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Revisão de biofísica neural: fundamentos elétricos da membrana, potencial de repouso (Nernst e Goldman), potencial de ação e condução saltatória, transmissão sináptica química passo a passo e sinapses elétricas por junções comunicantes, com aplicações clínicas e fármacos.
[1] Kandel ER, Koester JD, Mack SH, Siegelbaum SA. Principles of Neural Science. 6th ed. McGraw-Hill; 2021 | [2] Purves D, Augustine GJ, Fitzpatrick D, et al. Neuroscience. 6th ed. Oxford University Press; 2018 | [3] Pereda AE. Electrical synapses and their functional interactions with chemical synapses. Nature Reviews Neuroscience. 2014;15(4):250-263 · DOI 10.1038/nrn3708 | [4] Connors BW, Long MA. Electrical synapses in the mammalian brain. Annual Review of Neuroscience. 2004;27:393-418 · DOI 10.1146/annurev.neuro.26.041002.131127 | [5] Hille B. Ion Channels of Excitable Membranes. 3rd ed. Sinauer Associates; 2001 · DOI 10.1038/nrn3708
Toda a informação do sistema nervoso viaja como eletricidade e química: potenciais de ação que percorrem axônios como corrente por um cabo, e sinapses que convertem esse sinal elétrico em sinal químico - ou o transmitem diretamente como corrente iônica. Entender essa biofísica é entender como agem anestésicos locais, anticonvulsivantes, toxinas do botulismo e do tétano, miastenia gravis e doenças desmielinizantes. Para a prova, o aluno precisa calcular potenciais de equilíbrio com a equação de Nernst, ordenar as fases do potencial de ação com seus canais iônicos, distinguir condução saltatória de contínua e comparar sinapse elétrica e química propriedade por propriedade.
Assim como na rede elétrica, o que gera trabalho elétrico é a diferença de potencial (ddp), medida em volts: na rede, 127 V ou 220 V entre fase e neutro; no neurônio, cerca de 70 mV entre face interna e externa da membrana, com o interior negativo em relação ao exterior. A corrente (i, em ampères) é o fluxo de carga; nos fios, de elétrons; nos tecidos biológicos, de íons dissolvidos (Na+, K+, Cl-, Ca2+). A lei de Ohm (V = R x i, ou i = g x V, onde g é a condutância) vale para a membrana: quanto maior a condutância de um canal aberto, maior a corrente para uma mesma ddp. A membrana também se comporta como um capacitor: a bicamada lipídica (cerca de 5 nm) separa cargas e armazena energia, o que faz o potencial não mudar instantaneamente, mas com uma constante de tempo tau = R x C. Esse modelo de circuito RC é a base do potencial de repouso, da velocidade de resposta e da necessidade de maior calibre ou mielina para conduzir mais rápido.
O potencial de repouso de um neurônio típico situa-se entre -65 e -70 mV e é determinado, sobretudo, pela alta permeabilidade da membrana em repouso ao K+. A equação de Nernst dá o potencial de equilíbrio de um íon (a ddp em que a força elétrica iguala o gradiente químico, com fluxo líquido nulo): E = 61,5/z x log([íon]fora / [íon]dentro), em mV, a 37 graus Celsius, com z a valência. Com as concentrações típicas do neurônio (Na+ 145 fora e 12-15 dentro; K+ 4 fora e 140 dentro; Cl- 110 fora e 5-10 dentro), obtém-se ENa em torno de +60 mV, EK em torno de -90 mV e ECl próximo de -65 a -70 mV. O potencial de repouso fica entre EK e ECl, puxado para EK, porque os canais de vazamento de K+ dominam a condutância de repouso.
| Íon | Concentração extracelular | Concentração intracelular | Potencial de equilíbrio (Nernst) |
|---|---|---|---|
| Na+ | 145 mM | 12-15 mM | +60 mV |
| K+ | 4 mM | 140 mM | -90 mV |
| Cl- | 110 mM | 5-10 mM | -65 a -70 mV |
| Ca2+ | 1-2 mM | 0,0001 mM (100 nM) | +125 mV |
Como a membrana em repouso é permeável a mais de um íon, o potencial real é melhor previsto pela equação de Goldman-Hodgkin-Katz, que pondera cada potencial de Nernst pela permeabilidade relativa da membrana a cada íon no momento. Dois corolários de prova: primeiro, o potencial de repouso não é igual ao EK porque há pequena permeabilidade ao Na+, que empurra Vm para valores menos negativos; segundo, a bomba Na+/K+ não cria o potencial (os gradientes de concentração criam), ela apenas os mantém contra a fuga contínua pelos canais de vazamento. Aplicações rápidas: hipercalemia (aumento do K+ externo) torna o EK menos negativo, despolariza a célula e, inicialmente, aumenta a excitabilidade - base das arritmias e da paralisia periódica; a ouabaína, ao inibir a bomba, eleva o Na+ intracelular e, indiretamente, o Ca2+ via trocador NCX - mecanismo dos cardiotônicos.
