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Fundamentos de bases da cirurgia para provas: os tempos operatórios (diérese, hemostasia, exposição e síntese), instrumental de corte, preensão e afastamento, fios de sutura e agulhas, tipos de nós e pontos, antissepsia e retirada de pontos, com aplicações em cirurgia de pele e vasos. Inclui segurança do paciente e evidência das diretrizes de prevenção de infecção do sítio cirúrgico.
[1] Kirk RM. Kirk's Basic Surgical Techniques. 8ª ed. Edinburgh: Elsevier; 2024 | [2] Zollinger RM Jr, Ellison EC. Zollinger's Atlas of Surgical Operations. 10ª ed. New York: McGraw-Hill; 2016 | [3] Berrios-Torres SI, Umscheid CA, Bratzler DW, et al. Centers for Disease Control and Prevention guideline for the prevention of surgical site infection, 2017. JAMA Surg. 2017;152(8):784-791 · DOI 10.1001/jamasurg.2017.0904 | [4] World Health Organization. Global Guidelines for the Prevention of Surgical Site Infection. Genebra: WHO; 2016 · https://www.who.int/publications/i/item/9789241549882 | [5] Haynes AB, Weiser TG, Berry WR, et al. A surgical safety checklist to reduce morbidity and mortality in a heterogeneous population. N Engl J Med. 2009;360(5):491-499 · DOI 10.1056/NEJMsa0810119 | [6] Brasil. Anvisa. Resolução da Diretoria Colegiada nº 36, de 25 de julho de 2013 · https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2013/rdc0036_25_07_2013.html · DOI 10.1001/jamasurg.2017.0904
Conhecer o instrumental e os atos cirúrgicos é o vocabulário mínimo para transitar em centro cirúrgico: pedir o material certo, executar os gestos básicos e entender o que o cirurgião está fazendo. Para as provas de bases da cirurgia, as bancas cobram três blocos: os tempos fundamentais do ato operatório (diérese, hemostasia, exposição e síntese), o reconhecimento dos instrumentos pelo nome e pela função (corte, preensão, afastamento, hemostasia e sutura) e a escolha do fio de sutura adequado a cada plano e tecido, incluindo agulhas, calibres e prazos de retirada dos pontos.
O tema também é a porta de entrada para a segurança do paciente: a correta execução dos atos básicos, a antissepsia, a contagem de compressas e instrumentais e o uso do checklist cirúrgico da Organização Mundial de Saúde reduziram de forma mensurável a mortalidade e as complicações operatórias, como o estudo pioneiro de Haynes e colaboradores demonstrou ao reduzir a mortalidade intra-hospitalar de 1,5% para 0,8% e as complicações de 11% para 7% em oito cidades de diferentes continentes.
Toda cirurgia, da mais simples à mais complexa, se decompõe em tempos ou atos fundamentais, clássicos na doutrina brasileira de técnica operatória. Dominar essa sequência lógica permite acompanhar qualquer operação: abre-se, para-se o sangramento, expõe-se o plano de interesse, executa-se o ato principal e reconstrói-se a parede. Somam-se a eles a cavitação (abertura e exploração de cavidades), a revisão de hemostasia antes do fechamento e o fechamento por planos, que restabelece a anatomia.
O conjunto básico de uma caixa de pequena cirurgia gira em torno do cabo de bisturi número 3 ou 4 e das lâminas correspondentes. A lâmina 15, pequena e curva, é a preferida para incisões delicadas em pele; a 11, pontiaguda, para incisões de abscessos (drenagem em bisel) e punções amplas; a 10, de dorso convexo, para incisões longas de pele e tecido subcutâneo; a 20, maior, acoplada ao cabo 4, para incisões extensas em cirurgias grandes. A execução correta combina o toque do bisturi com a dissecação romba com tesoura ou pinça, princípio que preserva planos e reduz lesões iatrogênicas.
