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Anatomia completa do membro superior com foco em prova: ossos e marcos com estruturas em risco, articulações, arquitetura do plexo braquial (raízes, troncos, divisões, cordões), os cinco nervos terminais, miotomos e dermátomos, além das lesões clássicas de Erb, Klumpke, túnel do carpo e garra ulnar.
[1] Moore KL, Dalley AF, Agur AMR. Anatomia Orientada para a Clínica. 8ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2019. ISBN 9788527733816 | [2] Standring S. Gray's Anatomy: The Anatomical Basis of Clinical Practice. 42ª ed. Elsevier; 2020 | [3] Dângelo JG, Fattini CA. Anatomia Humana Sistêmica e Segmentar. 3ª ed. São Paulo: Atheneu; 2007 | [4] Siqueira MG, Martins RS. Tratamento cirúrgico das lesões traumáticas do plexo braquial em adultos: uma visão geral. Arq Neuropsiquiatr. 2011;69. Disponível em scielo.br/j/anp/a/FRLThxxhD6BRJPJGj5PpG5Q | [5] Midha R. Epidemiology of brachial plexus injuries in a multitrauma population. Neurosurgery. 1997;40(6):1182-1188.
O membro superior é o segmento do corpo com a maior concentração de conteúdo cobrado em anatomia: 32 ossos de cada lado, quatro segmentos topográficos (cintura escapular, braço, antebraço e mão) e toda a inervação derivada de um único plexo — o braquial, formado pelas raízes C5 a T1. Lesões do plexo braquial ocorrem em cerca de 1,3% dos politraumatizados e em até 5% das vítimas de acidentes de motocicleta, e as síndromes compressivas da mão estão entre as patologias mais prevalentes da prática ambulatorial. Prova de anatomia cobra três coisas: onde passa a estrutura, o que ela inerva e qual déficit aparece quando ela é lesada — exatamente a estrutura desta revisão.
A cintura escapular une o membro ao tronco pela articulação esternoclavicular (anterior) e pelo complexo escapulotorácico (posterior), sendo a clavícula o único osso que une o membro superior ao esqueleto axial por articulação verdadeira. O braço tem um único osso, o úmero; o antebraço tem rádio (lateral, articula com o polegar) e ulna (medial, articula com o mínimo); a mão soma 27 ossos — 8 carpais (fileiras proximal: escafóide, semilunar, piramidal e pisiforme; distal: trapézio, trapezóide, grande e ganchoso), 5 metacarpais e 14 falanges. A tabela a seguir cruza cada osso com a fratura típica e a estrutura neuromuscular em risco — o formato favorito das bancas.
| Osso e sítio | Fratura típica | Estrutura em risco e déficit |
|---|---|---|
| Clavícula (terço médio) | Mais comum do membro superior no adulto jovem (queda sobre o ombro) | Raramente feixe vásculo-nervoso subclávios e nervos do plexo em grandes desvios |
| Úmero, colo cirúrgico | Queda em pacientes idosos | Nervo axilar: perda da abdução entre 15 e 90 graus e anestesia da face lateral do ombro |
| Úmero, diáfise (canal radial ou espiral) | Trauma direto ou uso prolongado de muletas | Nervo radial: queda do punho (deficit de extensão) com hipoestesia dorsal da mão |
| Úmero, epicôndilo medial | Fratura por avulsão, comum em crianças | Nervo ulnar: parestesias do 5º dedo e déficit dos intrínsecos da mão |
| Rádio, cabeça | Queda com mão estendida | Ramo profundo do radial (nervo interósseo posterior): queda da extensão dos dedos com punho poupado |
| Rádio distal (Colles) | Osteoporose, queda com mão estendida | Nervo mediano em tardio (síndrome do túnel do carpo secundária ao calo) |
| Escafóide | Queda com mão estendida, dor no tabaqueiro anatômico | Necrose avascular do polo proximal (irrigação retrograda) e pseudoartrose |
Detalhe clássico do escafóide: a irrigação entra distalmente e corre em direção proximal, de modo que fraturas do polo proximal interrompem o suprimento do fragmento e explicam a alta taxa de necrose avascular; radiografia normal inicial não exclui a fratura — reavaliar em 10-14 dias ou solicitar tomografia se a dor no tabaqueiro anatômico persistir.
