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Revisão da urticária crônica espontânea e induzível: classificação, mecanismo autoimune, escores UAS7 e UCT, investigação mínima recomendada pela diretriz EAACI 2022 e algoritmo terapêutico com anti-histamínicos em dose escalonada, omalizumabe e ciclosporina.
[1] Zuberbier T, Abdul Latiff AH, Abuzakouk M, et al. The international EAACI/GA2LEN/EuroGuiDerm/APAAACI guideline for the definition, classification, diagnosis, and management of urticaria. Allergy. 2022;77(3):734-766. DOI 10.1111/all.15090 | [2] Maurer M, Rosén K, Hsieh HJ, et al. Omalizumab for the treatment of chronic idiopathic or spontaneous urticaria. N Engl J Med. 2013;368(10):924-935. DOI 10.1056/NEJMoa1215372 | [3] Maurer M, Ensina LF, Gimenez-Arnau AM, et al. Efficacy and safety of ligelizumab in adults and adolescents with chronic spontaneous urticaria: results of two phase 3 randomised controlled trials. Lancet. 2024;403(10422):147-159. DOI 10.1016/S0140-6736(23)01684-7 | [4] Dias GAC, Agondi RC, Brandão LS, et al. Atualização do Guia Prático da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia para o diagnóstico e tratamento das urticárias baseado em diretrizes internacionais. Arq Asma Alerg Imunol. 2024;8(2). aaai-asbai.org.br · DOI 10.1111/all.15090
Urticária é um padrão de reação cutânea definido pelo aparecimento súbito de vergões (placas eritemato-edematosas com prurido intenso) e/ou angioedema (inchaço dérmico e subcutâneo). Torna-se crônica quando persiste por seis semanas ou mais, na maioria dos dias da semana. A urticária crônica espontânea (UCE, antiga urticária crônica idiopática) afeta em torno de 0,5 a 1% da população em algum momento, com predomínio feminino de aproximadamente 2:1 e pico entre 20 e 40 anos. Apesar de raramente ameaçar a vida, a doença ativa derruba qualidade de vida (sono, trabalho, vida social) de forma comparável ou superior à psoríase, e o erro mais comum na prática e em provas continua sendo o mesmo: submeter o paciente a painéis extensos de alergia em vez de tratar escalonadamente. A mensagem central da diretriz internacional EAACI/GA2LEN de 2022 e do guia prático brasileiro da ASBAI é direta: o diagnóstico é clínico, a investigação é mínima e o tratamento sob degraus, começando no anti-histamínico de segunda geração e podendo chegar ao omalizumabe e à ciclosporina.
O vergão típico dura de minutos a poucas horas e nunca mais de 24 horas, desaparecendo sem deixar resíduo; o angioedema da urticária resolve-se em até 72 horas. Esses tempos são o gabarito clínico para diferenciar a urticária comum das urticárias com vasculite. A urticária crônica divide-se em espontânea, na qual os vergões surgem sem gatilho identificável (cerca de dois terços dos casos), e induzível, na qual existe estímulo físico ou específico demonstrável por teste de provocação padronizado (cerca de um terço, podendo coexistir com a espontânea). A classificação correta muda a investigação: na induzível, o objetivo é reproduzir o gatilho; na espontânea, não se caça alérgeno.
