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Fundamentos de asepsia e antissepsia para o cirurgião em formação: classificação de Spaulding e métodos de esterilização, classes de ferida e risco de infecção do sítio cirúrgico, preparo das mãos da equipe e da pele do paciente, antibioticoprofilaxia com doses e tempos, além dos critérios diagnósticos da ISC.
[1] Organização Mundial da Saúde. Global Guidelines for the Prevention of Surgical Site Infection. 2ª ed. Genebra: OMS; 2018 · who.int/publications/i/item/9789241550475 | [2] Berríos-Torres SI, Umscheid CA, Bratzler DW, et al. Centers for Disease Control and Prevention Guideline for the Prevention of Surgical Site Infection, 2017. JAMA Surg. 2017;152(8):784-791 · DOI 10.1001/jamasurg.2017.0904 | [3] Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde (Caderno 4, Série Segurança do Paciente em Serviços de Saúde). Brasília: Anvisa; 2017 · search.bvsalud.org | [4] Tanner J, Dumville JC, Norman G, Fortnam M. Surgical hand antisepsis to reduce surgical site infection. Cochrane Database Syst Rev. 2016;(1):CD004288 · DOI 10.1002/14651858.CD004288.pub3 | [5] Mangram AJ, Horan TC, Pearson ML, Silver LC, Jarvis WR. Guideline for Prevention of Surgical Site Infection, 1999. Infect Control Hosp Epidemiol. 1999;20(4):247-280 · DOI 10.1086/501620 · DOI 10.1001/jamasurg.2017.0904
A infecção do sítio cirúrgico (ISC) é a infecção relacionada à assistência à saúde mais frequente em pacientes operados: atinge cerca de 1 a 3% dos cirurgiados em países de alta renda e pode superar 10% em países de renda baixa e média, sendo uma das IRAS mais notificadas no Brasil. As consequências são concretas: aumento médio de 7 a 11 dias de internação, maior taxa de readmissão, mortalidade 2 a 3 vezes maior que a esperada para o procedimento e custo multiplicado. A boa notícia é que uma grande parcela dessas infecções é evitável com um encadeamento de medidas baratas: esterilização correta do instrumental, antissepsia das mãos da equipe e da pele do paciente, antibioticoprofilaxia no momento certo, normotermia, normoglicemia e disciplina na sala operatória. Este artigo percorre essa cadeia exatamente como as diretrizes da OMS (2018), do CDC (2017) e da Anvisa (2017) a organizam, com os números que a prova cobra.
Contaminação é a presença de microrganismos em um sítio sem resposta inflamatória do hospedeiro; colonização é a multiplicação sem dano; infecção exige invasão e resposta do hospedeiro. Asepsia é o conjunto de medidas que impedem a chegada de microrganismos à ferida, ou seja, manter um campo e materiais livres de microrganismos (campo estéril, instrumental estéril, técnica cirúrgica). Antissepsia é o emprego de agentes químicos (antissépticos) na pele íntegra do paciente e nas mãos da equipe para reduzir a flora transitória e suprimir a residente. Aplicadas a objetos inanimados, as medidas se dividem em desinfecção, que elimina formas vegetativas de bactérias, fungos e vírus, mas não garante destruição de esporos, e esterilização, que destrói todas as formas de vida, incluindo esporos, com nível de segurança de 10^-6 (uma unidade viável por milhão de itens processados). Confundir desinfecção de alto nível com esterilização é o erro conceitual mais cobrado em prova.
A classificação de Spaulding orienta o processamento de artigos de acordo com o risco de infecção associado ao seu contato: artigos críticos entram em tecido estéril ou no sistema vascular e exigem esterilização; semicríticos entram em contato com mucosas íntegras e exigem desinfecção de alto nível; não críticos entram em contato com pele íntegra e recebem desinfecção de nível baixo ou intermediário.
