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Revisão completa da física da imagem diagnóstica: produção dos raios-X no tubo de Coolidge, interações fotoelétrica e Compton, escala Hounsfield da tomografia, piezoeletricidade e Doppler no ultrassom, artefatos e proteção radiológica com doses dos exames. Foco nos pontos clássicos de prova de biofísica.
[1] ICRP. The 2007 Recommendations of the International Commission on Radiological Protection. ICRP Publication 103. Ann ICRP. 2007;37(2-4):1-332 · DOI 10.1016/j.icrp.2007.10.003 | [2] Mettler FA Jr, Huda W, Yoshizumi TT, Mahesh M. Effective doses in radiology and diagnostic nuclear medicine: a catalog. Radiology. 2008;248(1):254-263 · DOI 10.1148/radiol.2481071451 | [3] Feldman MK, Katyal S, Blackwood MS. US artifacts. RadioGraphics. 2009;29(4):1179-1189 · DOI 10.1148/rg.294085199 · PMID 19605664 | [4] Bushberg JT, Seibert JA, Leidholdt EM Jr, Boone JM. The Essential Physics of Medical Imaging. 4ª ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins; 2012 | [5] Brasil. ANVISA. Resolução RDC nº 611, de 9 de março de 2022: requisitos sanitários para serviços de radiologia diagnóstica e intervencionista e Programa de Proteção Radiológica. Diário Oficial da União, 2022 · https://www.gov.br/anvisa/pt-br · DOI 10.1016/j.icrp.2007.10.003
Radiografia, tomografia computadorizada (TC) e ultrassom (US) respondem pela maior parte dos exames de imagem solicitados na prática clínica, e cada um deles é construído sobre um fenômeno físico distinto: atenuação de fótons de raios-X, reconstrução computadorizada dessa atenuação e reflexão de pulsos acústicos. Entender esses fenômenos permite responder três perguntas que aparecem em praticamente toda prova: por que a imagem tem contraste, por que surgem artefatos e quanto de radiação o paciente recebe. A radioproteção, inclusive, é tema normativo no Brasil, regulada pela RDC ANVISA 611/2022, que obriga todo serviço de radiologia a manter um Programa de Proteção Radiológica supervisionado por físico médico.
Os raios-X diagnósticos são gerados no tubo de Coolidge, um vácuo de vidro que contém um cátodo (filamento de tungstênio) e um ânodo rotatório, também de tungstênio com traços de renio. O filamento aquecido libera elétrons por emissão termoiônica; uma diferença de potencial de 25 a 150 kVp acelera esses elétrons em direção ao alvo, e a energia dos fótons produzidos é proporcional a essa voltagem. A colisão dos elétrons no ânodo gera dois tipos de espectro: a radiação de freamento (bremsstrahlung), contínua e responsável por cerca de 80 a 90% do feixe, e a radiação característica, com picos discretos de energia (59 e 67 keV para o tungstênio). Do lado de fora do tubo atuam o filtro de alumínio de 2 a 3 mm, que remove os fótons moles que só aumentariam dose na pele sem contribuir para a imagem, e o colimador, que delimita o campo e reduz a radiação espalhada.
A imagem radiográfica existe porque os tecidos atenuam o feixe de forma diferente. No intervalo diagnóstico (25 a 150 keV), duas interações dominam. No efeito fotoelétrico, o fóton é totalmente absorvido por um elétron da camada K do átomo; sua probabilidade varia com o cubo do número atômico (Z elevado a 3) e inversamente com o cubo da energia (E elevada a -3). É a interação que gera contraste real entre osso (cálcio, Z elevado) e partes moles, e é maximizada nas energias baixas da mamografia. No espalhamento Compton, o fóton transfere parte da energia a um elétron e muda de direção; depende da densidade eletrônica por grama, é quase independente do Z e domina em tecidos moles nas energias mais altas da radiografia convencional e da TC. O fóton espalhado que alcança o detector não carrega informação anatômica: é puro ruído, motivo pelo qual se usam grades antidifusoras.
| Característica | Efeito fotoelétrico | Espalhamento Compton |
|---|---|---|
| Dependência do número atômico | Proporcional a Z ao cubo | Quase independente do Z |
| Dependência da energia | Proporcional a 1/E ao cubo | Fraca dependência entre 30 e 150 keV |
| O que acontece com o fóton | Totalmente absorvido | Parcialmente transferido e desviado |
| Consequência na imagem | Gera contraste diagnóstico | Gera véu e ruído (radiação espalhada) |
| Predomina em | Osso e calcificações; mamografia (baixo kVp) | Partes moles na radiografia e na TC |
Três atributos definem a qualidade de uma radiografia. O contraste é a diferença de densidade óptica entre estruturas vizinhas e depende sobretudo do kVp: quanto maior o kVp, maior a penetração e menor o contraste. A resolução espacial é a capacidade de separar estruturas próximas, medida em pares de linhas por milímetro, limitada pelo tamanho do foco, pelo filme ou detector e pelo movimento. O ruído quântico (mottled) aparece quando o número de fótons que atinge o detector é insuficiente, geralmente por mAs baixo demais. A grade antidifusora de Bucky, posicionada entre o paciente e o detector, possui razão de grade entre 8:1 e 12:1 e absorve os fótons espalhados; em troca exige aumento da dose por um fator de aproximadamente 3 a 5 vezes (fator de Bucky). Nos sistemas digitais (radiografia computadorizada com placa de fósforo fotossimulável e radiografia direta com painéis planos), a curva de resposta linear e o pós-processamento ampliaram a faixa de exposões aceitáveis, mas o princípio físico da atenuação permanece idêntico.
