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Revisão prática sobre alergia alimentar mediada por IgE e não IgE, incluindo diagnóstico, exames, dieta e seguimento. Aborda emergências como anafilaxia, uso de adrenalina intramuscular e referenciação. Também cobre esofagite eosinofílica, prevenção e novos alérgenos.
[1] Alergia alimentar: diagnóstico, manejo e emergências. . · DOI 10.1111/joim.13422 | [2] Dellon ES, Muir AB, Katzka DA. ACG Clinical Guideline: Diagnosis and Management of Eosinophilic Esophagitis. The American journal of gastroenterology. 2025 Jan 1 · DOI 10.14309/ajg.0000000000003194 · PMID 39745304 | [3] Muraro A, Worm M, Alviani C. EAACI guidelines: Anaphylaxis (2021 update). Allergy. 2022 Feb · DOI 10.1111/all.15032 · PMID 34343358 | [4] Cardona V, Ansotegui IJ, Ebisawa M. World allergy organization anaphylaxis guidance 2020. The World Allergy Organization journal. 2020 Oct · DOI 10.1016/j.waojou.2020.100472 · PMID 33204386 | [5] Sicherer SH, Sampson HA. Food allergy: A review and update on epidemiology, pathogenesis, diagnosis, prevention, and management. The Journal of allergy and clinical immunology. 2018 Jan · DOI 10.1016/j.jaci.2017.11.003 · PMID 29157945 | [6] Villa C, Teixeira CSS, Mafra I. Current and novel food allergens: Cross-reactivity and co-sensitisation risks. . 2026 · DOI 10.1016/bs.afnr.2026.04.005 · PMID 42556879 · DOI 10.1111/joim.13422
Reações adversas após ingestão de alimentos são queixas frequentes em consultas de pediatria, clínica médica, gastroenterologia e pronto-socorro. Elas podem gerar ansiedade, dietas restritivas desnecessárias e risco nutricional. A gravidade varia conforme alimento, mecanismo imunológico e comorbidades. Nem toda reação é alergia mediada por IgE; algumas são não imunológicas ou mistas. A história clínica cuidadosa é o ponto de partida para separar alergia verdadeira de intolerância, intoxicação, efeito farmacológico ou quadro funcional.
A alergia alimentar IgE mediada tem prevalência estimada em 5 a 10 por cento, podendo chegar a cerca de 10 por cento da população global em revisões recentes. Ela é a causa mais comum de anafilaxia em crianças e uma causa relevante em adultos. Alérgenos prevalentes mudam com a idade: leite e ovo em lactentes, amendoim e castanhas em crianças, peixe e frutos do mar em adultos. O reconhecimento precoce e o manejo correto salvam vidas e reduzem hospitalizações.
Alergia alimentar é uma reação imunológica adversa a proteínas alimentares, reproduzível após exposição, que ocorre em indivíduo previamente sensibilizado. Diferente de intolerância metabólica, como deficiência de lactase, ou de reação tóxica, como scombroid por histamina, a alergia envolve mecanismos imunológicos específicos. A classificação prática separa reações mediadas por IgE, não IgE e mistas. Essa divisão orienta tempo de início, sintomas, testes e tratamento.
Reações IgE mediadas iniciam em minutos a duas horas após ingestão, com urticária, angioedema, vômitos, broncoespasmo e anafilaxia. Reações não IgE mediadas costumam ser tardias, gastrointestinais e frequentemente diagnosticadas por clínica e exclusão. Exemplos incluem esofagite eosinofílica, doença celíaca, síndrome de enterocolite induzida por proteína alimentar, proctocolite e enteropatia induzida por proteína. Reações mistas combinam mecanismos e podem ter sintomas crônicos.
| Categoria | Mecanismo | Início | Exemplos |
|---|---|---|---|
| IgE mediada | IgE e mastócitos | Minutos a 2 horas | Urticária, anafilaxia, síndrome de alergia oral |
| Não IgE mediada | Células T e eosinófilos | Horas a dias | FPIES, proctocolite, enteropatia |
| Mista | IgE e células | Variável | Esofagite eosinofílica, gastrite eosinofílica |
| Não imunológica | Metabólico ou tóxico | Variável | Intolerância à lactose, scombroid |
A prevalência de alergia alimentar aumentou nas últimas décadas, especialmente em países industrializados. Dados variam por definição, método de diagnóstico e população estudada. Revisões apontam prevalência global de aproximadamente 10 por cento, com alergia IgE mediada entre 5 e 10 por cento. A anafilaxia por alimentos é mais comum em crianças, mas também ocorre em adultos. Fatores genéticos, epigenéticos, ambientais, microbiota e via de exposição contribuem.
