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Revisão completa da analgesia pós-operatória: fisiopatologia da dor aguda cirúrgica, esquemas multimodais com doses e vias, opioides e PCA, técnicas neuraxiais, bloqueios fasciais e de plexo por cirurgia, segurança (toxicidade de anestésico local e anticoagulação) e prevenção da dor crônica pós-cirúrgica.
[1] American Society of Anesthesiologists Task Force on Acute Pain Management. Practice guidelines for acute pain management in the perioperative setting: an updated report. Anesthesiology. 2012 · DOI 10.1097/ALN.0b013e31823c1030 | [2] Schug SA, Palmer GM, Scott DA, et al. Acute Pain Management: Scientific Evidence. 5ª ed. ANZCA/FPM. 2020 · anzca.edu.au | [3] Gustafsson UO, Scott MJ, Schwenk W, et al. Guidelines for perioperative care in elective colorectal surgery: ERAS Society recommendations: 2018. World Journal of Surgery. 2019 · DOI 10.1007/s00268-018-4844-y | [4] Neal JM, Woodward CM, Harrison TK. The ASRA checklist for managing local anesthetic systemic toxicity: 2017 version. Regional Anesthesia and Pain Medicine. 2018 · DOI 10.1097/AAP.0000000000000762 | [5] Barrington MJ, Kluger R. Ultrasound guidance reduces the risk of local anesthetic systemic toxicity following peripheral nerve blockade. Regional Anesthesia and Pain Medicine. 2013 · DOI 10.1097/AAP.0b013e3182796e4a | [6] Fonseca NM, Alves RR, Pontes JPJ. SBA 2020: atualização da diretriz de anestesia regional em uso de anticoagulantes. Brazilian Journal of Anesthesiology. 2020 · DOI 10.1016/j.bjan.2020.04.018 · DOI 10.1097/ALN.0b013e31823c1030
A dor pós-operatória não é apenas sintoma: é um modificador de desfecho. Dor mal controlada aumenta a resposta neuroendócrina ao estresse cirúrgico, gera imobilização (atelectasias, pneumonia, trombose), retarda a deambulação e a alta e é o preditor mais consistente de dor crônica pós-cirúrgica. Grandes inquéritos internacionais de qualidade da assistência mostram que mais da metade dos pacientes operados ainda referem dor moderada a intensa nas primeiras 48 horas. As diretrizes da ASA (2012), a compilação de evidências da ANZCA/FPM (5ª edição, 2020) e os protocolos ERAS convergem no mesmo tripé: avaliação sistemática com escalas, analgesia multimodal com poupança de opioides e uso liberal de técnicas regionais guiadas por ultrassom, dentro de uma via clínica de recuperação acelerada.
A lesão cirúrgica ativa a cascata nociceptiva em quatro etapas: transdução (liberação de mediadores inflamatórios como prostaglandinas, bradicinina, histamina, substância P e CGRP nos terminais periféricos), transmissão (fibras Ad e C até o corno dorsal), modulação (controles descendentes e facilitação medular) e percepção cortical. A exposição persistente aos mediadores reduz o limiar dos nociceptores (sensibilização periférica, hiperalgesia primária) e, por meio da ativação sustentada de receptores NMDA e da facilitação neuronal no corno dorsal, produz sensibilização central (hiperalgesia secundária e alodinia). Opioides em doses altas e prolongadas podem induzir hiperalgesia (opioid-induced hyperalgesia), fenômeno atenuado por antagonistas NMDA como a cetamina. O princípio terapêutico decorrente é atacar a dor em múltiplos pontos simultaneamente: anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) e dipirona inibem a transdução, anestésicos regionais bloqueiam a transmissão, cetamina e Mg2+ modulam o NMDA e os opioides atuam na percepção e na transmissão descendente.
A analgesia multimodal combina fármacos com mecanismos complementares para reduzir o consumo total de opioides e seus efeitos adversos (sedação, náusea e vômito, íleo, retenção urinária, depressão respiratória). Todo paciente deve receber a base não opioide em horários fixos, com opioides reservados para resgate, mais a técnica regional indicada para a cirurgia. Doses a seguir referem-se a adultos com função renal e hepática preservadas.