| Categoria (Spaulding) | Exemplos | Processamento exigido | Métodos típicos |
|---|---|---|---|
| Crítico (tecido estéril ou vascular) | Instrumental cirúrgico, agulhas, implantes, próteses | Esterilização | Autoclave (vapor saturado), peróxido de hidrogênio em plasma, óxido de etileno, ácido peracético |
| Semicrítico (mucosa ou pele não íntegra) | Endoscópios flexíveis, laringoscópios, circuitos de ventilador | Desinfecção de alto nível (elimina micobactérias, sem exigir destruição de esporos) | Glutaraldeído 2%, orto-ftalaldeído, ácido peracético |
| Não crítico (pele íntegra) | Estetoscópio, manguito de pressão, mobiliário | Desinfecção de baixo a médio nível | Álcool 70%, hipoclorito de sódio 1%, quaternários de amônio |
A autoclave é o padrão-ouro de esterilização: vapor saturado a 121 °C por 15 a 30 minutos (deslocamento por gravidade) ou a 132 °C por cerca de 4 minutos (pré-vácuo). O controle de qualidade usa três camadas: indicadores físicos (registros de pressão e temperatura), químicos (fita externa e indicadores internos de classe 5, que mudam de cor por lote) e biológicos, com esporos de Geobacillus stearothermophilus, recomendados semanalmente e em todo lote que contenha implantes. O glutaraldeído 2% realiza desinfecção de alto nível em 20 a 30 minutos de imersão, mas só esteriliza após cerca de 10 horas de exposição: tempo é a variável que muda a categoria do processo, questão clássica de prova.
A maioria das ISC originam-se da flora endógena do próprio paciente presente no sítio cirúrgico no momento da incisão; a flora exógena (equipe, ar da sala, instrumental e superfícies) responde por menor parcela, mas é a mais evitável com técnica. Experimentalmente, o inóculo crítico para produzir infecção de ferida é de cerca de 10^5 unidades formadoras de colônia por grama de tecido; a presença de corpo estranho (fios de sutura, implantes, tecido necrótico) reduz esse limiar para 10^2 a 10^3 UFC/g, o que explica por que cirurgias limpas com prótese recebem profilaxia e por que desbridamento e hemostasia rigorosa são medidas anti-infecciosas tanto quanto antibióticos. Os índices de risco clássicos (NNIS/ACS-NSQIP) combinam três preditores: classe da ferida, escore ASA do paciente e duração da cirurgia acima do percentil 75 do procedimento.
| Classe | Definição | Risco aproximado de ISC | Exemplos |
|---|---|---|---|
| I - Limpa | Ferida fechada, trato digestivo, respiratório ou genitourinário não aberto, sem inflamação | 1 a 5% | Herniorrafia eletiva, tireoidectomia, artroplastia, mastectomia |
| II - Limpa-contaminada | Abertura controlada de trato respiratório, digestivo ou genitourinário com contaminação mínima | 3 a 11% | Colecistectomia eletiva, gastrectomia, cesárea eletiva |
| III - Contaminada | Ferida aberta acidental recente (menos de 4 h), quebra importante de técnica, derramamento de conteúdo digestivo significativo ou inflamação aguda | 10 a 17% | Laparotomia para trauma abdominal aberto, colecistite supurada |
| IV - Suja ou infectada | Ferida antiga ou de tratamento tardio, tecido necrótico, abscesso estabelecido, peritonite | acima de 27% | Drenagem de abscesso, peritonite por perfuração intestinal |
A classe da ferida orienta a antibioticoprofilaxia: cirurgias limpas de baixo risco (herniorrafias sem malha, cirurgia de mama sem reconstrução, procedimentos oculares e renais eletivos) não exigem antibiótico, ao passo que cirurgias limpas com implante (próteses articulares, valvas, malhas) e todas as limpas-contaminadas recebem esquema profilático dirigido à flora esperada. Nas classes III e IV fala-se em antibioticoterapia terapêutica, não profilaxia.
