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Revisão integral da anatomia de cabeça e pescoço orientada à prova: forames da base do crânio e seus conteúdos, escalpo e zonas de perigo, triângulos do pescoço, vasos carotídeos, os doze nervos cranianos, glândulas salivares, laringe, tireoide e os níveis linfonodais de Robbins, terminando na aplicação máxima do tema no câncer de cabeça e pescoço.
[1] Johnson DE, Burtness B, Ferris RL, et al. Head and neck squamous cell carcinoma. Nat Rev Dis Primers. 2020;6(1):92 · DOI 10.1038/s41572-020-00224-3 | [2] Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA). Estimativa 2023: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA; 2023 · https://www.inca.gov.br | [3] Moore KL, Dalley AF, Agur AMR. Clinically Oriented Anatomy. 8th ed. Filadélfia: Wolters Kluwer; 2018 | [4] Kumar V, Abbas AK, Aster JC. Robbins and Cotran Pathologic Basis of Disease. 10th ed. Filadélfia: Elsevier; 2021 | [5] National Comprehensive Cancer Network. NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology: Head and Neck Cancers; 2025 · https://www.nccn.org · DOI 10.1038/s41572-020-00224-3
A cabeça e o pescoço concentram, em menos de um décimo da superfície corporal, quase todos os instrumentos da vida de relação: visão, audição, olfação, gustação, fonação, mastigação, deglutição e respiração, além dos corredores que conectam o encéfalo ao tórax (carótidas, jugulares, nervos vagos, traqueia e esôfago). É a região mais densa da anatomia humana em estruturas por centímetro cúbico e, por isso, a que mais exige raciocínio tridimensional do estudante. Do ponto de vista clínico, é também o território do carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço, sexto tumor maligno mais frequente no mundo, fortemente associado a tabagismo, etilismo e HPV: o INCA estima 15.100 casos novos de câncer de cavidade oral por ano no Brasil no triênio 2023-2025, cerca de 11.200 em homens e 4.000 em mulheres, com predomínio masculino de aproximadamente 3:1. A prova cobra exatamente a ponte entre estrutura e clínica: qual nervo atravessa cada forame, o que há em cada triângulo do pescoço, para onde drena cada grupo linfonodal e por que a lesão de cada estrutura produz o defeito correspondente. Este artigo percorre a região por sistemas e termina na aplicação máxima dessa anatomia: o estadiamento e o tratamento do câncer de cabeça e pescoço.
O crânio reúne 22 ossos: 8 formam o neurocrânio (frontal, 2 parietais, 2 temporais, occipital, esfenoide e etmoide) e 14 formam o esplancnocrânio, dos quais apenas a mandíbula é móvel, articulada ao temporal pela articulação temporomandibular. A calota é formada por osso plano com díploe, a camada esponjosa entre as tábuas interna e externa, rica em veias emissárias que conectam o couro cabeludo aos seios venosos durais. O pterion é o ponto de convergência de quatro ossos (frontal, parietal, temporal e grande asa do esfenoide), o mais fino da lateral do crânio, e recobre o trajeto do ramo anterior da artéria meníngea média: traumas laterais produzem aí hematoma extradural, imagem lenticular hiperdensa na tomografia, classicamente após intervalo lúcido. Na base, cada forame tem conteúdo fixo, e essa é a tabela mais cobrada de toda a região.
