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Artigo baseado no position paper de Brenner e colaboradores (Annals of Anatomy, 2026) que critica a representação homogênea do corpo humano no ensino de anatomia. Cobre as dimensões da diversidade (idade, sexo e gênero, cor de pele, hábito corporal, deficiência, estado de saúde), os dados de sub-representação em materiais didáticos, o papel dos doadores de corpo, estratégias de auditoria e intervenção curricular e a agenda de pesquisa proposta.
[1] Brenner E, Nachtschatt U, Konschake M, Pechriggl E. Diversity in anatomical education. Ann Anat. 2026;264:152782 · DOI 10.1016/j.aanat.2026.152782 · PMID 41547461 | [2] Ebede T, Papier A. Disparities in dermatology educational resources. J Am Acad Dermatol. 2006;55(4):687-690 · DOI 10.1016/j.jaad.2005.10.068 · PMID 17010750 | [3] Standring S. Gray's Anatomy. 42ª ed. Elsevier; 2020 | [4] Moore KL, Dalley AF, Agur AMR. Clinically Oriented Anatomy. 8ª ed. Wolters Kluwer; 2018 | [5] Federative International Programme for Anatomical Terminology. Terminologia Anatomica (TA2). 2ª ed. 2019 · https://ifaa.net | [6] Brasil. Ministério da Educação. Resolução CNE/CES nº 3, de 20 de junho de 2014 (Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de Medicina) · http://portal.mec.gov.br · DOI 10.1016/j.aanat.2026.152782
A anatomia é a primeira disciplina em que o estudante de medicina encara um corpo como objeto de cuidado, e o que ele vê nesse primeiro ano molda, para sempre, o protótipo mental de paciente. O position paper de Brenner e colaboradores, publicado na Annals of Anatomy em 2026 para ancorar um número especial sobre o tema, critica exatamente isso: os materiais dominantes no ensino anatômico — livros-texto, plataformas digitais e modelos — apresentam uma imagem estreita do corpo, tipicamente de um adulto jovem, branco, saudável e do sexo masculino, que não reflete a diversidade dos pacientes que o egresso vai atender e que reforça vieses já instalados na medicina. Este artigo traduz essa crítica para o estudante brasileiro: o que é diversidade em anatomia, quais dados sustentam o problema, por que ele tem consequência clínica e como escolas e docentes vêm corrigindo a rota.
Diversidade na educação anatômica é a representação, nos recursos de ensino, da variação real do corpo humano em múltiplas dimensões simultâneas: idade (do recém-nascido ao idoso), sexo biológico e identidade de gênero, cor de pele e etnia, hábito corporal (magreza, sobrepeso, obesidade), presença de deficiências e próteses, estado de saúde (doenças crônicas, cicatrizes cirúrgicas, ostomias) e variações anatômicas genuínas que a dissecação revela. O ponto central do argumento de 2026 é que nenhum desses eixos isolado basta: um atlas pode mostrar igualmente homens e mulheres e ainda assim exibir apenas pele clara, corpos magros e jovens, transmitindo a mesma mensagem implícita de que existe um corpo correto a ser aprendido e desvios a serem tolerados.
