carregando…
carregando…
Revisão completa da dermatite atópica grave: critérios diagnósticos e instrumentos de gravidade (SCORAD, EASI, POEM, DLQI), fisiopatologia tipo 2 com IL-4, IL-13 e IL-31, tratamento tópico otimizado, fototerapia, sistêmicos convencionais com doses, dupilumabe e inibidores de JAK com resultados de ensaios, além de complicações e análise de custo-efetividade e acesso no Brasil.
[1] Wollenberg A, Barbarot S, Bieber T, et al. Consensus-based European guidelines for treatment of atopic eczema (atopic dermatitis) in adults and children: part I. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2018;32(5):657-682. DOI 10.1111/jdv.14891 | [2] Eichenfield LF, et al. Guidelines of care for the management of atopic dermatitis in adults with phototherapy and systemic therapies. J Am Acad Dermatol. 2024;90(2):e1-e26. DOI 10.1016/j.jaad.2023.09.864. PMID 37943240 | [3] Simpson EL, Bieber T, Guttman-Yassky E, et al. Two phase 3 trials of dupilumab versus placebo in atopic dermatitis. N Engl J Med. 2016;375(23):2335-2348. DOI 10.1056/NEJMoa1610020 | [4] Orfali RL, Lorenzini D, Bressan A, et al. Consenso sobre o manejo terapêutico da dermatite atópica — Sociedade Brasileira de Dermatologia: atualização sobre fototerapia e terapia sistêmica pelo método e-Delphi. An Bras Dermatol. 2023. PMID 37302894. anaisdedermatologia.org.br | [5] Guttman-Yassky E, Teixeira HD, Simpson EL, et al. Once-daily upadacitinib versus placebo in adults with moderate to severe atopic dermatitis (Measure Up 1). Lancet. 2021;397(10290):2167-2177. DOI 10.1016/S0140-6736(21)00488-8 | [6] NICE. Dupilumab for treating moderate to severe atopic dermatitis. Technology appraisal guidance TA434. Londres; 2017 (revisão 2021). nice.org.uk/guidance/ta434 · DOI 10.1111/jdv.14891
A dermatite atópica (DA) é a doença inflamatória cutânea crônica mais comum da infância e uma das mais pruriginosas da medicina. Atinge cerca de 15 a 20% das crianças em países industrializados e persiste ou começa na vida adulta em uma parcela substancial (a prevalência adulta gira em torno de 2 a 10%, conforme a região). Dentro desse universo, a minoria dos pacientes — estima-se que algo entre um quinto e um terço, variando com o critério usado — tem doença moderada a grave, e é exatamente essa minoria que concentra as urgências (eczema herpético), as comorbidades (asma, rinite, alergia alimentar, depressão), o impacto funcional (perda de sono e de dias de trabalho) e o custo. A DA grave deixou de ser problema unicamente dermatológico: os avanços da imunologia tipo 2 (dupilumabe, tralokinumabe, inibidores de JAK) transformaram-na em campo de prova para raciocínio fisiopatológico e decisão terapêutica escalonada — incluindo a análise de custo-efetividade, que decide quem de fato acessa essas terapias nos sistemas de saúde.
A DA é uma dermatite inflamatória crônica e recidivante, pruriginosa, que ocorre tipicamente em pacientes com histórico pessoal ou familiar de doenças atópicas (asma, rinite alérgica, alergia alimentar). Os critérios de Hanifin e Rajka (1980), refinados pelo UK Working Party (1994), seguem como base diagnóstica: o critério obrigatório é uma condição cutânea pruriginosa nas últimas 12 semanas, somada a pelo menos 3 dos 4 critérios adicionais — início antes dos 2 anos (não aplicável ao adulto), distribuição e morfologia típicas com envolvimento de flexuras, pele seca generalizada e história pessoal de outras doenças atópicas (ou história familiar, em crianças). Sinais considerados em crianças com DA grave e que ajudam em prova: hiperlinearidade palmar, dobra de Dennie-Morgan (infraorbital), demografismo branco, queratose pilar, pityriasis alba e eczema dos mamilos. A DA grave, objeto deste artigo, é definida operacionalmente pelos instrumentos de gravidade — não pelo olho do examinador.