O ombro é um complexo de quatro articulações — glenoumeral, acromioclavicular, esternoclavicular e escapolotorácica — que troca estabilidade por amplitude: é a articulação mais móvel do corpo e, por isso, a mais luxada (mais de 90-95% das luxações são anteriores, com risco do nervo axilar e da artéria circunflexa posterior, lesão de Bankart no labrum e lesão de Hill-Sachs na cabeça umeral). A abdução do braço é compartilhada: supraespinhal de 0 a 15 graus, deltóideo de 15 a 90 graus e, acima disso, rotação escapular com trapézio e serrátil anterior, na proporção clássica de 2:1 do ritmo escapuloumeral (para cada 2 graus na glenoumeral, 1 grau de rotação escapular a partir de 30 graus de abdução).
O plexo braquial organiza-se em cinco andares sequenciais — raízes (C5-T1, com variações pré-fixa de C4 e pós-fixa de T2), troncos (superior C5-C6, médio C7 e inferior C8-T1), divisões (anterior e posterior de cada tronco), cordões (lateral, posterior e medial, nomeados pela relação com a artéria axilar) e ramos terminais. Mnemônica clássica em inglês: Randy Travis Drinks Cold Beer (roots, trunks, divisions, cords, branches). Regra de ouro: TODAS as divisões posteriores convergem para o cordão posterior, que dá os nervos axilar e radial — os nervos que agem na face posterior do membro.
| Cordão | Formado por | Nervos terminais e colaterais principais |
|---|---|---|
| Lateral | Divisões anteriores dos troncos superior e médio | Nervo musculocutâneo (C5-C7); raiz lateral do mediano; nervo cutâneo lateral do antebraço |
| Posterior | Todas as divisões posteriores | Nervo axilar (C5-C6) e nervo radial (C5-T1); nervos subescapulares, toracodorsal |
| Medial | Divisão anterior do tronco inferior | Raiz medial do mediano; nervo ulnar (C8-T1); nervos cutâneos mediais do braço e do antebraço |
Ramos que nascem antes da formação dos cordões e caem em prova: nervo dorsal da escápula (C5, rombóides), nervo torácico longo (C5-C7, serrátil anterior — sua lesão causa escápula alada), nervo supraescapular (C5-C6, supra e infraespinhal), nervo torácico medial e lateral (peitoral maior e menor), nervos subescapulares e toracodorsal (músculo grande dorsal). O nervo frênico (C3-C5) apenas cruza o plexo sobre o escaleno anterior — lembrar que lesões altas do plexo podem vir acompanhadas de disfunção diafragmática.