O potencial de ação (PA) é a variação regenerativa e estereotipada do potencial de membrana descrita por Hodgkin e Huxley em 1952 no axônio gigante da lula (Nobel de 1963), resultado do funcionamento coordenado de canais de Na+ e K+ dependentes de voltagem. Ao atingir o limiar (cerca de -55 mV, quando a entrada de Na+ supera a saída de K+), os canais de Na+ voltagem-dependentes abrem em cascata (feedback positivo: a despolarização abre mais canais, que despolarizam ainda mais) e o Vm dispara em direção a ENa. Em seguida, os mesmos canais inativam rapidamente (bola e corrente: a partícula de inativação oclui o poro) e os canais de K+ voltagem-dependentes, mais lentos, abrem e repolarizam a membrana; a lentidão do seu fechamento explica a hiperpolarização pós-potencial. É um evento do tipo tudo-ou-nada: abaixo do limiar não há resposta; acima, a amplitude é fixa e independente da força do estímulo - a intensidade do estímulo é codificada pela frequência de disparos e pelo número de neurônios recrutados, nunca pela amplitude de cada PA.
| Fase | Evento iônico dominante | Canal/fármaco marcador |
|---|---|---|
| Despolarização até o limiar | Entrada gradual de Na+ por canais de vazamento e sinápticos até -55 mV | Somatória de PPSE suficiente |
| Spike (despolarização rápida) | Abertura regenerativa de canais de Na+ voltagem-dependentes; influxo maciço de Na+ | Bloqueada por tetrodotoxina (TTX) e lidocaína |
| Repolarização | Inativação dos canais de Na+ e abertura dos canais de K+ voltagem-dependentes; efluxo de K+ | Bloqueada por tetraetilamônio (TEA) e 4-aminopiridina |
| Hiperpolarização pós-potencial | Canais de K+ ainda abertos; Vm aproxima-se de EK (-90 mV) | Período refratário relativo |
| Retorno ao repouso | Bomba Na+/K+-ATPase e canais de vazamento restabelecem os gradientes | Consumo de ATP para repor gradientes |
O período refratário absoluto (cerca de 1 ms) corresponde à inativação dos canais de Na+: nenhum estímulo, por mais forte que seja, gera novo PA - é o que limita a frequência máxima de disparo (até cerca de 1.000 Hz) e garante a propagação unidirecional do impulso. No período refratário relativo, durante a hiperpolarização, um estímulo supranormal consegue disparar um PA, mas com gasto maior. Esses conceitos explicam a farmacologia dos antiarrítmicos e anticonvulsivantes do tipo uso-dependente (lidocaína, fenitoína, carbamazepina), que preferem canais inativados de células disparando em alta frequência.
No axônio amielínico, o PA se propaga por condução contínua: cada ponto despolarizado abre canais no segmento adjacente, com correntes locais que se espalham como onda - lento (0,5 a 2 m/s nas fibras C), porque cada trecho de membrana precisa despolarizar até o limiar. No axônio mielinizado do SNC e SNP, a bainha de mielina (oligodendrócitos no SNC; células de Schwann no SNP) isola a membrana e confina os canais de Na+ voltagem-dependentes aos nós de Ranvier (a cada 1-2 mm): a despolarização salta de nó a nó - condução saltatória -, com velocidades de 10 a 120 m/s e enorme economia de ATP, já que só os nós gastam Na+/K+-ATPase. Dois determinantes da velocidade: diâmetro (maior calibre, menor resistência axial, maior velocidade) e mielinação. É por isso que a desmielinização da esclerose múltipla (bloqueio de condução) e de Guillain-Barré causa déficit neurológico agudo, e que a neurite hanseniana compromete primeiro fibras finas (dor e temperatura). A classificação de Erlanger-Gasser organiza as fibras por calibre, mielina e função - tabela clássica de prova.