Medir a gravidade com instrumento validado é o que separa conduta moderna de achismo — e é pré-requisito para indicar terapia sistêmica. O SCORAD (0 a 103) mistura extensão (reagra dos 9), sinais clínicos e sintomas subjetivos de prurido e insônia: menor que 25 é leve, 25 a 50 moderada e maior que 50 é grave. O EASI (0 a 72) pontua eritema, infiltração, escoriação e liquenificação em quatro regiões corporais, com peso para extensão; não tem faixas universais consagradas, mas os grandes ensaios clínicos definem doença moderada a grave como EASI maior ou igual a 16, área corporal acometida (BSA) maior ou igual a 10% e escore global do investigador (vIGA-AD) 3 ou 4 — muitos serviços usam EASI maior que 21 como marca de gravidade. O desfecho mais usado em pesquisas é o EASI-75, isto é, melhora de 75% do escore basal. O POEM (0 a 28) captura o que o paciente sente (7 sintomas na última semana): 17 ou mais já é DA grave. O DLQI (0 a 30) mede qualidade de vida em dermatologia: 11 ou mais significa efeito muito grande na vida do paciente. O vIGA-AD (0 a 4) é a avaliação global do investigador; sucesso terapêutico é vIGA 0 ou 1 com melhora de pelo menos 2 pontos.
| Instrumento | O que mede | Faixa | Corte de gravidade |
|---|---|---|---|
| SCORAD | Extensão + sinais + prurido e sono | 0-103 | > 50 = grave; 25-50 = moderada |
| EASI | Sinais clínicos por região corporal | 0-72 | ≥ 16 nos ensaios de terapia sistêmica; muitos usam > 21 como grave |
| POEM | Sintomas nas últimas semanas relatados pelo paciente | 0-28 | ≥ 17 = grave |
| DLQI | Qualidade de vida dermatológica | 0-30 | ≥ 11 = efeito muito grande |
| vIGA-AD | Avaliação global do investigador | 0-4 | 3 = moderada, 4 = grave; sucesso = 0-1 com melhora de ≥ 2 pontos |
A DA grave é a expressão cutânea de uma inflamação tipo 2 sobre uma barreira defeituosa. O primeiro golpe é da barreira: mutações de perda de função do gene da filagrina (FLG), presentes em 10 a 30% dos pacientes graves conforme a população, geram defeito na camada córnea, perda de água transepidérmica, pH alcalino e redução de fatores naturais de umectação; somam-se disbiose com predominância de Staphylococcus aureus e redução da diversidade microbiana. A barreira porosa deixa alérgenos, irritantes e superantígenos estafilocócicos penetrarem, e os queratinócitos respondem liberando alarmeiras: TSLP, IL-25 e IL-33. Essas citocinas polarizam linfócitos T para o fenótipo Th2, produtor de IL-4, IL-13 e IL-31 — as três citocinas centrais da doença. IL-4 e IL-13 induzem troca de classe para IgE, recrutam eosinófilos, deprimem a produção de peptídeos antimicrobianos (explicando as infecções) e prejudicam a própria barreira; IL-31 é a citocina do prurido, agindo em neurônios sensoriais e alimentando o ciclo prurido-coçada-lesão. Nas lesões crônicas somam-se Th1 (IFN-gama), Th17 e Th22, o que explica por que a inflamação da DA madura não é puramente tipo 2.
Esse mapa molecular é o mapa dos alvos terapêuticos — a prova adora essa tradução direta: dupilumabe bloqueia o receptor alfa da IL-4, comum às vias de IL-4 e IL-13, impedindo a sinalização tipo 2 sem imunossupressão global; tralokinumabe e lebrikizumabe neutralizam a IL-13; os inibidores de JAK orais interrompem a transdução intracelular (via JAK-STAT) das citocinas tipo 2 e da IL-31 — upadacitinibe é predominantemente JAK1, abrocitinibe é JAK1 —, e o ruxolitinibe tópico leva o mesmo mecanismo à pele. A resposta rápida do prurido com os inibidores de JAK (melhoria significativa em dias) reflete o bloqueio direto da via da IL-31. A terapia tópica, por sua vez, ataca os pontos de partida: emoliente restaura a barreira e corticoide tópico cala a inflamação local.