Alérgenos dominantes mudam com a idade. Em lactentes, leite de vaca e ovo são os principais. Em crianças maiores, amendoim e castanhas ganham destaque. Em adultos, peixe, crustáceos e moluscos são frequentes. Algumas alergias têm alta chance de remissão, como leite e ovo em crianças pequenas, tornando essencial reavaliar e reintroduzir quando possível. Outras tendem a persistir, como amendoim, castanhas e frutos do mar.
Na alergia IgE mediada, a primeira exposição leva à produção de anticorpos IgE específicos contra epítopos proteicos do alimento. Esses IgE se ligam a receptores de alta afinidade em mastócitos e basófilos. Em nova exposição, o alérgeno cross-linka IgE na superfície celular, desencadeando degranulação. Liberam-se histamina, triptase, leucotrienos, prostaglandinas e citocinas. O resultado é vasodilatação, aumento de permeabilidade, broncoconstrição e ativação de terminações nervosas.
A barreira epitelial, o microbioma, o momento e a via de exposição modulam tolerância versus alergia. Exposição cutânea inflamada a alérgenos pode favorecer sensibilização, enquanto exposição oral precoce tende a induzir tolerância. Fatores genéticos e epigenéticos alteram resposta Th2, produção de IL-4, IL-5 e IL-13, e função de células T reguladoras. A gravidade depende de dose, cofatores, estado clínico e reatividade do órgão-alvo.
Reações não IgE mediadas são mediadas por células T, eosinófilos e resposta inflamatória local, sem envolvimento primário de IgE. Costumam ter início tardio, horas a dias, e sintomas gastrointestinais predominantes. A esofagite eosinofílica é doença imune crônica do esôfago, diagnosticada por sintomas de disfunção esofágica e infiltrado eosinofílico predominante. A diretriz ACG 2025 recomenda avaliar e controlar componentes inflamatório e fibroestenótico.
A síndrome de enterocolite induzida por proteína alimentar, conhecida como FPIES, causa vômitos repetidos, palidez, letargia, diarreia profusa e hipotensão algumas horas após o alimento. A proctocolite induzida por proteína alimentar cursa com sangue nas fezes em lactentes, geralmente benigna. A doença celíaca é enteropatia imunomediada por glúten, com anticorpo antitransglutaminase IgA e biópsia duodenal. Reação a leite e aminas biogênicas também entra no diferencial.
| Doença | Faixa etária | Gatilho | Clínica | Diagnóstico |
|---|---|---|---|---|
| EoE | Crianças e adultos | Múltiplos alimentos | Disfagia, impactação, pirose | 15 ou mais eosinófilos por campo de grande aumento |
| FPIES | Lactentes | Leite e soja | Vômitos tardios, hipotensão | Clínica e prova oral |
| Celiac | Qualquer idade | Glúten | Diarreia, perda de peso | Anti-tTG IgA e biópsia |
| Proctocolite | Lactentes | Leite | Sangue nas fezes | Clínica e exclusão |
A alergia alimentar IgE mediada pode afetar pele, trato gastrointestinal, trato respiratório e sistema cardiovascular. Sintomas cutâneos incluem urticária, prurido, eritema e angioedema. Gastrointestinais incluem náusea, dor abdominal, vômitos e diarreia. Respiratórios incluem rinorreia, congestão, sibilância, tosse e estridor. Cardiovasculares incluem tontura, palidez, taquicardia, hipotensão e colapso.
A síndrome de alergia oral é reação IgE mediada a proteínas lábeis, como frutas e vegetais, com prurido oral, edema de lábios e garganta, geralmente sem anafilaxia. Pode ocorrer em pacientes com rinite alérgica a pólen por reatividade cruzada. A anafilaxia é a forma mais grave e potencialmente fatal. Sintomas podem progredir rapidamente, e a ausência de lesão cutânea não exclui anafilaxia.
Anafilaxia é emergência clínica e deve ser reconhecida por critérios clínicos. As diretrizes EAACI 2021 e WAO 2020 recomendam uso de critérios clínicos e coleta de sangue para triptase. O tratamento de primeira linha é adrenalina intramuscular imediata. Não se deve atrasar adrenalina para obter exames ou administrar anti-histamínicos. A via intramuscular na face lateral da coxa é preferida.
