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Revisão completa da hemostasia para bases da cirurgia: hemostasia primária e secundária, modelo celular da coagulação, interpretação de TP/INR, TTPa e fibrinogênio, técnicas de controle local do sangramento, coagulopatia do trauma, protocolo de transfusão maciça, reversão de anticoagulantes e antifibrinolíticos com doses.
[1] Rossaint R, Bouillon B, Cerny V, et al. The European guideline on management of major bleeding and coagulopathy following trauma: sixth edition. Crit Care. 2019;23:98 · DOI 10.1186/s13054-019-2347-3 | [2] Hoffman M, Monroe DM 3rd. A cell-based model of hemostasis. Thromb Haemost. 2001;85(6):958-965 · PMID 11371487 | [3] CRASH-2 trial collaborators. Effects of tranexamic acid on death and vascular occlusion events in patients with traumatic bleeding (CRASH-2). Lancet. 2010;376(9734):23-32 · DOI 10.1016/S0140-6736(10)60835-5 | [4] Holcomb JB, Tilley BC, Baraniuk S, et al. Transfusion of plasma, platelets, and red blood cells in a 1:1:1 vs a 1:1:2 ratio and mortality in patients with severe trauma: the PROPPR randomized clinical trial. N Engl J Med. 2015;372(7):630-638 · DOI 10.1056/NEJMoa1404480 | [5] WOMAN Trial Collaborators. Effect of early tranexamic acid administration on mortality, hysterectomy, and other morbidities in women with post-partum haemorrhage (WOMAN). Lancet. 2017;389(10084):2105-2116 · DOI 10.1016/S0140-6736(17)30688-8 · DOI 10.1186/s13054-019-2347-3
A hemorragia é a causa de aproximadamente 40% das mortes precoces por trauma e uma das maiores fontes de morbidade perioperatória; grande parte dessas mortes é potencialmente evitável com hemostasia correta e tempestiva. Para o estudante de cirurgia, hemostasia é simultaneamente um capítulo de fisiologia (primária, secundária e fibrinólise), uma habilidade técnica (compressão, ligadura, eletrocautério, agentes tópicos) e um protocolo de emergência (ressuscitação com controle de danos, transfusão maciça e reversão de anticoagulantes). Este artigo percorre os três níveis com os números que as provas cobram: quais exames avaliam cada via da coagulação, as metas de fibrinogênio, plaquetas e cálcio na hemorragia maciça, as doses do ácido tranexâmico e dos antídotos dos antitrombóticos.
A hemostasia primária é o plugue plaquetário. A lesão endotelial expõe colágeno e fator tecidual; a plaqueta adere ao colágeno através do complexo glicoproteico Ib-IX-V ligado ao fator de von Willebrand, ativa-se, muda de forma e secreta ADP, tromboxano A2 e serotonina, recrutando novas plaquetas. A agregação definitiva ocorre quando o receptor GPIIb/IIIa ativado liga fibrinogênio, formando pontes entre plaquetas adjacentes. É sobre esses alvos que agem as drogas mais cobradas: AAS inibe irreversivelmente a cicloxigenase-1 (menos tromboxano A2), clopidogrel bloqueia o receptor P2Y12 do ADP, e abciximabe/eptifibatida/tirofiban bloqueiam o GPIIb/IIIa.
A hemostasia secundária é a formação de trombina e fibrina. O modelo clássico em cascata (vias intrínseca e extrínseca convergindo no X em uma via comum) ainda explica os testes de laboratório, mas o modelo celular de Hoffman e Monroe descreve melhor o que acontece in vivo, em três fases sobre a superfície celular: iniciação, na célula portadora de fator tecidual, onde o complexo TF-FVIIa ativa pequenas quantidades de FIX e FX e gera picos mínimos de trombina; amplificação, na qual essa trombina inicial ativa plaquetas e os cofatores V e VIII (e XI), preparando a maquinaria; e propagação, na superfície das plaquetas ativadas, onde o complexo tenase (IXa-VIIIa) gera Xa e o complexo protrombinase (Xa-Va) converte protrombina em trombina em explosão maciça, polymerizando fibrinogênio em fibrina e ativando o fator XIII, que reticula o coágulo. Mensagem de prova: a coagulação acontece em superfícies celulares, o fator tecidual inicia o processo e a trombina é a enzima central — não existe via intrínseca iniciando hemostasia in vivo sem lesão.