| Abertura da base | Conteúdo principal | Correlação clínica de prova |
|---|---|---|
| Lâmina cribriforme (forame cego) | Nervos olfatórios (I) | Fratura por trauma anterior: rinorreia de LCR, anosmia e equimose periorbitária |
| Canal óptico | Nervo óptico (II) e artéria oftálmica | Neuropatia óptica compressiva; meningioma do canal óptico |
| Fissura orbitária superior | Nervos III, IV, VI, V1 e veia oftálmica superior | Síndrome da fissura orbitária superior: oftalmoplegia com proptose |
| Forame redondo | Nervo maxilar (V2) | Anestesia da face média após lesão ou metástase |
| Forame oval | Nervo mandibular (V3) | Punção percutânea (balão ou glicerol) para neuralgia do trigêmeo |
| Forame espinhoso | Artéria meníngea média e nervo spinoso | Hematoma extradural no pterion |
| Forame lacero | Artéria carótida interna (canal carotídeo) e nervo petroso maior | Trajeto intrapetroso da carótida; nervo petroso maior leva parassimpático à glândula lacrimal |
| Meato acústico interno | Nervos facial (VII), vestibulococlear (VIII) e intermédio | Schwannoma vestibular: perda auditiva, zumbido e paralisia facial tardia |
| Forame jugular | Nervos IX, X e XI, seio sigmoide e início da veia jugular interna | Síndrome de Vernet: disfagia, disfonia e déficit de trapézio e ECM |
| Canal do hipoglosso | Nervo hipoglosso (XII) | Paralisia unilateral da língua, que desvia para o lado da lesão |
| Forame magno | Bulbo, artérias vertebrais, raiz espinhal do XI e meninges | Hérnia de amígdalas cerebelares (Chiari I) e descompressão posterior |
As cinco camadas do escalpo seguem o mnemônico SCALP: Skin (pele), Connective tissue (tecido conjuntivo denso que ancora vasos e nervos e explica o sangramento exuberante e a pouca retração de feridas), Aponeurose epicraniana (galea aponeurótica, tendão intermediário do músculo occipitofrontal), Loose areolar tissue (tecido areolar frouxo, a camada de deslizamento) e Periosteum (pericrânio). A aponeurose é tensa e adere às suturas; o tecido areolar frouxo é a chamada zona de perigo do escalpo, pois permite disseminação rápida de infecção e de sangue (celulite e abscesso subgaleal) para os seios venosos por meio das veias emissárias. No recém-nascido, distinga cefalohematoma (subperióstico, limitado pelas suturas) de hemorragia subgaleal (subaponeurótica, cruza suturas e pode comprometer grande volume sanguíneo).
A sensibilidade da face vem do trigêmeo em três andares: V1 (oftálmico: nervos supratroclear, supra-orbital, lacrimal, infratroclear e nasal externo), V2 (maxilar: infra-orbital, zigomaticofacial e zigomaticotemporal) e V3 (mandibular: mentoniano, bucal e auriculotemporal); a região retroauricular e a nuca recebem ramos cervicais (occipital maior, occipital menor e auricular maior, de C2-C3). A drenagem venosa da face é desprovida de válvulas: as veias faciais e oftálmicas comunicam-se com o seio cavernoso, o que transforma infecções do território nasal e periorbitário (a zona perigosa da face) em risco de trombose séptica do seio cavernoso, com proptose, quimose, oftalmoplegia e sinais meningíticos.
O esternocleidomastóideo (ECM) divide cada hemipescoço em triângulo anterior, ventral ao músculo, e triângulo posterior, dorsal. O triângulo anterior subdivide-se em submentoniano, submandibular (digastrico), carotídeo e muscular; o posterior é dividido pelo ventre inferior do omo-hióide em occipital (acima) e supraclavicular ou omoclavicular (abaixo). As fáscias organizam os planos de dissecação e de propagação: a fáscia cervical de investimento envolve ECM e trapézio; a bainha carotídea contém a artéria carótida comum e interna, a veia jugular interna e o nervo vago; a fáscia pré-traqueal envolve laringe, traqueia e tireoide; e a fáscia pré-vertebral, com a lâmina alar, delimita posteriormente o espaço retrofaríngeo e o espaço perigoso (danger space), por onde infecções da faringe descem ao mediastino posterior com risco de mediastinite.