Critérios incluem início agudo com envolvimento de pele ou mucosa mais comprometimento respiratório ou hipotensão; ou dois ou mais sistemas após exposição a alérgeno provável; ou hipotensão após exposição. Em adultos, pressão sistólica menor que 90 mmHg ou queda maior que 30 por cento do basal. Em lactentes e crianças, usar valores específicos para idade. Triptase deve ser coletada o mais precocemente possível e depois em basal, mas não confirma nem exclui anafilaxia.
O diagnóstico começa com história clínica detalhada: alimento, quantidade, tempo entre ingestão e sintomas, reprodutibilidade, cofatores, sintomas, tratamento e evolução. Deve-se diferenciar sensibilização de alergia clínica. Testes de sensibilização incluem prick test e IgE específica sérica, mas só têm valor se houver história compatível. Componentes moleculares ajudam a distinguir reações verdadeiras, reatividade cruzada e risco de gravidade.
Prick test cutâneo usa extrato alergênico, controle positivo com histamina e negativo com solução salina. Leitura em 15 a 20 minutos, considerando pápula maior ou igual a 3 mm, conforme protocolo. IgE específica sérica é considerada positiva geralmente acima de 0,35 kUA por L, mas o ponto de corte varia. Prova de provocação oral é padrão-ouro, podendo ser aberta, simples-cega ou duplo-cega controlada por placebo. Deve ser feita em ambiente seguro, com acesso a adrenalina.
Muitas condições simulam alergia alimentar e devem ser consideradas. Intolerância à lactose causa dor, gases e diarreia por déficit de lactase, sem mecanismo imunológico. Scombroid por histamina em peixe mal conservado causa rubor, urticária e hipotensão, parecendo alergia. Doença celíaca, FPIES, EoE, refluxo, síndrome do intestino irritável e doenças inflamatórias intestinais entram no diferencial. Reações a aditivos e aminas biogênicas também podem confundir.
| Condição | Mecanismo | Tempo | Pistas | Exame |
|---|---|---|---|---|
| Intolerância à lactose | Enzimático | 30 min a horas | Gases e diarreia | Teste de hidrogênio |
| Scombroid | Histamina pré-formada | Minutos | Peixe escolhido | História alimentar |
| Celiac | Autoimune | Dias a anos | Diarreia e má absorção | Anti-tTG IgA e biópsia |
| FPIES | Celular não IgE | 1 a 4 horas | Vômitos repetidos e hipotensão | Clínica e prova oral |
| EoE | Imune crônico | Semanas a anos | Disfagia e impactação | Endoscopia com biópsia |
| Refluxo | Funcional | Variável | Pirose e regurgitação | Resposta a IBP |
O manejo baseia-se em evitar o alérgeno, educar paciente e família, tratar comorbidades e garantir plano de emergência. Dietas restritivas devem ser específicas e orientadas por especialista, evitando restrições amplas sem diagnóstico. A leitura de rótulos é essencial, incluindo alergênicos ocultos e mudanças de formulação. Em crianças, acompanhar crescimento e nutrição. Reintrodução deve ser considerada quando houver chance de remissão, sob supervisão.
Para EoE, a diretriz ACG 2025 recomenda inibidores de bomba de prótons, corticoides tópicos deglutidos, eliminação dietética empírica, biológico e dilatação esofágica. Terapia alimentar é adjuvante em crianças com aversão alimentar. Monitoramento clínico, endoscópico e histológico é recomendado para resposta e manutenção. Para alergia IgE mediada, imunoterapia oral está em investigação e pode induzir dessensibilização, mas não cura e exige protocolo especializado.
Na suspeita de anafilaxia, chamar ajuda, posicionar paciente deitado com pernas elevadas, administrar adrenalina intramuscular imediatamente. A dose é 0,01 mg por kg de solução 1 mg por mL, máximo 0,3 a 0,5 mg conforme idade e protocolo. Em adultos, 0,3 a 0,5 mg. Repetir a cada 5 a 15 minutos se persistência ou recorrência. A via intramuscular na face anterolateral da coxa é preferida. Não usar adrenalina subcutânea rotineiramente.