A fibrinólise limita o crescimento do coágulo: o ativador do plasminogênio tecidual (tPA) converte plasminogênio em plasmina, que degrada fibrina (gerando D-dímero), e é contrarregulada pelo inibidor do ativador do plasminogênio tipo 1 (PAI-1), pela alfa-2-antiplasmina e pelo TAFI. Os antifibrinolíticos (ácido tranexâmico e ácido epsilon-aminocaproico) bloqueiam a ligação do plasminogênio à fibrina e estabilizam o coágulo. Completam o sistema os inibidores naturais da coagulação — antitrombina (inativa trombina e Xa, potencializada pela heparina), proteína C e S (inativam Va e VIIIa) e inibidor da via do fator tecidual (TFPI) — cuja falha gera trombofilia, e a fibrina é estabilizada pelo fator XIII.
Na cabeça do cirurgião, a pergunta prática é: o paciente sangra por defeito de plugue plaquetário (sangramento imediato, mucocutâneo, petéquias) ou por defeito de coagulação (sangramento tardio, profundo, hematomas e hemartros)? Essa distinção clínica organiza a investigação e o tratamento perioperatório, e as causas se dividem em congênitas e adquiridas, estas últimas dominando o cenário cirúrgico (anticoagulantes, hepatopatia, uremia, trombocitopenia, coagulopatia dilucional e coagulopatia do trauma).
| Tipo de defeito | Padrão clínico | Exemplos | Exames alterados |
|---|---|---|---|
| Primário (plaquetário/vascular) | Sangramento imediato, mucocutâneo: epistaxe, gengivorragia, petéquias, sangramento em sítios superficiais | Trombocitopenias, uremia, doença de von Willebrand, AAS e clopidogrel, escorbuto | Contagem de plaquetas, tempo de sangramento (histórico), função plaquetária |
| Secundário (coagulação) | Sangramento tardio e profundo: hematomas, hemartros, retroperitônio, sangramento rebote | Hemofilias A e B, deficiência de fator XIII, varfarina, hepatopatia, coagulopatia dilucional | TP/INR (via extrínseca), TTPa (via intrínseca), fibrinogênio |
| Misto ou hiperfibrinolítico | Sangramento difuso microvascular, sangramento persistente de superfícies cruentas | Coagulopatia do trauma, CIVD, hiperfibrinólise, antifibrinolítico deficiente | Fibrinogênio baixo, D-dímero alto, ROTEM/TEG com lise aumentada |
Exames de coagulação de rotina não substituem a anamnese: a história dirigida é o melhor preditor de sangramento perioperatório. Pergunte sobre sangramento após cirurgias e extrações dentárias (retorno ao cirurgião, necessidade de tamponamento), epistaxes recorrentes, equimoses espontâneas, menorragia, sangramento familiar e uso de drogas anti-hemostáticas. O escore de sangramento ISTH-BAT quantifica essa história: valores anormais são 4 ou mais em homens e 5 ou mais em mulheres, indicando distúrbio hemorrágico provável e merecendo investigação dirigida antes de cirurgias de alto risco. Exames laboratoriais basais são indicados seletivamente (hepatopatia, anticoagulantes, história positiva, sangramento ativo), não como rastreio universal de pacientes assintomáticos.
| Achado laboratorial | Interpretação inicial | Diferenciais principais |
|---|---|---|
| TTPa isolado prolongado | Defeito da via intrínseca | Heparina, hemofilia A ou B, doença de von Willebrand, deficiência de XI ou XII, anticoagulante lúpico |
| INR isolado aumentado | Defeito da via extrínseca (fator VII, meia-vida curta) | Varfarina, deficiência de vitamina K, hepatopatia inicial, deficiência isolada de VII |
| TTPa e INR prolongados | Defeito de via comum ou consumo | Hepatopatia avançada, CIVD, coagulopatia dilucional, hipofibrinogenemia |
| Plaquetas baixas com espinhos | Consumo plaquetário | PTI, CIVD, PTT, sepses; pseudo-trombocitopenia por EDTA (repetir com citrato) |
| Fibrinogênio baixo com D-dímero alto | Consumo e fibrinólise | CIVD, hemorragia maciça, hiperfibrinólise do trauma |
| TTPa prolongado que não corrige no teste de mistura | Inibidor circulante | Anticoagulante lúpico, anticoagulante direto, anticorpo anti-fator |
A hemostasia cirúrgica segue uma hierarquia de técnicas que todo aluno deve saber executar e nomear. A compressão direta com gaze por alguns minutos controla a maioria dos sangramentos capilares e permite identificar o vaso com o campo seco — a manobra inicial universal. Seguem-se a pinçamento e ligadura com fio (náilon ou seda para estruturas de calibre relevante), clipes metálicos, eletrocoagulação (bipolar para dissecção fina e estruturas delicadas; monopolar para corte e coagulação mais amplos, evitando proximidade de implantes e monitorização), bisturi ultrassônico e pinças de selagem vascular em laparoscopia. O planejamento também é hemostasia: dissec em planos avasculares, ligadura seletiva prévia de pedículos, hipotensão controlada em cirurgias de sangue reduzido e posição de Trendelenburg inversa quando apropriado.
