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Fundamentos de ultrassom point-of-care para o estudante de medicina: física e artefatos (A-lines, B-lines, sombra, espelhamento), protocolos BLUE, RUSH, FAST/e-FAST e eco-foco cardíaco, veia cava e responsividade a fluidos, DVT e uso na PCR, com tabelas e casos clínicos rápidos.
[1] Lichtenstein DA, Mezière GA. Relevance of Lung Ultrasound in the Diagnosis of Acute Respiratory Failure: The BLUE Protocol. Chest. 2008;134(1):117-125 · DOI 10.1378/chest.07-2800 | [2] Perera P, Mailhot T, Riley D, Mandavia D. The RUSH Exam: Rapid Ultrasound in SHock in the Evaluation of the Critically Ill. Emerg Med Clin North Am. 2010;28(1):29-56 · DOI 10.1016/j.emc.2009.09.009 | [3] Volpicelli G, Elbarbary M, Blaivas M, et al. International Evidence-Based Recommendations for Point-of-Care Lung Ultrasound. Intensive Care Med. 2012;38(4):577-591 · DOI 10.1007/s00134-012-2513-4 | [4] Spencer KT, Kimura BJ, Korcarz CE, et al. Focused Cardiac Ultrasound: Recommendations from the American Society of Echocardiography. J Am Soc Echocardiogr. 2013;26(6):567-581 · DOI 10.1016/j.echo.2013.04.001 | [5] Labovitz AJ, Noble VE, Bierig M, et al. Focused Cardiac Ultrasound in the Emergent Setting: A Consensus Statement of the ASE and ACEP. J Am Soc Echocardiogr. 2010;23(12):1225-1230 · DOI 10.1016/j.echo.2010.10.005 · DOI 10.1378/chest.07-2800
Ultrassom point-of-care (POCUS) é a prática de usar o ultrassom à beira do leito, pelo médico que cuida do paciente, para responder perguntas focadas e imediatas: este choque é hipovolêmico ou cardiogênico? Esta dispneia é edema pulmonar, pneumonia ou tromboembolismo? Este trauma tem líquido livre? O benefício não é apenas diagnóstico: os protocolos estruturados mudam a conduta em minutos, com acurácia imediata de 90,5% no protocolo BLUE para a causa da insuficiência respiratória aguda. Para a prova, o estudante precisa dominar três camadas: a física dos artefatos (porque no pulmão o artefato É o diagnóstico), os protocolos BLUE, RUSH, FAST/e-FAST e eco-foco com seus mapas de decisão, e as limitações — incluindo o que o POCUS não substitui.
O transdutor contém cristais piezelétricos que convertem impulsos elétricos em ondas ultrassônicas de alta frequência; as ondas atravessam os tecidos e voltam como ecos, que o aparelho converte em imagem calculando profundidade pelo tempo de retorno e intensidade pela amplitude. A impedância acústica (densidade x velocidade do som no meio) determina quanto som é refletido em cada interface: ar e osso refletem quase tudo (por isso pulmão normal e ossos são desafios), enquanto tecidos moles e líquidos transmitem bem. Quanto maior a frequência, melhor a resolução e menor a penetração — princípio que define a escolha do transdutor.
No pulmão o POCUS nasce dos artefatos, porque o ar impede a imagem convencional. A linha pleural é o limite pleuro-pulmonar entre duas costelas (a sombra acústica das costelas adjacentes delimita o padrão morcego, bat sign). A partir dela: A-lines são linhas horizontais de reverberação, equidistantes da pleural, que indicam ar abaixo da pleura — pulmão aerado normal (ou ar patológico, como no pneumotórax, quando acompanhadas de ausência de deslizamento pleural). B-lines são artefatos verticais em cauda de cometa que nascem da linha pleural, apagam as A-lines, chegam ao fundo da tela e deslizam com a pleura: três ou mais em um campo intercostal definem síndrome intersticial (água no interstício — edema cardiogênico, síndrome de angústia respiratória aguda, fibrose intersticial); B-lines coalescentes em branco ocupando todo o campo sugerem alveolização. A sombra acústica é a ausência total de sinal atrás de estrutura que reflete ou absorve tudo (osso, cálculo, gás) — o que permite ver cálculos biliares e costelas, mas esconde estruturas atrás delas. O artefato de espelhamento duplica estruturas acima de um forte refletor curvo — clássico o fígado aparentando nódulos acima do diafragma (espelhamento do domo hepático simulando lesão no tórax).
