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Como reconhecer e tratar a anafilaxia durante anestesia: critérios clínicos, graus de Ring e Messmer, agentes etiológicos segundo NAP6 e GERAP, uso correto da adrenalina com doses, interpretação da triptase e investigação alergológica posterior.
[1] Mertes PM, Alla F, Tréchot P, Auroy Y, Jougla E; GERAP. Anaphylaxis during anesthesia in France: an 8-year national survey. J Allergy Clin Immunol. 2011;128(2):366-373. DOI 10.1016/j.jaci.2011.03.003 | [2] Harper NJN, Cook TM, Garcez T, et al. Anaesthesia, surgery, and life-threatening allergic reactions: epidemiology and clinical features of perioperative anaphylaxis in the 6th National Audit Project (NAP6). Br J Anaesth. 2018;121(1):159-171. DOI 10.1016/j.bja.2018.04.014 | [3] Harper NJN, Cook TM, Garcez T, et al. Anaesthesia, surgery, and life-threatening allergic reactions: management and outcomes in the 6th National Audit Project (NAP6). Br J Anaesth. 2018;121(1):172-188. DOI 10.1016/j.bja.2018.04.015 | [4] Cardona V, Ansotegui IJ, Ebisawa M, et al. World allergy organization anaphylaxis guidance 2020. World Allergy Organ J. 2020;13(10):100472. DOI 10.1016/j.waojou.2020.100472 | [5] Wang J, Lieberman JA, Wallace DV, Waserman S, Golden DBK. Anaphylaxis in practice: a guide to the 2023 practice parameter update. J Allergy Clin Immunol Pract. 2024;12(9):2325-2336. DOI 10.1016/j.jaip.2024.06.036 | [6] Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Alergia. Anafilaxia: atualização 2021. São Paulo: SBP; 2021. www.sbp.com.br · DOI 10.1016/j.bja.2018.04.014
A anafilaxia perioperatória é a emergência alérgica mais temida do centro cirúrgico: o paciente está anestesiado, não relata prurido nem sensação de morte iminente, os campos cirúrgicos escondem o rubor e a urticária, e os primeiros sinais (hipotensão, taquicardia, queda do CO2 exalado) se confundem com efeitos de drogas anestésicas e hipovolemia. A incidência gira em torno de 1 caso para cada 10.000 a 20.000 anestesias, e o 6th National Audit Project britânico (NAP6) estimou algo próximo de 1:11.000. A letalidade histórica varia entre 1,4% na série nacional francesa (GERAP) e aproximadamente 3-4% nos casos graves do NAP6. O reconhecimento é clínico e o tratamento é a adrenalina intramuscular precoce: atraso na adrenalina é o fator de risco modificável mais consistentemente associado a desfechos ruins. Para a prova de Alergia e Imunologia, o aluno precisa dominar três eixos: reconhecer o quadro intraoperatório, tratar com doses corretas e conduzir a investigação alergológica de 4 a 6 semanas depois.
A anafilaxia é definida pela Organização Mundial de Alergia (WAO 2020) como uma reação de hipersensibilidade grave, com início rápido e potencialmente fatal, que envolve a liberação súbita de mediadores de mastócitos e basófilos para a pele, mucosas, trato respiratório, cardiovascular e trato gastrointestinal. Do ponto de vista mecanístico, classifica-se em imunológica IgE-mediada (a maioria dos casos perioperatóticos confirmados), imunológica não IgE (imunocomplexos, ativação complementar) e não imunológica (ativação direta de mastócitos, como as reações a opioides e às reações de infusão de vancomicina, antigamente chamadas de anafilactoides). No centro cirúrgico, a classificação prática mais cobrada é a de Ring e Messmer, que gradua a gravidade em quatro níveis e orienta a via e a dose de adrenalina.