| Dimensão | Problema no material padrão | Exemplo de intervenção |
|---|---|---|
| Idade | Predomínio de adultos jovens; osteologia e superfície do idoso ficam invisíveis | Incluir imagens de pele enrugada, coluna com cifose e remodelamento ósseo senil |
| Sexo e gênero | Homem como padrão neutro; variação feminina tratada como exceção | Alternar sistematicamente o sexo das figuras; discutir diferenças médias com sobreposição |
| Cor de pele e etnia | Fototipos I e II dominam as imagens clínicas e de superfície | Fotografar cada achado em múltiplos fototipos, incluindo eritema e cianose em pele escura |
| Hábito corporal | Corpos magros como norma; obesidade ausente da iconografia | Dissecar corpos com obesidade e ensinar palpação com panículo adiposo presente |
| Deficiência e próteses | Corpos íntegros como modelo único | Incluir próteses, amputações e dispositivos implantáveis nas aulas de imagem e dissecação |
| Estado de saúde | Apenas corpos hígidos aparecem; cicatrizes cirúrgicas, ostomias e fístulas raramente são mostradas | Bancas com peças patológicas e correlação com pacientes reais |
A crítica ao corpo único não é retórica: ela começou pela mensuração em materiais de ensino. O estudo clássico de Ebede e Papier, de 2006, examinou recursos educacionais de dermatologia e constatou sub-representação marcante de imagens de pele escura em atlas e bases didáticas, achado replicado em levantamentos posteriores de livros e bibliotecas de imagens. O problema atravessa fronteiras e é particularmente gritante no Brasil, onde mais da metade da população se declara preta ou parda no Censo 2022 do IBGE, cerca de 11% tem 65 anos ou mais e mais de um em cada cinco adultos vive com obesidade segundo a Pesquisa Nacional de Saúde — um perfil demográfico radicalmente distinto do corpo jovem, branco e magro que domina os materiais. Nos bancos de imagens dermatológicas usados para treinar olho clínico e alimentar algoritmos, a hegemonia de fototipos claros é apontada como causa de menor acurácia diagnóstica em pele escura, com atraso de diagnóstico de melanoma e inflamações superficiais.
A aprendizagem visual de medicina funciona por exposição a exemplares: o estudante constrói um protótipo de cada achado a partir das imagens que viu, e a heurística de disponibilidade faz esse protótipo pesar nas decisões futuras. Quando todos os exemplos de eritema, de icterícia, de lesão de pele e de hábito corporal pertencem ao mesmo perfil, o aluno não aprende a reconhecer a variação — e o corpo que foge do padrão passa a parecer anômalo, estranho ou até perigoso. O position paper de 2026 nomeia ainda dois amplificadores: o currículo oculto, que ensina pela omissão quais corpos importam, e a transferência desse viés para as ferramentas digitais, porque bancos de imagens homogêneos treinam modelos de inteligência artificial que reproduzem e escalam a mesma sub-representação, em um ciclo de retroalimentação.
O estudante consegue diagnosticar a homogeneidade do próprio curso com uma auditoria simples de seus materiais de estudo. Os locais clássicos: atlas e livros-texto, em que a figura do homem branco jovem é apresentada como o humano genérico; simuladores e manequins de treino de procedimentos, historicamente produzidos em tom de pele claro e com morfologia única; pacientes padronizados e voluntários de demonstração de anatomia de superfície, recrutados sem atenção à diversidade; bancos de imagem radiológica centrados no corpo padrão; e as avaliações, cujos enunciados e figuras repetem o mesmo estereótipo e consolidam o ciclo. Em cada um desses pontos existe uma decisão editorial ou pedagógica que pode ser revista sem custo proibitivo.
Entre todas as ferramentas de ensino, argumentam Brenner e colaboradores, a dissecação de doadores é a que oferece a visão mais autêntica e variada da anatomia humana: os corpos doados chegam com idades avançadas, doenças crônicas, cicatrizes de cirurgias, próteses, variações vasculares e nervosas genuínas e todos os fototipos, exatamente porque não passaram por nenhum filtro estético. Reconhecer essa riqueza muda a didática do laboratório: em vez de lamentar o desvio do atlas, o docente pode ensiná-lo como a regra populacional que ele é — a variação anatômica é norma, não exceção. A contrapartida é ética: programas de doação de corpo bem geridos, consentimento informado, respeito na manipulação e cerimônias de despedida que incluem a comunidade, sobretudo em um país em que programas de doação ainda precisam ampliar a captação para além de perfis restritos.