| Artefato | Aparência | Significado prático |
|---|---|---|
| A-line (reverberação horizontal) | Linhas horizontais paralelas à pleural, equidistantes | Ar abaixo da pleura: pulmão normal SE houver deslizamento pleural; com pleura imóvel, sugere pneumotórax |
| B-line (cauda de cometa vertical) | Verticais, nascem na pleural, apagam A-lines, móveis com a respiração, ≥ 3 por campo | Síndrome intersticial: edema pulmonar, SDRA, fibrose; bilaterais difusos apontam cardiogênico |
| Sombra acústica | Cone anecoico atrás de osso, cálculo ou gás | Refratariedade total do som: identifica cálculos, costelas e gás; é barreira ao exame |
| Espelhamento | Duplicação de imagem sobre refletor curvo (diafragma) | Fígado ou baço simulando lesões torácicas; não confundir com nódulo ou consolidação |
| Padrão praia no M-mode | Granulado acima da pleural e linhas paralelas abaixo | Documenta deslizamento pleural presente = pleura visceral móvel = ausência de pneumotórax naquele ponto |
O BLUE (Bedside Lung Ultrasound in Emergency) padroniza a investigação da insuficiência respiratória aguda: o paciente semissentado é examinado nos pontos BLUE superior e inferior nas regiões anteriores e laterais de cada hemitórax (a mão do paciente apoiada na clavícula oposta define os pontos: a mão inferior marca o ponto superior; o ponto inferior fica uma mão abaixo), com busca de perfil A (A-lines bilaterais com deslizamento), perfil B (B-lines bilaterais anterolaterais), A/B, C (consolidações anteriores) e análise das veias dos membros inferiores. O algoritmo atingiu diagnóstico correto imediato em 90,5% dos 260 casos do estudo original.
| Achado combinado do BLUE | Diagnóstico imediato mais provável |
|---|---|
| Perfil B bilateral (3 ou mais B-lines difusos) | Edema pulmonar cardiogênico |
| Perfil A + TVP ao Doppler/compressão | Embolia pulmonar |
| Perfil A sem TVP, sem consolidação, sem B assimétrico | Asma ou DPOC exacerbada |
| Perfil A/B, B assimétrico localizado ou perfil C | Pneumonia |
| Ausência de deslizamento + A-lines + ponto de pulmão | Pneumotórax |
O RUSH (Rapid Ultrasound in Shock and Hypotension) organiza o exame do choque indiferenciado em três perguntas fisiológicas: a bomba (pump — o coração funciona?), o tanque (tank — o compartimento vascular está cheio, vazio ou vazando?) e os canos (pipes — as tubulações estão íntegras?). É uma tradução direta da classificação fisiológica do choque: cardiogênico e obstrutivo alteram a bomba; hipovolêmico esvazia o tanque; distributivo mantém a bomba hiperdinâmica com tanque difusamente vazado (terceiro espaço, sepse, anafilaxia); o mapeamento dos pipes cobre aneurisma de aorta, dissecção e trombose venosa que precede embolia.
