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Guia técnico de escalpe, cateteres periféricos (Jelco), punção arterial para gasometria, acesso venoso central pela técnica de Seldinger e acesso intraósseo, com calibres e vazões, complicações como flebite e extravasamento e o bundle de prevenção de infecção.
[1] McGee DC, Gould MK. Preventing complications of central venous catheterization. N Engl J Med. 2003;348(12):1123-1133 · DOI 10.1056/NEJMra021883 | [2] Gorski LA, Hadaway L, Hagle ME, et al. Infusion Therapy Standards of Practice, 8th Edition. J Infus Nurs. 2021;44(1S Suppl 1):S1-S224 · DOI 10.1097/NAN.0000000000000396 | [3] Lamperti M, Bodenham AR, Pittiruti M, et al. International evidence-based recommendations on ultrasound-guided vascular access. Intensive Care Med. 2012;38(7) · DOI 10.1007/s00134-012-2597-x | [4] O'Grady NP, Alexander M, Burns LA, et al. Guidelines for the Prevention of Intravascular Catheter-related Infections, 2011. Am J Infect Control. 2011;39(4 Suppl):S1-S34 · DOI 10.1016/j.ajic.2011.01.003 | [5] Townsend CM Jr, Beauchamp RD, Evers BM, Mattox KL. Sabiston - Tratado de Cirurgia: a base biológica da prática cirúrgica moderna. 20ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2017 · DOI 10.1056/NEJMra021883
A punção venosa é o procedimento invasivo mais executado da medicina: a grande maioria dos pacientes hospitalizados recebe um cateter vascular, e em emergência um acesso de grosso calibre decidido em minutos muda o desfecho da ressuscitação. O que separa o acesso bom do ruim é o detalhe técnico: calibre correto para a vazão necessária (a vazão cresce com a quarta potência do raio), veia adequada, técnica asséptica, fixação correta e vigilância diária de complicações - flebite, infiltração, extravasamento e infecção de corrente. Para a prova de bases da cirurgia, o aluno deve dominar o escalpe e o cateter periférico sobre agulha (calibres, cores, vazões e técnica passo a passo), a punção arterial para gasometria, as indicações do acesso venoso central com a técnica de Seldinger e o bundle de prevenção de infecção, e o acesso intraósseo como via de resgate.
Os acessos vasculares se organizam por profundidade, tempo de uso e tipo de estrutura puncionada. Acesso periférico curto: escalpe (agulha de aço com asas, para uso brevíssimo) e cateter sobre agulha (Jelco/Abbocath), instalado em veias superficiais dos membros superiores, para terapias de dias a poucas semanas. Acesso periférico médio (midline): cateter de 7,5 a 20 cm inserido em veia do braço, com ponta na axila, para terapias de 1 a 4 semanas - não chega à veia central. Acesso central: cateteres cuja ponta situa-se na junção cavoatrial, por punção de subclávia, jugular interna ou femoral (não tunelizados, para até 2-3 semanas), ou dispositivos de longo prazo como o PICC (cateter central de inserção periférica), o cateter tunelizado tipo Hickman e o port totalmente implantável, para meses a anos. Acesso arterial: punção única para gasometria ou canulação contínua (radial, femoral) para monitorização invasiva. Acesso intraósseo: agulha na medula óssea (tíbia proximal, úmero), via de emergência quando a veia falha.