A distribuição muda com a idade e é item clássico de prova. Lactentes (2 meses a 2 anos): face, couro cabeludo e superfícies extensoras, com poupamento da área da fralda; lesões exsudativas e crostosas, com risco de impetiginização. Crianças e adolescentes: flexuras antecubital e poplítea, punhos, tornozelos e pescoço, com liquenificação pelo crônico coçar. Adultos: flexuras, mas também padrão cabeça e pescoço (incluindo dermatite palpebral e perioral), eczema das mãos e formas numulares disseminadas; a DA de início adulto tende ao padrão flexural e cabeça-pescoço e é mais frequente em mulheres. Em pele morena e negra, predomina padrão folicular (pápulas), hiperpigmentação pós-inflamatória e liquenificação, com eritema mais difícil de perceber — procure-se a coloração violácea. O sintoma rei é o prurido intenso, com piora noturna e perda de sono; a xerose é ubíqua. Na DA grave, somam-se eritrodermia (comprometimento difuso), fissuras e dor, impetiginização recorrente e impacto funcional e psiquiátrico mensurável.
| Diagnóstico alternativo | Pista diferencial | Confirmação |
|---|---|---|
| Psoríase | Placas extensoras bem delimitadas, escama prateada, lesão de unhas, pouco ou nenhum prurido | Exame clínico; biópsia se duvidosa |
| Dermatite seborreica | Distribuição seborreica (sulco nasolabial, couro cabeludo, esterno), descamação gordurosa, prurido leve | Exame clínico e resposta terapêutica |
| Dermatite de contato alérgica | Padrão geométrico na área de contato, história ocupacional ou de cosmético | Patch test (teste de contato) |
| Escabiose | Prurido noturno generalizado, sulcos interdigitais, contatos domiciliares sintomáticos | Exame parasitológico da lesão |
| Micose fungoide (adulto refratário) | Placas fixas, não pruriginosas em áreas fotoprotegidas, curso progressivo sem flutuação | Biópsia de pele com imunofenotipagem |
Nenhum sistêmico compensa um tratamento tópico mal feito — e a maior causa de DA aparentemente refratária é o subtratamento tópico, quase sempre por fobia de corticoide. A base é o emoliente: aplicação liberal pelo menos 2 a 3 vezes ao dia em todo o corpo, com consumo típico de 150 a 250 g por semana em adultos, imediatamente após o banho morno e curto com sabonete sem detergente (syndet). Os corticosteroides tópicos (TCS) continuam sendo o anti-inflamatório de primeira linha para as crises: escolher potência adequada ao sítio — alta potência (mometasona furoato 0,1%) para tronco e membros, muito alta (propionato de clobetasol 0,05%) por períodos curtos em palmas, plantas e crises extensas, baixa potência (hidrocortisona 1%) em face, dobras, genitália e lactentes — uma vez ao dia até o controle das lesões ativas (usualmente 1 a 2 semanas em pele grossa e até 2-4 semanas em tronco), seguindo de terapia proativa: aplicação 2 vezes por semana nos pontos de recaída para prevenir novas crises. Quantidade: a unidade da ponta do dedo (FTU, cerca de 0,5 g) cobre a área de duas palmas; a orientação em gramas evita o subtratamento. Nas áreas de pele fina e na manutenção prolongada, os inibidores de calcineurina tópicos — tacrolimo pomada 0,03% (2 a 15 anos) e 0,1% (adultos), pimecrólimo creme 1% (a partir de 2 anos) — são a alternativa sem atrofia, com ardência transitória como principal efeito adverso. O ruxolitinibe creme 1,5% (inibidor de JAK tópico, a partir de 12 anos) é opção de curto prazo e não contínuo para até 20% da superfície corporal.