| Grau (Ring e Messmer) | Quadro clínico | Conduta inicial |
|---|---|---|
| Grau I | Sinais cutâneomucosos difusos (rubor, urticária) com taquicardia leve, sem hipotensão | Suspender o agente suspeito, vigilância intensa, adrenalina se houver progressão |
| Grau II | Sinais cutâneos + hipotensão (queda superior a 20-30 mmHg da pressão habitual), taquicardia, tosse, dispneia | Adrenalina 0,5 mg IM na coxa, oxigênio 100%, reposição volêmica |
| Grau III | Choque (hipotensão grave, colapso), broncospasmo; sinais cutâneos podem estar ausentes | Adrenalina IV em alíquotas de 50-100 mcg ou infusão, via aérea garantida, expansão agressiva |
| Grau IV | Parada circulatória ou respiratória | RCP avançada com adrenalina IV nas doses de parada; considerar circulação extracorpórea em refratariedade |
O inquérito nacional francês GERAP (1997-2004, publicado em 2011) notificou taxa próxima de 100 casos por milhão de anestesias e apontou os bloqueadores neuromusculares (BNM) como causa líder, responsáveis por cerca de 58% das reações confirmadas, seguidos pelo látex e antibióticos. O NAP6 britânico inverteu a ordem dos dois primeiros: antibióticos foram o grupo mais frequente (aproximadamente 46% dos casos, com a teicoplanina como o antibiótico individualmente mais implicado), seguidos pelos BNM (cerca de 33%, com rocurônio como o principal representante), clorexidina (aproximadamente 9%), látex (cerca de 5%, em queda acentuada) e corantes azuis. Mulheres e pacientes com histórico de reação prévia à anestesia têm risco aumentado, e o rocurônio concentra risco desproporcional ao seu consumo.
| Agente | NAP6 (Reino Unido, 2018) | GERAP (França, 2011) |
|---|---|---|
| Bloqueadores neuromusculares | cerca de 33%; rocurônio o mais implicado | cerca de 58%; suxametônio e rocurônio lideravam historicamente |
| Antibióticos | cerca de 46%; teicoplanina o mais implicado, depois cefalosporinas | cerca de 12-15% |
| Clorexidina | cerca de 9%, presente em antisépticos, gel uretral e cateteres | menos frequente |
| Corantes azuis (azul patente e isossulfan azul) | cerca de 4-6%, usados em linfografia sentinela | dados variáveis |
| Látex | cerca de 5% e em declínio | historicamente cerca de 20% nos anos 1990, em queda |
No mecanismo IgE-mediado, a exposição prévia ao fármaco (ou a estruturas semelhantes) sensibiliza mastócitos tissulares e basófilos circulantes; o reencontro cruzando dois epitopos de IgE de alta afinidade (Fc épsilon RI) dispara degranulação imediata com liberação de histamina, triptase, carboxipeptidase A3, prostaglandinas e leucotrienos, além de ativação da via do fator ativador de plaquetas (PAF). A histamina causa vasodilatação e aumento da permeabilidade, com sequestro de até 35-50% da volemia no interstício em minutos: daí o choque distributivo com hipovolemia relativa grave, que exige adrenalina e reposição volêmica simultâneas. Os BNM compartilham o epitopo da amônia quaternária, o que explica reatividade cruzada entre diferentes bloqueadores em cerca de 60-70% dos casos alérgicos a essa classe.
Três mecanismos especiais caem em prova. Primeiro, a bradicardia observada em parte dos casos graves (até em torno de 10%) decorre do reflexo de Bezold-Jarisch, disparado pelo coração subpreenchido, e não invalida o uso de adrenalina, que deve ser mantida e associada a volume. Segundo, betabloqueadores e inibidores da enzima conversora de angiotensina pioram a gravidade e a refratariedade, sendo o betabloqueado o paciente clássico que responde mal à adrenalina e melhora com glucagon, que ativa a adenilciclase por receptor próprio, contornando o bloqueio beta. Terceiro, reações não imunológicas (opioide de liberação histamínica rápida, vancomicina infundida rápido) podem mimetizar anafilaxia, em geral com quadro cutâneo predominante e hipotensão moderada.