| Grupo | Exemplos | Uso típico |
|---|---|---|
| Periférico curto | Escalpe (borboleta); cateter sobre agulha (Jelco) | Hidratação, medicamentos comuns, coleta de sangue; dias a semanas |
| Periférico médio | Midline de 7,5-20 cm em veia do braço | Terapias de 1-4 semanas; irritantes leves; ponta não central |
| Central agudo (não tunelizado) | Subclávia, jugular interna, femoral | Vasoativos, nutrição parenteral, monitorização; até 2-3 semanas |
| Central de longo prazo | PICC, Hickman tunelizado, port implantável | Quimioterapia, antibioticoterapia prolongada, TPN; meses a anos |
| Arterial | Punção radial para gasometria; linha radial/femoral | Gasometria e monitorização invasiva contínua |
| Intraósseo | Agulha 15-16G em tíbia proximal ou umeral | Emergência (PCR, choque) sem acesso venoso viável |
O escalpe é uma agulha de aço com duas asas flexíveis (formato de borboleta) conectada a um tubo translúcido curto. Calibres usuais: 21G para veias de adulto, 23G e 25G para crianças, idosos e veias frágeis, chegando a 27G em neonatologia. Indicações: coleta de sangue (inclusive em veias finas do dorso da mão e do couro cabeludo de recém-nascidos), infusões de curta duração e administração de medicamentos em pacientes com veias de difícil acesso. A técnica difere da do cateter: o ângulo de entrada é de 15 a 25 graus, o refluxo de sangue aparece no tubo (e não em câmara), e a fixação é feita sobre as asas, com tiras adesivas em alça, imobilizando a agulha e o tubo. Limitação fundamental: por se tratar de agulha de aço que permanece na veia, qualquer movimento pode perfurar a parede vascular - por isso o escalpe NÃO serve para infusão prolongada nem para soluções irritantes, sendo preferível o cateter flexível sempre que a terapia ultrapassar poucas horas.
O cateter periférico sobre agulha (Jelco, Abbocath) é o acesso de rotina: a agulha perfura a veia e é retirada, permanecendo apenas o cateter flexível de teflon. A técnica correta: punção a 15-30 grais com bisel para cima, observar o refluxo na câmara, reduzir o ângulo quase paralelo à pele, progredir 2-3 mm para garantir que o cateter (e não apenas a agulha) esteja intraluminal, deslizar o cateter sobre a agulha e retirar a agulha com o dispositivo de segurança ativado. NUNCA reintroduzir a agulha dentro do cateter após começar a avançar: o bisel pode seccionar a ponta do cateter e causar embolismo de fragmento. A física explica a escolha do calibre: pela lei de Poiseuille, a vazão é diretamente proporcional à quarta potência do raio - duplicar o diâmetro interno multiplica o fluxo por aproximadamente 16. Veias preferidas: começar distal no membro superior não dominente (veias cefálica, basílica e mediana do antebraço), progredindo para proximal; evitar as dobradiças (fossa cubital) quando a terapia for prolongada, pelo risco de dobra e deslocamento. Evitar membros inferiores de rotina (mais flebite e trombose), braço com fístula arteriovenosa, braço com linfedema (por exemplo, pós-mastectomia) e lado paralítico. Em ressuscitação e trauma: dois cateteres calibrosos (14G a 18G) em veias de grosso calibre.
| Calibre (G) | Cor do cateter | Vazão aproximada | Uso típico |
|---|---|---|---|
| 14G | Laranja | ~240-270 mL/min | Ressuscitação volêmica intensa, transfusão maciça, trauma |
| 16G | Cinza | ~180-220 mL/min | Cirurgias, reposição volêmica rápida, transfusão |
| 18G | Verde | ~100-120 mL/min | Transfusão, contraste iodado, antibioticoterapia potente |
| 20G | Rosa | ~60-80 mL/min | Uso geral em adultos, terapia de manutenção |
| 22G | Azul | ~35-60 mL/min | Pediatria, veias finas, terapia moderada |
| 24G | Amarelo | ~20-30 mL/min | Neonatos e lactentes, fluidos de baixo volume |
Hematoma: sangue extravasa após punção inadequada ou compressão insuficiente - retirar, comprimir 3-5 minutos e elevar o membro. Flebite: dor, calor, eritema e cordão venoso palpável ao longo do trajeto (escala INS de 0 a 4, da suspeita a sinais maiores com estria e palidez); conduta: retirar o cateter, compressas mornas, analgésico se necessário e reintrodução em outro sítio; a flebite pode ser química (solução irritante/hipertônica), mecânica (cateter móvel ou calibre grande em veia pequena) ou infecciosa (com pus - cultura e cobertura antimicrobiana). Infiltração: soluto NÃO vesicante no espaço perivascular, com edema frio, dor e redução do retorno - interromper, desconectar, aspirar o resíduo possível, elevar o membro e reconfortar; para noradrenalina e vasopressores que causam isquemia local, aplicar fentolamina 5-10 mg diluída em soro e infiltrar na área (antídoto do vasoconstritor alfa). Extravasamento de vesicante (quimioterápicos, contraste, soluções altamente alcalinas): interromper imediatamente, aspirar pela via antes de retirar o cateter, usar antídoto específico (fentolamina para vasopressores; hialuronidase para alcalinos como bicarbonato e cálcio, conforme protocolo), curativo, fotografia e registro - notificar e acompanhar por 24-48 horas. Punção arterial acidental em sítio venoso: retirar e comprimir por pelo menos 5 minutos. Lesão nervosa: dor elétrica irradiada durante a punção (nervo mediano na fossa cubital) - retirar imediatamente e não insistir. Embolismo de cateter: fragmento na corrente circulatória por reintrodução de agulha - compressão proximal, monitorização e retirada endovascular em serviço especializado.
