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Revisão completa da anatomia do tronco encefálico com ênfase no bulbo: núcleos dos nervos cranianos, vias ascendentes e descendentes, irrigação, síndromes lesionais clássicas e critérios brasileiros de morte encefálica. Inclui tabelas de correlação anátomo-clínica, 10 questões e flashcards para fixação.
[1] Standring S. Gray's Anatomy: The Anatomical Basis of Clinical Practice. 42nd ed. Elsevier; 2020 | [2] Splittgerber R. Snell's Clinical Neuroanatomy. 8th ed. Wolters Kluwer; 2019 | [3] Purves D, Augustine GJ, Fitzpatrick D, et al. Neuroscience. 6th ed. Oxford University Press; 2018 | [4] Naidich TP, Duvernoy HM, Delman BN, et al. Duvernoy's Atlas of the Human Brain Stem and Cerebellum. Springer; 2009 | [5] Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.173/2017: define os critérios do diagnóstico de morte encefálica. Brasília; 2017 · https://sistemas.cfm.org.br/normas/
O tronco encefálico é a estrutura mais densa do sistema nervoso central: em cerca de 7,5 cm de extensão concentram-se os núcleos de dez dos doze pares cranianos, todas as vias que conectam o córtex à medula espinhal e ao cerebelo, os centros cardiorrespiratórios que mantêm a vida e o sistema reticular ascendente que sustenta a consciência. Lesões de poucos milímetros produzem déficits multissistêmicos dramáticos, e a topografia exata da lesão muda completamente a conduta: uma hemorragia pequena no bulbo ventral pode causar tetraplegia com consciência preservada, enquanto uma da mesma dimensão no bulbo lateral produz a síndrome de Wallenberg, com disfagia e anestesia dissociada. Para a prova, o aluno precisa dominar três habilidades: identificar o nível rostrocaudal da lesão pelos pares cranianos acometidos, definir o plano medial ou lateral pelas vias longas e reconhecer que o bulbo é o segmento cuja disfunção define a morte encefálica.
O tronco divide-se de cima para baixo em mesencéfalo, ponte e bulbo (medula oblonga). O mesencéfalo é atravessado pelo aqueduto de Sylvius e organiza-se em tecto (placa quadrigêmnea, com colículos superiores para via visual reflexa e inferiores para via auditiva reflexa), tegmento (núcleos do III e do IV, substância negra, núcleo rubro e formação reticular) e base (crus cerebri ou pedúnculos cerebrais, ocupados pelas fibras corticoespinhais, corticonucleares e corticopontinas). A ponte caracteriza-se pela massa ventral transversa que forma o pedúnculo cerebelar médio e, no assoalhamento do quarto ventrículo, pelos colículos facial (do VI) e facial (do VII). O bulbo continua caudalmente: na parte aberta limita o assoalhamento do quarto ventrículo e na parte fechada circunda o canal central, continuando-se com a medula espinhal ao nível da primeira vértebra cervical, marcado pela decussação das pirâmides.
Os núcleos dos pares cranianos organizam-se em seis colunas funcionais dispostas de medial para lateral: eferente somática geral (III, IV, motor do V, VI, VII, ambíguo para IX, X e XI, XII), eferente visceral geral (parassimpático: Edinger-Westphal do III, salivatório superior do VII, salivatório inferior do IX e dorsal motor do X), aferente visceral geral e especial (núcleo do trato solitário), aferente somática geral (núcleo mesencefálico, principal e espinal do V) e estruturas especiais (núcleos cocleares e vestibulares). A regra de ouro: núcleos motores ficam mediais, sensitivos ficam laterais, e o núcleo ambíguo e o solitário ocupam posição intermediária no bulbo, o que explica por que síndromes bulbares laterais misturam disfagia, disfonia, alteração de gosto e labilidade cardiovascular.