| Classe ou fármaco | Esquema usual em adultos | Observações de segurança |
|---|---|---|
| Dipirona | 1 a 2 g IV ou VO a cada 6 h | Base clássica no Brasil; risco raro de agranulocitose; evitar em discrasias conhecidas |
| Paracetamol | 1 g IV ou VO a cada 6 h (máximo 4 g/dia) | Reduzir para 15 mg/kg/dose se peso < 50 kg, hepatopatia ou álcool; 3 g/dia no idoso |
| Cetoprofeno | 100 mg IV a cada 8 a 12 h (máximo 300 mg/dia) | Vigiar sangramento digestivo, função renal e hipertensão; contraindicado na úlcera ativa |
| Parecoxibe | 40 mg IV a cada 12 h (máximo 80 mg/dia; 20 mg se < 50 kg ou idoso) | Inibidor seletivo de COX-2; menor efeito plaquetário; cuidado cardiovascular |
| Cetorolaco | 30 mg IV a cada 8 h por até 5 dias | Potente poupador de opioide; risco renal e digestivo; usado em misturas de infiltração |
| Morfina IV | 2 a 4 mg (0,05 a 0,1 mg/kg) titulada a cada 5 a 10 min | Padrão-ouro dos agonistas mu; libera histamina; metabólitos acumulam na disfunção renal |
| Fentanil IV | 25 a 50 mcg (0,5 a 1 mcg/kg) a cada 20 a 30 min | Lipofílico e sem metabólitos ativos; preferido na disfunção renal |
| Tramadol | 50 a 100 mg IV ou VO a cada 6 a 8 h (máximo 400 mg/dia) | Agonista mu fraco mais recaptação de serotonina e noradrenalina; risco de síndrome serotonérgica com ISRS |
| Cetamina | Bolus 0,1 a 0,3 mg/kg seguido de infusão de 0,05 a 0,2 mg/kg/h | Antagonista NMDA; poupadora de opioide e antipropagadora de sensibilização central; psicomiméticos dose-dependentes |
| Dexmedetomidina | 0,2 a 0,7 mcg/kg/h IV | Alfa-2 agonista sedativo e analgésico; causa bradicardia e hipotensão; poupadora de opioide |
| Lidocaína IV | Bolus 1 a 1,5 mg/kg e infusão de 1 a 2 mg/kg/h por até 24 h | Analgesia e anti-inflamatória em cirurgia abdominal; contraindicada em bloqueios de condução conhecidos |
| Gabapentina e pregabalina | Uso não rotineiro (ex.: gabapentina 300 mg pré-operatória) | Diretrizes atuais não recomendam como rotina: tonturas, sedação e sem redução consistente de opioides ou dor crônica |
A PCA intravenosa é o padrão quando a técnica regional não é possível: o paciente se autoadministran boluses dentro de limites programados, aproximando a dose da necessidade individual e reduzindo a variação plasmática. Em adultos, a PCA de morfina dispensa infusão basal de rotina (que aumenta eventos depressores respiratórios sem ganho analgésico); basal é justificada em opioides crônicos ou dor difícil. A monitorização integra escala de dor, escala de sedação (sedação precede depressão respiratória) e frequência respiratória, com naloxona pronta: 0,04 a 0,4 mg IV titulados, repetidos a cada 2 a 3 minutos até reversão.
| Parâmetro da PCA | Morfina IV | Fentanil IV |
|---|---|---|
| Bolus por demanda | 1 mg (0,02 mg/kg) | 10 a 25 mcg |
| Lockout | 5 a 10 min | 5 min |
| Infusão basal | Não usar de rotina em pacientes não tolerantes a opioides | Não usar de rotina |
| Limite de segurança | 10 a 15 mg nas primeiras 4 h conforme sedação | Dose máxima programada em mcg/4 h |
A analgesia neuraxial é a técnica mais eficaz para cirurgia torácica e abdominal alta. A epidural torácica (T6-T9 para abdominal alta, T4-T7 para torácica) com anestésico local diluído mais opioide lipofílico bloqueia aferências nociceptivas somáticas e viscerais, melhora a função diafragmática por economia ventilatória e reduz complicações pulmonares, íleo e consumo de opioides sistêmicos; a diretriz ERAS de cirurgia colorretal de 2018 recomenda-a explicitamente para as laparotomias medianas. A morfina intratecal em dose única (100 a 300 mcg; 100 a 150 mcg na cesárea) produz analgesia de 18 a 24 horas por sua hidrossolubilidade, com migração rostral gradual, o que exige vigilância de sedação e frequência respiratória por 24 horas. Efeitos adversos típicos do neuraxial: hipotensão por simpatectomia (tratar com volume e vasopressor), prurido por opioides (muito frequente, 30% a 60%; naloxona em baixa dose ou ondansetron), retenção urinária (sondagem enquanto durar o bloqueio) e bloqueio motor excessivo (reduzir concentração do anestésico local).