| Tipo de urticária induzível | Gatilho | Teste de provocação |
|---|---|---|
| Urticária crônica espontânea | Sem gatilho externo identificável | Não se aplica: diagnóstico clínico e de exclusão de mímicos |
| Dermografismo sintomático | Traumatismo mecânico (risco na pele, coceira, atrito) | Teste do traço com estilete ou dermografômetro padronizado |
| Urticária ao frio | Exposição ao frio (ar, água, objetos) | Teste do cubo de gelo por 5 minutos na pele do antebraço |
| Urticária colinérgica | Elevação da temperatura central (exercício, emoção, banho quente) | Teste de esforço ou imersão em água a 42 graus |
| Urticária por pressão tardia | Pressão vertical sustentada (mochila, cinto, sapato) | Teste de peso pendente (ex.: 7 kg por 15 minutos) com leitura em 4-6 horas |
| Outras (calor, solar, aquagênica, vibratória) | Calor local, radiação UV, água, vibração | Provocação específica de cada subtipo |
A UCE acomete adultos jovens, com pico entre a terceira e a quinta décadas, e predomínio feminino de aproximadamente 2:1; em crianças a distribuição entre sexos é mais equilibrada. A duração média da doença fica entre 1 e 5 anos: uma parcela relevante dos pacientes entra em remissão espontânea no primeiro ano, mas 10 a 20% permanecem com doença ativa por mais de 5 anos e casos refratários podem durar décadas. Fatores associados a curso mais prolongado incluem doença de base grave (UAS7 alto, presença de angioedema), positividade de autoanticorpos funcionais e reatividade a anti-inflamatórios não esteroidais. Dados brasileiros do guia da ASBAI confirmam o mesmo perfil de cronicidade e subtratamento, com demora média de anos até o uso correto de omalizumabe.
O efetor central é o mastócito dérmico. Sua ativação libera histamina, fator ativador de plaquetas (PAF), leucotrienos e citocinas, gerando prurido, vasodilatação e extravasamento que formam o vergão. Em uma fração importante dos pacientes (em torno de um terço a metade, conforme o método), a UCE é autoimmune do tipo IIb: IgG contra a porção alfa da cadeia do receptor de alta afinidade da IgE (Fc épsilon RI) ou contra a própria IgE cruza os receptores no mastócito e no basófilo, provocando degranulação; é o mesmo racional do teste cutâneo com soro autólogo e do teste de ativação de basófilos, pesquisados em pesquisa e centros especializados, mas não exigidos na rotina. Há ainda ativação da cascata de coagulação com expressão de fator tissular: o dímero D plasmático se eleva na doença ativa e correlaciona-se com a atividade, embora não seja medido para diagnosticar.
A base imunológica explica as comorbidades e a terapia: autoanticorpos tireoidianos (anti-tireoperoxidase e anti-tireoglobulina) estão presentes em até cerca de 25% dos pacientes, com ou sem disfunção hormonal, e a associação com outras doenças autoimunes é descrita. A eficácia do omalizumabe, anticorpo monoclonal anti-IgE que neutraliza a IgE livre, reduz a expressão do receptor Fc épsilon RI nos mastócitos e basófilos e ainda forma imunocomplexos que podem consumir IgG patogênico, é a tradução clínica dessa fisiopatologia. Gatilhos agravantes não causam a doença, mas pioram seu curso: anti-inflamatórios não esteroidais (inibição de COX-1 com desvio para leucotrienos), inibidores da enzima conversora de angiotensina (pioram angioedema), infecções intercorrentes, estresse e álcool.
O paciente com UCE relata vergões diários ou quase diários, migratórios, que surgem em qualquer área, pioram ao fim do dia e à noite (cortisol mínimo, calor do leito) e somem em menos de 24 horas sem mancha residual; prurido intenso precede ou acompanha as lesões. Angioedema acompanha cerca de metade dos casos, tipicamente em pálpebras, lábios, língua e genitália, com duração de até 72 horas. Sinais de alarme que redirecionam o diagnóstico: lesões fixas por mais de 24-48 horas, doloridas ou com queimação mais que prurido, púrpura ou hiperpigmentação residual, febre, artralgia, perda de peso, urticária desde o nascimento (criança pequena com rash neutrofílico e febre sugere síndrome autoinflamatória) e angioedema recorrente sem vergões nem prurido (suspeitar de angioedema bradicinínico).
O diagnóstico da UCE é clínico. A diretriz EAACI 2022 recomenda como rotina apenas hemograma com contagem diferencial e PCR ou VHS, para rastrear inflamação sistêmica e doenças hematológicas; exames adicionais são orientados pela anamnese: TSH e anticorpos antitireoidianos quando houver suspeita clínica de doença tireoidiana, complemento C4 e dosagem de C1-inibidor (antigênico e funcional) no angioedema recorrente sem vergões, e investigação de síndrome autoinflamatória (como Schnitzler: urticária neutrofílica fixa, gamopatia monoclonal IgM e dor óssea) nos quadres atípicos com febre. É explicitamente contraindicada a realização de painéis amplos de IgE específica e prick tests para alimentos e aeroalérgenos na urticária espontânea típica: não há papel comprovado para dieta de exclusão empírica. Nas induzíveis, aplica-se o teste de provocação correspondente (cubo de gelo, teste do traço, esforço, peso pendente).
