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Ponte entre a anatomia do primeiro ano e o exame físico do ciclo clínico: referências ósseas do tórax, focos de ausculta cardíaca, limites viscerais à percussão, pontos abdominais, pulsos, linfonodos, reflexos e dermatômos com o significado clínico de cada achado.
[1] Moore KL, Dalley AF, Agur AMR. Clinically Oriented Anatomy. 8th ed. Philadelphia: Wolters Kluwer; 2017 | [2] Porto CC, Porto AL. Semiologia Médica. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2015 | [3] Bickley LS. Bates Guide to Physical Examination and History Taking. 13th ed. Philadelphia: Lippincott Williams and Wilkins; 2021 | [4] Netter FH. Atlas de Anatomia Humana. 8ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2023 | [5] Talley N, OConnor S. Clinical Examination. 8th ed. Elsevier; 2017
O exame físico é anatomia aplicada em tempo real: cada ruído, macicez e ponto doloroso só fazem sentido quando o examinador sabe o que existe por baixo da pele. A maior parte dos erros de semiologia do estudante não é técnica, mas anatômica: auscultar o foco mitral no lugar errado, confundir ângulo esternal com processo xifoide, chamar de esplenomegalia o que é uma costela eferente ou interpretar a ausência de pulso pedioso como isquemia em quem tem artéria dorsal do pé hipoplásica. Este artigo organiza a anatomia de superfície necessária para inspecionar, palpar, percutir e auscultar com intenção: tórax, coração, abdome, vasos, cabeça e pescoço e sistema nervoso, cada referência com o seu valor semiológico. É o material de ponte entre o ciclo básico e a propedêutica.
Estudos de segurança do paciente e auditorias de exame físico mostram que a maior parte das omissões propedêuticas ocorre por desconhecimento de referências anatômicas: o ictus não localizado, a tiragem subestimada, a manobra de Murphy executada longe da vesícula, o linfonodo supraclavicular nunca palpado. Três números organizam o tamanho do problema: cerca de 70 a 80% dos diagnósticos em clínica médica ambulatorial ainda dependem da história e do exame físico; o exame físico bem executado muda a conduta em uma parcela relevante das consultas; e achados específicos, como o sinal de Homans ou o ponto de McBurney, só existem se o examinador conhece a anatomia que os suporta. Por isso a prova cobra referências com número: espaço intercostal, linha, nível vertebral e centímetro.
O tórax é lido por linhas e por acidentes ósseos. As linhas convencionais são a esternal média (borda do esterno), a hemiclavicular ou medioclavicular (vertical a meio da clavícula), as axilares anterior, média e posterior (sobre a prega axilar anterior, o centro da axila e a borda posterior) e a escapular (vertical sobre o ângulo inferior da escápula, com braços abaixados). Os acidentes ósseos contam a história da numeração costal.
| Referência óssea | Nível | Valor semiológico |
|---|---|---|
| Ângulo esternal | 2ª costela, T4-T5 | Contagem de costelas e espaços; ausculta dos focos aórtico e pulmonar |
| Processo xifoide | T9 | Delimita epigástria; dor xifoide mimetiza dor cardíaca |
| Ângulo inferior da escápula | T7, 7º espaço intercostal | Marca o lobo inferior do pulmão à percussão posterior |
| 7ª cartilagem costal | Rebordo costal direito | Ponto de Murphy (vesícula) e borda hepática palpável |
| 2º espaço intercostal | Focos aórtico (direito) e pulmonar (esquerdo) | Sopros de estenose aórtica e pulmonar |
A percussão compara som timpânico (ar em víscera oca, como o espaço de Traube, semiluna gástrica à esquerda), som ressonante normal do pulmão e macicez (líquido ou sólido). O fremito tato-vocal aumenta sobre consolidação (o alvéolo cheio de exsudato conduz melhor as vibrações, como na pneumonia) e diminui ou desaparece sobre derrame pleural e pneumotórax. À ausculta, a consolidação dá crepitações e broncofonia; o derrame grande abafa murmúrios e produz a voz egofônica no topo do líquido (som nasal de cabra, com linha curva que separa a zona de consolidação, abaixo, da zona de derrame).
