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Farmacologia dos anestésicos locais com doses máximas por peso, técnicas de infiltração e bloqueio de campo, preparo do campo operatório, protocolo de tratamento da toxicidade sistêmica (LAST) e do laringoespasmo, e critérios de escolha entre anestesia local e geral.
[1] Neal JM, Barrington MJ, Fettiplace MR, et al. The Third American Society of Regional Anesthesia and Pain Medicine Practice Advisory on Local Anesthetic Systemic Toxicity: Executive Summary 2017. Reg Anesth Pain Med. 2018;43(2):113-123 · DOI 10.1097/AAP.0000000000000759 · PMID 29370087 | [2] Becker DE, Reed KL. Local anesthetics: review of pharmacological considerations. Anesth Prog. 2012;59(2):90-102 · PMID 22822998 | [3] El-Boghdadly K, Pawa A, Chin KJ. Local anesthetic systemic toxicity: current perspectives. Local Reg Anesth. 2018;11:35-44 · DOI 10.2147/LRA.S154512 | [4] Alalami AA, Ayoub CM, Baraka AS. Laryngospasm: review of different prevention and treatment modalities. Paediatr Anaesth. 2008;18(4):281-288 · PMID 18331458 | [5] Larson CP Jr. Laryngospasm: the best treatment. Anesthesiology. 1998;89(5):1293-1294 · DOI 10.1097/AAP.0000000000000759
A maior parte dos procedimentos de pequeno porte, suturas, biópsias, drenagens, remoção de corpos estranhos e cirurgias ambulatoriais pode ser realizada sob anestesia local ou regional, sem via aérea instrumentalizada. Para o estudante, dominar esse tema significa saber calcular doses máximas por peso, escolher a técnica de infiltração ou bloqueio de campo, preparar o campo operatório com antissepsia correta e reconhecer as duas emergências clássicas do tema: a toxicidade sistêmica do anestésico local (LAST) e o laringoespasmo, reflexo de via aérea associado sobretudo à anestesia geral, mas que aparece em toda discussão comparativa entre técnicas.
As vantagens da anestesia local são operacionais e clínicas: dispensa jejum quando não há sedação associada, permite alta precoce, reduz náusea e vômito pós-operatórios, economiza opioides e pode ser executada pelo próprio cirurgião. As limitações são igualmente objetivas: duração limitada do efeito, risco de falha do bloqueio, impossibilidade de uso em procedimentos longos ou profundos e necessidade de cooperação do paciente. Toda decisão entre local e geral é uma decisão de seleção de paciente, procedimento e recursos de monitorização.
Os anestésicos locais bloqueiam de forma reversível os canais de sódio dependentes de voltagem da membrana do neurônio, impedindo a geração e a condução do potencial de ação. A fração não ionizada (base livre), determinada pelo pKa da molécula e pelo pH tecidual, atravessa a bainha de mielina e a membrana axonal; já a fração ionizada (catiônica) liga-se ao lado intracelular do canal. Em tecido inflamado, o pH mais baixo aumenta a fração ionizada e reduz a eficácia do bloqueio, razão pela qual anestesiar área inflamatória exige volume e paciência maiores.
Fibras mielinizadas de pequeno diâmetro são bloqueadas primeiro: a sequência clássica de perda é simpática, depois dor e temperatura, depois tato, pressão e finalmente motricidade, o que explica o paciente que não sente dor mas ainda percebe o toque da gaze. Quanto maior a lipossolubilidade, maior a potência; quanto maior a ligação proteica, maior a duração; quanto mais próximo o pKa do pH fisiológico, mais rápido o início.
A divisão estrutural é entre ésteres e amidas, e cai em prova. Ésteres (procaína, cloroprocaína, tetracaína e cocaína) são hidrolisados pela pseudocolinesterase plasmática e liberam ácido para-aminobenzóico (PABA), responsável pela maioria das reações alérgicas. Amidas (lidocaína, mepivacaína, prilocaína, bupivacaína e ropivacaína) sofrem metabolismo hepático microsomial e raramente causam alergia verdadeira; reações atribuídas a amida são, na maioria, vasovagais, por adrenalina ou por conservantes. Dica de memorização clássica: amidas têm a letra i repetida no nome (lidocaína, bupivacaína), ésteres não.
