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Da definição de sedação moderada (consciente) no continuum da ASA à prática: jejum prévio, farmacologia com doses pediátricas e adultas, monitorização com capnografia, protocolo de óxido nitroso em odontopediatria, complicações, resgate com antagonistas e critérios de alta.
[1] American Society of Anesthesiologists Task Force on Moderate Sedation and Analgesia. Practice Guidelines for Moderate Procedural Sedation and Analgesia 2018. Anesthesiology. 2018;128(3):437-479 · DOI 10.1097/ALN.0000000000002008 | [2] American Society of Anesthesiologists. Practice Guidelines for Preoperative Fasting (Report by the ASA Task Force on Preoperative Fasting). Anesthesiology. 2017;126(3):376-393 · DOI 10.1097/ALN.0000000000001452 | [3] American Academy of Pediatric Dentistry. Use of Nitrous Oxide for Pediatric Dental Patients. The Reference Manual of Pediatric Dentistry. Chicago: AAPD; 2024 · https://www.aapd.org/media/Policies_Guidelines/BP_UseofNitrous.pdf | [4] Godwin SA, Caro DA, Wolf SJ, et al. Clinical Policy: Procedural Sedation and Analgesia in the Emergency Department. Ann Emerg Med. 2014;63(2):247-258 · DOI 10.1016/j.annemergmed.2013.08.013 | [5] American Society of Anesthesiologists. Continuum of Depth of Sedation: Definition of General Anesthesia and Levels of Sedation/Analgesia (aprovado 2009, emendado 2019) · https://www.asahq.org/standards-and-guidelines · DOI 10.1097/ALN.0000000000002008
Sedação consciente é o nome antigo do que a American Society of Anesthesiologists (ASA) hoje chama de sedação moderada: um estado de depressão do sistema nervoso central no qual o paciente responde de forma proposital a comandos verbais ou estímulo tátil leve, mantém via aérea pérvia, ventilação espontânea adequada e função cardiovascular usualmente preservada. O objetivo é permitir procedimentos desconfortáveis ou ansiogênicos — endoscopias, cateterismos, reduzidas fraturas, suturas em crianças, atendimentos odontológicos — com segurança, amplitude e rapidez de recuperação. O ponto central que as provas cobram é o continuum: o paciente pode escalar de sedação mínima para moderada, profunda e anestesia geral com uma dose a mais, e o profissional que seda precisa estar preparado para resgatar o nível imediatamente acima daquele que planejou.
A ASA define quatro níveis em um contínuo, sem divisa nítida entre eles, e a responsabilidade do sedacionista cresce conforme o nível alvo. A sedação moderada difere da sedação profunda justamente pela capacidade de responder propositadamente a estímulo verbal ou tátil leve — na profunda, a resposta só ocorre a estímulo repetido ou doloroso, e a via aérea pode precisar de intervenção. Decorar as quatro colunas da tabela abaixo resolve a maior parte das questões sobre o tema.
| Nível | Resposta do paciente | Via aérea | Ventilação espontânea | Função cardiovascular |
|---|---|---|---|---|
| Sedação mínima (ansiólise) | Resposta normal a comando verbal | Não afetada | Adequada | Não afetada |
| Sedação moderada (consciente) | Resposta proposital a comando verbal ou tátil leve | Não é necessária intervenção | Adequada | Geralmente mantida |
| Sedação profunda | Resposta proposital apenas a estímulo repetido ou doloroso | Pode ser necessária intervenção | Pode ser inadequada | Geralmente mantida |
| Anestesia geral | Sem resposta, mesmo a estímulo doloroso | Frequentemente comprometida | Frequentemente inadequada | Pode estar comprometida |
A avaliação pré-sedação tem três eixos: classificação de risco da ASA (pacientes ASA I e II são candidatos ideais; ASA III exige individualização e suporte anestesiológico; ASA IV ou instáveis devem ser sedados por anestesiologista em ambiente hospitalar), exame da via aérea (critérios de Mallampati, abertura bucal, mobilidade cervical, micrognatia, apneia obstrutiva do sono) e histórico de eventos adversos com sedação prévia, alergias, medicações em uso e tabagismo. Em odontopediatria, a indicação nasce da falha das técnicas comportamentais não farmacológicas (dizer-mostrar-fazer, dessensibilização, contenção protetora) em crianças com ansiedade intensa, déficit de cooperação ou necessidade de procedimento extenso.