Na TC, o tubo emite um feixe em leque que atravessa o paciente em rotação contínua enquanto a mesa avança (aquisição helicoidal), e fileiras múltiplas de detectores (equipamentos de 64 a 320 fatias) medem a atenuação em milhares de ângulos. O computador reconstrói mapas do coeficiente de atenuação linear de cada voxel e os converte em Unidades Hounsfield (UH), na fórmula UH = 1000 multiplicado pelo quociente entre a diferença do coeficiente do voxel e o da água dividida pelo coeficiente da água. A escala é arbitrária: ar -1000, água 0 e osso cortical +1000. A leitura depende da janela escolhida: centro e largura de janela pulmonar (centro -600, largura 1500) são inadequados para avaliar mediastino, que exige janela de partes moles (centro 40, largura 400). O contraste iodado intravenoso (300 a 370 mg de iodo por mL, injeção de 3 a 5 mL por segundo) explora justamente o alto Z do iodo para realçar vasos e lesões hipervascularizadas.
| Tecido | Unidades Hounsfield (aproximado) | Janela de leitura habitual |
|---|---|---|
| Ar | -1000 | Pulmonar |
| Parênquima pulmonar | -700 a -850 | Pulmonar |
| Gordura | -90 a -50 | Abdominal |
| Água e LCR | 0 a 15 | Partes moles |
| Sangue agudo | +30 a +70 | Partes moles |
| Músculo | +35 a +55 | Partes moles |
| Osso cortical | +700 a +1000 ou mais | Óssea |
A dose na TC é monitorada por dois índices: o CTDIvol, em mGy, medido em fantasias padronizadas de 16 cm (crânio) ou 32 cm (corpo), e o DLP, em mGy por cm, que é o produto do CTDIvol pelo comprimento varrido. A dose efetiva pode ser estimada multiplicando o DLP por fatores de conversão específicos de região (cerca de 0,015 mSv por mGy por cm no abdome). Os artefatos mais cobrados em prova merecem atenção: endurecimento do feixe (escurecimento entre dois ossos, clássico na fossa posterior), artefato metálico (estrias por atenuação extrema e correção de projeção), artefato em anel (má-calibração de um detector), artefato de movimento e volume parcial (voxel com dois tecidos assume valor intermediário).
O ultrassom diagnóstico usa ondas mecânicas de 1 a 20 MHz geradas por cristais piezelétricos, geralmente titanato-zirconato de chumbo (PZT), presos entre eletrodos. O efeito piezelétrico é bidirecional: a estimulação elétrica deforma o cristal e emite o pulso, e o eco que retorna deforma o cristal de novo e gera sinal elétrico. O transdutor funciona no modo impulso-eco e passa mais de 99% do tempo escutando: o fator de ciclo é da ordem de 1%. O aparelho assume velocidade do som nos tecidos moles de 1540 m por segundo para converter o tempo de retorno em profundidade. A escolha da frequência é o principal compromisso físico: frequências altas (7 a 15 MHz, transdutores lineares vasculares e musculoesqueléticos) dão melhor resolução axial e penetram pouco; frequências baixas (2 a 5 MHz, transdutores curvilíneares abdominais e setoriais cardíacos) penetram mais e resolvem menos. A atenuação média dos tecidos moles cresce aproximadamente 0,5 dB por cm de profundidade a cada MHz de frequência, o que exige ganho compensado em profundidade (TGC).
A reflexão depende do desacordo de impedância acústica, definida como Z = densidade multiplicada pela velocidade do som no meio. A intensidade refletida em incidência perpendicular é o quadrado da razão entre a diferença e a soma das impedâncias. Ar tem impedância desprezível e osso enorme, enquanto os tecidos moles são semelhantes entre si: por isso o gel elimina a camada de ar (que refletiria quase 100% da energia), o osso e calcificações bloqueiam o feixe e as interfaces entre órgãos moles produzem ecos úteis. A resolução axial equivale a metade do comprimento de pulso: pulsos curtos com poucos ciclos (e alta frequência) separam estruturas próximas.