Antes de qualquer infiltração, calcule a dose máxima em mg/kg pelo peso real e confira a concentração: lidocaína a 1% tem 10 mg por mL; a 2%, 20 mg por mL. Um adulto de 70 kg pode receber, com lidocaína simples, cerca de 350 mg (aproximadamente 35 mL da solução a 1%); com adrenalina, 490 mg (aproximadamente 49 mL). Em crianças, o erro de dose é a causa mais comum de LAST: use seringas pequenas, calcule antes de abrir a ampola e prefira soluções diluídas.
| Fármaco | Classe | Dose máxima sem vasoconstritor | Dose máxima com adrenalina | Início | Duração da infiltração |
|---|---|---|---|---|---|
| Lidocaína | Amida | 4,5 a 5 mg/kg (300 mg) | 7 mg/kg (500 mg) | Rápido, 2 a 4 min | 60 a 120 min; 240 a 480 min com adrenalina |
| Mepivacaína | Amida | 5 mg/kg (400 mg) | 7 mg/kg (550 mg) | Rápido | 90 a 180 min; até 360 min com adrenalina |
| Prilocaína | Amida | 6 mg/kg (400 mg) | 8 mg/kg (600 mg) | Rápido | 60 a 180 min |
| Bupivacaína | Amida | 2,5 mg/kg (175 mg) | 3 mg/kg (225 mg) | Lento, 5 a 10 min | 240 a 480 min; 480 a 720 min com adrenalina |
| Ropivacaína | Amida | 3 mg/kg (200 a 250 mg) | Raramente necessária | Lento | 240 a 480 min; perfil sensorial predominante |
| Cloroprocaína | Éster | 11 mg/kg (800 mg) | 14 mg/kg (1.000 mg) | Muito rápido | 30 a 60 min |
A bupivacaína é a mais cardiotóxica das amidas em uso clínico: liga-se com alta afinidade aos canais de sódio cardíacos e dissocia-se lentamente, o que produz arritmias graves e refratárias em caso de superdosagem. A ropivacaína e a levobupivacaína foram desenvolvidas justamente para reduzir essa cardiototoxicidade, com potência anestésica semelhante. Em procedimentos com alto risco de injeção intravascular acidental, prefira lidocaína ou ropivacaína a bupivacaína.
A adrenalina associada ao anestésico local promove vasoconstrição, prolonga a duração do bloqueio, reduz o sangramento do campo e permite elevar a dose máxima do anestésico. As concentrações usuais são de 1:100.000 a 1:400.000 (10 a 2,5 microgramas por mL). O limite clássico ensinado é de 0,2 mg de adrenalina total no adulto hígido e cerca de 0,04 mg no paciente cardiopata significativo, embora evidências contemporâneas de cirurgia oral mostrem tolerância a doses maiores; o prudente é manter os limites tradicionais e monitorar. Cautela relativa em hipertensão não controlada, arritmias, coronariopatia instável, feocromocitoma e uso de antidepressivos tricíclicos ou inibidores da monoaminoxidase.
O bicarbonato de sódio a 8,4% na proporção de 1 mL para cada 10 mL de lidocaína (não usar com ropivacaína, que precipita) reduz a ardência da injeção por alcalinizar a solução e aumentar a fração de base livre; prepare e use em seguida. Na superfície cutânea, a mistura eutética EMLA (lidocaína 2,5% mais prilocaína 2,5%) exige oclusão por 30 a 60 minutos antes do procedimento, com dose limitada por idade em lactentes e uso evitado em prematuros pelo risco de metemoglobinemia; o gel LET (lidocaína 4%, adrenalina 0,1% e tetracaína 0,5%), aplicado por 20 a 30 minutos, é padrão na analgesia tópica de lacerações em pronto-socorro pediátrico.
O bloqueio de campo (field block) anestesia os nervos sensitivos que chegam à região, infiltrando os planos em anel ao redor da lesão, em vez de infiltrar o próprio leito. As vantagens são menos distorção tecidual (interessante quando as margens da peça importam para o exame anatomopatológico), menor volume no interior da ferida e analgesia que ultrapassa o tempo da cirurgia. É a técnica de escolha para lesões de tronco e couro cabeludo e baseia-se no desenho em losango: quatro depósitos nos ângulos, conectando os planos subcutâneos.