| Tópico | Potência e exemplo | Onde usar | Regras práticas |
|---|---|---|---|
| Hidrocortisona 1% | Baixa potência | Face, dobras, genitália, lactentes | Uso livre de atrofia; potência às vezes insuficiente em placas liquenificadas |
| Mometasona furoato 0,1% | Alta potência | Tronco e membros | 1x ao dia até o controle; proativo 2x/semana nos pontos de recaída |
| Propionato de clobetasol 0,05% | Muito alta potência | Palmas, plantas, crises extensas de tronco | Cursos curtos; evitar face, dobras e uso contínuo prolongado |
| Tacrolimo 0,03% e 0,1% | Inibidor de calcineurina (sem atrofia) | Face, pálpebras, dobras; manutenção prolongada | Ardência transitória inicial; não usar em pele infectada |
| Pimecrólimo 1% | Inibidor de calcineurina | Mesmas áreas do tacrolimo, a partir de 2 anos | Seguro para manutenção; mesma ardência inicial |
Adjuvantes úteis na DA grave: banhos de hipoclorito de sódio a 0,005% (meia xícara de água sanitaria em banheira cheia, 2 vezes por semana) reduzem colonização e infecção estafilocócica; a terapia oclusiva úmida (wet wrap) sobre o TCS controla crises intensas e o prurido incontrolável; tratamento de focos infecciosos — mupirocina 2% tópica 3 vezes ao dia por 5 a 7 dias na impetiginização localizada, com antibiótico sistêmico antiestafilocócico nas formas extensas. O eczema herpético é urgência: erosões monomorfas em sulcos (perfuradas), dolorosas, com febre — suspender TCS, iniciar aciclovir imediatamente (400 a 800 mg oral 5 vezes ao dia; 10 a 15 mg/kg IV de 8/8 h nas formas extensas) e avaliar desidratação e sobreinfecção. Fotoproteção e correção de gatilhos (irritantes, tabagismo passivo, alérgenos relevantes documentados) completam o básico. Vacina da varíola e outras vacinas de vírus vivo em pele ativa extensa são contraindicadas pelo risco de eczema vaccinatum.
Quando o tópico otimizado falha, a primeira escalada clássica é a fototerapia com ultravioleta B de faixa estreita (NB-UVB): 2 a 3 sessões por semana, em torno de 24 a 36 sessões por ciclo, com resposta em 1 a 2 meses; contraindicações incluem fotosensibilidade (porfirias, lúpus cutâneo), história de câncer de pele e uso de imunossupressores fotossensibilizantes. Os sistêmicos convencionais são a segunda linha histórica e continuam essenciais onde os biológicos não são acessíveis — todos usados off-label para DA na maioria dos registros regulatórios, incluindo o brasileiro. Ciclosporina é o convencional com ação mais rápida: 2,5 a 5 mg/kg/dia em 2 tomadas, com melhora em 2 a 6 semanas, limitada a 1 a 2 anos pelo risco renal e hipertensão (monitorar pressão arterial e creatinina a cada 2-4 semanas no início, depois a cada 3 meses). Metotrexato 7,5 a 25 mg uma vez por semana (via oral ou subcutânea) com ácido fólico 5 mg/semana, iniciando efeito em 6 a 12 semanas — monitorar hemograma e transaminases. Azatioprina 1 a 3 mg/kg/dia exige dosagem de TPMT antes e vigilância de hemograma e pancreatite. Corticoide sistêmico (prednisona 0,5 mg/kg/dia) serve apenas como resgate breve de 1 a 2 semanas em crises graves; ciclos repetidos causam recaída rebote e as comorbidades do uso prolongado — o consenso da Sociedade Brasileira de Dermatologia (2023) considera o uso sistêmico apenas em curto prazo e casos selecionados.