| Nervo | Raízes | Músculos-chave (teste rápido) | Território sensitivo | Sinal clássico de lesão |
|---|---|---|---|---|
| Axilar | C5-C6 | Deltóideo (abdução 15-90 graus) e redondo menor | Regimental: face lateral do ombro | Perda da abdução com anestesia da região regimental após luxação anterior ou fratura do colo cirúrgico |
| Musculocutâneo | C5-C7 | Bíceps (flexão e supinação), coracobraquial e braquial | Face lateral do antebraço (cutâneo lateral do antebraço) | Perda da flexão supinada do cotovelo e abolição do reflexo bicipital |
| Radial | C5-T1 | Tríceps (extensão do cotovelo) e extensores do punho e dedos (extensão do punho) | Face posterior do braço e antebraço e dorso radial da mão | Queda do punho (wrist drop) com déficit extensor e hipoestesia dorsal |
| Mediano | C5-T1 | Flexores do antebraço, pronador redondo e tenar lateral (oponência do polegar: tocar a ponta do mínimo com o polegar) | Palma radial e 3,5 dedos (polegar, indicador, médio e metade radial do anular) | Mão em bênção (lesão alta) e perda da pinça apical fina (lesão no túnel do carpo) |
| Ulnar | C8-T1 | Flexor ulnar do carpo, metade medial do flexor profundo dos dedos, interósseos, adutor do polegar e hipotenar (abdução do 5º dedo) | Metade ulnar do anular e 5º dedo | Mão em garra e sinal de Froment positivo (lesão distal) |
Dois refinamentos que separam o aluno excelente do médio. Primeiro, o paradoxo da garra ulnar: na lesão BAIXA (punho, canal de Guyon) a garra é mais acentuada, porque os flexores profundos ulnares continuam íntatos e fletem as articulações metacarpofalângicas de 4º e 5º dedos enquanto os interósseos e lumbricais paralíticos não as estendem; na lesão ALTA o flexor profundo também está paralisado e a garra atenua. Segundo, o nervo interósseo anterior (ramo do mediano) inerva flexor profundo do indicador e flexor longo do polegar: sua síndrome causa perda da pinça fina sem qualquer déficit sensitivo, assim como a síndrome do interósseo posterior (ramo do radial) causa queda dos dedos sem queda do punho e sem déficit sensitivo — porque o extensor radial longo do carpo escapa e a lesão é motora pura.
| Nível | Músculo-teste | Reflexo | Dermátomo-chave |
|---|---|---|---|
| C5 | Deltóideo (abdução do ombro) | Bicipital | Face lateral do braço |
| C6 | Bíceps e extensor radial do carpo (flexão dorsal do punho) | Estilorradial (braquiorradial) | Face lateral do antebraço e polegar |
| C7 | Tríceps e extensores dos dedos (extensão do cotovelo) | Tricipital | Dedo médio |
| C8 | Flexores dos dedos (flexão dos dedos) | Flexor dos dedos (não de rotina) | Dedo mínimo e face medial do antebraço |
| T1 | Interósseos (abdução dos dedos, sinal de Froment) | Nenhum de rotina | Face medial do braço |
Sequência mnemônica da mão: C6 polegar, C7 médio, C8 mínimo — o anular é zona de transição entre mediano e ulnar. Nos exames, teste a abdução do 2º dedo (interósseos dorsais, ulnar) e a oponência do polegar (mediano) para separar os dois nervos em 10 segundos.
O braço tem logia anterior (bíceps, braquial e coracobraquial — flexores) e posterior (tríceps — extensor). O antebraço divide-se em logia anterior (superficial e profunda, flexores e pronadores, inervados pelo mediano e ulnar) e posterior (extensores e supinador, pelo radial e seus ramos). Na mão, as logias são tenar (mediano, exceto o adutor do polegar que é ulnar), hipotenar (ulnar), adutora (ulnar) e os planos de interósseos e lumbricais — os lumbricais 1 e 2 são do mediano e os 3 e 4, do ulnar, detalhe que explica padrões de garra seletiva. As síndromes compressivas seguem a regra anatomia-clínica: o território sensitivo e os músculos acometidos localizam o ponto de compressão.