Os bloqueios de plano fascial guiados por ultrassom revolucionaram a analgesia de parede: são seguros, dispensam punção neuraxial em anticoagulados moderados e podem ser feitos em decúbito supino. Todos cobrem dor somática (parede); a cobertura visceral depende do alcance do plano (o quadrado lombar e o eretor da espinha têm componente visceral parcial). Volumes generosos (20 a 30 mL por lado) exploram o espalhamento craniocaudal dentro do plano.
| Bloqueio | Plano e nível de cobertura | Indicações típicas | Volume e concentração usuais |
|---|---|---|---|
| TAP (plano transverso do abdome) | Entre oblíquo interno e transverso; T10 a L1 | Cesárea sem morfina intratecal, laparoscopias, apendicectomia, histerectomia, prostatectomia | 20 mL por lado de bupivacaína 0,25% ou ropivacaína 0,3% |
| Quadrado lumbar (QL) | Posterior ao quadrado lumbar; espalhamento até dermátomos torácicos baixos | Cirurgia abdominal com componente visceral, nefrectomia, doadora de rim | 20 a 25 mL por lado de 0,25% a 0,375% |
| Eretor da espinha (ESP) | Plano profundo do músculo eretor; espalhamento multidermatomal somático e parcial visceral | Cirurgia de mama, torácica, abdominal alta, analgesia pós-trauma de tórax | 20 a 30 mL de 0,25% a 0,375% no nível correspondente |
| PECS I e II | Interpeitoral (I) e entre peitoral menor e serrátil (II) | Mastectomia com biópsia sentinela ou esvaziamento axilar, cirurgia de parede torácica superficial | PECS I 10 mL; PECS II soma 15 a 20 mL de 0,25% a 0,5% |
| Plano do serrátil anterior | Entre serrátil e costelas, 5º espaço | Toracoscopia, dreno torácico, fraturas costais | 20 mL de 0,25% a 0,375% |
| Paravertebral torácico | Espaço paravertebral, somático e simpático do nível | Toracotomia e cirurgia de mama quando epidural não é possível | 15 a 20 mL de 0,5%; risco de pneumotórax e hipotensão |
| Bainha dos retos | Plano posterior do reto abdominal, linha média supra e infraumbilical | Hérnias de linha média, laparotomia média como complemento | 20 mL por lado de 0,25% |
| Ilioinguinal e iliohipogástrico | Plano entre oblíquos internos e transverso, acima da espinha ilíaca | Herniorrafia inguinal, orquidopexia | 10 a 15 mL de 0,25% a 0,5% |
A escolha do bloqueio segue o território da incisão e o impacto funcional esperado: para artroplastia de joelho, o objetivo é analgesia poupando o quadríceps (deambulação precoce), o que fez o canal do adutor substituir o femoral clássico; para o ombro, o interescalênico é praticamente obrigatório, mas com paralisação frênica quase constante. Na prática, a tabela resume as associações mais cobradas.
| Cirurgia | Bloqueio de escolha | Observação de prova |
|---|---|---|
| Ombro (artroscopia, prótese) | Interescalênico (10 a 15 mL de ropivacaína 0,5%) | Paralisia frênica em praticamente todos; contraindicado em DPOC grave e nunca bilateral; risco de punção intratecal e síndrome de Horner |
| Mama com esvaziamento axilar | PECS II associado a plano do serrátil ou ESP | Poupa o bloqueio motor do membro; cobertura da axila depende do componente serrátil |
| Toracotomia e toracoscopia | Epidural torácica; alternativa paravertebral ou ESP/serrátil | Epidural é padrão-ouro para toracotomia aberta |
| Cesárea | Morfina intratecal 100 a 150 mcg; TAP bilateral se morfina intratecal não usada | Codeína e tramadol contraindicados na amamentação (metabolizadores ultrarrápidos de CYP2D6) |
| Laparoscopia abdominal | TAP ou QL bilateral dentro do multimodal | Cobrem portais e parede; dor visceral exige AINEs, dipirona e opioide de resgate |
| Fratura de fêmur e prótese de quadril | Bainha do músculo psoas ou fascia ilíaca (30 a 40 mL de 0,25% a 0,375%) | Analgesia pré-anestesia no idoso, reduz opioides e delirium |
| Artroplastia total de joelho | Canal do adutor (15 a 20 mL de ropivacaína 0,5%) mais infiltração periarticular | Poupa quadríceps em relação ao femoral: menos quedas e deambulação mais precoce |
| Hérnia inguinal aberta | Ilioinguinal e iliohipogástrico | Associação à infiltração da incisão reduz opioides no pós-operatório imediato |
| Cirurgia de mão e antebraço | Axilar ou infraclavicular (plexo braquial) | Anestesia e analgesia prolongadas com cateter quando indicado |
| Cirurgia de pé e tornozelo | Ciático poplíteo mais ramo safeno (ou bloqueio do tornozelo) | O safeno (ramo do femoral) cobre o dorso medial; esquecer o safeno é erro clássico |
A toxicidade sistêmica de anestésico local (LAST) resulta de absorção excessiva ou injeção intravascular, com sinais prodômicos (periestesias periorais, gosto metálico, zumbido, agitação), convulsões e colapso cardiovascular (alargamento do QRS, taquicardia ventricular, fibrilação ventricular refratária). A série australiana de Barrington e Kluger demonstrou que a guia ultrassonográfica reduz a LAST a cerca de 0,76 caso por 1.000 bloqueios periféricos, contra taxas maiores com neuroestimulação. Prevenção: ultrassom, aspiração antes de injetar, aliquots de 3 a 5 mL com observação entre eles, dose-teste com adrenalina quando aplicável e respeito às doses máximas (bupivacaína cerca de 2,5 mg/kg sem vasoconstritor e 3 mg/kg com; ropivacaína cerca de 3 mg/kg; lidocaína cerca de 4,5 a 5 mg/kg e 7 mg/kg com adrenalina), lembrando que são referências, não garantias.