| Par craniano | Núcleo(s) principal(is) | Localização no tronco | Função cobrada em prova |
|---|---|---|---|
| III Oculomotor | Núcleo oculomotor + Edinger-Westphal | Mesencéfalo, nível do colículo superior | Elevador da pálpebra e maioria dos músculos oculomotores + parassimpático da pupila (miose e acomodação) |
| IV Troclear | Núcleo troclear | Mesencéfalo, nível do colículo inferior | Oblíquo superior; único par que decussa e emerge pela face dorsal |
| V Trigêmeo | Motor principal, mesencefálico e espinal do V | Ponte (motor e principal); mesencéfalo e bulbo até C4 (espinal) | Mastigação + sensibilidade da face; o espinal leva dor e temperatura ipsilaterais |
| VI Abducente | Núcleo abducente | Ponte, no colículo facial | Reto lateral (abdução do olho); suas fibras contornam o joelho interno do VII |
| VII Facial | Núcleo facial + salivatório superior + solitário | Ponte | Mímica, lacrimação, gosto nos dois terços anteriores e músculo do estribo |
| VIII Vestibulococlear | Núcleos cocleares + quatro núcleos vestibulares | Junção pontobulbar | Audição e equilíbrio; núcleos vestibulares conectam-se aos olhos via feixe longitudinal medial |
| IX Glossofaríngeo | Ambíguo, solitário e salivatório inferior | Bulbo | Elevação da faringe, inervação parotídea, gosto posterior e corpos carotídeos |
| X Vago | Ambíguo, solitário e dorsal motor do vago | Bulbo | Faringe e laringe, parassimpático toracoabdominal, barorreflexo e viscerossensibilidade |
| XI Acessório | Porção cranial no ambíguo + coluna espinal de C1 a C5 | Bulbo e medula cervical | Trapézio e esternocleidomastóideo (porção espinal ascendente) |
| XII Hipoglosso | Núcleo hipoglosso | Bulbo, no triângulo do hipoglosso | Motor da língua; lesão periférica desvia a língua para o lado da lesão |
Pelo tronco passam todas as grandes vias. O trato corticoespinhal desce pelos dois terços mediais dos pedúnculos cerebrais, pela base da ponte e pela pirâmide bulbar; ao final do bulbo, 75 a 90% das fibras decussam para o trato corticoespinhal lateral (o restante segue sem cruzar no trato anterior). O lemnisco medial carrega propriocepção, vibração e discriminação tátil fina do corpo: as fibras de primeira ordem terminam nos núcleos grácil e cuneiforme do bulbo caudal, os axônios de segunda ordem cruzam como fibras arcuatas internas (decussação sensorial do bulbo) e ascendem contralateralmente até o tálamo. O trato espinotalâmico lateral ascende lateralmente no tronco levando dor e temperatura do corpo contralateral. A dor e a temperatura da face descem ipsilateralmente pelo trato espinhal do trigêmeo até o núcleo espinal do V (que se estende até C4) e somente então cruzam, o que gera o padrão dissocado clássico das síndromes laterais do bulbo. Completam o quadro os tratos espinocerebelares dorsal (sobe pelo pedúnculo inferior, ipsilateral) e ventral (sobe pelo pedúnculo superior, com fibras cruzadas) e os tratos reticuloespinhal e vestibuloespinhal, mediais, envolvidos no tônus postural.
O bulbo é estudado em três níveis. No nível fechado caudal, o desenho lembra a medula espinhal: na face dorsal destacam-se a clava (núcleo grácil, que recebe informação das pernas e tronco inferior) e o tubérculo cuneiforme (núcleo cuneiforme, informação de tronco superior e membros superiores, fibras que entram acima de T6), enquanto ventralmente ocorre a grande decussação das pirâmides. No nível intermediário, as fibras arcuatas internas cruzam a linha média formando a decussação sensorial e o lemnisco medial verticaliza-se. No nível aberto rostral, o assoalhamento do quarto ventrículo exibe de medial para lateral o triângulo do hipoglosso, o triângulo vagal (dorsal motor do X) e a área vestibular; lateralmente ao sulco lateral encontram-se o núcleo do trato solitário (gosto, barorreflexo e viscerossensibilidade), o núcleo espinal do V e, mais ventral, a destacada oliva inferior, cujas fibras olivocerebelares cruzam para alcançar o cerebelo pelo corpo restiforme.