| Fisiologia do choque | Achados RUSH típicos |
|---|---|
| Hipovolêmico (hemorragia, desidratação) | Coraçao hiperdinâmico com câmaras pequenas, IVC colapsável, líquido livre no FAST ou B-lines não presentes |
| Cardiogênico | Disfunção global do ventrículo esquerdo, B-lines bilaterais, IVC plétora |
| Obstrutivo | Derrame pericárdico com colapso de átrio direito (tamponamento), VD dilatado com VD/VE > 1 (embolia pulmonar) ou ausência de deslizamento pulmonar unilateral (pneumotórax hipertensivo) |
| Distributivo (sepse) | Coraçao hiperdinâmico inicialmente, IVC colapsável, sem líquido livre; hipocinesia pode surgir na sepsis miocárdica |
O FAST (Focused Assessment with Sonography in Trauma) rastreia líquido livre (sangue) nos espaços dependentes do abdome e no pericárdio, em quatro janelas clássicas com transdutor curvilíneo; o e-FAST estende o exame ao tórax, adicionando as janelas pulmonares anteriores bilaterais para pneumotórax — com sensibilidade claramente superior à radiografia de tórax em decúbito (que é baixa, frequentemente em torno de 30-50%), embora dependa do operador. Lembre das limitações de sempre: o FAST não vê sangramento retroperitoneal, lesão de parênquima sem hemoperitônio volumes mínimos, e tem sensibilidade limitada no paciente com ascite prévia ou íleo com gás.
O eco-foco (focused cardiac ultrasound), definido pelas recomendações da American Society of Echocardiography, não é um ecocardiograma completo: é a busca direcionada de achados que mudam conduta, por operador treinado, em minutos. As janelas básicas são a subcostal, a paraesternal longa (eixo longo), a paraesternal curta e a apical de quatro câmaras. O padrão-ouro da conduta é responder a um roteiro padronizado, nunca descrever o exame de forma vaga.
Na via aérea, o ultrassom confirma a intubação: deslizamento pleural bilateral (ou excursão diafragmática bilateral com M-mode) mais ausência de conteúdo gástrico novo indicam tubo traqueal posicionado — útil quando a capnografia está indisponível ou é duvidosa na parada cardiorrespiratória; a visualização direta do tubo na traqueia e da glote pré-intubação são aplicações descritas. Em anestesia regional, os blocos guiados por ultrassom (plexo braquial interescalênico, femoral, fáscia ilíaca, bloco do reto abdominal (rectus sheath), TAP) identificam o nervo e reduzem a dose de anestésico local e complicações; o acesso vascular central e a punção arterial guiados reduzem tentativas, pneumotórax e cateteres em posição errada. Para o aluno de provas: a confirmação ultrassonográfica da intubação combina pulmão (deslizamento bilateral), diafragma e estômago — nunca um único achado isolado.
A veia cava inferior (VCI) avalia a pressão venosa central de forma não invasiva. Em respiração espontânea, diâmetro menor que 2,1 cm com colapso inspiratório maior que 50% sugere pressões centrais baixas e provável resposta a volume; diâmetro maior que 2,1 cm com colapso menor que 50% sugere pressões elevadas (congestão, ventilação com pressão positiva). A pegadinha central: o paciente em ventilação mecânica com PEEP tem a VCI sistematicamente dilatada pela pressão intratorácica positiva, o que reduz a acurácia da medida como marcador de volemia; nesses casos, métodos dinâmicos são melhores — elevação passiva das pernas (passive leg raising) com resposta de débito cardíaco (medida por VTI no Doppler de saída do VE), variação respiratória do VTI no paciente totalmente adaptado ao ventilador, ou mini-desafio de fluidos. Outras limitações: hipertensão intra-abdominal, falência direita, bandagens abdominais e respiração superficial espontânea falseiam a medida; na parada cardiorrespiratória a VCI não serve para decidir volume.
O protocolo de compressão de 3 pontos avalia veia femoral comum, veia femoral proximal (na bifurcação) e veia poplítea com transdutor linear: a veia normal colapsa completamente sob compressão; a veia não compressível (com ou sem ecogenicidade intraluminar) é TVP. A compressão de 2 pontos ampliada (femoral + poplítea) é o padrão na maioria dos protocolos à beira do leito; em suspeita alta com exame negativo, considera-se ultrassom de veia inteira (whole-leg) ou repetição em 5-7 dias. A integração por cenário clínico é o que o examinador cobra: cada apresentação tem um protocolo preferencial.
