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Cadeia de sobrevivência, compressões de qualidade, desfibrilação com energias bifásicas, algoritmo de ritmo chocável versus não chocável com todas as doses, 4H e 4T com ultrassom na pausa e o cuidado pós-ROSC completo conforme AHA 2020 e ERC 2021.
[1] Panchal AR, Bartos JA, Cabañas JG, et al. Part 3: Adult Basic and Advanced Life Support: 2020 American Heart Association Guidelines for CPR and ECC. Circulation. 2020;142(16_suppl_2):S366-S468 · DOI 10.1161/CIR.0000000000000916 | [2] Soar J, Böttiger BW, Carli P, et al. European Resuscitation Council Guidelines 2021: Adult advanced life support. Resuscitation. 2021;161:115-151 · DOI 10.1016/j.resuscitation.2021.02.013 | [3] Dankiewicz J, Wetterslev J, Cronberg T, et al. Hypothermia versus Normothermia after Out-of-Hospital Cardiac Arrest. N Engl J Med. 2021;385:2337-2346 · DOI 10.1056/NEJMoa2100591 | [4] Callaway CW, Donnino MW, Fink EL, et al. Part 8: Post-Cardiac Arrest Care: 2015 American Heart Association Guidelines Update for CPR and ECC. Circulation. 2015;132(18 Suppl 2):S465-S482 · DOI 10.1161/CIR.0000000000000262 · DOI 10.1161/CIR.0000000000000916
A parada cardiorrespiratória (PCR) é a emergência definitiva: nos Estados Unidos ocorrem cerca de 350 a 400 mil PCR extra-hospitalares por ano atendidas por serviços de resgate, com sobrevida à alta hospitalar em torno de 10 a 12%, e estimativas brasileiras citam algo próximo de 400 mil casos anuais. A sobrevida depende de um intervalo curto e previsível: RCP de alta qualidade iniciada imediatamente e desfibrilação nos primeiros minutos, quando o ritmo é fibrilação ventricular (FV). Em FV não testemunhada, cada minuto sem desfibrilação reduz a sobrevida em aproximadamente 7 a 10%. O algoritmo universal do suporte avançado de vida (ALS/ACLS), consolidado pela American Heart Association (AHA) 2020 e pelo European Resuscitation Council (ERC) 2021, existe exatamente para padronizar decisões sob pressão. Este artigo percorre o algoritmo completo com números, doses e tempos, na ordem em que você vai usar na prova e na sala de parada.
A cadeia de sobrevivência organiza a resposta à PCR em elos sequenciais, e a quebra de qualquer elo derruba a sobrevida. Na PCR extra-hospitalar, os elos são: reconhecimento imediato e ativação do serviço de emergência; RCP de alta qualidade precoce; desfibrilação precoce; suporte avançado de vida; cuidados pós-parada integrados; e recuperação (reabilitação e suporte ao sobrevivente e à família, elo formalizado em 2020). Na PCR intra-hospitalar, somam-se a monitorização e prevenção em pacientes de risco e a ativação da equipe de resposta rápida, com o evento acontecendo em ambiente com desfibrilador e equipe disponíveis em segundos.
O fundamento fisiológico é simples: a RCP manual gera apenas 20 a 30% do débito cardíaco normal, o que sustenta um fluxo coronário e cerebral marginal justamente suficiente para retardar a morte celular. Desfibrilação em até 3 a 5 minutos em FV testemunhada, seguida de RCP, produz sobrevidas de 50 a 70% em alguns cenários; após 10 minutos, a sobrevida cai para menos de 10%. O suporte avançado (medicamentos, via aérea, diagnóstico de causa) melhora o desfecho marginalmente quando o básico foi bem feito, e quase nada quando o básico falhou.
Reconhecer a PCR é mais rápido do que parece e a demora é um erro clássico. O profissional deve verificar responsividade (chamar e estimular) e, simultaneamente, observar a respiração por até 10 segundos: respiração ausente ou agônica (gasping) em paciente não responsivo é PCR até prova contrária. O pulso só deve ser palpado por profissionais treinados, por não mais de 10 segundos, e apenas na artéria carótida (ou femoral em acessos difíceis). Diante de dúvida, inicia-se a RCP: o custo de comprimir um coração que ainda bate é muito menor do que o de não comprimir um coração parado.
