perde força em 1-2 anos, é encapsulada | não ocorre | Ligaduras e suturas em cirurgia cardiovascular e digestiva; muito reativa |
| Nylon (Ethilon) | Não absorvível sintético monofilamentado | perde 15-20% ao ano | não ocorre | Pele, neurocirurgia, hérnias sob tensão |
| Polipropileno (Prolene) | Não absorvível sintético monofilamentado | mínima degradação | não ocorre | Pele, vascular, fechamentos sob tensão e em feridas contaminadas |
| Aço inoxidável | Não absorvível metálico monofilamentado | não degrada | não ocorre | Esterno, tendões, osteossínteses de bloqueio; maior segurança de nó |
Duas regras práticas resumem a escolha. Primeira: tecido que cicatriza devagar e sob tensão pede fio de suporte prolongado, por isso a polidioxanona é o padrão-ouro para fáscia abdominal, mantendo cerca de metade da resistência na quarta semana, quando a cicatriz ainda ganha pouca força. Segunda: ferida potencialmente contaminada prefere monofilamentado, porque a ausência de tramas reduz a aderência bacteriana; diretrizes da OMS e do CDC destacam que o material de sutura é corpo estranho e que cada ponto adicional aumenta o risco de ISC. O catgut, historicamente cobrado, é natural (submucosa intestinal de bovinos ou ovinos), de alta reatividade e praticamente substituído por sintéticos, mas continua aparecendo em provas como exemplo de fio absorvível natural.
A agulha tem três partes: corpo, onde o porta-agulhas a segura no terço proximal, nunca na ponta; a parte afiada ou cutting; e a solda do fio (agulhas atraumáticas têm fio incorporado, e o diâmetro do fio acompanha o da agulha, minimizando o orifício no tecido). As agulhas são curvas nos arcos de 1/4, 1/2, 3/8 e 5/8 de círculo, sendo o 3/8 o mais usado em pele, o 1/2 em planos profundos e campos estreitos, e o 5/8 em regiões confinadas como cavidade oral, períneo e em campos microcirúrgicos. Quanto ao corte, as agulhas cutting (seção triangular com corte nas bordas) perfuram tecidos densos e difíceis como pele e tendão, as reverse cutting têm o corte na borda convexa, reduzindo o risco de rasgar o tecido, e as taper point (seção circular, ponta cônica) perfuram sem cortar, sendo preferidas em peritônio, fáscia fina, músculo, trato digestivo e vasos, pois espalham as fibras em vez de seccioná-las. O porta-agulhas deve ser proporcional à agulha: instrumento grande com agulha fina amassa o metal e perde a ponteira.
A cicatrização por primeira intenção percorre quatro fases contínuas: hemostasia e coagulação nas primeiras horas, com plugue de fibrina e plaquetas; inflamação dos dias 1 a 6, com neutrófilos que limpam detritos e macrófagos que coordenam a reparação; proliferação do dia 4 ao 21, com fibroblastos sintetizando colágeno tipo III, angiogênese e reepitelização que fecha a superfície em 24 a 48 horas; e remodelação da terceira semana até 12 meses ou mais, com conversão de colágeno III em tipo I mais resistente. O ganho de força tensil é lento e define a escolha do fio: na primeira semana a cicatriz suporta apenas cerca de 5 a 10% da força da pele normal, na terceira semana cerca de 20%, na sexta semana cerca de 50%, e o teto final fica em torno de 70 a 80% do tecido original. Ou seja, nos primeiros meses a integridade da ferida depende quase exclusivamente do fio, e o fio deve manter resistência proporcionalmente ao ritmo de ganho de força do tecido que fecha.
O nó é a porção mais fraca da sutura: a força do conjunto nunca supera a do nó, e nós mal executados falham por deslizamento mesmo com fios intactos. A segurança do nó depende do coeficiente de atrito do material, da plasticidade (multifilamentados e materiais de alta fricção deformam-se entre si e travam) e do número e da configuração dos arremates. O nó quadrado, padrão de referência, é formado por dois arremates executados em sentidos opostos e com tensão simétrica entre as pontas: ele trava como nó de amarrar sapato. O falso nó ou nó de ama (granny knot) resulta de arremates na mesma direção ou com tensão assimétrica e tende a escorregar, sendo a causa mecânica clássica de falha de sutura cobrada em prova. O nó do cirurgião adiciona uma volta dupla no primeiro arremate, útil para tecidos sob tensão ou com edema, pois a primeira volta não cede enquanto o segundo arremate é lançado; estudos mecânicos, porém, mostraram que ele não é mais seguro que o nó quadrado bem executado, apenas mais fácil de manter apertado em tecidos tensos.