| Fibra | Diâmetro | Velocidade | Mielina | Função/exemplo |
|---|---|---|---|---|
| A-alfa | 12-20 µm | 70-120 m/s | Sim | Motora somática, propriocepção (fuso muscular) |
| A-beta | 5-12 µm | 30-70 m/s | Sim | Tato fino, vibração |
| A-gama | 3-6 µm | 15-35 m/s | Sim | Motora do fuso muscular (intrafusal) |
| A-delta | 2-5 µm | 12-30 m/s | Sim | Dor rápida, temperatura fria |
| B | 1-3 µm | 3-15 m/s | Sim (fina) | Pré-ganglionar autonômica |
| C | 0,5-2 µm | 0,5-2 m/s | Não | Dor lenta, temperatura quente, pós-ganglionar simpática |
A sinapse química converte o sinal elétrico em sinal químico. Anatomicamente, tem o terminal pré-sináptico (com vesículas sinápticas de 40-50 nm cheias de neurotransmissor), a fenda sináptica de 20 a 40 nm e a membrana pós-sináptica densa em receptores. A sequência canônica, cobrada como protocolo: 1) o PA chega ao terminal e despolariza-o; 2) canais de Ca2+ voltagem-dependentes (tipos N e P/Q) abrem e o Ca2+ entra - a concentração local sobe de ~100 nM para dezenas de µM; 3) o Ca2+ liga-se à sinaptotagmina, sensor do cálcio; 4) o complexo SNARE (sinaptobrevina/VAMP na vesícula + sintaxina e SNAP-25 na membrana) se enrosca e funde a vesícula à membrana; 5) o neurotransmissor é liberado por exocitose quantal - cada vesícula é um quantum, que gera um potencial pós-sináptico em miniatura de cerca de 0,5 mV, como demonstrado por Katz na junção neuromuscular; 6) o transmissor difunde-se e liga-se a receptores pós-sinápticos; 7) o sinal é encerrado por recaptação por transportadores (DAT, NET, SERT, EAAT) ou por degradação enzimática (acetilcolinesterase).
O potencial pós-sináptico excitatório (PPSE), gerado por abertura de canais não seletivos a cátions (ex.: receptor NMDA ou nicotínico), despolariza a membrana em cerca de 0,5 a 1 mV por sinapse ativa; como o limiar exige cerca de 15 a 20 mV de despolarização no segmento inicial do axônio, são necessárias somação espacial (PPSEs simultâneos em diferentes dendritos) e somação temporal (PPSEs sucessivos no mesmo dendrito). O potencial pós-sináptico inibitório (PPSI) hiperpolariza ou estabiliza o potencial: no receptor GABA-A e no receptor de glicina, abre-se canal de Cl- (o ECl é próximo ou mais negativo que o repouso), impedindo a despolarização; o GABA-B metabotrópico abre canais de K+. A integração de milhares de PPSEs e PPSIs no cone de implantação do axônio decide, a cada instante, se o neurônio dispara - conceito de neurônio integrador. A plasticidade sináptica, como a potenciação de longo prazo (LTP) hipocampal, depende do receptor NMDA: despolarização prévia remove o bloqueio por Mg2+ do canal, o Ca2+ entra e dispara cascatas de quinases que ampliam a sinapse - base celular da memória.
| Característica | Ionotrópico | Metabotrópico |
|---|---|---|
| Estrutura | Canal iônico com sítio para o transmissor (receptor-canal) | Receptor acoplado à proteína G |
| Latência | Milissegundos (0,5-3 ms) | Segundos a minutos |
| Duração | Curta (ms) | Longa; pode modular canais e genes |
| Exemplos | Nicotínico (ACh), AMPA, NMDA, GABA-A, glicina, 5-HT3 | Muscarínico (ACh), metabotrópico do glutamato, GABA-B, adrenérgicos |
| Segundo mensageiro | Não usa | cAMP, IP3/DAG, Ca2+ intracelular |
| Alvos farmacológicos | Curare, benzodiazepínicos (GABA-A), NMDA (quetamina) | Betabloqueadores, agonistas adrenérgicos, baclofeno (GABA-B) |
O neurotransmissor mais comum do SNC é o glutamato (excitatório), seguido do GABA (inibitório principal) e da glicina (inibitória da medula e tronco - bloqueada pela estricnina, que produz convulsões). O receptor AMPA media o PPSE rápido; o NMDA, voltagem- e glutamato-dependente, permeável ao Ca2+ e bloqueado por Mg2+ em repouso, media componentes lentos e plasticidade; o receptor GABA-A é alvo dos benzodiazepínicos (potencialização alostérica; aumentam a frequência de abertura do canal de Cl-) e dos barbitúricos (aumentam o tempo de abertura) - daí o sinergismo perigoso com álcool. A acetilcolina atua na junção neuromuscular (nicotínico muscular, bloqueado pelo curare e atacado por anticorpos na miastenia gravis) e no SNC/SNA (muscarínico).