| Complicação | Apresentação | Conduta inicial |
|---|---|---|
| Flebite | Dor, eritema, calor e cordão venoso no trajeto | Retirar cateter, compressa morna, novo acesso em outro sítio |
| Infiltração | Edema frio, desconforto, sem refluxo sanguíneo | Parar infusão, desconectar, aspirar resíduo, elevar membro |
| Extravasamento de vesicante | Dor intensa, edema, risco de bolha e ulceração | Parar, aspirar pela via, antídoto específico (ex.: fentolamina para vasopressor), registrar e acompanhar |
| Hematoma | Equimose e enduração no sítio de punção | Retirar agulha, compressão direta 3-5 min, elevar |
| Lesão nervosa | Dor elétrica irradiada durante a punção | Retirar imediatamente a agulha e não reintroduzir |
| Embolismo de cateter | Fragmento perdido na corrente circulatória | Compressão proximal, monitorização, retirada endovascular |
A artéria radial é o sítio de eleição: superficial, sobre o processo estilóide radial, com circulação colateral via arco palmar - por isso recomenda-se o teste de Allen modificado antes da canulação prolongada (comprimir radial e ulnar, fechar a mão, liberar a ulnar: rubor em até 5-15 segundos confirma fluxo ulnar). Alternativas: artéria braquial (sem colateral garantida - compressão cuidadosa) e femoral (última escolha de rotina, maior risco de complicações). Material: seringa heparinizada de 1-3 mL com agulha 22-25G (ou escalpe fino); anestesia local com lidocaína 1% é opcional, mas reduz a dor e o espasmo. Técnica: ângulo de 30-45 graus (ou 90 graus no radial), punção até refluxo pulsátil espontâneo - o sangue arterial entra sozinho, pulsátil e vermelho-vivo, diferentemente do venoso, que precisa ser aspirado; colher 1-2 mL, expelir as bolhas de ar, tampar e analisar em até 15 minutos (ou manter em banho de gelo por até 30-60 minutos). Compressão de pelo menos 5 minutos (10-15 se anticoagulado ou plaquetopênico). Complicações: hematoma, espasmo, oclusão radial com isquemia (verificar perfusão da mão) e, raramente, pseudoaneurisma.
Indicações do cateter venoso central: infusão de vasoativos concentrados (noradrenalina, adrenalina), drogas irritantes e vesicantes (quimioterápicos), soluções hipertônicas e nutrição parenteral, potássio concentrado; monitorização hemodinâmica (pressão venosa central, ScvO2); marcapasso transvenoso; acessos para hemodiálise, plasmaférese e grandes cirurgias; e paciente sem acesso periférico viável. Sítios: subclávia - menor taxa de infecção e maior conforto, mas risco de pneumotórax e vaso não compressível (evitar em coagulopatia); jugular interna - compressível, de fácil sonografia, com menor risco de pneumotórax que a subclávia, e o sítio preferido guiado por ultrassom; femoral - sem risco de pneumotórax e acessível durante reanimação, porém maior colonização e trombose, evitando-se de rotina em adultos. As recomendações internacionais (Lamperti, 2012) indicam ultrassonografia em tempo real para todo acesso central de alto risco: reduz falhas, punções arteriais, pneumotórax e número de tentativas. Ponta do cateter: junção cavoatrial, confirmada por radiografia pós-procedimento nos sítios superiores.