| Achado | Mecanismo anatômico | Significado clínico |
|---|---|---|
| Fremito aumentado | Exsudato alveolar conduz vibrações | Pneumonia consolidada |
| Abolimento do murmúrio e do fremito | Liquido separa o pulmão da parede | Derrame pleural |
| Macicez à percussão | Substituição do ar por líquido | Derrame, atelectasia, consolidação |
| Timpanismo unilateral | Ar na cavidade pleural | Pneumotórax |
| Macicez do espaço de Traube | Ocupação da câmara gástrica | Esplenomegalia ou derrame pleural esquerdo |
| Sibilos difusos | Obstrução de pequenas vias aéreas | Asma, bronquiolite, DPOC |
A ausculta pulmonar compara os dois hemitórax em nove pontos clássicos: supraclaviculares, infraclaviculares, médios axilares e bases nas linhas escapulares, sempre de cima para baixo e de um lado contra o outro. O murmúrio vesicular normal é mais intenso nas bases anteriores e nos ápices posteriores, porque o ar vai onde a ventilação é maior; nas regiões sobre o coração e o esterno, o som é mais brônquico por condução direta. Compare sempre com o lado oposto: a assimetria é que patologiza o ruído.
As valvas não ficam onde se ausculta: as quatro valvas estão implantadas na base do coração, em um plano oblíquo atrás do esterno, enquanto os focos de ausculta ficam a jusante do fluxo, onde o som se irradia. O foco mitral fica no 5º espaço intercostal esquerdo na linha hemiclavicular média, sobre o ápice do ventrículo esquerdo; o sopro da estenose mitral irradia para a axila. O foco aórtico ocupa o 2º espaço intercostal direito e o sopros de estenose aórtica sobem para as carótidas; o foco pulmonar, 2º espaço esquerdo, irradia para o pescoço e o dorso; o foco tricúspide fica no 4º espaço intercostal esquerdo, junto à borda esternal, e o sopro tricúspide aumenta na inspiração (sinal de Carvalho).
| Foco auscultatório | Localização | Valva ouvida e irradiação |
|---|---|---|
| Aórtico | 2º espaço intercostal, bordo esternal direito | Valva aórtica; irradia para carótidas e foco apical |
| Pulmonar | 2º espaço intercostal, bordo esternal esquerdo | Valva pulmonar; irradia para pescoço e dorso |
| Tricúspide (xifoesternal) | 4º espaço intercostal esquerdo, junto ao esterno | Valva tricúspide; aumenta com a inspiração |
| Mitral (apical) | 5º espaço intercostal esquerdo, linha hemiclavicular média | Valva mitral; irradia para a axila |
| Ponto de Erb | 3º espaço intercostal esquerdo, borda esternal | Foco acessório para sopros aórticos e pulmonares |
O ictus (choque da ponta) é o impacto do ápice ventricular esquerdo contra a parede torácica: no adulto, no 5º espaço intercostal esquerdo, na linha hemiclavicular média ou até 1 cm medial, ocupando cerca de 1 a 2 cm de diâmetro. Desloca-se para baixo e para fora (6º e 7º espaços, além da hemiclavicular) na cardiomegalia e no volume overload; fica difuso e deslocado à direita no dextrocardia; torna-se hiperdinâmico na insuficiência aórtica e em anemia e febre. Em crianças menores de 7 anos o ictus é normal no 4º espaço intercostal. A pressão venosa jugular se mede com o tronco elevado a 30 a 45 graus: o ângulo esternal fica cerca de 5 cm acima do átrio direito, e a coluna venosa visível acima do ângulo não deve passar de 3 a 4 cm; o refluxo hépato-jugular comprime o fígado e eleva a coluna na insuficiência cardíaca direita.
O abdome se divide em quadrantes (verticais pela linha mediana e horizontais pelo umbigo) ou em nove regiões, usando duas linhas horizontais (bicondilar superior e intertubercular inferior) e duas verticais hemiclaviculares: epigástria, hipocôndrios, mesogástria, flancos e hipogástria. A dor em hipocôndrio direito sugere fígado e vesícula; em epigástria, estômago, pâncreas e coração (dor reflexa); em flanco e lombar, rim; em hipogástria, bexiga, útero e reto. Os pontos dolorosos nomeados economizam descrição.