Dois cenários pedem atenção especial. Primeiro, a respiração agônica: presente em até 40% das PCR nos primeiros minutos, consiste em inspirações lentas, ruidosas e irregulares em paciente inconsciente, e é frequentemente confundida com respiração normal por leigos e profissionais. Segundo, o paciente em ventilação mecânica: a apneia com circulação preservada dispara alarmes do ventilador, mas o paciente permanece com pulso; nesses casos a verificação rápida de PETCO2 (curva persistente) e do pulso resolve, e desconectar o ventilador pode revelar agonia ventilatória. Em ambos, o princípio é o mesmo: inconsciente mais respiração anormal ou ausente aciona o algoritmo.
Sem via aérea avançada, o ciclo é 30 compressões para 2 ventilações. Com via aérea avançada (tubo traqueal ou supraglótico), as compressões são contínuas com 10 ventilações por minuto (uma a cada 6 segundos). O contexto típico de má qualidade é mensurável: profundidade insuficiente, frequência lenta, leaning e hiperventilação. A hiperventilação merece destaque porque é iatrogenia invisível: frequências acima de 30/min aumentam a pressão intratorácica média, colapsam o retorno venoso, reduzem o débito gerado pelas compressões e pioram a perfusão coronária e cerebral. A capnografia em onda serve como monitor de qualidade em tempo real: PETCO2 abaixo de 10 mmHg persistente indica fluxo pulmonar (e, portanto, débito) insuficiente, e deve disparar revisão imediata da técnica.
A decisão de via aérea na PCR é de timing, não de sofisticação: máscara-bolsa-válvula bem utilizada com boa vedação é suficiente nos primeiros minutos. Onde a bolsa-válvula falha (vedação difícil, obesidade, trauma facial, intubação por aspiração), inserir via supraglótica é rápido e aceitável. A intubação traqueal é definitiva, mas nunca pode justificar pausas longas de compressão: é procedimento que interrompe a RCP, idealmente realizado por operador experiente, com confirmação por capnografia em onda (presença de curva contínua de CO2 expirado por mais de 6 ciclos de compressão).
A capnografia quantitativa é a ferramenta com mais informação por mmHg em toda a sala: durante a RCP, o PETCO2 (normal 35-45 mmHg) cai para valores de 10-20 mmHg porque o CO2 expirado depende do débito cardíaco que as compressões geram. Três usos práticos caem em prova. Primeiro, qualidade: PETCO2 menor que 10 mmHg indica compressão ineficaz, e deve levar a corrigir técnica antes de qualquer outra conduta. Segundo, prognóstico: PETCO2 persistentemente abaixo de 10 mmHg após 20 minutos de suporte avançado bem conduzido, sem causa reversível identificada, correlaciona-se fortemente com não sobrevivência e entra na decisão de término dos esforços. Terceiro, ROSC: elevação abrupta e sustentada do PETCO2 (por exemplo, de 15 para 40 mmHg) é o sinal mais precoce de retorno da circulação espontânea, porque o coração que volta a perfundir o pulmão entrega CO2 de tecidos que acumularam metabólitos.
Só dois ritmos recebem choque: FV e taquicardia ventricular sem pulso (TVSP). O choque não reinicia o coração, ele para a despolarização caótica para que um marcapasso organizado assuma. O DEA é seguro porque analisa o ritmo e só libera descarga em ritmos chocáveis; no desfibrilador manual, o operador interpreta o traçado. As pás/adesivos vão em posição anterolateral (subclavicular direita e linha axilar média esquerda, ao nível do mamilo) ou ântero-posterior; a pele deve estar seca, o tórax raspado se necessário, o oxigênio fluxante afastado no momento da descarga e ninguém tocando a vítima.
| Situação | Energia no adulto | Observação |
|---|---|---|
| Desfibrilador bifásico, energia conhecida | 120-200 J no 1º choque | Seguir recomendação do fabricante (retilinear 120 J; bifásico truncado 150-200 J) |
| Desfibrilador bifásico, energia desconhecida | Máxima disponível | Regra segura do AHA 2020 |
| Choques subsequentes | Mesma energia ou escalonada | Energias mais altas são aceitáveis e não aumentam dano |
| Desfibrilador monofásico | 360 J desde o 1º choque | Padrão fixo |
| Cardioversão de TV com pulso | 100 J inicial (sincronizada) | Aumentar se falhar; sincronizar sempre |
| Criança | 2 J/kg no 1º choque, depois 4 J/kg | Escalonar até 10 J/kg ou energia máxima de adulto |
O tempo entre choque e retomada das compressões é performance pura: após a descarga, retomam-se compressões imediatamente, sem checar pulso ou ritmo antes de 2 minutos, porque a maioria dos ritmos pós-choque não perfunde imediatamente e as compressões debridam o miocárdio. O esquema de choque único seguido de 2 minutos de RCP substituiu os três choques sequenciais do século passado, com exceções pontuais: mantém-se a série de até três choques iniciais na FV testemunhada logo após cirurgia cardíaca ou cateterismo (ritmo monitorizado, coração ainda quente e passível de reversão imediata com choque de baixa energia).