| Substância ingerida | Jejum mínimo recomendado (ASA) |
|---|---|
| Líquidos claros (água, suco sem polpa, chá sem leite) | 2 horas |
| Leite materno | 4 horas |
| Fórmula infantil, leite não humano e refeição leve (torrada com geleia) | 6 horas |
| Refeições gordurosas, frituras e carnes | 8 horas |
A escolha do fármaco equilibra profundidade alvo, dor do procedimento, idade, comorbidades e necessidade de analgesia. Sedativos e ansiolíticos (benzodiazepínicos, óxido nitroso) não abolem a dor; analgésicos opioides somam depressão respiratória; dissociativos (cetamina) produzem analgesia e sedação com preservação notável da ventilação; hipnóticos (propofol) definem sedação profunda e exigem domínio de via aérea. As doses abaixo são as de referência em adultos e crianças para os usos mais cobrados.
| Fármaco | Doses de referência | Início | Duração | Particularidades |
|---|---|---|---|---|
| Óxido nitroso (N2O) | Titulação de 10% a 30-50% em oxigênio, por máscara nasal | 30-60 segundos | 3-5 minutos por nível; recuperação rápida | Analgesia e ansiólise sem depressão respiratória relevante; exige máscara bem adaptada e sistema de exaustão (scavenging) |
| Midazolam | VO 0,5-0,75 mg/kg (máx 20 mg); intranasal 0,2-0,3 mg/kg; IV titulada 0,02-0,1 mg/kg | VO 15-30 min; IN 10-15 min; IV 1-3 min | VO 45-60 min; IV 20-40 min | Amnésia anterógrada marcada; reação paradoxal mais comum em crianças; antagonista flumazenil |
| Cetamina | IV 1-1,5 mg/kg; IM 4-5 mg/kg; VO 5-6 mg/kg (eficácia variável) | IV 1 min; IM 3-5 min | IV 10-20 min; IM 30-60 min | Dissociativa, mantém reflexos de via aérea e drive respiratório, libera catecolaminas; emese em 5-15% e reações de emergência mais comuns em adultos |
| Fentanila | IV 1 mcg/kg, titulada a partir de 0,5 mcg/kg | 1-2 min | 20-40 min | Potente analgesia com meia-vida curta; depressão respiratória sinérgica com benzodiazepínicos; rigidez torácica com dose alta rápida |
| Dexmedetomidina | Intranasal 1-2 mcg/kg; IV em infusão 0,2-1 mcg/kg/h | IN 20-30 min | 1-2 h | Alfa-2 agonista com sedação sem depressão respiratória relevante; bradicardia e hipotensão dose-dependentes |
| Propofol | IV 0,5-1 mg/kg titulado; infusão 25-75 mcg/kg/min | 30-60 segundos | 5-10 min | Sedação profunda com apneia possível; antiemético; dor à injeção; reservado a quem domina via aérea |
| Hidrato de cloral | VO ou retal 50 mg/kg (máx 1 g), dose única | 20-30 min | 1-2 h | Uso histórico em odontopediatria e exames; janela terapêutica estreita, sem antagonista e com preocupações de segurança que reduziram seu uso |
Antagonistas de resgate, para decorar: flumazenil 0,2 mg IV em 15 segundos no adulto, repetindo 0,2 mg a cada 1 minuto até 1 mg (na criança, 0,01 mg/kg por dose, máximo de 0,2 mg), reverte benzodiazepínicos; naloxona 0,4-2 mg IV, IM ou intranasal no adulto (0,01 mg/kg na criança), repetida a cada 2-3 minutos, reverte opioides. A duração do antagonista é menor que a de vários agonistas, e o paciente deve ser observado por tempo prolongado após a reversão, sob risco de re-sedação.