Autoinjetores estão indicados para pacientes de risco e devem estar disponíveis na comunidade. Dose pediátrica: 0,15 mg para 15 a 30 kg e 0,3 mg acima de 30 kg, conforme dispositivo. Medidas adjuvantes incluem oxigênio, acesso venoso, cristaloides, anti-histamínico H1 e H2, e corticoide, mas não devem atrasar adrenalina. Em broncoespasmo refratário, considerar broncodilatador inalatório. Em hipotensão refratária, adrenalina intravenosa em bomba sob monitorização intensiva.
| Etapa | Conduta | Dose | Observação |
|---|---|---|---|
| Primeira linha | Adrenalina IM | 0,01 mg por kg | Máximo 0,3 a 0,5 mg; face lateral da coxa |
| Repetição | Adrenalina IM | Mesma dose | Cada 5 a 15 min |
| Via aérea | Oxigênio | Conforme necessidade | Monitorar saturação |
| Volume | Cristaloide IV | 20 mL por kg em bolus | Repetir se hipotensão |
| Adjuvante | Anti-histamínico H1 | Dose habitual | Não substitui adrenalina |
| Adjuvante | Corticoide | Dose habitual | Resposta tardia incerta |
A anafilaxia pode causar hipóxia, arritmia, hipotensão prolongada, falência de múltiplos órgãos e morte. O risco aumenta com atraso de adrenalina, asma grave, doença cardiovascular e uso de betabloqueador. Reações bifásicas podem ocorrer horas após a melhora inicial, embora a frequência seja variável. Após evento, paciente deve ser observado e encaminhado ao especialista. Triptase pode auxiliar na retrospectiva, mas não substitui a clínica.
Alergias a leite e ovo em crianças pequenas frequentemente remitem, permitindo reintrodução gradual. Alergias a amendoim, castanhas, peixe e frutos do mar tendem a persistir. EoE é doença crônica e requer manutenção e monitoramento. Doenças não IgE mediadas como FPIES podem melhorar com idade, mas exigem manejo agudo correto. Prognóstico depende de diagnóstico precoce, adesão, educação e acesso a adrenalina.
Diante de reação alimentar, a primeira pergunta é se há mecanismo imunológico e qual o fenótipo temporal. Reações imediatas com pele, respiratório ou hipotensão sugerem IgE mediada e risco de anafilaxia. Reações tardias gastrointestinais sugerem não IgE mediada ou mista. A história é o eixo, apoiada por testes específicos e, quando necessário, prova oral controlada. Tratar emergência com adrenalina e planejar prevenção.
O manejo crônico inclui evitar alérgeno, educação, plano escrito, autoinjetor quando indicado e acompanhamento nutricional. Novas terapias, como imunoterapia oral e biológicos, ampliam opções, mas não substituem medidas de segurança. A introdução precoce de alimentos alergênicos na infância reduz risco conforme evidências. Rotulagem e monitoramento de novos alérgenos, como insetos, proteínas vegetais, algas e fungos, são desafios atuais. O objetivo é segurança, nutrição adequada e qualidade de vida.
1.Adolescente de 15 anos previamente saudável apresenta, 10 minutos após ingerir amendoim, urticária generalizada, dispneia, sibilos e PA 80 x 50 mmHg. Qual é a primeira conduta?
2.Lactente de 8 meses apresenta urticária e vômitos imediatos após ingestão de ovo. A história é sugestiva, mas há dúvida sobre o alérgeno. Qual exame é mais útil para confirmar sensibilização IgE específica?
3.Lactente de 5 meses alimentado com fórmula de leite de vaca apresenta, 2 horas após a mamadeira, vômitos repetidos, palidez, letargia e diarreia, sem urticária ou sibilos. Qual é a hipótese mais provável?
4.Qual cenário preenche critério clínico de anafilaxia?
5.Homem de 32 anos com disfagia intermitente e episódio de impacto alimentar. Endoscopia mostra anéis esofágicos e biópsia com 25 eosinófilos por campo de grande aumento. Qual é o diagnóstico?
6.Em lactentes com alergia alimentar IgE mediada, qual alérgeno é mais frequentemente implicado?
7.Na alergia alimentar IgE mediada, qual evento é central para a degranulação de mastócitos após reexposição ao alimento?
8.Lactente de 6 meses com alergia à proteína do leite de vaca IgE mediada, sem amamentação e sem sinais de gravidade. Qual fórmula é mais indicada?
9.Qual resultado de teste de puntura cutânea é classicamente considerado positivo em alergia alimentar?
10.Três adultos apresentam, 30 minutos após comer atum em restaurante, rubor facial, cefaleia, taquicardia e náusea, com pouca urticária. Qual diagnóstico diferencial deve ser considerado?
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