A técnica pode ser manual (de uma ou duas mãos) ou instrumental, e a instrumental é a padrão na maioria das suturas de pele e planos, por gastar menos fio e permitir controle fino da força. Regras invioláveis de execução: aproximar as bordas sem estrangular (a isquemia por nó apertado demais causa necrose e marcas definitivas), deixar o nó deslocado para o lado da ferida e não sobre a linha de incisão, cortar as pontas com cerca de 3 mm no monofilamentado e 2 mm no multifilamentado, e nunca aceitar nós com folga (chamados nós no ar, que não comprimem o tecido). Sobre o número de arremates: multifilamentados travam com dois a três arremates quadrados, enquanto monofilamentados, por sua baixa fricção, exigem três a quatro arremates adicionais; aço precisa de vários arremates achatados. Em vídeo-cirurgia, os nós pré-montados ou deslizantes foram avaliados em estudos de mecânica, e as combinações com arremates quadrados alternados no final mantêm a melhor segurança.
| Técnica | Indicação principal | Cuidado ou limitação |
|---|---|---|
| Ponto simples interrompido | Padrão-geral de pele e planos; permite ajuste isolado de cada ponto e distribuição da tensão | Mais lento e gasta mais fio que o contínuo |
| Ponto contínuo (running) | Feridas lineares sem tensão, como incisões cirúrgicas limpas | A falha de um ponto ou do nó pode comprometer toda a linha |
| Contínuo trancado (locked) | Feridas com sangramento difuso, pois o trançado hemostasia as bordas | Pode estrangular as bordas se tracionado em excesso |
| Mattress vertical | Feridas sob tensão e áreas que exigem eversão, como dorso e couro cabeludo | Deixa mais marcas se mantido por tempo longo |
| Mattress horizontal | Eversão e fechamento mais rápido de feridas largas; hemostasia adicional | Risco de isquemia das bordas entre os pontos se muito apertado |
| Intradérmica (subcuticular) | Melhor resultado estético em face, pescoço e incisões limpas; monofilamentado absorvível 4-0 a 5-0 | Exige bordas bem aproximadas e sem tensão; não usar em ferida contaminada |
Princípios de execução que valem pontos de prova: entrar com a agulha perpendicular à pele e seguir a curvatura da agulha (movimento de rotação do pulso), tomar bocados simétricos nas duas bordas com eversão delicada das margens, e espaçar os pontos cerca de 1 a 2 cm na pele de tronco e 3 a 5 mm na face. Bordas invertidas criam cicatriz deprimida e alargada; a eversão leve é intencional porque a cicatriz se achata com a maturação. No fechamento por planos, cada camada deve ser aproximada individualmente para eliminar espaço morto: fáscia com pontos separados ou sutura contínua, subcutâneo com pontos separados de fio absorvível fino quando a gordura é abundante, e pele com a técnica indicada. Pontos de retenção (retention sutures) são exceção em doentes críticos com altíssimo risco de deiscência, atravessando toda a espessura da parede com material de suporte, e não substituem o fechamento apropriado da fáscia.
A deiscência de parede e a hérnia incisional são as complicações mais temidas do fechamento abdominal, com incidência de hérnia após laparotomia mediana em torno de 10 a 20% em seguimento de um ano, chegando a valores maiores em obesos, infectados e desnutridos. O fator técnico mais validado é a relação entre o comprimento de fio gasto e o comprimento da incisão: a regra de Jenkins determina proporção mínima de 4:1 no fechamento contínuo da fáscia, com bocados de cerca de 1 cm de borda e intervalos de cerca de 1 cm entre os pontos (padrão 1 cm por 1 cm na linha alba). Proporções menores que 4:1 geram sutura frouxa que permite eventração parcial (hérnia); aperto excessivo com proporção muito maior e bocados pequenos corta a fáscia por isquemia e precipita deiscência. Fio de escolha habitual: polidioxanona 0 ou 1 (ou loop), monofilamentado, absorvível lento; não absorvível (polipropileno ou nylon) é reservado para casos de altíssimo risco, e a seda, apesar de forte, é multifilamentada e natural, com mais risco de infecção e formação de sinus.