A sinapse elétrica é uma junção comunicante (gap junction): um canal aquoso que atravessa as duas membranas e conecta os citoplasmas. Estrutura: cada célula contribui com um conexon (hemicanal) formado por 6 subunidades de conexinas (proteínas de 4 domínios transmembranares); dois conexons justapostos formam o poro, com diâmetro de cerca de 1,5 a 2 nm, grande o suficiente para íons e moléculas hidrofílicas de até 1,5 kDa - incluindo segundos mensageiros como cAMP, IP3 e ATP. No SNC de mamíferos, a conexina neuronal predominante é a Cx36 (interneurônios inibitórios do córtex, hipocampo e retina); astrócitos se acoplam maciçamente por Cx43, formando redes sinciciais que distribuem K+ e glutamato (gliotransmissão). Nas junções comunicantes não há neurotransmissor nem fenda a atravessar: a corrente iônica passa diretamente, com retardo sináptico praticamente nulo (menor que 0,1 ms, contra 0,3 a 5 ms da sinapse química).
As junções comunicantes não são exclusividade do SNC: no coração, os discos intercalares conectam miócitos por Cx43 (e Cx40 no sistema de condução), garantindo a propagação do potencial de ação que contrai os átrios e ventrículos como um sincício funcional - é o mesmo princípio biofísico da sinapse elétrica neural. No músculo liso visceral (útero, intestino, bexiga), as gap junctions coordenam ondas de contração. Essa universalidade explica por que mutações de conexinas produzem doenças de múltiplos órgãos: mutações da GJB2 (Cx26) são a causa mais comum de surdez congênita não sindrômica; mutações da GJB1 (Cx32) causam a neuropatia de Charcot-Marie-Tooth tipo X; Cx46 e Cx50 (cristalino) causam catarata congênita; e a redução da Cx43 cardíaca favorece arritmias e cicatrização prejudicada pós-infarto.
| Propriedade | Sinapse elétrica (gap junction) | Sinapse química |
|---|---|---|
| Mecanismo | Corrente iônica direta por canais de conexinas | Liberação de neurotransmissor que ativa receptores |
| Retardo sináptico | Praticamente nulo (<0,1 ms) | 0,3 a 5 ms (típico 0,5-1 ms) |
| Direção | Predominantemente bidirecional (algumas retificadoras) | Unidirecional (pré para pós) |
| Ganho e amplificação | Sem ganho; sinal atenuado | Amplificação possível (um quantum gera PPSE) |
| Plasticidade | Modulável (pH, Ca2+, fosforilação), mais limitada | Alta (facilitação, depressão, LTP/LTD) |
| Seletividade | Íons e moléculas <1,5 kDa | Específica por transmissor e receptor |
| Função típica | Sincronização de redes, escapes rápidos, desenvolvimento | Processamento complexo, memória, modulação |
| Exemplos | Interneurônios corticais (Cx36), complexo olivar, astrócitos (Cx43), miocárdio | Junção neuromuscular, sinapses corticais glutamatérgicas |
Muitas regiões do SNC têm sinapses mistas: no terminal de Mauthner de peixes e no núcleo vestibular de mamíferos, um mesmo terminal faz contato elétrico e químico com o mesmo neurônio pós-sináptico, combinando a velocidade da transmissão elétrica com o ganho e a modulação da química - e as duas formas dialogam, porque a ativação química pode modular a condutância da gap junction próxima (interação funcional descrita por Pereda).
1.Utilizando a equação de Nernst a 37 °C para um íon monovalente com concentração extracelular de 140 mmol/L e intracelular de 14 mmol/L, o potencial de equilíbrio é de aproximadamente:
2.O principal determinante do potencial de repouso da membrana neuronal é:
3.A fase de despolarização rápida (spike) do potencial de ação deve-se a:
4.O período refratário absoluto é explicado por:
5.A condução saltatória é caracterizada por:
6.A sequência correta da transmissão química no terminal pré-sináptico é:
7.Qual propriedade é exclusiva da sinapse elétrica em relação à química?
8.A causa mais comum de surdez congênita não sindrômica por defeito de junção comunicante é a mutação do gene:
9.Paciente com fraqueza proximal que melhora com o esforço repetido e neoplasia pulmonar oculta tem anticorpos contra qual estrutura sináptica?
10.Sobre a codificação da intensidade de um estímulo sensitivo no sistema nervoso:
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