O bloqueio digital anestesia os nervos digitais na base do dedo: técnica de dois pontos (injeção em cada lateral da base) ou transtecidual (única injeção volar), com 2 a 4 mL de lidocaína a 1% por dedo. A proibição clássica de adrenalina em dedos foi revisitada por revisões sistemáticas e grandes séries, que não demonstram isquemia com as concentrações comerciais em pacientes sem vasculopatia; permanece cautela em doença arterial periférica grave, e a regra histórica ainda é cobrada em algumas provas por isso convém conhecer as duas versões. O bloqueio intravenoso regional de Bier, por sua vez, exige manguito pneumático insuflado 100 mmHg acima da pressão sistólica (usualmente 250 a 300 mmHg) após exsanguinação do membro, com lidocaína a 0,5% sem adrenalina, cerca de 1,5 a 3 mg/kg (40 a 50 mL no adulto); o manguito só pode ser liberado após no mínimo 15 a 20 minutos, e a liberação rápida produz os sinais sistêmicos típicos de pico plasmático: zumbido, gosto metálico e sonolência.
A preparação do campo segue ordem lógica: lavagem das mãos, luvas estéreis, limpeza mecânica da ferida por irrigação com solução fisiológica a 0,9%, antissepsia da pele íntegra periférica e delimitação com campos estéreis. Na pele íntegra, use clorexidina alcoólica a 0,5% a 2% (com tempo de secagem de 2 a 3 minutos antes do isolamento do campo ou da diatermia, pois o álcool é inflamável) ou PVPI degermante seguido de PVPI tintura a 10%. Em mucosas, olhos e ouvido com suspeita de perfuração timpânica, a clorexidina alcoólica é contraindicada: prefira PVPI aquosa ou clorexidina aquosa. Na tricotomia, prefira tesoura ou clipador; a raspagem com lâmina lesiona a pele e aumenta a taxa de infecção de sítio cirúrgico.
A LAST ocorre por pico plasmático excessivo, seja por superdosagem, seja por injeção intravascular acidental, e é mais temida com a bupivacaína. A apresentação clássica começa no sistema nervoso central: parestesias periorais, zumbido, gosto metálico, agitação ou sonolência, visão turva e, a seguir, convulsões. O comprometimento cardiovascular vem depois, com alargamento do QRS, hipotensão, bradiarritmias, assistolia ou fibrilação ventricular refratária às manobras habituais. O guideline da ASRA, o practice advisory de 2017, alerta para apresentações atípicas, que podem ser exclusivamente cardíacas, sem pródromos, e tardias, até dezenas de minutos após a injeção. Séries contemporâneas estimam incidência abaixo de 0,1% dos bloqueios periféricos, com registros da era do ultrassom em torno de 0,003%.
A prevenção se faz com a menor dose eficaz, injeção lenta e fracionada (alíquotas de 3 a 5 mL) com aspiração intermitente, uso de ultrassom quando disponível (reduz punções vasculares e LAST) e vigilância redobrada nos grupos de risco: extremos de idade, cardiopatia, disfunção hepática e bloqueios em sítios muito vascularizados. Nenhum teste isolado, incluindo a dose-teste com adrenalina, tem sensibilidade suficiente para excluir injeção intravascular.
O laringoespasmo é o fechamento reflexo da glote por contração das cordas vocais e dos músculos laríngeos, desencadeado por estímulo em via aérea durante plano anestésico superficial: extubação, secreções, sangue, manipulação cirúrgica de vias aéreas superiores, sonda ou máscara laríngea mal posicionada. É mais frequente em crianças, sobretudo entre 1 e 5 anos, e a incidência aumenta duas a cinco vezes quando há infecção de vias aéreas superiores nas semanas precedentes; fumo passivo e cirurgias de faringe também elevam o risco. Séries pediátricas apontam incidência em torno de 1 a 3% das anestesias (em uma série, 5,2% com máscara laríngea contra 1,5% com tubo traqueal); em adultos, fica abaixo de 0,6%.
O reconhecimento é clínico e urgente. No laringoespasmo parcial, persiste estridor inspiratório com algum fluxo aéreo; no completo, o tórax fica silencioso, sem murmúrio, com esforço respiratório paradoxal, tiragem e queda rápida da saturação, podendo evoluir para bradicardia e parada em crianças. O diagnóstico diferencial inclui broncoespasmo (sibilo difuso, expiração prolongada), laringomalácia, corpo estranho e edema de glote.