| Ponto ou sinal | Referência anatômica | Significado |
|---|---|---|
| Ponto de McBurney | Junção do terço lateral com os dois terços mediais da linha entre o umbigo e a espinha ilíaca anterossuperior direita | Apendicite aguda (base do ceco) |
| Sinal de Murphy | Pressão sob o rebordo costal direito na intersecção com a borda externa do reto abdominal durante a inspiração | Colecistite aguda (parada inspiratória por dor) |
| Sinal de Blumberg | Descompressão brusca no quadrante inferior direito | Peritonite (dor de rebote) |
| Sinal de Rovsing | Palpação profunda no quadrante esquerdo desperta dor à direita | Peritonite apendicular |
| Cullen e Grey-Turner | Periumbilical e flancos, respectivamente | Hemoperitônio e pancreatite hemorrágica |
| Macicez de Castell | Percussão na 9ª costela, linha axilar anterior esquerda, em expiração e inspiração | Esplenomegalia incipiente |
Palpação das vísceras exige saber onde elas estão: o fígado ocupa o hipocôndrio direito, cruzando a linha mediana até o hipocôndrio esquerdo; à percussão na linha medioclavicular direita, ocupa cerca de 6 a 12 cm (média de 8 a 10 cm no adulto), da macicez superior (5º espaço intercostal) à borda inferior; borda palpável macia a 1 a 2 cm abaixo do rebordo costal em magros e na expiração profunda pode ser normal, mas borda endurecida, nodular ou a mais de 2 a 3 cm é hepatomegalia. O baço fica entre as costelas 9 e 11 esquerdas, com o hilo em contato com o estômago, pâncreas e rim esquerdo; não é palpável no adulto normal e só desce abaixo do rebordo quando aumenta cerca de duas a três vezes; a melhor manobra é a paciente em decúbito lateral direito com perna flexionada, mão esquerda encaixada no arco costal posterior (manobra de Middleton), pedindo inspiração profunda. Os rins se palparam por manobra bimanual (manobra de Guyon), na qual a mão posterior empurra o pólo inferior lombar contra a mão anterior durante a inspiração; o punho-percussão lombar positivo (sinal de Giordano) sugere pielonefrite e litíase. O aorta é palpada na epigástria, com os dedos alinhados à esquerda da linha mediana, e o seu alargamento (mais de 3 cm de diâmetro ou pulsatilidade expansiva) sugere aneurisma de aorta abdominal, confirmado com ultrassonografia.
Todo pulso tem um sítio anatômico preciso e uma mensagem clínica. A sequência de palpação radial, braquial, carotídeo, femoral, poplíteo, pedioso e tibial posterior permite graduar perfusão e suspeitar de oclusões: assimetria entre membros, pulso salto (water hammer) da insuficiência aórtica, pulso parvus et tardus da estenose aórtica e pulso alternans na insuficiência cardíaca avançada. A pressão arterial se ausculta na fossa cubital, medial ao tendão do bíceps, sobre a artéria braquial.
| Pulso | Localização anatômica | Nota semiológica |
|---|---|---|
| Radial | Face anterior e lateral do punho, lateral ao tendão do flexor radial do carpo | Conta frequência e ritmo; índice de Allen antes de punção radial |
| Braquial | Fossa cubital, medial ao tendão do bíceps braquial | Sítio de ausculta da pressão arterial |
| Carotídeo | Bordão esternocleidomastóideo, no nível da cartilagem tireoide superior | Auscultar sopros abaixo do ângulo mandibular; nunca palpá-los dos dois lados ao mesmo tempo |
| Femoral | Ponto médio do ligamento inguinal | Comparar com o radial (atraso sugere coarctação); sítio de punção de cateter |
| Poplíteo | Fossa poplítea profunda, com joelho fletido e mão envolvente | O mais difícil de palpar; reforçado em insuficiência aórtica |
| Pedioso | Dorso do pé, lateral ao tendão do extensor longo do hálux | Ausente em cerca de 10% dos sadios; avaliar com o tibial posterior |
| Tibial posterior | Atrás e abaixo do maléolo medial | Par com o pedioso para graduar isquemia |
As veias também são anatomia de prova: as jugulares externas cruzam o esternocleidomastóideo de forma oblíqua e as internas descem entre as duas cabeças do músculo, da base do crânio ao esterno, atrás da clavícula; a ingurgitação sistólica da jugular interna e o refluxo hépato-jugular sustentam o diagnóstico de insuficiência cardíaca direita. Varizes de membros inferiores mapeiam-se pelo cruzamento safeno-femoral (um dedo medial e abaixo da espinha ilíaca anterossuperior) e pelos cruzamentos das safenas com as veias profundas na perna; as perforantes de Cockett ligam a safena interna às tibiais posteriores acima do maléolo medial, território da úlcera varicosa.