| Instrumento | Características | Uso típico |
|---|---|---|
| Cabo de bisturi 3 e lâminas 10, 11 e 15 | Cabo menor para lâminas de 15 a 20 mm | Incisões de pele e subcutâneo em pequena e média cirurgia |
| Cabo de bisturi 4 e lâminas 20 a 22 | Cabo maior para lâminas largas | Incisões longas de parede abdominal e tecidos espessos |
| Tesoura reta de Mayo | Lâminas curtas e robustas, corte forte | Corte de fios, suturas, drenos e material resistente |
| Tesoura curva de Mayo | Curvatura que se acomoda ao plano de corte | Disseção de tecidos mais espessos e corte de fios profundos |
| Tesoura de Metzenbaum (curva) | Lâminas finas, longas e delicadas | Dissecação romba e cortante de tecidos moles (planos, aderências) |
| Bisturi elétrico (eletrodo) | Corte e coagulação por corrente de alta frequência | Diérese com hemostasia simultânea; modos corte, coagulação e misto |
As pinças dividem-se em de preensão leve (tração e manipulação de tecidos delicados) e firme (estruturas resistentes e hemostasia). As anatômicas têm ramas longitudinais com sulcos que evitam escapar sem esmagar; as dentadas (Adson, Cushing) adicionam um ou dois dentes na ponta para prender a pele com firmeza mínima pressão; as de Kocher, com dente e trava, prendem estruturas fortes (fáscia, aponeurose, drenos); as de Allis, com ramas que se encaixam, tracionam bordas e cápsulas; a de Babcock, atraumática e fenestrada, é a pinça da alça intestinal; a de Duval, em anel, traciona pulmão e alças com mínimo trauma; o tenáculo de um ou dois dentes prende o útero e estruturas fibrosas.
| Pinça | Tipo de preensão | Uso típico |
|---|---|---|
| Anatômica longa (com ou sem dente) | Leve, traumática mínima | Manipulação de tecidos moles, auxílio na disseção, carga de agulha em campo profundo |
| Adson (com ou sem dente) | Leve e curta | Pele em cirurgia delicada (face, lesões cutâneas, sutura de pele) |
| Kocher (reta ou curva) | Firme, com dente e trava | Fáscias, aponeuroses, drenos, vasos para ligadura; nunca em alça intestinal |
| Allis | Firme, ramas que se encaixam | Tração de bordas de feridas, cápsulas, pilares (traumática para tecido frágil) |
| Babcock | Atraumática, fenestrada e elástica | Alça intestinal, ureter, apêndice: preende sem esmagar |
| Duval | Atraumática, pontas em anel | Tração de pulmão e alças em cirurgia geral |
| Tenáculo (1 ou 2 dentes) | Muito firme | Tração uterina e de estruturas fibrosas em ginecologia |
Sem exposição não há cirurgia: os afastadores (também chamados válvulas ou separadores) mantêm afastados os tecidos e ampliam o campo. Os manuais dependem de um ajudante (Farabeuf, valva de Langenbeck, Deaver, Doyen, Richardson); os autostáticos mantêm-se sozinhos por cremalheira (Gosset e Balfour em parede abdominal, Finochietto em tórax), liberando as mãos da equipe. A regra prática: afastador traçiona e não esmaga, e a tração prolongada exige liberação periódica para evitar isquemia e lesão de nervos (o risco clássico de neuropatia por compressão e reposicionamento inadequado do paciente).
A hemostasia pode ser provisória (compressão com gaze, pinçamento digital ou com pinça de Kelly ou mosquito) ou definitiva (ligadura com fio, clips metálicos, eletrocoagulação, sutura em trançado ou tamponamento planejado). As pinças hemostáticas curvas (mosquito de Halsted para vasos finos, Kelly para pedículos maiores, Kocher quando se exige dente) aplicam-se perpendicularmente ao vaso, e a ligadura passa sob a pinça com a técnica do nó deslizado. No bisturi elétrico, a corrente de alta frequência em modo corte gera disseção com pouco calor, o modo coagulação desidrata e sela tecido, e o modo misto equilibra os dois; a placa neutra (eletrodo dispersivo) deve cobrir área de pele bem vascularizada para evitar queimaduras, e o uso do bipolar confina a corrente entre as pontas, sendo preferido em áreas delicadas e próximo a implantes eletrônicos.