| Triângulo | Limites essenciais | Conteúdos clássicos de prova |
|---|---|---|
| Submandibular (digastrico) | Mandíbula, ventres anterior e posterior do digástrico e hióide | Glândula submandibular, linfonodos nível IB, artéria e veia faciais, nervo hipoglosso marginal |
| Carotídeo | ECM, ventre posterior do digástrico e ventre superior do omo-hióide | Bifurcação carotídea, seio e corpo carotídeos, nervos X, XI e XII, nervo laríngeo superior |
| Muscular | Linha média, ECM e omo-hióide | Laringe, traqueia, esôfago cervical, tireoide, paratireoides e nervos laríngeos recorrentes |
| Occipital | ECM, trapézio e omo-hióide | Plexo cervical, nervo acessório (XI), linfonodos nível V e nervo occipital menor |
| Supraclavicular (omoclavicular) | Omo-hióide, clavícula e ECM | Terceira porção da subclávia, raízes e troncos do plexo braquial, cúpula pleural e veia jugular externa |
Dois pontos de referência salvam biópsias e punções: o ponto de Erb, no ponto médio da borda posterior do ECM, de onde emergem os nervos auricular maior e transverso do colo, e o cruzamento do nervo acessório (XI) na junção dos terços superior e médio do ECM, rumo ao trapézio pelo triângulo posterior. A lesão do XI durante biópsia de linfonodo de nível V produz síndrome do ombro: incapacidade de abduzir o braço além de 90 graus, escápula alada e ombro caído. No fundo do triângulo supraclavicular, a cúpula pleural ultrapassa a clavícula em até 2-3 cm: punções e biópsias nessa área podem causar pneumotórax.
A artéria carótida comum direita nasce do tronco braquiocefálico e a esquerda diretamente do arco aórtico; ambas ascendem sem ramos cervicais e bifurcam-se ao nível de C4, na altura da borda superior da cartilagem tireoidea. Na bifurcação residem dois receptores cobrados em prova: o seio carotídeo, barorreceptor da parede da carótida interna inervado pelo glossofaríngeo (IX), cuja estimulação causa bradicardia e hipotensão (base da massagem do seio carotídeo), e o corpo carotídeo, quimiorreceptor sensível à hipoxemia, hipercapnia e acidose, também inervado pelo IX. A artéria carótida interna não emite ramos no pescoço (sobe direto ao canal carotídeo), enquanto a carótida externa dá oito ramos cervicais, base da reconstrução com retalhos e da hemostasia cirúrgica.
A tabela a seguir concentra, para cada par craniano, a saída do crânio, a função relevante em cabeça e pescoço e o sinal de lesão típico. É a forma mais rápida de revisar a neuroanatomia da região imediatamente antes da prova.
| Nervo | Saída do crânio | Função principal na região | Sinal de lesão típico |
|---|---|---|---|
| I olfatório | Lâmina cribriforme | Olfação | Anosmia pós-traumática |
| II óptico | Canal óptico | Visão aferente | Amaurose e pupila de Marcus Gunn |
| III oculomotor | Fissura orbitária superior | Elevador palpebral, reto medial, superior e inferior, oblíquo inferior e parassimpático pupilar | Ptose, midríase e olho desviado para baixo e para fora |
| IV troclear | Fissura orbitária superior | Inerva o oblíquo superior (abaixa e abduz o olho) | Diplopia ao descer escada (olhar para baixo e medial) |
| V1 oftálmico | Fissura orbitária superior | Sensibilidade da testa, córnea e dorso do nariz | Perda do reflexo corneano e ceratite de exposição |
| V2 maxilar | Forame redondo | Sensibilidade da face média | Anestesia malâr e do lábio superior |
| V3 mandibular | Forame oval | Sensibilidade da face inferior e músculos da mastigação | Desvio da mandíbula para o lado da lesão ao abrir a boca |
| VI abducente | Fissura orbitária superior | Inerva o reto lateral (abduz o olho) | Estrabismo convergente com diplopia horizontal |
| VII facial | Canal facial, forame estilomastoideo | Músculos da expressão, parassimpático lacrimal e submandibular, gosto dos dois terços anteriores e estapédio | Paralisia periférica com hiperacusia, olho seco e perda de gosto anterior |