A atividade da doença deve ser medida para decidir o degrau terapêutico. O UAS7 (Urticaria Activity Score de 7 dias) soma diariamente a contagem de vergões (0 a 3) e a intensidade do prurido (0 a 3), resultando em escore semanal de 0 a 42: valores até 6 indicam doença leve ou controlada, entre 7 e 15 doença moderada e acima de 28 doença grave, sendo o alvo do tratamento manter o UAS7 abaixo de 6. O UCT (Urticaria Control Test) é questionário de 4 itens que recorda as últimas 4 semanas e pontua de 0 a 16, com 12 pontos ou mais indicando doença bem controlada; já o AAS quantifica especificamente a atividade do angioedema. Escores objetivos evitam a subestimação da gravidade e fundamentam a indicação de omalizumabe e ciclosporina.
| Instrumento | Como se aplica | Interpretação |
|---|---|---|
| UAS7 | Soma diária por 7 dias de vergões (0-3) e prurido (0-3) | 0-42 pontos; abaixo de 6 indica controle; acima de 28 indica doença grave |
| UCT (Urticaria Control Test) | Questionário de 4 itens recordando 4 semanas | 0-16 pontos; 12 ou mais indica doença bem controlada |
| AAS (Angioedema Activity Score) | Diário de episódios de angioedema | Quantifica gravidade e resposta em pacientes com angioedema predominante |
| DLQI | Questionário dermatológico de qualidade de vida | Apoia a decisão de terapia avançada em doença de alto impacto |
| Achado | Urticária crônica comum | Urticária com vasculite | Angioedema bradicinínico |
|---|---|---|---|
| Duração de cada episódio | Vergões somem em menos de 24 h; angioedema em até 72 h | Lesões fixas por mais de 24-48 h | Angioedema sem vergões, 2 a 3 dias |
| Sintoma dominante | Prurido intenso | Dor e queimação | Sem prurido; peso e plenitude |
| Resíduo após a lesão | Nenhum | Hiperpigmentação ou púrpura | Nenhum |
| Achados sistêmicos | Raros | Febre, artralgia, proteinúria (formas hipocomplementêmicas) | Laringedema e dor abdominal recorrentes; crises desencadeadas por trauma ou procedimentos |
| Resposta a anti-histamínico | Boa na maioria | Parcial ou ausente | Ausente |
| Exame direcionador | Não é necessário na forma típica | PCR/VHS, C3/C4, biópsia com imunofluorescência | C4 baixo, C1-inibidor antigênico e funcional; tratamentos específicos (icatibanto, concentrado de C1-inibidor, lanadelumabe) |
O algoritmo da EAACI 2022 tem quatro degraus. Degrau 1: anti-histamínico H1 de segunda geração em dose padrão, diário e contínuo (não por demanda), eliminando de vez os anti-histamínicos sedativos de primeira geração. Degrau 2: na persistência de sintomas, aumentar a dose do anti-histamínico de segunda geração até quatro vezes a dose padrão, medida com melhor evidência custo-efetiva e recomendada antes de qualquer imunossupressão. Degrau 3: adicionar omalizumabe por via subcutânea, na dose de 300 mg a cada 4 semanas (150 e 300 mg são aprovadas, mas 300 mg é a dose de melhor eficácia na urticária espontânea), com reavaliação da resposta a cada 4 semanas e tentativa de retirada ou espaçamento após controle sustentado; na ausência total de resposta em até 6 meses, suspender e rever o diagnóstico. Degrau 4: para pacientes que não respondem ou não têm acesso ao omalizumabe, adicionar ciclosporina na dose de 2,5 a 5 mg/kg/dia, com monitorização de pressão arterial, creatinina e perfil lipídico.