As artérias vertebrais fundem-se para formar a basilar, que se bifurca nas cerebrais posteriores. Do eixo vertebrobasilar saem ramos paramedianos (perfurantes mediais), curtos circumferenciais e longos circumferenciais, criando territórios medial, lateral e dorsal em cada segmento. Essa organização é a base das síndromes vasculares: no bulbo, a artéria espinal anterior (rama da vertebral) nutre o território medial (pirâmide, lemnisco medial e XII), enquanto a artéria cerebelar póstero-inferior (PICA) e os ramos laterais da vertebral nutrem o território lateral, o mais rico em estruturas de prova.
| Território | Artéria responsável | Estruturas nutridas | Síndrome típica |
|---|---|---|---|
| Bulbo medial | Espinal anterior (rama da vertebral) | Pirâmide, lemnisco medial e núcleo do XII | Síndrome medial do bulbo de Déjérine |
| Bulbo lateral | PICA ou ramos laterais da vertebral | Espinal do V, espinotalâmico, ambíguo, vestíbulo, fibras simpáticas e pedúnculo inferior | Síndrome lateral do bulbo de Wallenberg |
| Ponte ventral | Perfurantes paramedianas da basilar | Fascículos do VI e VII e fibras corticoespinhais | Síndrome de Millard-Gubler |
| Mesencéfalo basal | Ramos interpedunculares da cerebral posterior | Fascículo do III e pedúnculo cerebral | Síndrome de Weber |
| Mesencéfalo tegmental | Cerebelar superior e ramos da cerebral posterior | Colículos, substância negra, núcleo rubro e feixe longitudinal medial | Síndromes de Benedikt e Parinaud |
A correlação anátomo-clínica das síndromes do tronco segue uma lógica de duas perguntas: qual par craniano está paralisado (define o nível) e qual via longa está atingida (define o lado e a natureza do déficit). Nas síndromes laterais domina a dissociação sensitiva com dor e temperatura da face ipsilateral e do corpo contralateral, disfagia, vertigem, Horner e ataxia ipsilaterais. Nas síndromes mediais dominam hemiparesia e perda proprioceptiva contralaterais com paralisia de par craniano motor ipsilateral. Nas lesões extensas ventrais da ponte, todas as vias motoras são interrompidas com poupamento do tegmento, mantendo a consciência: é a síndrome do encarceramento.
| Síndrome | Local e artéria | Achados-chave |
|---|---|---|
| Wallenberg (lateral do bulbo) | Bulbo lateral; PICA ou vertebral | Disfagia e disfonia ipsilaterais (ambíguo), anestesia de dor e temperatura na face ipsilateral (espinal do V) e no corpo contralateral (espinotalâmico), vertigem e nistagmo (vestibulares), Horner ipsilateral, ataxia ipsilateral e, por vezes, soluço |
| Déjérine (medial do bulbo) | Bulbo medial; espinal anterior | Hemiparesia contralateral (pirâmide), perda de propriocepção e vibração contralateral (lemnisco medial) e paralisia do XII ipsilateral com língua desviada para o lado da lesão |
| Babinski-Nageotte (hemibulbo) | Bulbo medial e lateral; vertebral | Quadro de Wallenberg somado a hemiparesia contralateral por acometimento da pirâmide |
| Millard-Gubler (ponte ventral) | Ponte; perfurantes da basilar | Paralisia do VI (diplopia com estrabismo convergente) e do VII ipsilaterais com hemiparesia contralateral |
| Encarceramento (locked-in) | Ponte ventral extensa; basilar | Tetraplegia e paralisia do olhar horizontal com consciência preservada; comunicação possível por piscadas verticais e movimentos oculares verticais |
| Weber (mesencéfalo basal) | Base do mesencéfalo; ramos interpedunculares | Paralisia do III ipsilateral (midríase fixa, ptose e estrabismo divergente) com hemiparesia contralateral |
