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Ensina a montar a tabela 2x2 e a calcular risco, odds, risco relativo, odds ratio, diferença de risco, NNT, fração atribuível e hazard ratio, com exemplos numéricos resolvidos passo a passo. Cobrem-se ainda as armadilhas clássicas de prova, como a diferença entre risco e chance e quando o OR superestima o efeito.
[1] Szklo M, Nieto FJ. Epidemiology: Beyond the Basics. 4ª ed. Burlington: Jones & Bartlett Learning, 2019 | [2] Rothman KJ. Epidemiology: An Introduction. 2ª ed. New York: Oxford University Press, 2012 | [3] Grimes DA, Schulz KF. Making sense of odds and odds ratios. Obstet Gynecol. 2008;111(2):423-426 · DOI 10.1097/AOG.0b013e3181616a2b | [4] Vandenbroucke JP, von Elm E, Altman DG, et al. Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE). Lancet. 2007;370(9596):1453-1457 · DOI 10.1016/S0140-6736(07)61645-X | [5] Guyatt G, Rennie D, Meade MO, Cook DJ. Users' Guides to the Medical Literature. 3ª ed. New York: McGraw-Hill, 2015
Toda decisão clínica baseada em evidência se apoia em uma pergunta simples: qual é a força da relação entre uma exposição (ou tratamento) e um desfecho? Para respondê-la, a epidemiologia usa as medidas de associação: risco relativo (RR), odds ratio (OR), razão de taxas, hazard ratio (HR) e as medidas de impacto absoluto, como diferença de risco e número necessário para tratar (NNT). Provas de residência e de graduação exploram exatamente a fronteira entre esses conceitos: qual medida serve para estudo de coorte, qual serve para caso-controle, quando o OR imita o RR e como converter efeito relativo em benefício absoluto para o paciente individual.
Risco é sinônimo de probabilidade: a proporção de indivíduos que desenvolvem o desfecho em um período definido (incidência acumulada). Varia de 0 a 1 (ou 0% a 100%) e tem leitura intuitiva: risco de 0,10 significa que 10 em cada 100 pessoas adoeceram. Odds (chance) é a razão entre a probabilidade do evento ocorrer e a probabilidade de não ocorrer: odds = p / (1 - p). Odds não tem limite superior e cresce mais rápido que o risco: risco de 0,50 corresponde a odds de 1,0 (50/50); risco de 0,90 corresponde a odds de 9,0. Essa distorção crescente é a raiz de quase toda confusão entre RR e OR cobrada em prova.
| Atributo | Risco (probabilidade) | Odds (chance) |
|---|---|---|
| Fórmula | p = casos / total de pessoas | p / (1 - p) = casos / não casos |
| Intervalo de valores | 0 a 1 (0% a 100%) | 0 a infinito |
| Leitura clínica | Intuitiva e absoluta | Contrastiva, contra o não evento |
| Risco 0,10 | 10% | 0,11 (1 para 9) |
| Risco 0,50 | 50% | 1,0 (1 para 1) |
| Risco 0,90 | 90% | 9,0 (9 para 1) |
Considere uma coorte hipotética de 2.000 pessoas seguidas por 5 anos para infarto: 1.000 expostas ao fator de risco (a + b) e 1.000 não expostas (c + d). Na linha dos expostos, 100 adoeceram (a) e 900 não adoeceram (b). Na linha dos não expostos, 50 adoeceram (c) e 950 não adoeceram (d). Toda medida de associação deste artigo sai dessas quatro células. O risco nos expostos (Re) é a/(a+b) = 100/1.000 = 0,10. O risco nos não expostos (Ru) é c/(c+d) = 50/1.000 = 0,05.
