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Revisão completa da transcrição em eucariotos (RNA polimerases I-III, promotores, iniciação, alongamento e terminação) e do processamento do pré-mRNA (cap 5, splicing, splicing alternativo, poliadenilação e NMD), com técnicas e terapias baseadas em RNA.
[1] Alberts B, Heald R, Hopkin N, et al. Molecular Biology of the Cell. 7ª ed. Norton/Garland Science. 2022 | [2] Lodish H, Berk A, Kaiser CA, et al. Molecular Cell Biology. 9ª ed. W.H. Freeman. 2021 | [3] Lee Y, Rio DC. Mechanisms and Regulation of Alternative Pre-mRNA Splicing. Annu Rev Biochem. 2015;84:291-323 · DOI 10.1146/annurev-biochem-060614-034316 · PMID 25784052 | [4] Ramanathan A, Robb GB, Chan SHY. mRNA capping: biological functions and applications. Nucleic Acids Res. 2016;44(16):7511-7526 · DOI 10.1093/nar/gkw551 | [5] Pardi N, Hogan MJ, Porter FW, Weissman D. mRNA vaccines — a new era in vaccinology. Nat Rev Drug Discov. 2018;17(4):261-279 · DOI 10.1038/nrd.2017.243 · PMID 29326426 | [6] Polack FP, Thomas SJ, Kitchin N, et al. Safety and Efficacy of the BNT162b2 mRNA Covid-19 Vaccine. N Engl J Med. 2020;383(27):2603-2615 · DOI 10.1056/NEJMoa2034577 · DOI 10.1146/annurev-biochem-060614-034316
A transcrição é o primeiro e mais regulado passo da expressão gênica: a cópia de uma fita de DNA em RNA catalisada por RNA polimerase, na direção 5 para 3, a uma velocidade de dezenas de nucleotídeos por segundo. Nos eucariotos, o produto imediato da RNA polimerase II não é um mRNA funcional, mas um pré-mRNA que precisa de três modificações covalentes — cap 5, splicing e cauda poli-A — para ser exportado e traduzido. Com cerca de 20.000 genes codificadores de proteína gerando mais de 100.000 transcritos distintos, é o processamento do RNA, e não apenas a iniciação da transcrição, que explica a complexidade do proteoma humano. Para a prova, os pontos de maior rendimento são: qual polimerase sintetiza o quê, os inibidores clássicos (alfa-amanitina, rifampicina, actinomicina D), os sinais de splicing GU-AG, o sinal de poliadenilação AAUAAA e as doenças que resultam de erros de processamento.
O gene eucariótico codificador é organizado em exons (sequências que permanecem no mRNA maduro) e introns (removidos pelo splicing), ladeado por sequências regulatórias: o promotor core, posicionado em torno do sítio de iniciação (elementos TATA box a montante de 25-30 nucleotídeos, Inr, BRE e DPE, ou ilhas CpG, presentes na maioria dos promotores humanos), e elementos distais — enhancers e silencers — que atuam a milhares de pares de bases de distância, independentes de orientação, através de alças de DNA. Enquanto procariotos têm uma única RNA polimerase (alvo da rifampicina, que se liga à subunidade beta), os eucariotos possuem três polimerases nucleares com repertório próprio e sensibilidade diferente à alfa-amanitina da Amanita phalloides, distinção cobrada há décadas em provas.