A agulha tem três partes (corpo, ponta e encaixe) e se escolhe pelo calibre, pela curvatura (3/8 de círculo é a mais versátil para pele e planos superficiais; 1/2 círculo para planos profundos) e pelo corte da ponta: cilíndrica (arredondada, dissecciona sem cortar, para tecidos moles como intestino, músculo e peritônio, e para vasos), cortante (seção triangular com gume, para pele) e trocarte (corta em bisel, atravessa tecidos muito resistentes como tendão e fáscia). As agulhas atraumáticas vêm montadas no fio, e o fio é classificado por origem (natural ou sintético), estrutura (monofilamentar ou multifilamentar trançado), absorção e calibre: quanto maior o número de zeros, mais fino o fio (um 4-0 é mais fino que um 0).
| Fio | Tipo e absorção | Perda de resistência e absorção completa | Usos típicos |
|---|---|---|---|
| Categute simples (natural, multifilamentar) | Absorvível rápido | Perda de resistência em 7-10 dias; absorção em 1-2 semanas | Ligadura de pequenos vasos e suturas de tecidos que cicatrizam rápido; uso declinante |
| Categute cromado (natural, multifilamentar) | Absorvível, retardo pelo cromo | Perda em 2-3 semanas; absorção em semanas a meses | Mucosas, bexiga, planos que exigem mais tempo; alérgicos ao cromo são uma limitação |
| Poliglactina 910 (sintético, trançado) | Absorvível | Perda de resistência em 2-3 semanas; absorção em 56-70 dias | Sutura de subcutâneo, fáscias de baixa tensão, ligaduras de pedículos, mucosa oral |
| Ácido poliglicólico (sintético, trançado) | Absorvível | Perda em 2-3 semanas; absorção em 60-90 dias | Semelhante à poliglactina: planos profundos e ligaduras |
| Polidioxanona (sintético, monofilamentar) | Absorvível lento | Perda em 4-6 semanas; absorção em 180-240 dias | Fáscias sob tensão (fechamento aponeurótico), cirurgia pediátrica, urologia |
| Poliglecaprone (sintético, monofilamentar) | Absorvível rápido | Perda em 1-2 semanas; absorção em 90-120 dias | Subcuticular (ponto intradérmico), pele de crianças, mucosas |
| Seda (natural, multifilamentar) | Não absorvível | Mantém a resistência indefinidamente | Ligaduras de pedículos calibrosos, sutura de fáscia e tendão; alta reação tecidual |
| Náilon (sintético, monofilamentar) | Não absorvível | Mantém-se; versão envelopada perde tensão em 1-2 anos | Pele, hernioplastias, neurocirurgia e tendão; baixa reatividade, exige 3-4 nós |
| Polipropileno (sintético, monofilamentar) | Não absorvível | Não se degrada | Anastomoses vasculares, pele (sutura contínua), hernioplastias; altíssima memória, muito reativo a manuseio incorreto |
| Aço inoxidável (monofilamentar metálico) | Não absorvível | Permanente | Esterno, tendões e fechamentos de alta tensão; máxima força e mínima tolerância a torção |
O nó é a unidade de fixação da sutura: o nó quadrado (duas voltas simples cruzadas em sentidos opostos) é o padrão para fios sintéticos; o nó cirúrgico (primeira volta dupla seguida de voltas simples) aumenta a estabilidade inicial em tecidos sob tensão; nós extras não aumentam a força além de três e apenas aumentam o volume de corpo estranho. Os pontos básicos: simples separado (padrão para pele, evierte as bordas quando bem posicionado), contínuo ou em surgete (rápido, distribui tensão, menor resistência se um fio falha), em X (aproximação rápida de fáscia), pontos em colcheteiro (mattress) vertical e horizontal (eversão de bordas e distribuição de tensão, ideal em pele fragilizada), intradérmico ou subcuticular (cosmético, com fio absorvível monofilamentar). Na pele, a pega deve incluir derme com bordas levemente evertidas: a inversão de bordas produz cicatriz deprimida e alargada.