A cadeia linfática cervical segue a distribuição do pescoço em níveis: os gânglios submentonianos drenam o lábio inferior e o assoalho da boca; os submandibulares, o lábio superior, bochecha e língua anterior; os jugulares internos superiores, a amigdala e a faringe; os profundos inferiores, a tiroide e a laringe; os supraclaviculares recebem linfa do tórax e abdome pelo ducto torácico, à esquerda: o gânglio de Virchow (sinal de Troisier) sugere neoplasia gástrica ou abdominal avançada. Cadeia pré-auricular drena pálpebra e couro; a occipital, o couro cabeludo; a posterior cervical acompanha o trapézio. Linfonodo cervical duro, fixado e maior que 1 cm com mais de 3 a 4 semanas pede investigação de neoplasia ou tuberculose; a adenomegalia difusa dolorosa sugere virose.
O exame neurológico é mapa anatômico percorrido com ordem. Os pares cranianos se testam de cima para baixo: acuidade e fundo de olho (II); fotomotor direto e consensual, movimentos oculares e ptose (III, IV e VI); força dos músculos mastigadores e sensibilidade da face (V); movimentos faciais, fechar olhos, mostrar dentes, elevar sobrancelhas (VII); sussurro, Weber e Rinne com diapasão (VIII); elevação do véu palatino e gag (IX e X); rotação da cabeça e encolher ombros (XI); protusão da língua (XII). Duas regras de desvio são clássicas: na lesão periférica do X, o véu se desvia para o lado oposto ao paralisado (o lado são sobe); na lesão do XII, a língua se desvia para o lado paralisado ao ser protruída. A paralisia central do VII poupa a hemiface superior por causa do duplo suprimento cortical; a periférica compromete toda a hemiface, incluindo olho e testa.
| Reflexo | Arco (raiz) | Técnica |
|---|---|---|
| Bicipital | C5-C6 (musculocutâneo) | Percutir o dedo sobre o tendão do bíceps com cotovelo semifletido |
| Estilorradial | C5-C6 (radial) | Percutir o tendão do braquiorradial sobre o estiloide radial |
| Tricipital | C7-C8 (radial) | Percutir o tendão do tríceps acima do olecrano com braço pendente |
| Patelar (rotuliano) | L3-L4 (femoral) | Percutir o tendão patelar com a perna pendente |
| Aquileu (calcâneo) | S1 (tibial) | Percutir o tendão de Aquiles em dorsiflexão do pé |
| Cutâneo plantar | L5-S1 | Estimular a borda lateral da sola: flexão plantar normal; dorsiflexão com abertura do hálux é sinal de Babinski (via piramidal) |
Dermatômos-chave para localizar lesões: C6 polegar, C7 dedo médio, C8 dedo mínimo, T4 mamilo, T6 apêndice xifoide, T10 umbigo, T12 sínfise pubiana, L4 face medial do joelho e maléolo medial, L5 dorso do hálux e teia do primeiro espaço, S1 borda lateral do pé e maléolo lateral. A medula do adulto termina no cone medular ao nível de L1-L2, com a cauda equina abaixo: punção lombar se faz em L3-L4 ou L4-L5, abaixo do cone, para não lesar a medula. Sinais de nível medular (sensibilidade em nível, paraplegia, esfíncter) e de cauda equina (dor radicular bilateral, anestesia em sela, retenção urinária) são emergências que dependem dessa anatomia para serem reconhecidas em tempo.
1.Para contar corretamente os espaços intercostais, o examinador localiza a 2ª costela a partir de qual referência?
2.O foco de ausculta da valva mitral está localizado em:
3.O ponto de McBurney corresponde a:
4.Na paralisia do nervo vago (X) à direita, a úvula e o véu palatino desviam-se para:
5.O pulso pedioso é palpado:
6.O reflexo aquileu (calcâneo) avalia predominantemente qual raiz?
7.A sensibilidade do mamilo e a do umbigo correspondem, respectivamente, aos dermatômos:
8.A punção lombar é feita preferencialmente nos espaços L3-L4 ou L4-L5 porque:
9.Linfonodo supraclavicular esquerdo endurecido e indolor (gânglio de Virchow) sugere:
10.A manobra de Murphy pesquisa patologia da vesícula biliar comprimindo:
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