| Grupo | Desfecho presente | Desfecho ausente | Total | Risco |
|---|---|---|---|---|
| Expostos | a = 100 | b = 900 | 1.000 | Re = 0,10 |
| Não expostos | c = 50 | d = 950 | 1.000 | Ru = 0,05 |
| Total | 150 | 1.850 | 2.000 | RT = 0,075 |
O risco relativo (RR, razão de riscos ou risco relativo de incidência) é Re dividido por Ru. No exemplo, RR = 0,10 / 0,05 = 2,0: o risco de infarto nos expostos é o dobro do risco nos não expostos. O RR só pode ser calculado quando as incidências nos dois grupos são conhecidas, o que exige desenhos que partam da exposição e acompanhem o desfecho: ensaios clínicos randomizados, coortes prospectivas e coortes retrospectivas com denominadores definidos. Interpretação: RR maior que 1,0 sugere fator de risco; RR menor que 1,0 sugere fator protetor; RR igual a 1,0 indica ausência de associação. Um RR de 2,0 também permite dizer que a exposição se associa a um aumento relativo de 100% no risco.
No estudo caso-controle, o pesquisador seleciona uma amostra de casos (já com o desfecho) e uma de controles (sem o desfecho), e mede a exposição retrospectivamente. Como a proporção de casos na amostra é definida pelo pesquisador, e não pela população, a incidência não pode ser calculada e o RR fica matematicamente indisponível. A saída é comparar a odds de exposição entre casos e controles: OR = (odds de exposição nos casos) / (odds de exposição nos controles) = (a/c) / (b/d) = ad/bc, o produto cruzado da tabela 2x2. Exemplo numérico: de 100 casos de infarto, 60 eram expostos (a) e 40 não expostos (c); de 100 controles, 30 expostos (b) e 70 não expostos (d). OR = (60 x 70) / (40 x 30) = 4.200 / 1.200 = 3,5.
Interpretação do OR é análoga à do RR: maior que 1,0 associa-se ao desfecho; menor que 1,0 sugere proteção; igual a 1,0 é nulo. O OR também é a medida que sai naturalmente da regressão logística, razão pela qual domina a literatura observacional e os estudos caso-controle aninhados em coortes. A regra de ouro para a prova: quando o desfecho é raro, definido convencionalmente como incidência abaixo de cerca de 10%, odds e risco quase coincidem e o OR aproxima bem o RR. Com desfechos comuns, o OR se afasta do RR e sempre o superestima quando o efeito é maior que 1 (e o subestima quando é menor que 1).
| Atributo | Risco relativo (RR) | Odds ratio (OR) |
|---|---|---|
| Fórmula | Re / Ru | ad / bc (produto cruzado) |
| Desenho de origem | Coorte e ensaio randomizado | Caso-controle e regressão logística |
| Limite de valores | 0 a infinito | 0 a infinito |
| Leitura | Risco relativo direto | Razão de chances; aproxima o RR se desfecho raro |
| Com desfecho comum | Estimativa adequada | Superestima o RR quando OR maior que 1 |
| Estimativa nula | 1,0 | 1,0 |
Medidas relativas dizem a força da associação, mas não o tamanho do benefício para o paciente. A diferença de risco (DR, risco atribuível) é Re menos Ru e é expressa em pontos percentuais: no exemplo da coorte, DR = 10% - 5% = 5 pontos percentuais. O número necessário para tratar (NNT) é o inverso da DR absoluta em decimais: NNT = 1 / DR. Com DR = 0,05, NNT = 20: é preciso tratar 20 pacientes expostos (ou evitar a exposição em 20 pessoas) para prevenir 1 evento no horizonte de tempo do estudo. No caso de desfecho nocivo, fala-se em número necessário para causar dano (NNH), calculado da mesma forma com o aumento absoluto de risco.