Os agentes hemostáticos tópicos completam o arsenal quando o sangramento é difuso ou de leitos cruentos: colágeno microfibrilar e celulose oxidada regenerada (que estimulam a agregação plaquetária), esponja de gelatina (suporte mecânico que se reabsorve), agentes combinados com trombina, cola de fibrina (fibrinogênio + trombina, útil em anastomoses e enxertos) e agentes minerais (caulim e zeolita) usados em trauma e cenário militar. Regras de segurança: celulose oxidada não deve ser envolver estruturas em espaço confinado (edema por absorção), colágeno e gelatina não servem para fechamento de grandes vasos e todos exigem campo o mais seco possível para aderirem.
Cerca de um terço dos pacientes com trauma grave chega ao hospital já com coagulopatia, e ela dobra a mortalidade. O mecanismo combina hipoperfusão tecidual com ativação endotelial: choque expõe trombomodulina endotelial, que complexa com a trombina gerada e ativa a proteína C, consumindo fatores V e VIII e gerando um estado hipocoagulante com hiperfibrinólise simultânea (o complexo trombina-trombomodulina também ativa o TAFI e inibe a fibrinólise de forma prejudicada no choque). Soma-se a isso a tríade letal: hipotermia (abaixo de 35 °C inibe a cinética enzimática das proteases e da plaqueta), acidose (pH abaixo de 7,2 reduz a função dos fatores) e hipocalcemia (o citrato dos hemocomponentes quela cálcio, e sem cálcio iônico não há ativação da coagulação). A profilaxia da tríade é parte do tratamento: aquecimento ativo, limitação de cristaloides, controle cirúrgico precoce do sangramento e reposição de cálcio.
Transfusão maciça é a reposição de um volemia em 24 horas, de 10 concentrados de hemácias em 1 hora ou de 4 concentrados em 30 minutos com sangramento ativo. O princípio moderno é ressuscitação com controle de danos: controlar a hemorragia (cirurgia ou intervenção) enquanto se repõe de forma equilibrada o que se perde, evitando o excesso de cristaloides que dilui fatores e piora a acidose. O ensaio PROPPR randomizou pacientes com transfusão maciça para razões plasma:plaquetas:hemácias de 1:1:1 versus 1:1:2 e, embora a mortalidade em 24 horas não tenha sido estatisticamente diferente, o grupo 1:1:1 teve melhor hemostasia e menos mortes por exanguinação em 24 horas (9,2% contra 14,6%), sustentando a estratégia equilibrada inicial, guiada depois por exames viscoelásticos.
| Parâmetro | Meta na hemorragia maciça | Conduta de reposição |
|---|---|---|
| Fibrinogênio | Superior a 1,5 g/L | Concentrado de fibrinogênio 3 a 4 g ou crioprecipitado; repetir conforme viscoelástico |
| Plaquetas | Superior a 50 mil/mm3 (75 a 100 mil em trauma craniano) | Concentrado de plaquetas (1 aferese eleva 30 a 60 mil em adulto) |
| INR / TP | INR inferior a 1,5 | Plasma fresco congelado 10 a 15 mL/kg ou concentrado de complexo protrombínico |
| Cálcio iônico | Superior a 1,1 mmol/L | Gluconato de cálcio 1 a 3 g IV ou cloreto de cálcio 1 g IV |
| Temperatura | Superior a 36 °C | Aquecimento ativo externo e dos fluidos |
| pH | Superior a 7,2 | Corrigir hipoperfusão e hemorragia; ventilar adequadamente |
O paciente que sangra sob anticoagulação plena exige reversão proporcional ao risco: sangramento maior com instabilidade ou sítio crítico (sistema nervoso central, compartimentos, via aérea) impõe reversão completa; sangramentos menores podem exigir apenas suspensão e observação. A varfarina é revertida com vitamina K 5 a 10 mg IV em infusão lenta (efeito hepatérico em 6 a 12 horas) associada a concentrado de complexo protrombínico (25 a 50 U/kg conforme INR) ou, na indisponibilidade, plasma fresco congelado 15 a 30 mL/kg; o PCC age em minutos, e a vitamina K impede o rebote nas 24 a 48 horas seguintes.