O efeito Doppler mede a mudança de frequência do eco que incide sobre estruturas em movimento, sobretudo hemácias. O desvio Doppler equivale a duas vezes a frequência emitida multiplicada pela velocidade do fluxo e pelo cosseno do ângulo de insonação, dividido pela velocidade do som. O ângulo ideal é paralelo ao vaso (0 grau) e ângulos acima de 60 graus subestimam a velocidade, motivo pelo qual o exame vascular padroniza correções até esse limite; a 90 graus o cosseno se anula e não há desvio detectável. O Doppler pulsado amostra um volume seleto e sofre aliasing quando a frequência de repetição do pulso é menor que o dobro do desvio (critério de Nyquist); o Doppler contínuo mede velocidades altas sem informação de profundidade; o mapeamento colorido codifica a direção e a velocidade média; e o Doppler de amplitude (power) não depende do ângulo e não sofre aliasing, mas não informa sentido.
O ultrassom é radiação não ionizante, sem risco estocástico comprovado em intensidades diagnósticas, mas tem dois bioefeitos potenciais monitorados por índices exibidos na tela: o índice térmico (TI, razão entre a potência emitida e a que elevaria a temperatura em 1 grau Celsius, com variantes TIS para partes moles, TIB para osso e TIC para crânio) e o índice mecânico (MI, risco de cavitação acústica, relevante em exames com microbolhas de contraste e em tecidos com gás, como o pulmão e o intestino do feto). A conduta é o princípio ALARA: usar a potência e o tempo de exposição estritamente necessários, especialmente em Doppler obstétrico no primeiro trimestre.
| Atributo | Radiografia | Tomografia | Ultrassom |
|---|---|---|---|
| Fenômeno físico | Atenuação diferencial de fótons | Atenuação reconstruída em voxels | Reflexão de pulsos acústicos |
| Radiação ionizante | Sim, dose baixa | Sim, dose maior | Não |
| Contraste principal | Osso versus ar versus partes moles | Escala Hounsfield quantitativa | Impedância acústica e ecogenicidade |
| Resolução espacial | Alta no plano (5 a 10 pares por mm) | 0,5 a 1 mm | 0,2 a 1 mm em superfície, pior em profundidade |
| Dependência do operador | Baixa | Baixa | Alta |
| Portabilidade e custo | Baixo custo, portátil | Alto custo, fixo | Baixo custo, portátil |
| Papel típico | Rastreio de tórax, fraturas | Trauma, estadiamento, crânio | Partes moles, drenagens, vascular, leito |
A proteção radiológica repousa sobre três princípios da ICRP 103: justificação (todo exame precisa trazer benefício que supere o risco), otimização (manter a dose tão baixa quanto razoavelmente alcançável, o princípio ALARA, com restrições de dose) e limitação de dose para profissionais. Os limites ocupacionais são 20 mSv por ano em média de 5 anos para corpo inteiro (nunca acima de 50 mSv em um único ano), 20 mSv por ano para o cristalino e 500 mSv por ano para pele e extremidades; para o público em geral o limite é 1 mSv por ano. Na prática, as três ferramentas clássicas são tempo de exposição mínimo, distância (a intensidade cai com o inverso do quadrado da distância: dobrar a distância reduz a exposição a um quarto) e blindagem (aventais de 0,25 a 0,5 mm de chumbo, anteparos acrílicos e dosímetros individuais). Na gestante, adia-se o exame com radiação quando possível, otimiza-se o protocolo e protege-se o abdome; a dose ao feto deve ficar abaixo de 1 mSv após a declaração da gravidez. No Brasil, a RDC ANVISA 611/2022 organiza esses requisitos ao exigir Programa de Proteção Radiológico, física médica responsável, testes de constância dos equipamentos e licenciamento junto à vigilância sanitária.
| Exame | Dose efetiva aproximada | Equivalente em radiação natural de fundo |
|---|---|---|
| Radiografia de tórax PA | 0,02 mSv | 3 dias |
| Radiografia de extremidade | 0,001 mSv | Menos de 1 dia |
| Mamografia bilateral (2 incidenças por mama) | 0,4 mSv | 7 semanas |
| TC de crânio | 2 mSv | 8 meses |
| TC de tórax | 7 mSv | 2 anos |
| TC de abdome e pelve | 10 mSv (varia de 10 a 30) | 3 anos |
| Fundo natural anual | 3 mSv | 1 ano |
1.Qual interação predomina na formação do contraste entre osso e partes moles em mamografia?
2.O que acontece ao aumentar o mAs de uma exposição radiográfica?
3.Na escala de Unidades Hounsfield, quais são os valores de referência do ar, da água e do osso cortical?
4.Sombra acústica atrás de um cálculo renal no ultrassom ocorre porque:
5.Por que se usam transdutores de 2 a 5 MHz no abdome e de 7 a 15 MHz em estruturas superficiais?
6.Qual afirmação sobre o efeito Doppler está correta?
7.O aliasing observado no Doppler pulsado de alta velocidade decorre de:
8.Qual exame tem a maior dose efetiva aproximada?
9.O transdutor ultrassonográfico emite pulsos e recebe ecos graças a:
10.Segundo a ICRP 103 e a legislação brasileira, o limite de dose efetiva para trabalhadores ocupacionalmente expostos é:
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