| Sistêmico convencional | Dose | Início de efeito | Monitorização principal |
|---|---|---|---|
| Ciclosporina | 2,5-5 mg/kg/dia em 2 tomadas | 2-6 semanas | Pressão arterial e creatinina; limite de 1-2 anos |
| Metotrexato | 7,5-25 mg/semana + ácido fólico 5 mg/semana | 6-12 semanas | Hemograma e transaminases; teratogenicidade |
| Azatioprina | 1-3 mg/kg/dia | 8-12 semanas | TPMT antes; hemograma, transaminases, amilase |
| Prednisona (resgate) | 0,5 mg/kg/dia por 1-2 semanas no máximo | Dias | Evitar ciclos repetidos (rebote e comorbidades) |
O dupilumabe, anticorpo monoclonal contra o receptor alfa da IL-4, foi o primeiro biológico aprovado para DA e mudou o padrão de cuidado da doença grave. Esquema em adultos: 600 mg subcutâneo em dose única de carga, seguida de 300 mg a cada 2 semanas; em crianças a partir de 6 meses (aprovado nos principais registros) o esquema é ponderal. Nos estudos SOLO 1 e SOLO 2 (Simpson, NEJM 2016), 36 a 38% dos adultos atingiram pele clara ou quase clara (vIGA 0-1) na semana 16, contra 8 a 15% do placebo, e cerca de metade alcançou EASI-75, com melhora consistente de prurido e qualidade de vida. Perfil de segurança: reações no local de aplicação e conjuntivite (o efeito adverso distintivo, que pode exigir colírio e avaliação oftalmológica), sem a imunossupressão global dos convencionais; raras eosinofilias transitórias. O tralokinumabe (anti-IL-13) segue o mesmo esquema do dupilumabe (600 mg de carga e 300 mg a cada 2 semanas em adultos), com EASI-75 em torno de um terço a metade dos pacientes na semana 16, e o lebrikizumabe (anti-IL-13, aprovado na Europa) soma-se ao grupo.
Os inibidores orais de JAK trazem rapidez e potência com custo em segurança. Upadacitinibe (JAK1): 15 ou 30 mg uma vez ao dia, a partir dos 12 anos; no Measure Up 1 (Lancet, 2021), cerca de 70% dos pacientes com 15 mg e 80% com 30 mg atingiram EASI-75 na semana 16, contra aproximadamente 16% do placebo, com melhora do prurido já na primeira semana. Abrocitinibe (JAK1): 100 a 200 mg ao dia, a partir dos 12 anos, com EASI-75 em torno de 40 a 60% conforme a dose (JADE MONO). A classe carrega advertências de caixa comuns: eventos tromboembólicos e cardiovasculares maiores, malignidades, infecções graves (incluindo herpes zoster e reativação de tuberculose), citopenias e alterações lipídicas; antes de iniciar, rastrear tuberculose e hepatites, e usar com cautela ou evitar acima dos 65 anos e em portadores de fatores de risco cardiovascular e trombótico — razão pela qual as diretrizes os reservam para pacientes com doença grave e contraindicação ou falha de biológico, ou que preferem via oral. Em qualquer sistêmico, os critérios de indicação partem da mesma base: doença moderada a grave documentada por instrumento (EASI elevado, SCORAD maior que 50, DLQI impactado) que persiste apesar de tratamento tópico otimizado e, quando disponível, fototerapia.
| Terapia avançada | Alvo e via | Esquema no adulto | Resposta típica (semana 16) | Alerta principal |
|---|---|---|---|---|
| Dupilumabe | Receptor alfa da IL-4, subcutâneo | 600 mg de carga, depois 300 mg a cada 2 semanas | vIGA 0-1 em 36-38% (SOLO); EASI-75 em cerca de metade | Conjuntivite; reações locais |
| Tralokinumabe | IL-13, subcutâneo | 600 mg de carga, depois 300 mg a cada 2 semanas | EASI-75 em cerca de um terço a metade | Reações locais; conjuntivite menos frequente |
| Upadacitinibe | JAK1, oral | 15-30 mg uma vez ao dia (≥ 12 anos) | EASI-75 em cerca de 70% (15 mg) e 80% (30 mg); prurido melhora em dias | Trombose, eventos cardiovasculares, zoster, lipídios |
| Abrocitinibe | JAK1, oral | 100-200 mg uma vez ao dia (≥ 12 anos) | EASI-75 em torno de 40-60%, dose-dependente | Mesmas advertências de classe dos JAK |
| Ciclosporina (convencional) | Calcineurina, oral | 2,5-5 mg/kg/dia | Resposta em 2-6 semanas | Nefrotoxicidade e hipertensão; uso limitado no tempo |
A eficácia dos novos agentes criou um problema econômico: são medicamentos de alto custo, de uso contínuo, para uma doença prevalente — e é aqui que a análise de custo-efetividade entra na prova e na prática. O conceito central é a razão de custo-efetividade incremental (ICER): quanto custa cada ano de vida ajustado por qualidade (QALY) ganho com a nova terapia em relação ao comparador; o resultado se compara ao limiar de disposição a pagar do sistema (a OMS sugere, como referência clássica, 1 a 3 vezes o PIB per capita por QALY). Órgãos de avaliação de tecnologia como a NICE (Reino Unido) e a CONITEC (Brasil) usam essa lógica: a NICE (TA434) só recomendou o dupilumabe para DA grave não controlada com tratamento tópico otimizado e com desconto confidencial do fabricante — sem o desconto, o ICER ficava acima do limiar; em avaliações equivalentes, os JAK orais e o tralokinumabe enfrentaram a mesma exigência. No Brasil, o acesso pelo SUS depende de incorporação pela CONITEC, e os sistêmicos convencionais (ciclosporina, metotrexato) são usados off-label por serem os disponíveis; grande parte do uso de biológicos e JAK ocorre via planos de saúde, compra privada e judicialização, o que reproduz desigualdade de acesso. Tradução prática para o estudante: a escolha racional na DA grave começa pelo tópico otimizado (barato e negligenciado), passa pelos convencionais e só então escala aos agentes avançados — e, quando o sistema impõe fila, é o tópico bem conduzido que protege o paciente nesse intervalo.