| Polimerase | Local de ação | Transcritos | Sensibilidade à alfa-amanitina |
|---|---|---|---|
| RNA polimerase I | Nucléolo | pré-45S que origina os rRNA 28S, 18S e 5,8S (a maior parte do RNA celular) | Resistente |
| RNA polimerase II | Nucleoplasma | Todos os mRNA e a maioria dos snRNA e miRNA | Muito sensível (inibida em baixa concentração) — causa a hepatotoxicidade da ingestão de Amanita |
| RNA polimerase III | Nucleoplasma | tRNA, 5S rRNA, U6 snRNA e alguns RNAs pequenos | Sensível apenas em altas concentrações |
A RNA polimerase II nunca inicia sozinha: ela é montada no promotor pelos fatores de transcrição gerais (GTFs) TFIIA, TFIIB, TFIID, TFIIE, TFIIF e TFIIH, formando o complexo de pré-iniciação. O TFIID contém a proteína de ligação à TATA (TBP) e os TAFs; o TFIIB define o sítio exato de início; e o TFIIH tem duas atividades cruciais — helicase dependente de ATP que abre a bolha de transcrição e a quinase Cdk7 (do complexo CAK) que fosforila a cauda CTD da polimerase. A CTD (domínio C-terminal) é composta de repetições do heptapeptídeo YSPTSPS (52 repetições no humano) e funciona como uma mesa de montagem: fosforilada na Ser5 marca a iniciação e recruta a maquinaria de capeamento; fosforilada na Ser2 marca o alongamento e recruta fatores de splicing e de poliadenilação — a lição integradora é que transcrição e processamento são acoplados e simultâneos.
Durante o alongamento, a polimerase II sintetiza RNA a cerca de 10 a 60 nucleotídeos por segundo, com correção por aparagem (cleavage) da prova sob ação da subunidade TFIIS — bem menos exata que a DNA polimerase, o que é tolerado porque o RNA é descartável. A terminação em mamíferos é acoplada à poliadenilação e obedece predominantemente ao modelo torpedo: o transcrito é clivado no sítio de poliadenilação, a polimerase continua sintetizando RNA a jusante que é degradado pela exonuclease Xrn2, que alcança e desprende a polimerase; sinais de pausa ricos em G e a conformação da CTD também participam (modelo alostérico). Como comparação cobrada em prova, as polimerases I e III terminam em sequências terminadoras definidas — a polimerase III para em uma cadeia de timinas (T-tract) logo após o transcrito, dispensando processamento elaborado.
O cap 5 é uma 7-metilguanosina invertida ligada ao primeiro nucleotídeo do mRNA por uma ligação trifosfato 5-5 incomum, instalada de forma cotranscricional quando o transcrito tem apenas 20 a 30 nucleotídeos. A reação ocorre em três passos: remoção de um fosfato pela RNA trifosfatase, transferência do GMP pela guanililtransferase e metilação da guanina pela metiltransferase (cap 0; metilações adicionais das riboses geram cap 1 e cap 2). As funções do cap são um clássico absoluto de prova: protege o mRNA contra exonucleases 5, é reconhecido pelo complexo de ligação do cap (CBC) no núcleo e pelo fator eIF4E no citoplasma para iniciar a tradução, facilita a exportação nuclear e estimula o splicing do primeiro íntron. Nas vacinas de mRNA e em RNAs terapêuticos, o cap 5 é um dos elementos não traduzidos que determinam estabilidade e eficiência traducional junto às UTRs e à cauda poli-A.
O splicing remove os introns e une os exons por duas reações de transesterificação sucessivas catalisadas pelo spliceossomo, uma máquina de cinco pequenas ribonucleoproteínas nucleares (snRNPs U1, U2, U4, U5 e U6) associadas a mais de 150 proteínas. Os sinais em cis são conservados: sequência doadora 5 iniciando quase sempre em GU, sequência aceitadora 3 terminando em AG, ponto de ramificação (adenosina) localizado 18 a 40 nucleotídeos a montante do aceitador e trato de polipurinas (trato de pirimidinas rico em Y) adjacente. Na montagem, o U1 reconhece a doadora 5, o U2 reconhece o ponto de ramificação (com protrusão da adenosina, em bulge), o trio U4-U5-U6 entra, o U6 substitui o U1 e forma o centro catalítico com o U2: a adenosina do ponto de ramificação ataca a doadora 5 formando o laço (lariat) e liberando o exon 5; na segunda reação, a extremidade 3 do exon livre ataca o aceitador 3, unindo os exons e liberando o intron em laço, que é degradado. Cerca de 1% dos introns humanos usa o spliceossomo menor U12, com sinais AT-AC — mencionado em provas mais refinadas.