Memorize a sequência por ciclos de 2 minutos, cada um terminando com uma pausa de checagem de até 10 segundos. O encadeamento de medicamentos é o item mais cobrado e o mais esquecido na prática.
| Medicamento | Dose na PCR do adulto | Momento no algoritmo |
|---|---|---|
| Adrenalina (epinefrina) | 1 mg IV/IO em bolus, repetido a cada 3-5 min | Após o 2º choque; primeira linha no ritmo não chocável |
| Amiodarona | 300 mg IV/IO em bolus; dose adicional única de 150 mg | Após o 3º choque (FV/TVSP refratária) |
| Lidocaína | 1-1,5 mg/kg IV/IO; repetir 0,5-0,75 mg/kg; máximo 3 mg/kg | Alternativa à amiodarona na FV refratária |
| Sulfato de magnésio | 1-2 g IV/IO diluído em 10 mL | Torsades de pointes ou hipomagnesemia presumida |
| Bicarbonato de sódio | 1 mEq/kg IV | Hipercalemia e intoxicação por antidepressivos tricíclicos; não é rotina |
| Atropina | Sem dose recomendada | Não tem papel na assistolia nem na AESP |
A fisiologia farmacológica explica o timing: a adrenalina aumenta a pressão diastólica (pressão de perfusão coronária) por vasoconstrição alfa-adrenérgica, o que aumenta a chance de ROSC, mas o estudo PARAMEDIC-2 (maior ensaio randomizado de adrenalina na PCR extra-hospitalar, NEJM 2018) mostrou ganho de sobrevida ao hospital sem aumento proporcional de sobrevida com bom desfecho neurológico, provavelmente porque doses repetidas pioram a microcirculação cerebral. É por isso que a adrenalina é recomendada, mas o real pilar do desfecho segue sendo compressão e choque precoces. A amiodarona, por sua vez, bloqueia múltiplos canais (sódio, potássio, betabloqueio suave) e aumenta a taxa de sobrevivência ao choque na FV refratária, sem evidência consistente de ganho de sobrevida à alta.
A atividade elétrica sem pulso (AESP) é ritmo organizado sem pulso palpável; a assistolia é ausência de despolarização ventricular. Nenhum dos dois responde a choque: energia desperdiçada aqui é erro grave. A conduta é RCP de qualidade com adrenalina 1 mg IV/IO a cada 3-5 minutos começando o quanto antes, porque em ritmos não chocáveis a adrenalina precoce (idealmente nos primeiros ciclos) é a única intervenção farmacológica associada a aumento de sobrevida. Ao mesmo tempo, AESP e assistolia são os ritmos em que a causa subjacente mais determina o desfecho: a AESP de início súbito em paciente previamente bem é uma emergência cirúrgica ou trombótica disfarçada (tamponamento, TEP, hipovolemia, pneumotórax hipertensivo, hipercalemia) até que se prove o contrário.
Um refinamento moderno é a distinção entre AESP verdadeira e pseudo-AESP: na pseudo-AESP (ou AESP com atividade mecânica residual), o ultrassom na pausa mostra contração miocárdica fraca, o PETCO2 é maior que 10-20 mmHg e o paciente pode ter pulso central não palpável. Esse subgrupo responde a volume e correção de causa, e o ultrassom muda a conduta em tempo real. Se durante a RCP surge ritmo organizado, palpa-se o pulso apenas na pausa programada; se não há pulso, segue o algoritmo de não chocável; se há pulso, inicia-se imediatamente o cuidado pós-ROSC. Assistolia com PETCO2 menor que 10 mmHg após 20 minutos de RCP bem conduzida, sem causa reversível, autoriza discussão de término dos esforços.