| VIII vestibulococlear | Meato acústico interno | Audição e equilíbrio | Perda auditiva neurossensorial e zumbido |
| IX glossofaríngeo | Forame jugular | Gosto do terço posterior, aferente do seio carotídeo e parassimpático da parótida | Perda de gosto posterior e déficit do reflexo nauseoso |
| X vago | Forame jugular | Inerva palato, faringe e laringe (recorrente) e parassimpático tóraco-abdominal | Disfonia, disfagia e paralisia de prega vocal |
| XI acessório | Forame jugular | Inerva ECM e trapézio | Síndrome do ombro após esvaziamento cervical |
| XII hipoglosso | Canal do hipoglosso | Musculatura extrínseca e intrínseca da língua | Língua desviada para o lado da lesão (neurônio motor inferior) |
A parótida é serosa, ocupa o espaço entre o ramo da mandíbula e o ECM, e é atravessada, de superficial para profundo, pelos ramos do nervo facial (temporais, zigomáticos, bucais, marginal mandibular e cervical), pela veia retromandibular e pela artéria carótida externa, nessa ordem. Seu ducto (de Stensen) abre-se na mucosa jugal frente ao segundo molar superior. A parotidectomia identifica e preserva o VII; sua lesão causa paralisia facial e, com regeneração aberrante de fibras parassimpáticas para a pele da região, a síndrome de Frey, com sudorese e rubor gustatórios. A submandibular é mista, e seu ducto (de Wharton) abre-se na carúncula sublingual, ao lado do frênulo da língua; a sublingual é mucosa, com múltiplos ductos de Rivinus. A sialolitíase afeta 80-90% das vezes a glândula submandibular, porque sua saliva é mais alcalina e mucosa e o ducto é longo e ascendente contra a gravidade, favorecendo estase e cristalização.
Os quatro músculos da mastigação, todos inervados pelo V3, são: masseter (elevador potente da mandíbula), temporal (eleva e retrai), pterigoide medial (eleva, atuando em conjunto com o masseter) e pterigoide lateral, único depressor e protrusor, que abre a boca deslizando o côndilo e o disco para frente, sobre a eminência articular. Na lesão unilateral de V3, a boca desvia para o lado da lesão pela ação íntegra do pterigoide lateral contralateral; o deslocamento da articulação temporomandibular é anterior, e a luxação espontânea ocorre em boca amplamente aberta, com relaxamento da cápsula.
A faringe tem três andares (nasofaringe, orofaringe e hipofaringe), musculatura circular de três constrictores e músculos longitudinais que encurtam a faringe durante a deglutição. Entre o constrictor inferior e o músculo cricofaríngeo fica o triângulo de Killian, área de fraqueza da parede posterior por onde se forma o divertículo de Zenker, causando disfagia, regurgitação e tosse noturna, típico de idosos. A laringe tem nove cartilagens: três ímpares (tireoidea, cricoidea e epiglótica) e três pares (aritenoides, corniculadas e cuneiformes). O anel cricoide é o único anel cartilagíneo completo da via aérea e, na criança, a subglote é o ponto mais estreitado, o que explica o estridor inspiratório da laringite viral (crupe) e justifica o tubo sem balão na intubação pediátrica.
A inervação motora intrínseca segue uma regra única de prova: o músculo cricotireoide, único tensor das pregas vocais, é inervado pelo ramo externo do nervo laríngeo superior; todos os demais músculos intrínsecos dependem do nervo laríngeo recorrente. O cricoaritenoideo posterior é o único abdutor das pregas; o cricoaritenoideo lateral e o interaritenoide são adutores. Assim, a lesão do recorrente unilateral causa disfonia rouca (prega em posição paramediana), e a lesão bilateral compromete a via aérea com estridor inspiratório, podendo exigir traqueostomia; a lesão do ramo interno do laríngeo superior anestesia a mucosa supraglótica e predispõe a aspiração. Na emergência de via aérea impossível, a cricotireoidostomia penetra a membrana cricotireoidea, entre as cartilagens tireoidea e cricoidea, identificadas por palpação na linha média, logo abaixo do pomo de Adão.