Os pontos de pele não absorvíveis são removidos conforme o equilíbrio entre a força de cicatrização e o risco de marcas: quanto mais vascularizado o território, mais precoce a retirada. A orientação usual: face e pescoço em 5 a 7 dias (marcas precoces são permanentes), couro cabeludo em 7 a 10 dias, tronco e abdome em 7 a 10 dias, membros superiores em 7 a 10 dias, membros inferiores e dorso em 10 a 14 dias. Em idosos, desnutridos, corticoterapia, edema e territórios mal vascularizados, a permanência é estendida; a alternativa é fechar com intradérmico absorvível, fitas ou adesivo cianoacrilato e dispensar a retirada.
Os atos básicos se materializam em procedimentos ambulatoriais de pele e vasos, cenário favorito de prova. Na exérese de lesões cutâneas, a incisão elíptica (fusiforme) segue as linhas de tensão da pele (linhas de Langer), com bordas que se aproximam sem dog ears (orelhas de coelho), margens que respeitam o diagnóstico (ex.: margens clínicas de 4 a 6 mm em carcinoma basocelular de baixo risco, conforme protocolo do serviço) e fechamento em dois planos (subcutâneo com fio absorvível e pele com náilon ou intradérmico). Nas veias superficiais, a marcação pré-operatória com mapeamento duplex orienta desde a flebectomia ambulatorial com mini-incisões até a escleroterapia com espuma ou o laser endovenoso, que dispensam a retirada convencional da veia safena; a escolha entre tratamento cirúrgico e não cirúrgico depende do calibre, do refluxo e do sintoma, mas todos se apoiam nos mesmos atos de diérese, hemostasia e síntese.
A infecção do sítio cirúrgico é a complicação infecciosa mais frequente da cirurgia, com taxas de aproximadamente 2% a 5% em países de alta renda e que podem alcançar até cerca de 11% em contextos de recursos limitados, segundo a OMS; os bundles de prevenção (antissepsia adequada, antibioticoprofilaxia no tempo correto, glicemia e normotermia, tricotomia por clipping) concentram as medidas com melhor evidência. Complicações diretamente ligadas à técnica incluem deiscência de sutura (fator de risco clássico: técnica inadequada, infecção, tosse, desnutrição, corticoides), evisceração, seroma e hematoma de ferida, necrose de bordas por sutura muito apertada, granuloma de fio, sinus do fio não absorvível e a retenção de corpos estranhos (compressas e instrumentais), evento centinela evitado pela contagem ao final do ato e pela radiografia de controle quando a contagem fica dúbia, recomendação incorporada aos protocolos internacionais de segurança.
1.A sequência clássica dos tempos fundamentais do ato operatório é:
2.A lâmina de bisturi indicada para a incisão em bisel de um abscesso cutâneo é a:
3.Para dissecar planos delicados e aderências de tecido mole, a tesoura indicada é a de:
4.Durante enterotomia para retirar corpo estranho, a pinça adequada para tracionar a alça intestinal sem esmagá-la é a:
5.O fio de escolha para o fechamento aponeurótico de uma laparotomia sob tensão, considerando absorção lenta e resistência prolongada, é:
6.Sobre calibres de fio de sutura, é correto afirmar que:
7.O nó padrão para a maioria das suturas com fios sintéticos, formado por duas voltas simples em sentidos opostos, é o:
8.O tempo recomendado para retirada de pontos de pele em incisão limpa na FACE é de:
9.Segundo as recomendações de prevenção de infecção do sítio cirúrgico, a tricotomia pré-operatória deve:
10.O estudo de Haynes e colaboradores (NEJM, 2009) sobre o checklist cirúrgico da OMS demonstrou:
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