Erros de splicing causam pelo menos 15% das doenças genéticas monogênicas e são a base molecular de exemplos cobrados: na beta-talassemia, mutações que criam novos sítios de splicing ou ativam sítios ocultos no gene HBB reduzem a beta-globina; na atrofia muscular espinhal, o gene SMN2 salta o exon 7 produzindo proteína instável (base da terapia com nusinersen, que bloqueia um silenciador intrônico para incluir o exon 7); na distrofia miotônica, o RNA expansivo de CUG sequestra a proteína MBNL e desregula o splicing de dezenas de genes (canal de cloro CLCN1 na miotonia); e mutações nos genes do spliceossomo (PRPF8, SNRNP200) causam retinose pigmentar.
Estimativas de RNA-seq indicam que cerca de 95% dos genes humanos multiexônicos sofrem splicing alternativo, multiplicando o repertório proteico sem aumentar o número de genes. Os padrões clássicos são: salto de exon (exon skipping, o mais comum em mamíferos), sítios doadores ou aceitadores alternativos (mudando o tamanho do exon), exons mutuamente exclusivos, retenção de intron (frequente em células tumorais e no sistema imune) e polyadenilação alternativa. A escolha é regulada por sequências amplificadoras e silenciadoras em exons e introns (ESE, ESS, ISE, ISS) reconhecidas por proteínas SR (como SRSF1, que promove inclusão) e hnRNPs (como hnRNP A1, que promove exclusão) — alterações na fosforilação e expressão dessas proteínas reprogramam o splicing em câncer, gerando isoformas pró-invasão (ex.: CD44 variante, BCL-X longo anti-apoptótico).
A cauda poli-A é adicionada em duas etapas: clivagem do pré-mRNA 10 a 30 nucleotídeos a jusante do sinal hexamérico AAUAAA (reconhecido pelo CPSF, com a ajuda do trato rico em GU/U e da CstF), seguida da adição lenta de cerca de 200 a 250 adenilas pela polimerase poli-A (PAP), processo acelerado pela proteína de ligação ao poli-A nuclear (PABPN1). A cauda, revestida por PABP citoplasmático, controla a estabilidade (deadenilação é o primeiro passo de degradação), a eficiência traducional (interação fechada com o cap, eIF4G) e a exportação. Mais da metade dos genes humanos usa sítios de poliadenilação alternativos para encurtar 3UTRs e escapar de microRNAs e elementos desestabilizadores — fenômeno reprogramado em células proliferativas e tumorais.
O sistema de vigilância de nonsenso (nonsense-mediated decay, NMD) degrada mRNAs com códons de parada prematuros e funciona assim: durante o splicing, um complexo de junção de exon (EJC) é depositado cerca de 20-24 nucleotídeos a montante de cada junção; se o ribossomo para em um códon de terminação localizado mais de 50-55 nucleotídeos a montante do último EJC, os fatores de liberação eRF1/eRF3 recrutam a cascata UPF1-UPF2-UPF3 e o mRNA é decapitado e degradado. Essa é a explicação molecular de por que mutações de nonsenso na beta-talassemia geram pouco mRNA (e, quando escapam do NMD, proteína truncada dominante negativa) e a base da estratégia terapêutica de read-through com ataluren na distrofia muscular de Duchenne com códon de parada prematuro.