O óxido nitroso é o único inalatório de uso rotineiro fora do centro cirúrgico e a técnica de sedação mínima a moderada mais usada em odontopediatria. Combina ansiólise e analgesia moderada, titulação em minutos e eliminação rápida ao fechar a válvula, o que o torna ideal para atendimento ambulatorial em criança cooperativa parcial.
A maioria das intercorrências da sedação decorre de depressão respiratória não percebida ou de escalada não intencional de profundidade. Eventos graves são raros quando há monitorização, titulação e material de resgate, e quase sempre precedidos de sinais ignorados: hipoventilação, ronco, tiragem, dessaturação, perda da resposta verbal.
| Complicação | Como reconhecer | Conduta imediata |
|---|---|---|
| Hipoventilação ou apneia | Capnografia plana ou CO2 expirado em queda, dessaturação tardia | Estímulo verbal e tátil, mandíbula em elevação, oxigênio suplementar, bolsa-valva-máscara se necessário; antagonista se farmacologicamente possível |
| Laringoespasmo | Estridor inspiratório ou tentativa sem movimento de ar, mais frequente em crianças | Oxigênio 100% com pressão positiva contínua, pressão laríngea anterior; succinilcolina ou rocurônio em dose de resgate se não ceder |
| Obstrução de via aérea superior pela língua | Ronco, tiragem, esforço respiratório sem melhora ao estímulo | Elevação da mandíbula (jaw thrust), posição lateral, cânula nasofaríngea se necessário |
| Hipotensão | Queda da pressão arterial >20-30% do basal, mais com propofol e opioides | Reduzir a infusão, volume posicionado em Trendelenburg, cristaloides e vasopressor se necessário |
| Vômitos | Mais comum com cetamina (5-15%) e em jejum curto | Posição lateral, aspiração pronta, suspender até o retorno do nível de consciência |
| Reação paradoxal (midazolam) | Agitação, choro e agressividade, mais comum em crianças | Reasseguramento, redução de estímulos, dose adicional ou troca de estratégia; flumazenil nos casos refratários |
| Reação de emergência (cetamina) | Alucinações e agitação no despertar, mais comum em adolescentes e adultos | Ambiente calmo e reasseguramento; benzodiazepínico em dose pequena nos casos marcados |
| Hipóxia por difusão (final do N2O) | Dessaturação leve nos primeiros minutos após suspensão do gás | Administrar 100% de oxigênio por 3-5 minutos ao final do procedimento, o que já previne o evento |
Estudos controlados e revisões sistemáticas mostram que a capnografia identifica apneia e obstrução de via aérea mais precocemente que a monitorização padrão; o impacto em desfechos graves é limitado pela raridade desses eventos, mas a recomendação das diretrizes da ASA e da política clínica do ACEP permanece a favor de seu uso rotineiro em sedação moderada e profunda.
1.Segundo o contínuo da ASA, o que define a sedação moderada (consciente)?
2.Paciente programado para colonoscopia sob sedação moderada. Qual o jejum mínimo de líquidos claros conforme a ASA?
3.Qual a principal vantagem da capnografia sobre a oximetria de pulso na sedação procedural?
4.Sobre a farmacologia da cetamina, assinale a correta:
5.Conforme a AAPD, qual a concentração máxima rotineira de óxido nitroso em odontopediatria?
6.Criança de 6 anos e 20 kg para sedação com midazolam VO antes de procedimento. Qual a faixa de dose correta?
7.Ao final de um atendimento sob óxido nitroso, qual medida previne a chamada hipóxia por difusão?
8.Por que o propofol não é droga de sedação consciente?
9.Paciente sob sedação com midazolam e fentanila evolui com sedação excessiva e hipopneia. Qual a dose inicial de flumazenil no adulto?
10.Criança de 4 anos recebe midazolam VO e fica agitada, chorando e combativa, sem ganho de sedação. Qual o diagnóstico provável e a conduta inicial?
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