O objetivo da antissepsia cirúrgica das mãos é eliminar a flora transitória e suprimir a residente por várias horas, o que diferencia o preparo cirúrgico da higienização simples. Antes de iniciar, retiram-se anéis, relógios e pulseiras, mantêm-se unhas curtas (no máximo 2 mm além do leito ungueal), sem unhas artificiais ou esmalte descascado, com cutículas íntegras; mãos com lesões abertas contraindicam a participação no ato cirúrgico. Na primeira cirurgia do dia, a escovação dura 2 a 5 minutos (mãos, antebraços até o cotovelo, sempre com as mãos acima dos cotovelos, secagem com toalha estéril da mão para o braço) ou substitui-se por fricção com preparação alcoólica (gel ou solução de clorexidina alcoólica) por cerca de 1,5 a 2 minutos em duas aplicações; nas cirurgias seguintes, o tempo é reduzido para 1 a 3 minutos. A revisão Cochrane de 2016, com dezenas de ensaios randomizados, não encontrou diferença na incidência de ISC entre escovação e fricção alcoólica nem entre clorexidina e PVPI, e demonstrou que o uso de escova na pele aumenta lesões e a contagem bacteriana: a escovação deve ser restrita, quando muito, às unhas.
| Antisséptico | Concentração usual | Espectro | Ação residual | Cuidados importantes |
|---|---|---|---|---|
| Clorexidina degermante (sabonete) | 2 a 4% | Ampla: gram-positivos, gram-negativos, fungos e vírus envelopados; fraca contra esporos | Excelente (horas) | Não usar em olhos, conduto auditivo externo e meninges; raras reações anafiláticas |
| Clorexidina alcoólica | 2% em álcool 70% | A mais rápida e ampla para pele intacta | Excelente | Deixar secar por cerca de 3 minutos; risco de queimadura com eletrocautério se úmida |
| PVPI degermante ou aquoso | 7,5 a 10% | Amplo, incluindo alguma atividade contra micobactérias | Moderada | Absorção sistêmica de iodo: cautela em tireoidopatas, gestantes e recém-nascidos; preferido em mucosas e contorno ocular |
| PVPI alcoólico | 5 a 10% em álcool | Ação rápida e ampla | Moderada | Secar completamente antes do campo cirúrgico (inflamável); evitar mucosas |
| Álcool etílico ou isopropílico | 70% | Rápido sobre formas vegetativas | Nula (evapora) | Não é esporicida e não serve para esterilização; não usar em mucosas; inflamável |
Para a antissepsia da pele do paciente no campo operatório, as diretrizes preferem formulações à base de álcool (clorexidina alcoólica) em pele intacta, aplicadas do centro para a periferia e completamente secas antes da colocação dos campos: além da melhor atividade imediata, o álcool fixa menos resíduos e a clorexidina mantém efeito residual contra a recontaminação durante a cirurgia. Em mucosas (oral, vaginal, perianal) e no contorno ocular usa-se PVPI aquosa, pois a clorexidina é ototóxica e neurotóxica em contato com meninges e o álcool é caústico às mucosas. Solução antisséptica alcoólica derramada sobre drapes de pano ou acumulada junto ao eletrodo é causa clássica e evitável de queimadura intraoperatória.
A profilaxia mira a flora esperada do sítio cirúrgico e precisa estar presente em níveis teciduais adequados no momento da incisão, o que define o tempo de administração: cefazolina termina a infusão até 60 minutos antes da incisão; vancomicina e fluoroquinolonas, que exigem infusão mais lenta (60 a 120 minutos), devem ser iniciadas para terminar até 120 minutos antes. A reinfusão intraoperatória obedece à meia-vida e à perda sanguínea: repete-se cefazolina quando a cirurgia ultrapassa 4 horas ou quando há perda sanguínea maior que 1.500 mL. A duração total não deve passar de 24 horas após o fechamento da incisão; prolongar profilaxia não previne infecção e seleciona bactérias resistentes e Clostridioides difficile.