O timing orienta o culpado: reação nos primeiros 5 a 10 minutos após a indução sugere BNM ou antibiótico profilático; reação no posicionamento ou na antissepsia sugere látex ou clorexidina; reação na infusão de corante sugere azul patente. O padrão clássico combina hipotensão inexplicada (queda superior a 30% ou valores abaixo de 90-100 mmHg de sistólica) com taquicardia compensatória, aumento das pressões das vias aéreas e sibilos, queda do CO2 exalado (hipoventilação alveolar por queda do débito cardíaco e broncoconstrição), dessaturação e, quando visível, rubor generalizado ou urticária. Atenção: sinais cutâneos podem estar ausentes ou ocultos pelos campos em até um em cada dez casos graves, e a ausência de urticária jamais exclui anafilaxia no paciente anestesiado.
O diagnóstico da fase aguda é 100% clínico: não se aguarda laboratório para tratar. A confirmação laboratorial usa a triptase sérica, com a janela temporal correta: amostra na fase aguda (idealmente entre 30 minutos e 2 horas do início), outra entre 24 horas e 14 dias para basal (ou em consulta posterior, com pelo menos 24 horas de distância). A regra consagrada sugere mastócitos ativados quando a triptase aguda excede 1,2 vez a triptase basal somada de 2 mcg/L. Triptase normal não exclui anafilaxia (a liberação pode ser discreta ou a amostra tardia), e triptase basal persistentemente elevada (acima de 20 mcg/L) obriga a investigar mastocitose sistêmica ou síndrome de ativação mastocitária, condições que aumentam o risco de reações perioperatórias graves.
A investigação etiológica definitiva é feita em serviço de alergologia, no mínimo 4 a 6 semanas após a reação, tempo necessário para a reconstituição dos mediadores cutâneos e o fim da refratariedade da pele (testar antes gera falsos negativos). Compreende testes cutâneos de leitura imediata (prick test e intradermorrea com diluições padronizadas segundo protocolos ENDA/EAACI) para anestésicos, BNM, antibióticos, clorexidina e opioides, IgE específica sérica quando disponível (peniciloil, suxametônio, clorexidina, látex) e, em centros de referência, teste de ativação de basófilos. Todo paciente deve receber alta com relatório escrito nomeando o agente confirmado e alternativas seguras testadas.
O tratamento tem cinco pilares simultâneos: pedir ajuda e comunicar a equipe cirúrgica, suspender o agente suspeito, adrenalina precoce, reposição volêmica agressiva e via aérea com oxigênio 100%. A adrenalina intramuscular na face anterolateral da coxa na dose de 0,5 mg no adulto (0,01 mg/kg na criança, máximo de 0,5 mg) pode ser repetida a cada 5 minutos; no paciente anestesiado e monitorizado, o NAP6 e as diretrizes britânicas admitem alíquotas intravenosas de 50-100 mcg tituladas sob monitorização contínua, seguidas de infusão contínua na refratariedade. A reposição inicial é de cristaloide 20 mL/kg, frequentemente repetida (adultos podem necessitar de 1 a 2 litros ou mais). Antihistamínicos e corticoides são secundários e nunca devem retardar a adrenalina.