| Fármaco | Antídoto | Dose usual em sangramento maior |
|---|---|---|
| Varfarina | Vitamina K IV + concentrado de complexo protrombínico (PCC) | Vitamina K 5 a 10 mg IV + PCC 25 a 50 U/kg; alternativa PFC 15 a 30 mL/kg |
| Heparina não fracionada | Sulfato de protamina | 1 mg IV para cada 100 UI de heparina ativa nos últimos 60 min (máximo 50 mg) |
| Enoxaparina | Sulfato de protamina (reversão parcial, cerca de 60%) | 1 mg para cada 1 mg de enoxaparina nas últimas 8 h |
| Dabigatrano | Idarucizumabe | 5 g IV (2 bolus de 2,5 g) |
| Rivaroxabana e apixabana | Andexanete alfa ou PCC | Andexanete conforme esquema (dose baixa ou alta); alternativa PCC 50 U/kg |
| AAS e clopidogrel | Sem antídoto específico; desmopressina e plaquetas | Desmopressina 0,3 mcg/kg IV; concentrado de plaquetas em sangramento grave ou neurocirurgia |
O ácido tranexâmico é o hemostático sistêmico com evidência mais sólida. No trauma com hemorragia significativa, o CRASH-2 (20.211 pacientes) reduziu a mortalidade global (14,5% contra 16,0%) e a morte por sangramento com 1 g IV em bolus seguido de 1 g em 8 horas, desde que administrado até 3 horas da lesão; após essa janela, há sinal de dano. No sangramento pós-parto, o WOMAN (20.060 mulheres) confirmou redução de morte por sangramento com 1 g IV, sem excesso de eventos trombóticos oclusivos. Em cirurgia eletiva de alto risco (ortopédica grande, cardíaca, próstata), a profilaxia habitual é 10 a 15 mg/kg IV na indução, com repetição conforme o procedimento. O ácido epsilon-aminocaproico é alternativa (dose de carga 100 mg/kg, seguida de 1 g/h) em cirurgia cardíaca e odontologia de pacientes hemofílicos.
A desmopressina (DDAVP) na dose de 0,3 mcg/kg IV libera fator de von Willebrand e FVIII do endotélio, sendo útil na doença de von Willebrand tipo 1, hemofilia A leve, uremia e em pacientes sob AAS antes de procedimentos de alto risco. O concentrado de fibrinogênio repõe o fator mais precoce e criticamente depletado nas hemorragias maciças. O fator VIIa recombinante (rFVIIa, 90 mcg/kg) gera explosão de trombina e é reservado a hemorragia refratária a terapia convencional em coagulopatia com plaquetas e fibrinogênio já corrigidos, pH acima de 7,2 e normotermia — nunca como primeira linha, pelo risco trombótico e ausência de melhora de desfecho em transfusão maciça.
As complicações da falha de hemostasia são a exanguinação, o choque hemorrágico com lesão de órgãos por hipoperfusão e a síndrome compartimental; as do próprio tratamento incluem sobrecarga volêmica (TACO), lesão pulmonar aguda relacionada à transfusão (TRALI), reações hemolíticas, hipocalcemia e hipotermia por hemocomponentes frios, e eventos trombóticos quando antifibrinolíticos ou fatores são usados fora de indicação. Na CIVD, o consumption de fatores e plaquetas gera sangramento e trombose simultâneos, e o tratamento é o da causa de base (sepse, retenção fetal, trauma) com suporte transfusional. O prognóstico da hemorragia maciça depende do tempo até o controle mecânico da fonte: cada ciclo de hipotensão prolongada aumenta a mortalidade, e é por isso que a sequência correta é fonte primeiro, laboratório depois.
1.Segundo o modelo celular da hemostasia, a fase de iniciação da coagulação ocorre:
2.O tempo de tromboplastina parcial ativada (TTPa) avalia preferencialmente:
3.Um INR isoladamente elevado sugere, inicialmente, deficiência ou efeito sobre qual fator?
4.A dose do ácido tranexâmico no trauma com hemorragia significativa (CRASH-2) é:
5.O ensaio PROPPR comparou razões plasma:plaquetas:hemácias de 1:1:1 versus 1:1:2 e demonstrou:
6.Paciente sob dabigatrano apresenta hematoma intracraniano. O antídoto e a dose são:
7.Para reverter heparina não fracionada em sangramento, a dose de protamina é:
8.Na hemorragia maciça, a meta mínima de fibrinogênio plasmático é:
9.A tríade letal da hemorragia maciça compreende:
10.A desmopressina (DDAVP), na dose de 0,3 mcg/kg IV, é útil como hemostático em qual situação?
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