| Situação | Esquema padrão | Dose, momento e reinfusão |
|---|---|---|
| Cirurgia limpa com implante ou alto risco (ortopédica com prótese, cardíaca, vascular com enxerto) | Cefazolina | 2 g IV (3 g se peso maior que 120 kg) até 60 min antes; repetir após 4 h de cirurgia ou perda sanguínea maior que 1.500 mL |
| Cirurgia colorretal | Cefazolina + metronidazol | Cefazolina 2 g IV e metronidazol 500 mg IV, ambos até 60 min antes da incisão |
| Cesárea (qualquer urgência) | Cefazolina | 2 g IV antes da incisão da pele, independentemente do clampeamento do cordão |
| Alergia grave a beta-lactâmicos (anafilaxia) | Clindamicina com ou sem aminoglicosídeo, ou vancomicina | Clindamicina 900 mg IV até 30 min antes; vancomicina 15 mg/kg com infusão iniciada para terminar até 120 min antes |
| Cirurgia limpa de baixo risco sem implante | Sem antibiótico profilático | Herniorrafia sem malha, cirurgia de mama sem reconstrução: técnica asséptica correta é a medida |
Regra de ouro que resume a seção: antibiótico profilático não substitui técnica estéril. Ele reduz modestamente o risco basal de uma cirurgia cujo campo, instrumental e equipe seguem as regras de asepsia; administrado fora do tempo certo (por exemplo, no retorno da sala após a incisão) ou estendido por dias, só acrescenta resistência e efeitos adversos.
A vigilância estende-se por 30 dias após a cirurgia (90 dias quando há implante). ISC superficial da incisão acomete pele e tecido subcutâneo dentro de 30 dias e exige ao menos um dos critérios: drenagem purulenta da incisão; isolamento de microrganismo de secreção ou tecido da incisão; dor ou rubor localizado, edema ou calor com abertura deliberada da incisão pelo cirurgião; ou diagnóstico de ISC pelo cirurgião. Não são ISC superficial: piodermite da pele adjacente, infecção de queimadura e incisão usada para drenar abscesso. ISC profunda da incisão envolve fáscia e músculo em até 30 dias (90 com implante) com febre maior que 38 °C, dor ou rubor, drenagem purulenta, deiscência ou abscesso. ISC de órgão ou espaço atinge qualquer área aberta ou manipulada além da incisão (peritonite, empiema, osteomielite do implante), nos mesmos prazos. O diagnóstico é clínico, apoiado por cultura de secreção profunda obtida por aspirado ou biópsia (swab de superfície tem pouco valor) e por imagem (ultrassonografia ou tomografia) para coleções.
A ISC superficial trata-se principalmente com abertura da ferida, debridamento e curativos; antibiótico sistêmico agrega benefício apenas quando há celulite progressiva, sinais sistêmicos, imunossupressão ou comorbidade relevante, cobrindo estafilococos com cefazolina (ou oxacilina), trocando o esquema conforme cultura. ISC profunda e de órgão ou espaço exigem antibiótico venoso dirigido, drenagem de coleções (percutânea ou cirúrgica), debridamento e, nos casos com implante, às vezes remoção do material. Complicações incluem sepse, deiscência, eventração e hérnias incisionais tardias, osteomielite, readmissão hospitalar e mortalidade atribuível. Por isso a prevenção é medida de eficácia e segurança: cada 1% de redução na taxa de ISC economiza internação, antimicrobianos de ampio espectro e sofrimento, e quase tudo depende de condutas sem alto custo e de domínio técnico do estudante: o momento do antibiótico, a escolha do antisséptico, o cuidado com temperatura e glicemia e o respeito ao campo estéril.
1.Segundo a classificação de Spaulding, um endoscópio digestivo flexível que entra em contato com mucosa íntegra é artigo semicrítico. Qual processamento ele exige?
2.Qual das opções abaixo assegura esterilização (destruição de esporos incluída)?
3.Sobre a tricotomia pré-operatória, qual conduta é correta?
4.O diagnóstico de ISC superficial da incisão deve considerar eventos que ocorrem em qual prazo?
5.Cirurgia ortopédica eletiva com prótese iniciada às 8h com cefazolina 2 g IV infundida às 7h30 transcorre sem intercorrências até 12h30, com perda sanguínea de 800 mL. Qual a conduta correta quanto à profilaxia?
6.Qual antisséptico é a melhor escolha para a pele intacta do campo operatório abdominal de um adulto?
7.Durante a escovação cirúrgica das mãos, qual prática é recomendada?
8.Paciente submetido a colectomia eletiva recebe profilaxia correta. Qual o esquema e a duração máxima?
9.Qual medida perioperatória comprovadamente reduz a ISC e faz parte das recomendações do CDC 2017?
10.Qual o momento correto para administrar vancomicina profilática em paciente alérgico a cefalosporinas?
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