As complicações cutâneas da DA grave são dominadas pelas infecções: impetiginização estafilocócica (crostas amareladas, exsudato), eczema herpético (emergência por herpes simples, com erosões em sulcos, dor intensa e febre — aciclovir imediato), molusco contagioso e verrugas, favorecidos pela disfunção da barreira e da imunidade. O risco de eczema vaccinatum contraindica a vacina da varíola em pacientes com DA ativa. As comorbidades atópicas seguem a chamada marcha atópica: parte substancial das crianças com DA grave desenvolve rinite alérgica e asma (em algumas coortes, cerca de um terço a metade), e a alergia alimentar é mais frequente nos quadros de início precoce e grave — o paciente de DA grave deve ser rastreado para asma e rinite. Associações descritas na DA grave merecem registro: catarata e queratocone, obesidade, doença cardiovascular em algumas coortes, além do impacto psiquiátrico — prurido crônico, privação de sono, ansiedade, depressão e, em estudos de adultos com DA grave, maior ideação suicida; o DLQI de um paciente com DA grave costuma superar o de muitas doenças consideradas mais graves. Prognóstico: a maioria das crianças melhora até a adolescência (estimativas clássicas de 60 a 80% com remissão ou melhora importante), mas DA grave de início precoce, mutação de filagrina e histórico familiar predizem persistência; a DA de início adulto tende ao curso crônico. Com os agentes avançados, o objetivo contemporâneo deixou de ser controle parcial e passou a ser pele clara ou quase clara (vIGA 0-1) sustentada.
1.Segundo os critérios do UK Working Party, qual é o achado obrigatório para o diagnóstico de dermatite atópica?
2.Qual valor de SCORAD define dermatite atópica grave?
3.Qual citocina é considerada a principal mediadora do prurido intenso da dermatite atópica e alvo racional do controle rápido da coceira?
4.Paciente com DA apresenta placas liquenificadas crônicas nas pálpebras e dobras antecubital que recaem sempre que o corticoide tópico é suspenso. Qual a melhor opção para uso prolongado nessas áreas?
5.Qual consumo semanal de emoliente é considerado adequado para um adulto com dermatite atópica?
6.Criança com DA grave desenvolve de forma abrupta erosões discretas e agrupadas em sulcos, muito dolorosas, com febre e piora rápida. Qual a conduta imediata?
7.Sobre o dupilumabe, qual assertiva é correta?
8.No ensaio Measure Up 1 (Lancet, 2021), qual foi o resultado aproximado de EASI-75 na semana 16 com upadacitinibe 30 mg ao dia?
9.Antes de iniciar inibidor oral de JAK para DA grave, além de história e exame, qual medida é mandatória por causa das advertências da classe?
10.No Brasil e na maioria dos sistemas públicos, qual é o principal argumento econômico que restringe o uso de biológicos como o dupilumabe na DA?
acesso de membros
Matérias, materiais na íntegra, resumos, quiz e revisões ficam liberados na sua conta — a prévia desfocada é só um gostinho.
Entrar e continuar