O acesso da polimerase depende do estado da cromatina: acetilação das lisinas de histonas (por HAT como p300/CBP) neutraliza cargas positivas, relaxa o nucleossomo e é marca de genes ativos — daí o efeito global dos inibidores de desacetilases (vorinostat) em linfomas cutâneos. As marcas de histonas funcionam como linguagem (código de histonas): H3K4me3 marca promotores ativos, H3K27ac marca enhancers ativos, H3K36me3 acompanha a transcrição ao longo do gene, enquanto H3K27me3 (complexo Polycomb) e H3K9me3 (heterocromatina) reprimem. A metilação do DNA em ilhas CpG de promotores recruta proteínas com domínio de ligação a metilcitosina e HDACs, silenciando o gene de forma estável — mecanismo fisiológico da impressão genômica (IGF2/H19) e patológico dos promotores de genes supressores em tumores (ex.: MGMT metilado em glioblastomas, preditivo de resposta à temozolamida).
O estudo da transcrição usa técnicas com princípios distintos que aparecem em questões: RT-qPCR quantifica um transcrito específico com alta sensibilidade (RNA retrotranscrito para cDNA e amplificado; análise por delta-delta-Ct com gene de referência); Northern blot separa RNA por tamanho em gel e revela por sonda marcada (clássico para tamanho e splice variants); RNA-seq (sequenciamento massivo do transcriptoma) mapeia e quantifica todos os transcritos, incluindo fusões e splicing anômalo, com versão de célula única (scRNA-seq); hibridização in situ e RNAscope localizam transcritos em cortes de tecido; ensaios de CLIP/RIP identificam as proteínas ligadas ao RNA. Na clínica, a expressão de genes de fusão (BCR-ABL1, PML-RARA, EWSR1-FLI1) detectada por RT-PCR/FISH define diagnóstico e seguimento mínimo residual em leucemias e sarcomas.
| Fármaco | Classe | Alvo e mecanismo | Aplicação clínica |
|---|---|---|---|
| Nusinersen (Spinraza) | Oligonucleotídeo antissenso 2-MOE | Bloqueia silenciador intrônico do SMN2 e inclui o exon 7 | Atrofia muscular espinhal — 12 mg intratecal (carga e manutenção a cada 4 meses) |
| Eteplirsen | Morpholino antissenso | Salto do exon 51 do gene da distrofina | Distrofia muscular de Duchenne com mutação elegível |
| Patisiran (Onpattro) | siRNA em nanopartícula lipídica | Silencia TTR hepático (degradação por RISC) | Polineuropatia por amiloidose hereditária transtirretínica — 0,3 mg/kg IV a cada 3 semanas |
| Inclisiran (Leqvio) | siRNA conjugado a GalNAc | Silencia PCSK9 no hepatócito | Hipercolesterolemia — 300 mg SC no dia 0, aos 3 meses e depois a cada 6 meses |
| BNT162b2 e mRNA-1273 | Vacinas de mRNA em LNP | mRNA da proteína S com uridina modificada (pseudouridina N1-metilada) | Imunização contra SARS-CoV-2 — 30 µg e 100 µg por dose respectivamente |
1.Um paciente ingere Amanita phalloides e desenvolve insuficiência hepática aguda por inibição da síntese de mRNA. Qual enzima é o alvo direto da alfa-amanitina?
2.Qual transcritor é sintetizado pela RNA polimerase III?
3.A principal função do cap 5 de 7-metilguanosina no mRNA eucariótico é:
4.Quais sequências sinalizam os limites da maioria dos introns humanos?
5.Durante o splicing, qual snRNP reconhece o ponto de ramificação e qual forma o centro catalítico com o U2?
6.O sinal de clivagem e poliadenilação do pré-mRNA de mamíferos é:
7.A degradação de um mRNA com códon de parada prematuro pelo NMD (nonsense-mediated decay) é disparada quando:
8.Nusinersen, usado na atrofia muscular espinhal, atua por qual mecanismo?
9.Sobre as vacinas de mRNA contra SARS-CoV-2, qual modificação química aumenta a tradução e reduz o reconhecimento por sensores innatos?
10.A rifampicina, usada na tuberculose, inibe a transcrição bacteriana por:
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