| Cenário | Protocolo preferencial | Achados que mudam a conduta |
|---|---|---|
| Dispneia aguda indiferenciada | BLUE | Perfil B bilateral = edema; A + TVP = embolia; A/B ou C = pneumonia; ponto de pulmão = pneumotórax |
| Choque indiferenciado | RUSH + eco-foco | Bomba parada por tamponamento; tanque vazio (IVC colapsável + FAST positivo); pipes: aneurisma ou TVP |
| Trauma com hipotensão | e-FAST | Líquido intraperitoneal ou pericárdico = lavagem/embolização/cirurgia; ausência de deslizamento unilateral = dreno torácico |
| Parada cardiorrespiratória | POCUS nas pausas de ritmo (4H4T) | Tamponamento, pneumotórax hipertensivo, hipovolemia maciça, sobrecarga direita (EP) |
| Edema de membros / suspeita de TVP | Compressão 3-point | Veia não compressível = TVP; anticoagular |
| Oligúria ou instabilidade sob ventilação | VCI dinâmica + elevação passiva das pernas | Responsivo a fluidos versus congestão |
Durante as pausas de checagem de ritmo (nunca interrompendo compressões fora delas), o ultrassom focal investiga as causas reversíveis do clássico 4H4T: hipóxia (ausência bilateral de deslizamento pulmonar — tubo esofágico ou obstrução), hipovolemia (câmaras pequenas hiperdinâmicas com VCI colapsada em sangramento maciço), hipó-/hipercalemia e acidose (sem sinal ultrassonográfico direto — dependem de laboratório), hipotermia (inespecífico); pneumotórax hipertensivo (ausência de deslizamento unilateral com VD dilatado), tamponamento cardíaco (derrame com colapso de cavidades direitas), toxinas (inespecífico) e trombose (VD agudamente dilatado sugerindo embolia pulmonar; acinesia extensa sugerindo infarto maciço). O achado muda a conduta imediata: pericardiocentese, dreno torácico, trombólise na parada por embolia ou coronariopatia, correção da via aérea. Documente sempre o ritmo eletrocardiográfico concomitante, porque coração parado sem atividade elétrica orienta o diagnóstico diferencial.
Todo exame point-of-care deve ser documentado: salvar cineloop ou imagem estática de cada janela com identificação do paciente, registrar no laudo as janelas obtidas, os achados positivos e negativos, a limitação técnica (janela ruim, obesidade, enfisema subcutâneo, curativos) e a conduta derivada — laudo estruturado é o que transforma o achado em comunicação clínica e em proteção médico-legal. Competência exige treinamento formal com número mínimo de exames supervisionados, manutenção de habilidades e revisão periódica; sociedades de especialidade publicam trilhas de credenciamento. Limitações universais a memorizar: POCUS é operador-dependente, não substitui o ecocardiograma completo, a tomografia ou a interpretação clínica integrada; obesidade, enfisema subcutâneo, curativos, apneia, arritmias e a PEEP alteram ou falseiam sinais; falso negativo em pneumotórax apical ou posterior não visualizado, e falso positivo de B-lines em fibrose. A regra de ouro: o ultrassom estende o exame físico, não o substitui — e a decisão clínica continua sendo sua.
1.O que representam três ou mais B-lines em um campo intercostal anterior?
2.Qual sinal ultrassonográfico tem especificidade próxima de 100% para pneumotórax?
3.Paciente com dispneia aguda: BLUE mostra perfil B bilateral com deslizamento preservado e VCI plétora. Diagnóstico mais provável:
4.No protocolo RUSH, a avaliação do TANQUE inclui:
5.Sobre o e-FAST, qual assertiva é correta?
6.Sinal precoce de tamponamento cardíaco ao eco-foco:
7.Paciente em ventilação mecânica com PEEP de 12 cmH2O tem VCI de 2,3 cm sem colapso. Como interpretar?
8.Na parada cardiorrespiratória, o POCUS deve ser realizado:
9.No protocolo BLUE, perfil A com trombose venosa profunda à compressão define:
10.Qual assertiva sobre documentação e limitações do POCUS é correta?
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