A prevenção começa na avaliação: considerar adiar cirurgia eletiva em criança com infecção de vias aéreas superiores febril e recente (individualizar o risco), garantir profundidade anestésica adequada antes de qualquer estímulo de via aérea, aspirar secreções antes da extubação e escolher deliberadamente entre extubação desperta e extubação profunda. A lidocaína intravenosa, 1 a 1,5 mg/kg imediatamente antes da extubação, reduz a incidência em adultos e crianças.
| Dimensão | Anestesia local ou regional | Anestesia geral |
|---|---|---|
| Jejum | Não exigido se apenas local; exigido se houver sedação | Jejum habitual: 6 a 8 h para sólidos, 2 h para líquidos claros |
| Monitorização | Mínima; padrão ASA completo se houver sedação | Padrão ASA completo: ECG, oximetria, capnografia e pressão não invasiva |
| Equipe | Pode ser executada pelo cirurgião | Exige anestesiologista e equipamento de via aérea |
| Complicações típicas | LAST, falha do bloqueio, hematoma, lesão neural | Laringoespasmo, intubação difícil, náusea e vômito, delirium |
| Critérios de alta | Imediata após o procedimento; com sedação, após critérios de recuperação | Após recuperação completa em sala de recuperação pós-anestésica |
| Melhor indicação | Procedimentos superficiais e curtos em paciente cooperador | Procedimentos longos ou complexos, paciente não cooperador, criança pequena |
Entre os dois extremos está a sedação monitorada, também chamada de anestesia local potenciada: midazolam 1 a 2 mg (0,02 a 0,04 mg/kg) intravenoso em incrementos, fentanil 25 a 50 microgramas (0,5 a 1 micrograma por kg) e propofol 0,5 a 1 mg/kg em bolus seguido de infusão de 25 a 75 microgramas por kg por minuto, titulados ao efeito. Sempre que houver sedação, valem jejum, monitorização completa e disponibilidade de antagonistas: flumazenil para benzodiazepínico e naloxona para opioide, com dose inicial de 0,2 mg intravenosa titulável.
As complicações locais incluem hematoma (compressão e gelo; reavaliar coagulopatia), infecção de sítio (rara quando a técnica é asséptica) e lesão neural, que deve ser investigada se o déficit sensitivo ou motor persistir além de 48 horas, com eletroneuromiografia e encaminhamento. Entre as sistêmicas, além da LAST, destaca-se a metemoglobinemia induzida por prilocaína (em doses elevadas) e benzocaína: cianose central que não melhora com oxigênio, oximetria estacionada em torno de 85% e coloração chocolate do sangue; o tratamento é azul de metileno 1 a 2 mg/kg intravenoso a 1%, lento. No laringoespasmo, as complicações são hipoxemia, edema pulmonar por pressão negativa, broncoaspiração e, na criança, bradicardia evoluindo para parada cardiopulmonar.
O prognóstico é bom quando o reconhecimento é precoce: a LAST tratada com emulsão lipídica dentro dos primeiros minutos tem alta taxa de recuperação completa, e o edema pulmonar por pressão negativa é autolimitado na maioria dos casos, resolvendo-se com suporte de oxigênio em 24 a 48 horas. O elo comum dos bons desfechos é a preparação: dose calculada antes de injetar, kit de lipídeo acessível e algoritmo de laringoespasmo ensaiado pela equipe.
1.Adulto de 70 kg será submetido a sutura sob anestesia local com lidocaína a 1% com adrenalina. Qual a dose máxima segura aproximada?
2.O mecanismo de ação dos anestésicos locais consiste em:
3.Qual dos seguintes fármacos é um anestésico local do grupo dos ésteres?
4.Durante infiltração com bupivacaína, o paciente refere parestesia perioral, zumbido e fica agitado. Qual a interpretação e conduta imediata?
5.Na parada cardiocirculatória por toxicidade sistêmica de anestésico local, qual droga deve ser evitada?
6.A manobra de Larson para o laringoespasmo consiste em:
7.Primeira linha de tratamento de um laringoespasmo parcial percebido na extubação de criança:
8.Paciente submetido a bloqueio de Bier recebeu lidocaína a 0,5% e, minutos após a liberação do manguito, apresenta cianose que não melhora com oxigênio e SpO2 estabilizada em 85%. Qual a complicação e o tratamento?
9.Sobre o uso de adrenalina associada a anestésico local em bloqueio digital, a evidência atual indica que:
10.Qual afirmativa sobre preparo do campo operatório em face de laceração periocular está correta?
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