A discussão de diversidade força o ensino de anatomia a separar dois conceitos que o material didático costuma misturar: sexo biológico, que descreve características corporais (cromossômicas, gonadais, anatômicas), e gênero, que descreve identidade e papel social — a anatomia das imagens mostra características sexuais, não a identidade de quem será examinado. A Terminologia Anatomica, em sua segunda edição (TA2, publicada pelo programa federativo internacional de terminologia anatômica em 2019), padroniza os termos oficiais da disciplina e é a referência para abandonar nomenclaturas antigas imprecisas. Dois exemplos de aplicação em aula: ensinar que diferenças médias entre pelves masculina e feminina se sobrepõem amplamente, de modo que nenhuma característica isolada identifica sexo, evitando o determinismo de manual forense; e incluir a topografia torácica e genitolourinária relevante para o cuidado de pessoas trans, como as alterações esperadas sob terapia hormonal, sem exotizá-las.
O position paper propõe três frentes complementares, que escolas ao redor do mundo já aplicam em graus variados. Primeira: diversificar o acervo visual, com imagens anatômicas e clínicas capturadas deliberadamente em múltiplos fototipos, idades e hábitos corporais — o mesmo achado fotografado em pele clara e escura ensina a variação em vez de um único padrão. Segunda: tornar inclusivos os materiais de ensino, revisando simuladores, manequins, pacientes padronizados e bancos de imagem, e usando o laboratório de doadores como vitrine da variação real. Terceira: capacitar docentes, porque material diverso entregue a corpo docente sem formação reproduz o problema com novas figuras — o professor precisa de repertório para conduzir discussões de sexo, gênero, etnia e deficiência sem constranger nem essencializar. Duas cautelas completam a lista: imagens geradas por inteligência artificial podem ajudar a preencher lacunas, mas carregam o viés dos dados de treino e o risco de anatomia fabricada, exigindo curadoria de anatomista; e diversidade visual não substitui a diversidade de pessoas — chegar de professores e estudantes de perfis variados é o antídoto mais duradouro.
As consequências de ignorar o problema são clínicas e mensuráveis: atraso de diagnóstico de doenças de pele em fototipos escuros, desconforto de pacientes que não se veem representados, erosão da confiança no sistema de saúde e persistência de disparidades já conhecidas. O prognóstico, por outro lado, é favorável porque a intervenção é de baixa complexidade tecnológica: trata-se de decisão editorial e pedagógica, não de nova tecnologia. O próprio paper, contudo, aponta a lacuna que sustenta a agenda dos próximos anos: faltam estudos medindo se a educação anatômica inclusiva melhora desfechos de aprendizagem (acurácia diagnóstica em fototipos diversos, por exemplo) e desfechos de cuidado ao paciente. Enquanto essas evidências se acumulam, a recomendação operativa para o estudante e para o docente é aplicar o princípio da variabilidade desde já, porque a anatomia real nunca chega ao leito em fototipo único.
1.Qual é a crítica central do position paper de Brenner e colaboradores (Annals of Anatomy, 2026) sobre o ensino anatômico?
2.Segundo os autores, qual ferramenta de ensino oferece a visão mais autêntica e variada da anatomia humana?
3.O estudo de Ebede e Papier (2006) tornou-se clássico por demonstrar qual problema em recursos educacionais?
4.A escala de Fitzpatrick, usada para auditar a diversidade de imagens clínicas, classifica:
5.Ao revisar um atlas, um docente escreve que as figuras mostram pelve masculina e feminina como categorias discretas. Qual conceito corrige essa abordagem?
6.Qual trio de intervenções o position paper propõe para tornar o ensino anatômico inclusivo?
7.Sobre o uso de imagens anatômicas geradas por inteligência artificial no ensino, a cautela principal é:
8.Por que a obesidade é um eixo de diversidade relevante para o ensino de anatomia e semiologia?
9.No Brasil, qual documento orienta a formação médica voltada às necessidades de saúde da população e à diversidade do SUS, servindo de respaldo institucional para o ensino anatômico inclusivo?
10.Qual é a principal lacuna de conhecimento apontada pelo position paper como agenda de pesquisa futura?
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