A fração atribuível nos expostos (fração etiológica) responde: que proporção dos casos do grupo exposto é causada pela exposição? Calcula-se por (Re - Ru) / Re, equivalente a (RR - 1) / RR. No exemplo: (0,10 - 0,05) / 0,10 = 0,50, ou seja, 50% dos casos entre expostos são atribuíveis à exposição. A fração atribuível populacional incorpora a prevalência da exposição (Pe) na população: FAP = Pe x (RR - 1) / [Pe x (RR - 1) + 1]. Com Pe = 0,40 e RR = 2,0: FAP = 0,4 / 1,4 = 0,286, cerca de 29% dos casos da população. Essa é a conta que justifica políticas públicas: exposições modestas em efeito, mas muito prevalentes, geram grande carga populacional.
Quando o seguimento usa tempo-pessoa (pessoas que entram e saem do estudo em momentos diferentes), calcula-se a taxa de incidência (densidade de incidência), em eventos por pessoa-tempo, e a razão entre taxas dos dois grupos (incidence rate ratio). Já o hazard ratio (HR), oriundo do modelo de Cox, é a razão das taxas instantâneas de evento a cada instante, condicionada à sobrevivência até aquele instante. O HR é a medida padrão de ensaios com desfecho de tempo até evento (sobrevida): HR de 0,70 indica redução instantânea de 30% na taxa de evento no grupo experimental ao longo de todo o seguimento. O HR pressupõe proporcionalidade dos hazards, verificada por testes e inspeção das curvas de sobrevida; quando as curvas se cruzam, o HR médio deixa de resumir o efeito.
Uma medida de associação só é interpretável como efeito se for válida. Confundimento ocorre quando um terceiro fator se associa à exposição e, independentemente, causa o desfecho, distorcendo a estimativa (o clássico café, fumo e câncer de pulmão: o café parece associado ao câncer porque se associa ao tabagismo). Controla-se o confundimento por restrição, pareamento, estratificação (análise de Mantel-Haenszel) e ajuste multivariável (regressão). Interação (modificação de efeito) é diferente: o efeito da exposição realmente muda segundo o nível de outra variável, como a maior eficácia de tamoxifeno em tumores com receptor estrogênico positivo. Viés de seleção e viés de informação corrompem as próprias células da tabela 2x2 e não são corrigíveis por análise estatística. A leitura crítica deve sempre perguntar: o desenho permite medir RR ou apenas OR? O desfecho é raro? Houve ajuste para confusores principais?
Suponha risco de 10% no grupo controle e 8% no grupo intervenção. RR = 0,80 (redução relativa de 20%), mas a diferença de risco é apenas 2 pontos percentuais, com NNT = 1/0,02 = 50 pacientes tratados por 1 ano para evitar 1 evento. Se o mesmo RR de 0,80 fosse aplicado a uma população de risco basal de 2%, a DR cairia para 0,4 ponto percentual e o NNT subiria para 250. Moral da conta, frequentemente cobrada: o efeito relativo tende a se transportar entre populações, mas o benefício absoluto (e o NNT) depende do risco basal do paciente. É por isso que escores de risco (Framingham, Wells, CHA2DS2-VASc) precedem qualquer decisão sobre intervenção.
1.Em uma coorte, 100 de 1.000 expostos e 50 de 1.000 não expostos desenvolveram o desfecho. Qual é o risco relativo?
2.Qual medida de associação é adequada para um estudo caso-controle?
3.Um estudo caso-controle encontra OR = 0,5 para a associação entre exercício e acidente vascular encefálico. A interpretação correta é:
4.Um tratamento reduziu o risco de desfecho de 12% para 8%. Qual é o número necessário para tratar?
5.Em qual situação o odds ratio se aproxima do risco relativo?
6.RR = 1,0 com intervalo de confiança de 95% de 0,9 a 1,1 significa:
7.O hazard ratio (HR) difere do risco relativo porque:
8.Com risco de 20% nos expostos e 10% nos não expostos, a fração atribuível nos expostos é:
9.Por que a incidência não pode ser calculada em um estudo caso-controle?
10.Um novo protocolo reduziu o risco de infecção de 18% para 10%. O NNT e seu arredondamento correto são:
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