A tireoide origina-se do forame cego da língua e desce pelo ducto tireoglosso até sua posição pré-traqueal; remanescentes desse trajeto formam cistos tireoglossos, que se movem com a protrusão da língua e com a deglutição (sinal clássico de diferenciação), além do lobo piramidal, presente em boa parte das pessoas. A vascularização define os riscos da tireoidectomia: a artéria tireoidea superior, ramo da carótida externa, corre com o ramo externo do nervo laríngeo superior, que pode ser lesado na ligadura do polo superior e causa perda dos agudos da voz; a artéria tireoidea inferior, ramo do tronco tireocervical, relaciona-se com o nervo laríngeo recorrente próximo ao ligamento de Berry e ao tubérculo de Zuckerkandl, principal referência cirúrgica para identificação do nervo. O recorrente direito contorna a subclávia e o esquerdo o arco aórtico; um arco aórtico direito ou artéria lusória desvia o trajeto do esquerdo.
As paratireoides têm origem embriológica paradoxal e cobrada: as superiores vêm da quarta bolsa faríngea e ficam em posição mais constante, atrás do polo superior da tireoide; as inferiores vêm da terceira bolsa e descem com o timo, o que explica posição variável, inclusive intratireoidea ou mediastínica, e adenomas ectópicos no hiperparatireoidismo. Após a tireoidectomia, teme-se três complicações anatômicas: hematoma de loja com compressão da via aérea (emergência de reintervenção), lesão dos recorrentes (disfonia ou estridor) e hipoparatireoidismo por lesão ou desvascularização das paratireoides, com hipocalcemia sintomática e parestesias nas primeiras 24-72 horas.
O pescoço contém cerca de 300 dos aproximadamente 800 linfonodos do corpo, e o padrão de drenagem permite prever o tumor primário a partir do linfonodo acometido, raciocínio central diante de uma massa cervical. A nomenclatura em níveis (IA a VII, consagrada por Robbins) é a linguagem comum entre anatomia, radiologia e cirurgia, usada no estadiamento TNM e na escolha do esvaziamento cervical. Estruturas medianas como tireoide, laringe, traqueia e esôfago drenam para o compartimento central (nível VI), o que explica comprometimento central sem acometimento lateral inicial; nasofaringe, base de língua e palato mole têm drenagem bilateral, e a supraclavicular (nível IV-Vb) exige investigação de primários infraclavículares quando o padrão foge ao habitual.
| Nível | Território anatômico | Primários que tipicamente drenam aí |
|---|---|---|
| IA submentoniano | Entre os ventres anteriores do digástrico, acima do hióide | Lábio inferior central, gengiva anterior e assoalho anterior |
| IB submandibular | Espaço submandibular, com a glândula | Cavidade oral, face e glândulas salivares |
| II jugular superior | Da base do crânio ao osso hióide, ao longo da jugular interna | Nasofaringe, orofaringe, amígdala e base de língua |
| III jugular médio | Do hióide à cartilagem cricoidea | Cavidade oral, laringe e hipofaringe |
| IV jugular inferior | Da cartilagem cricoidea à clavícula | Laringe, hipofaringe, esôfago cervical e tireoide |
| V triângulo posterior | Posterior ao ECM, entre trapézio e clavícula (Va acima e Vb abaixo do plano cricoideo) | Nasofaringe, couro cabeludo posterior, pele do pescoço e tireoide (Vb) |
| VI compartimento central | Linfonodos prelaríngeos, pré-traqueais e paratraqueais, entre as carótidas | Tireoide, laringe, traqueia e esôfago cervical |
| VII mediastinal superior | Abaixo da incisura esternal | Extensão do VI, tireoide e esôfago torácico superior |
O carcinoma espinocelular responde por mais de 90% dos tumores malignos da região, com dois perfis epidemiológicos: o clássico, do paciente tabagista e etilista (a associação dos dois fatores multiplica o risco de forma superaditiva), com lesões de cavidade oral, laringe e hipofaringe, e o emergente, do paciente HPV-positivo (sobretudo HPV tipo 16), com carcinoma de orofaringe (amígdala e base de língua), mais jovem, com metástases cervicais quísticas, marcação de p16 pela imuno-histoquímica como marcador substituto e prognóstico claramente melhor. Também lembre dos demais histotipos: carcinoma nasofaríngeo não queratinizado, associado ao EBV e com drenagem para os níveis II e V, carcinoma papilífero e folicular de tireoide (nível VI), adenocarcinoma de glândulas salivares e linfomas, que se apresentam como massas cervicais. A lesão precursora clássica da mucosa é a leucoplasia (placa branca não destacável), mas a eritroplasia tem potencial de malignização muito maior e deve ser biopsiada sempre.