| Benedikt (mesencéfalo tegmental) | Tegmento mesencefálico | Paralisia do III ipsilateral com tremor, ataxia ou movimentos anormais contralaterais por lesão do rubro e da substância negra |
A formação reticular atravessa todo o tronco e concentra os sistemas que mantêm vigília, tônus, dor visceral e as funções vitais. Os núcleos da rafe (serotonérgicos, incluindo o núcleo magno da rafe no bulbo) modulam de forma descendente a dor espinhal, mecanismo primário da analgesia opioide. O locus coeruleus, no segmento rostral da ponte, é o principal agregado noradrenérgico e participa do estado de alerta. O sistema reticular ascendente ativador projeta-se do mesencéfalo ao tálamo e sua lesão bilateral produz coma. No bulbo residem o centro vasomotor (áreas pressora e depressora), o grupo respiratório dorsal (núcleo do trato solitário, integrador dos reflexos e do ritmo), o grupo ventral (núcleo ambíguo e retroambíguo, ativo na expiração forçada) e o complexo pré-Bötzinger, gerador do ritmo respiratório; centros coordenadores da tosse, do espirro, da deglutição e do vômito completam o quadro. Por isso, a morte encefálica é, essencialmente, a destruição completa e irreversível do tronco.
No Brasil, a Resolução CFM nº 2.173/2017 define os critérios. Pré-condições: coma aperceptivo de causa conhecida e irreversível, ausência de hipotermia (temperatura acima de 35 graus), de sedação e de distúrbios metabólicos, com estabilidade pressórica (pressão arterial sistólica de pelo menos 100 mmHg) e saturação acima de 94%. O exame clínico documenta a abolição de todos os reflexos do tronco: fotomotor, corneano, oculocefálico, oculovestibular (prova calórica com água gelada), nauseoso (glossofaríngeo e vago) e ciliar. A prova da apneia desconecta o ventilador mantendo oxigenação, exigindo PaCO2 de pelo menos 60 mmHg (ou elevação de pelo menos 20 mmHg sobre o valor basal) sem nenhuma respiração espontânea. A confirmação exige exame clínico realizado e documentado por dois médicos, sendo obrigatório um exame complementar demonstrando abolição de atividade: arteriografia dos quatro vasos, angiotomografia ou angiorressonância, Doppler transcraniano, eletroencefalograma isoelétrico ou cintilografia cerebral perfusional.
1.Qual é o único nervo craniano que decussa completamente e emerge pela face dorsal do tronco encefálico?
2.Homem de 61 anos com início súbito de vertigem, disfagia, síndrome de Horner e perda de dor e temperatura na face ipsilateral e no corpo contralateral. Qual artéria está mais provavelmente ocluída?
3.Em uma lesão periférica do nervo hipoglosso esquerdo, a língua desvia para qual lado ao ser protusa?
4.A decussação das pirâmides, que separa o bulbo da medula espinhal, ocorre em que nível?
5.A miose paralítica e a perda do reflexo fotomotor direto por lesão do III resultam do acometimento de qual estrutura?
6.Paciente vítima de trombose da basilar evolui com tetraplegia e ausência de movimentos oculares horizontais, porém piscas os olhos em resposta a perguntas. Qual o diagnóstico?
7.A informação de dor e temperatura da face ipsilateral à lesão do bulbo lateral é levada por qual estrutura?
8.O gerador central do ritmo respiratório, cuja destruição causa apneia, localiza-se em qual estrutura do bulbo?
9.Segundo a Resolução CFM 2.173/2017, a prova da apneia para caracterizar morte encefálica exige elevação da PaCO2 até no mínimo qual valor?
10.Na síndrome de Millard-Gubler, o achado combinatorio típico é:
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