| Anti-histamínico de segunda geração | Dose padrão do adulto | Dose escalonada máxima usual |
|---|---|---|
| Cetirizina | 10 mg/dia | 40 mg/dia |
| Levocetirizina | 5 mg/dia | 20 mg/dia |
| Deslorratadina | 5 mg/dia | 20 mg/dia |
| Fexofenadina | 180 mg/dia | 720 mg/dia |
| Bilastina | 20 mg/dia | 80 mg/dia |
| Rupatadina | 10 mg/dia | 40 mg/dia |
| Loratadina | 10 mg/dia | 40 mg/dia |
Pontos práticos que decidem provas: anti-histamínicos de primeira geração (dexclorfeniramina, hidroxizina, prometazina) não são recomendados como manutenção por sedação, prejuízo cognitivo e efeitos anticolinérgicos; a combinação rotineira com anti-histamínico H2 tem evidência fraca; montelucaste é adjuvante de valor limitado; corticoides sistêmicos crônicos são proscritos (osteoporose, diabetes, hipertensão), reservando-se a cursos curtos de até 10 dias em crises; na gestação, preferir loratadina ou cetirizina e discutir omalizumabe individualmente. Na urticária induzível, além dos degraus, a proteção contra o gatilho físico (vestuário térmico no frio, evitar esforço intenso na colinérgica) é parte do plano, e a urticária ao frio exige alerta para banhos e imersões frias e para procedimentos com hipotermia.
Os estudos de fase 3 PEARL 1 e PEARL 2 (Lancet, 2024) testaram o ligelizumabe, anti-IgE de maior afinidade que o omalizumabe, em comparação com placebo e com o próprio omalizumabe: o agente novo superou o placebo no controle da atividade da doença, mas a superioridade sobre o omalizumabe não foi consistente nos desfechos-chave, mantendo o omalizumabe como padrão no degrau 3. Novas classes em investigação para a UCE refratária incluem anticorpos anti-KIT (depleção de mastócitos) e inibidores de Bruton tirosina quinasa, ainda em fase experimental e sem lugar no algoritmo atual.
A UCE não é doença benigna em qualidade de vida: prurido noturno rouba sono, o angioedema gera absenteísmo e ansiedade antecipatória, e taxas de depressão e ansiedade são maiores que na população geral. O prognóstico global é bom: boa parte dos pacientes entra em remissão nos primeiros anos, mas a minoria refratária acumula anos de doença ativa, e alguns apresentam reativação após retirada do omalizumabe, passível de reintrodução. O seguimento deve usar UAS7 e UCT a cada consulta para objetivar resposta, rever adesão à dose escalonada antes de subir de degrau, rastrear impacto psíquico e, nos pacientes com autoanticorpos tireoidianos, acompanhar a função tireoidiana. Pacientes com urticária ao frio e angioedema de via aérea devem receber orientação escrita de emergência, assim como portadores de angioedema bradicinínico confirmado.
1.Uma urticária é considerada crônica quando os sintomas persistem por:
2.Paciente com UCE permanece com prurido significativo após 2 meses de cetirizina 10 mg/dia. Qual o próximo degrau do algoritmo EAACI 2022?
3.Qual é a dose e o intervalo padrão do omalizumabe na urticária crônica espontânea?
4.Sobre o UAS7 (Urticaria Activity Score), qual assertiva é correta?
5.Qual é a investigação de rotina recomendada pela diretriz EAACI 2022 para urticária crônica espontânea típica?
6.Qual achado clínico sugere urticária com vasculite e não urticária comum?
7.Paciente com angioedema recorrente de língua e lábios, sem vergões e sem prurido, sem resposta a anti-histamínico em dose quadruplicada. Qual exame deve ser solicitado?
8.Qual mecanismo caracteriza a urticária crônica espontânea autoimune (tipo IIb)?
9.Qual é a dose usual de ciclosporina no degrau 4 do tratamento da UCE refratária?
10.Sobre o uso de corticoides sistêmicos na urticária crônica, qual assertiva é correta?
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