| Síndrome | Local de compressão | Nervo | Achado-chave |
|---|---|---|---|
| Túnel do carpo | Retináculo dos flexores no punho | Mediano (ramo distal) | Parestesias noturnas de 1º a 3º dedos e metade radial do 4º, Tinel e Phalen positivos, atrofia tenar tardia; flexores do antebraço poupados |
| Canal de Guyon | Pisiforme-hamato no punho | Ulnar | Défice motor e/ou sensitivo variável conforme o ramo comprimido; clássico de ciclistas e traumatismos repetitivos |
| Síndrome do pronador | Pronador redondo no antebraço proximal | Mediano (tronco) | Défice flexor/pronador + parestesias da palma (o ramo palmar cutâneo poupado no túnel do carpo aqui é acometido) |
| Síndrome do interósseo anterior | Fáscia do flexor profundo | Ramo motor do mediano | Perda da pinça fina (flexor longo do polegar e flexor profundo do indicador) SEM déficit sensitivo |
| Síndrome do interósseo posterior | Arcada de Frohse no supinador | Ramo motor do radial | Queda da extensão dos dedos com extensão do punho PRESERVADA (extensor radial longo intacto) e sem déficit sensitivo |
| Canal radial (túnel radial) | Margem do supinador | Radial (tronco) | Dor lateral do cotovelo sem déficit motor — diagnóstico diferencial de epicondilite |
| Lesão | Raízes | Mecanismo típico | Apresentação clínica |
|---|---|---|---|
| Erb (plexopatia superior) | C5-C6 | Tração cabeça-ombro: parto distócico, queda de motociclista | Postura de garçom: braço em adução e rotação medial, extensão do cotovelo, pronação e flexão do punho; reflexo bicipital abolido |
| Klumpke (plexopatia inferior) | C8-T1 | Tração do braço para cima (pegar galho ao cair) ou compressão | Mão em garra, paralisia dos intrínsecos, perda sensitiva de 4º e 5º dedos; pode associar síndrome de Horner (afetação de T1) |
| Lesão total do plexo | C5-T1 | Trauma fechado de alta energia | Membro flácido e anestésico, sem reflexos; frequentemente associada a fraturas e lesões vasculares |
| Avulsão radicular (pré-ganglionar) | Variável, frequentemente C7-T1 | Motociclismo em alta velocidade | Dor em queimação intratável, Horner, pseudo-meningocele na ressonância e potenciais somatossensitivos N13 ausentes; sem recuperação espontânea |
A paralisia obstétrica do plexo braquial ocorre em torno de 0,4 a 2 por 1000 nascimentos, com predomínio da lesão superior de Erb em recém-nascidos macrossômicos e partos distócicos de ombro; a maioria recupera nos primeiros 3-6 meses, e a ausência de flexão do cotovelo aos 3 meses é o principal marcador para encaminhamento cirúrgico precoce. No adulto, a investigação combina exame clínico segmentar, eletroneuromiografia a partir de 3-4 semanas e ressonância para diferenciar lesão pós-ganglionar (neuromática, potencialmente reparável com enxertos) de avulsão pré-ganglionar (indicativa de neurotizações, como as transferências do nervo acessório para o supraescapular e de ramos intercostais para o musculocutâneo). Sem recuperação em 3-6 meses, a cirurgia precoce maximiza o resultado funcional.
1.O plexo braquial é formado, na disposição mais comum, pelas raízes:
2.Os nervos axilar e radial originam-se de qual cordão do plexo braquial?
3.Recém-nascido de parto distócico apresenta braço direito em adução, rotação medial e extensão do cotovelo com pronação. Qual a lesão e as raízes acometidas?
4.Paciente sofre fratura de diáfise umeral e evolui com incapacidade de estender o punho e os dedos, com hipoestesia no dorso radial da mão. Qual o nervo lesado e onde?
5.Sobre o paradoxo da garra ulnar, qual afirmação é correta?
6.Jovem apresenta escápula alada após linfadenectomia axilar. Qual nervo foi lesado?
7.Após luxação anterior recorrente do ombro, paciente não consegue abduzir o braço entre 15 e 90 graus e refere anestesia na face lateral do ombro. O nervo comprometido é o:
8.Trabalhador com parestesias noturnas no polegar, indicador e médio, atrofia tenar e Phalen positivo. Na lesão típica, qual músculo é poupado?
9.O sinal de Froment positivo (flexão do interfalângica do polegar ao segurar papel) indica lesão de qual nervo e qual músculo está paralisado?
10.Jovem caiu de bicicleta com a mão estendida e há 5 dias tem dor persistente na base do polegar, agravada à palpação do tabaqueiro anatômico, com radiografia normal. Qual a conduta?
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