O diagnóstico diferencial de toda PCR se resume a oito (nove, com a trombose coronária explícita) causas reversíveis. A pausa de checagem de ritmo, com sonda subxifoide posicionada antes da pausa, permite em 10 segundos julgar: presença de atividade cardíaca, tamanho e função das câmaras, pericárdio e veia cava inferior. A ausência de qualquer atividade cardíaca no ultrassom correlaciona-se com sobrevida próxima de zero, e é um dado poderoso para a decisão de continuidade.
| Causa (4H/4T) | Como suspeitar e detectar | Tratamento específico |
|---|---|---|
| Hipóxia | PCR precedida de insuficiência respiratória, obstrução de via aérea, aspiração; US sem deslizamento pulmonar sugere intubação esofágica ou pneumotórax | Oxigenar, via aérea definitiva, corrigir posição do tubo |
| Hipovolemia | VCI colapsada, coração pequeno e hipercontrátil, FAST com líquido livre, contexto de trauma/hemorragia | Volume urgente, controle do sangramento, transfusão maciça |
| Hipercalemia e distúrbios metabólicos | Renal crônico em diálise, ECG com T apiculadas, QRS largo, ondas P ausentes; gasometria com K | Cálcio (gluconato/cloreto), insulina com glicose, diálise |
| Hipotermia | Temperatura central menor que 35 °C, onda J de Osborne no ECG, contexto de exposição/afogamento | Reaquecimento ativo; não declarar óbito antes de reaquecer |
| Trombose coronária aguda | Infarto prévio, parede hipocinética focal ao US, ECG pós-ROSC com supradesnivelamento | Coronariografia e angioplastia, de preferência após ROSC |
| Tromboembolismo pulmonar | VD dilatado e hipocinético, septo retalhado, VCI cheia, contexto de TEV/cirurgia/imobilização | Trombólise sistêmica durante a RCP |
| Tamponamento cardíaco | Derrame pericárdico com colapso de AD, coração balançando, contexto de trauma/uremia/neoplasia | Pericardiocentese por agulha, toracotomia no trauma |
| Tórax hipertensivo (pneumotórax hipertensivo) | Desvio de traqueia, ingurgitamento jugular, US sem deslizamento nem ponto pulmonar, VCI cheia | Descompressão com agulha (4º-5º EIC hemiclavicular), dreno torácico |
| Toxinas | História de ingestão, pupilas, ECG (QRS largo no antidepressivo tricíclico), parada em jovem previamente sadio | Antídotos específicos, bicarbonato no tricíclico |
O retorno da circulação espontânea é o começo de uma segunda emergência: a síndrome pós-parada cardíaca, combinando lesão cerebral anóxica, disfunção miocárdica atordoada, redistribuição da perfusão e a doença de base. A lesão neurológica anóxica é a principal causa de morte em pacientes que sobrevivem às primeiras 24 horas, e a retirada de suporte por prognóstico neurológico ruim responde por cerca de metade das mortes intra-hospitalares pós-PCR. O cuidado pós-ROSC é um pacote, e cada item tem alvo numérico.
A qualidade técnica da RCP depende de uma equipe organizada, e as diretrizes tratam isso como conteúdo de prova: líder claramente identificado, posicionado para enxergar o todo sem executar tarefas manuais; distribuição de papéis antes do primeiro choque (compressores 1 e 2, via aérea, acesso venoso e medicamentos, operador do desfibrilador, cronometrador e registrador); comunicação de circuito fechado, em que quem recebe a ordem a repete em voz alta antes de executar; e retroalimentação por dispositivos em tempo real (acelerômetros, capnografia, metrônomo) com correção imediata de erros. Após o evento, o debriefing estruturado, com ou sem dados do desfibrilador, melhora o desempenho da equipe nos próximos eventos e é recomendado nos programas de qualidade institucionais.
1.Quais são os parâmetros de compressão torácica de alta qualidade no adulto, conforme AHA 2020/ERC 2021?
2.Em qual momento do algoritmo de FV/TV sem pulso entra a primeira dose de adrenalina?
3.Paciente em FV refratária recebeu choque 1, adrenalina após o choque 2 e choque 3. Qual o próximo medicamento?
4.A capnografia em onda durante a RCP mostra PETCO2 de 6 mmHg há mais de 20 minutos de ALS bem conduzido, sem causa reversível identificada. Qual a interpretação?
5.Qual energia deve ser usada no primeiro choque de um desfibrilador bifásico cuja energia recomendada pelo fabricante é desconhecida?
6.Na assistolia, qual a conduta farmacológica correta?
7.PCR com padrão de torsades de pointes e história de uso de diurético sem reposição. Qual fármaco específico?
8.No cuidado pós-ROSC, quais alvos de oxigenação e ventilação devem ser buscados?
9.Gestante de 30 semanas em AESP. Qual medida específica da RCP na gravidez está correta?
10.Sobre o controle de temperatura após PCR extra-hospitalar em paciente comatoso, o que o TTM2 e as recomendações atuais estabelecem?
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