| Fármaco | Intervalo antes da punção neuraxial | Observação |
|---|---|---|
| Varfarina | Suspender até INR menor ou igual a 1,4 | Reiniciar no dia seguinte à punção se hemostasia adequada |
| Enoxaparina profilática (40 mg/dia) | 12 horas após a última dose | Próxima dose no mínimo 4 a 6 h após punção ou remoção de cateter |
| Enoxaparina terapêutica (1 mg/kg 12/12 h) | 24 horas após a última dose | Cateteres usualmente não mantidos em esquema terapêutico pleno |
| Clopidogrel | 7 dias | AAS isolado não precisa ser suspenso para punção única |
| Ticagrelor e prasugrel | 5 a 7 dias (ticagrelor) e 7 a 10 dias (prasugrel) | Hemorragia relacionada a plaquetopenia ou disfunção cumulativa |
| Heparina IV não fracionada | 4 a 6 h e TTPa normalizado | Reiniciar 1 h após punção, sem bolus |
| Dabigatrana, rivaroxabana, apixabana | 24 a 72 h conforme fármaco, dose e função renal | Conferir sempre a tabela vigente da diretriz SBA/ASRA |
Dor crônica pós-cirúrgica (persistente além de 3 meses) acomete aproximadamente 10% a 30% dos pacientes após cirurgias de alto risco: toracotomia, mastectomia, herniorrafia inguinal, amputação e artroplastia. Fatores de risco: intensidade da dor aguda, lesão nervosa intraoperatória, jovem idade, sexo feminino, vulnerabilidade psicológica e repetição cirúrgica. A prevenção começa na técnica cirúrgica (preservação de nervos) e continua no controle agressivo da dor aguda; a cetamina em infusão tem papel em pacientes de alto risco e a gabapentina saiu do rol de rotina por falta de benefício consistente. O pós-operatório ideal acontece dentro de um programa ERAS (Enhanced Recovery After Surgery): analgesia multimodal poupadora de opioides, técnica regional adequada à cirurgia, nutrição oral precoce, deambulação no dia da cirurgia, ausência de sonda nasogástrica de rotina, normotermia, controle glicêmico e profilaxia de náusea e vômito (risco basal de cerca de 30% após anestesia geral, maior em mulheres, não tabagistas e com história prévia ou uso de opioides).
1.A base farmacológica da analgesia multimodal para um adulto submetido a colecistectomia aberta, sem contraindicações, deve incluir:
2.Parâmetros clássicos da PCA intravenosa de morfina em adulto não tolerante a opioides:
3.A duração esperada da analgesia com dose única de morfina intratecal de 100 a 300 mcg e a vigilância necessária são:
4.Paciente DPOC grave (FEV1 de 40%) será submetido a artroscopia de ombro. Qual técnica regional está formalmente contraindicada nessa situação?
5.A principal limitação do bloqueio TAP bilateral na cirurgia abdominal é:
6.Na artroplastia total de joelho, o canal do adutor foi preferido ao bloqueio femoral clássico porque:
7.Durante infusão de bupivacaína a 0,5% para bloqueio interescalênico, o paciente apresenta periestesias periorais, agitação e convulsão. Conduta imediata conforme checklist ASRA 2017:
8.Sobre a guia ultrassonográfica nos bloqueios periféricos, a evidência de Barrington e Kluger (2013) demonstrou:
9.Paciente em uso de enoxaparina 40 mg/dia (profilática) está programado para cateter epidural. O intervalo mínimo entre a última dose e a punção é:
10.Puérpera em amamentação apresenta dor intensa após cesárea. Qual analgésico é formalmente contraindicado nesse contexto?
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