| Medida | Dose em adultos | Observações |
|---|---|---|
| Adrenalina IM | 0,5 mg (0,5 mL da solução 1:1000) na face anterolateral da coxa, a cada 5 minutos | Medida de maior impacto; não esperar choque instalado |
| Adrenalina IM pediátrica | 0,01 mg/kg por dose, máximo de 0,5 mg | Mesma via e intervalo do adulto |
| Adrenalina IV em alíquotas | 50-100 mcg em bolo lento, repetidos conforme resposta | Somente sob monitorização contínua (centro cirúrgico, UTI) |
| Infusão contínua de adrenalina | 0,05 a 0,2 mcg/kg/min, titulada à pressão arterial | Choque refratário a bolus; considerar segunda vasopressora |
| Expansão volêmica | Cristaloide 20 mL/kg em bolo, repetido; 1-2 L ou mais no adulto | Extravasamento de até 35-50% da volemia justifica volumes grandes |
| Glucagon | 1-2 mg IV lento, seguido de infusão de 5-15 mcg/min | Paciente em betabloqueador com resposta inadequada à adrenalina |
| Anti-histamínico e corticoide | Exemplo: dexclorfeniramina 5 mg IV e hidrocortisona 200 mg IV de 6/6 h | Adjuntos; sem evidência de reversão da fase aguda |
| Broncodilatador | Salbutamol inalatório em repetição ou IV conforme protocolo | Útil no broncospasmo predominante |
Cerca de 3 a 5% das anafilaxias são refratárias a múltiplos bolus de adrenalina e volume. Nesses casos, mantém-se infusão de adrenalina, acrescenta-se segunda vasopressora (noradrenalina, vasopressina), corrige-se acidose, considera-se glucagon no betabloqueado e, em centros com disponibilidade, oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO) como resgate descrito em séries de casos. O sugammadex, ao encapsular o rocurônio livre, foi proposto como antídoto na anafilaxia por esse bloqueador; a evidência é limitada a relatos e não substitui o protocolo padrão com adrenalina. A parada cardíaca anafilática tem prognóstico reservado e exige RCP prolongada com adrenalina IV nas doses de parada a cada 3-5 minutos, reconhecendo que a volemia drasticamente reduzida reduz a eficácia das compressões isoladas.
Reações bifásicas (recidiva após resolução inicial, sem nova exposição) ocorrem em uma minoria dos casos, tipicamente nas primeiras 8 horas; por isso a observação recomendada é de pelo menos 6 a 12 horas nos casos moderados e de 24 horas, idealmente em unidade de terapia intensiva, nos graus III e IV. Antes da alta, o paciente deve receber orientação escrita, ser alertado sobre a importância da investigação e ser encaminhado ao alergologista com as amostras de triptase e a descrição cronológica dos fármacos administrados (incluindo horários exatos), o que costuma definir o culpado. Corticoides não previnem comprovadamente a fase bifásica e não justificam observações prolongadas isoladamente.
A prevenção começa na anamnese pré-anestésica: reação prévia à anestesia, alergia a antibióticos, a clorexidina ou a látex, histórico de cirurgias múltiplas (látex), espinha bífida e urologia repetida. Com o agente identificado, planeja-se técnica alternativa: usar bloqueador neuromuscular com teste cutâneo negativo documentado ou evitar a classe inteira e usar anestesia total intravenosa com máscara laríngea; substituir clorexidina por polvidona-iodada; usar ambiente e materiais livres de látex; e, na alergia a betalactâmicos, aplicar os protocolos de desmarcação (delabeling) com testes e provocação, uma vez que a maioria dos rótulos de alergia à penicilina é falso. O Brasil tem diretriz da Sociedade Brasileira de Pediatria (atualização 2021) que padroniza reconhecimento e tratamento da anafilaxia em pediatria, incluindo doses de adrenalina por peso.
1.Segundo o NAP6 (Reino Unido), qual grupo de fármacos foi a causa mais frequente de anafilaxia perioperatória confirmada?
2.Na série nacional francesa (GERAP), qual classe lidera as causas de anafilaxia durante anestesia?
3.Qual é a primeira medida farmacológica diante de hipotensão e urticária difusa 5 minutos após a indução com rocurônio?
4.Qual é a janela temporal correta para coletar a triptase sérica na fase aguda da anafilaxia?
5.Paciente em uso de propranolol evolui com anafilaxia e mantém hipotensão após duas doses de adrenalina e 2 L de cristaloide. Qual fármaco deve ser acrescentado?
6.Qual achado anestésico precoce sugere fortemente anafilaxia durante a indução?
7.No grau III de Ring e Messmer, o quadro é caracterizado por:
8.Quando devem ser realizados os testes cutâneos após um episódio de anafilaxia perioperatória?
9.Por que ocorre reatividade cruzada entre diferentes bloqueadores neuromusculares na anafilaxia alérgica?
10.Qual conduta é correta na alta do paciente que teve anafilaxia grau III durante cirurgia?
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