| Sítio | Vantagens | Riscos característicos |
|---|---|---|
| Subclávia | Menor taxa de infecção, conforto, mobilidade do pescoço | Pneumotórax; artéria não compressível - evitar em coagulopatia |
| Jugular interna | Compressível, ideal ao ultrassom, menor risco de pneumotórax | Punção da carótida, maior colonização que a subclávia |
| Femoral | Sem risco de pneumotórax, acessível durante a PCR | Maior infecção e trombose; evitar de rotina em adultos |
Complicações imediatas: punção arterial (carótida ou femoral - retirar e comprimir 10 minutos; punção de artéria subclávia não compressível pode exigir intervenção), pneumotórax (1-3% nos sítios subclávio e jugular - radiografia pós-procedimento e drenagem se sintomático), hemotórax, arritmia por fio-guia profundo (retirar o fio alguns centímetros), embolia aérea (posição Trendelenburg e oclusão imediata do lúmen) e retenção do fio-guia - evitada contando e documentando a retirada. Complicações tardias: infecção de corrente sanguínea relacionada ao cateter (febre sem outro foco; diagnóstico por hemoculturas pareadas de cateter e periférico com diferencial de tempo à positividade maior ou igual a 2 horas favorecendo o cateter) e trombose venosa. O bundle de prevenção (CDC 2011, incorporado às práticas brasileiras de segurança do paciente): higiene das mãos, barreira estéril máxima no momento da inserção, clorhexidina alcoólica para antissepsia da pele, evitar sítio femoral em adultos quando possível, avaliação diária da necessidade com retirada do cateter assim que não mais indicado, sem trocas rotineiras programadas; curativo transparente trocado a cada 5-7 dias (ou a cada 2 dias se gaze), e imediatamente quando sujo, úmido ou solto.
O acesso intraósseo usa a rede venosa medular, que drena direto para a circulação sistêmica, e é indicado em parada cardiorrespiratória, choque grave, politrauma e queimados quando não se consegue acesso venoso em até 2 tentativas ou 90 segundos, além de contraindicação relativa em edemas intensos. Sítios: tíbia proximal (1-2 cm medial e distal à tuberosidade tibial), cabeça umeral e esterno (agulha manual no adulto). Utiliza-se agulha 15-16G com furador elétrico (drill) ou manual, perfurando o córtex até a perda de resistência e fixação da agulha. Toda droga e fluido administrável por via venosa passa pela via intraóssea - adrenalina, noradrenalina, anticonvulsivantes, antibióticos e sangue -, com bolus seguido de flush de 5-10 mL para impulsionar do canal medular à circulação; infusões contínuas exigem bolsa pressurizada. Contraindicações: fratura no sítio, infecção local, osteogênese imperfeita e tentativa prévia no mesmo osso. Complicações: extravasamento subperiostal, fratura iatrogênica, osteomielite (rara) e embolia gordurosa (rara); remover assim que haja acesso venoso definitivo, idealmente em menos de 24 horas.
1.Durante a ressuscitação de um paciente politraumatizado, qual cateter periférico oferece a maior vazão para infusão rápida de volume?
2.Ao avançar um cateter periférico sobre agulha, o estudante nota que o cateter dobrou antes de entrar totalmente e tenta reintroduzir a agulha para endireitá-lo. O risco específico desse gesto é:
3.Paciente em uso de noradrenalina por acesso periférico evolui com palidez, dor intensa e enduração ao redor do sítio. Além de interromper a infusão, o antídoto local indicado é:
4.A respeito do teste de Allen modificado e da punção da artéria radial, assinale a correta:
5.Qual sítio de cateterismo venoso central está associado à MENOR taxa de infecção relacionada ao cateter?
6.Durante a passagem do fio-guia em um acesso de jugular interna, o paciente desenvolve extrassístoles ventriculares frequentes. A manobra correta é:
7.O diagnóstico laboratorial que melhor sugere infecção da corrente sanguínea relacionada ao cateter utiliza:
8.Em parada cardiorrespiratória, após 2 tentativas infrutíferas de acesso venoso periférico, a via intraóssea é obtida na tíbia proximal. Sobre as drogas por essa via:
9.Sobre a escolha do sítio de punção venosa periférica de rotina, qual orientação é correta?
10.Qual item NÃO faz parte da barreira estéril máxima para inserção de cateter venoso central?
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