| Região | Retirada (dias) | Comentário |
|---|---|---|
| Face | 5-7 | Vascularização excelente; retirada precoce evita marcas cruzadas |
| Pescoço | 7 | Equilíbrio entre estética e segurança |
| Couro cabeludo | 7-10 | Pode-se usar pontos simples ou agrafes |
| Membros superiores | 7-10 | Prolongar se tensão ou edema importante |
| Tronco (anterior) | 10-12 | Tensão moderada; considerar intradérmica |
| Dorso e membros inferiores | 12-14 | Maior tensão e pior vascularização; maior risco de deiscência se retirada precoce |
| Intradérmica com absorvível | Não se retira | Poliglecaprone 4-0 a 5-0; cai sozinho em semanas |
Pontos mantidos além do necessário deixam marcas cruzadas definitivas (suture marks), especialmente quando apertados demais ou em face, onde o limite seguro é uma semana. Após a retirada, a força da cicatriz ainda é baixa e a ferida deve ser protegida com fitas de aproximação por uma a duas semanas em regiões de tensão. Em pacientes com risco de deiscência, desnutrição, corticoterapia ou quimioterapia, os prazos devem ser estendidos individualmente, e a alternativa elegante é a sutura intradérmica com absorvível, que dispensa retirada.
| Classe de ferida | Definição | Risco aproximado de ISC |
|---|---|---|
| Limpa | Ferida fechada de eletiva, trato digestivo, respiratório e geniturinário não abertos, sem inflamação | 1-5% |
| Limpa-contaminada | Abertura controlada de trato digestivo ou geniturinário, orofaringe, via biliar, com vazamento mínimo | 3-11% |
| Contaminada | Feridas abertas recentes (menos de 4 a 6 horas), vazamento digestivo importante, inflamação aguda sem pus | 10-17% |
| Suja ou infetada | Feridas antigas com tecido desvitalizado, pus ou devitalização, perfuração digestiva antiga | acima de 27% |
As complicações se agrupam em mecânicas, infecciosas e reacionais. Mecânicas: deiscência de ferida (abertura parcial, mais comum na primeira semana por nó que escorrega, fio que corta ou tecido frágil) e evisceração (abertura total com exteriorização de vísceras, emergência clínica que exige retorno imediato ao centro cirúrgico com proteção das vísceras com compressas umedecidas); hérnia incisional como complicação tardia. Infecciosas: ISC superficial (pele e subcutâneo, após 30 dias, com dor, rubor, calor e secreção, tratada com abertura de pontos, cultura e antibiótico quando há celulite ou comorbidade), ISC profunda (fáscia e músculo) e de órgão ou espaço. Reacionais: reação de corpo estranho com formação de granuloma de fio e expulsão tardia de pedaços de fio absorvível pela pele (spitting sutures, semanas a meses após a cirurgia), sinus por fio não absorvível infectado, alergia rara ao cromo do catgut ou aos corantes, além de queloides e cicatrizes hipertróficas que são respostas exageradas do hospedeiro, mais frequentes em pacientes jovens, negros e em orelhas, tórax anterior e deltoides.
1.Qual fio é a escolha mais adequada para o fechamento contínuo da fáscia em uma laparotomia por perfuração apendicular com peritonite?
2.A regra de Jenkins para o fechamento contínuo da fáscia abdominal estabelece que proporção entre comprimento de fio gasto e comprimento da incisão?
3.O que caracteriza mecanicamente um nó quadrado (square knot)?
4.Por que fios monofilamentados exigem mais arremates que os multifilamentados?
5.Qual o tempo recomendado de retirada de pontos de pele na FACE?
6.Uma colecistectomia eletiva, sem coleção e com abertura controlada da via biliar, é classificada como ferida:
7.Assinale a alternativa correta sobre a escala USP de calibres de fios:
8.Qual técnica de sutura de pele oferece o melhor resultado estético em incisões limpas de face e pescoço, sem necessidade de retirada?
9.Segundo a diretriz do CDC 2017, a profilaxia antimicrobiana cirúrgica deve:
10.Sobre o Vicryl Rapide (poliglactina 910 rápida), é correto afirmar:
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