A apresentação típica é a úlcera oral que não cicatriza em 3 semanas, odinofagia persistente, otalgia referida (o nervo auricular de Arnold, ramo do X, explica dor de ouvido em câncer de amígdala, base de língua e hipofaringe), disfonia por mais de 3 semanas e massa cervical. No adulto, massa cervical com mais de 3 semanas é neoplasia até prova em contrária: a propedêutica começa com exame completo da mucosa oral e orofaringe, nasofaringolaringoscopia, punção aspirativa por agulha fina (PAAF) da massa e tomografia com contraste; a biópsia aberta do linfonodo fica para depois do estadiamento, pois pode comprometer o esvaziamento cervical posterior e dificultar o tratamento definitivo. No estadiamento TNM da 8ª edição do AJCC, na cavidade oral T1 é até 2 cm, T2 de 2 a 4 cm, T3 maior que 4 cm e T4 com invasão de estruturas adjacentes; o N usa tamanho (N1 ipsilateral até 3 cm; N2 entre 3 e 6 cm ou múltiplos ipsilaterais/bilaterais; N3 maior que 6 cm), lateralidade e, nos tumores HPV-negativos, a extensão extracapsular, que eleva a categoria N e muda a conduta adjuvante.
O tratamento usa a anatomia de forma literal: estádios iniciais de laringe recebem radioterapia ou cirurgia parcial preservando a voz; tumores avançados combinam radioterapia com cisplatina concomitante (40 mg/m2 semanal ou 100 mg/m2 a cada 3 semanas) ou cirurgia seguida de radioterapia adjuvante conforme margens comprometidas e extensão extracapsular. O esvaziamento cervical radical clássico remove ECM, veia jugular interna e nervo acessório junto aos linfonodos I a V e produz síndrome do ombro e risco de edema facial; as variações modificadas e os esvaziamentos seletivos (por exemplo, níveis II a IV para tumores orais) preservam estruturas e reduzem morbidade. As reconstruções aplicam vasos e territórios: retalho peitoral maior pediculado para defeitos extensos e retalhos livres do antebraço radial (mucosa) e da fíbula (reconstrução mandibular).
1.Após trauma lateral na cabeça, um paciente apresenta hematoma extradural lenticular na tomografia. Qual estrutura foi lesada e em qual ponto anatômico?
2.Na lesão periférica do nervo hipoglosso direito, a protrusão da língua desvia-se para onde e por quê?
3.Qual conjunto de estruturas atravessa o forame jugular?
4.Um paciente com carcinoma de nasofaringe apresenta adenomegalia no triângulo posterior do pescoço, abaixo do plano da cartilagem cricoidea. Qual nível de Robbins?
5.Qual músculo é responsável pela abertura da boca e qual achado aparece na lesão unilateral de V3?
6.Em via aérea difícil iminente, a cricotireoidostomia é realizada através de qual estrutura?
7.Após tireoidectomia total, paciente evolui com estridor inspiratório e ambas as pregas vocais em posição paramediana. Qual mecanismo anatômico explica o quadro?
8.Qual glândula salivar é a mais acometida por sialolitíase e qual é a razão anatômica clássica?
9.Qual é a origem embriológica das paratireoides inferiores e sua consequência clínica?
10.Qual nervo relaciona-se com a ligadura da artéria tireoidea inferior durante tireoidectomia?
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