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Revisão completa sobre a periodontite como doença infeccioso-inflamatória crônica associada a doença cardiovascular, diabetes e pneumonias: classificação 2017, mecanismos sistêmicos, tratamento em 4 etapas e as recomendações do consenso EFP/WONCA 2024.
[1] Herrera D, Sanz M, Shapira L, et al. Periodontal diseases and cardiovascular diseases, diabetes, and respiratory diseases: summary of the consensus report by the European Federation of Periodontology and WONCA Europe. Eur J Gen Pract. 2024;30(1):2320120 · DOI 10.1080/13814788.2024.2320120 · PMID 38511739 | [2] Sanz M, Marco del Campo Á, Herrera D, et al. Periodontitis and cardiovascular diseases: consensus report. J Clin Periodontol. 2020;47(3):268-288 · DOI 10.1111/jcpe.13189 | [3] Simpson TC, Clarkson JE, Worthington HV, et al. Treatment of periodontitis for glycaemic control in people with diabetes mellitus. Cochrane Database Syst Rev. 2022;4:CD004714 · DOI 10.1002/14651858.CD004714.pub4 | [4] Tonetti MS, Jepsen S, Jin L, Otomo-Corgel J. Impact of the global burden of periodontal diseases on health, nutrition and wellbeing of mankind: a call for global action. J Clin Periodontol. 2017;44(5):456-462 · DOI 10.1111/jcpe.12732 | [5] Sanz M, Herrera D, Kebschull M, et al. Treatment of stage I-III periodontitis: the EFP S3 level clinical practice guideline. J Clin Periodontol. 2020;47(Supl 22):4-60 · DOI 10.1111/jcpe.13290 | [6] Papapanou PN, Sanz M, Buduneli N, et al. Periodontitis: consensus report of workgroup 2 of the 2017 World Workshop on the Classification of Periodontal and Peri-Implant Diseases and Conditions. J Periodontol. 2018;89(Supl 1):S173-S182 · DOI 10.1002/JPER.17-0721 · DOI 10.1080/13814788.2024.2320120
A periodontite é a principal causa de perda dentária em adultos e uma das doenças crônicas mais prevalentes do ser humano. Em 2024, a Federação Europeia de Periodontologia (EFP) e a WONCA Europa (Associação Mundial das Organizações Nacionais de Médicos de Família) publicaram no European Journal of General Practice um sumário de consenso dirigido justamente ao médico não dentista, com uma mensagem central: a periodontite não é um problema local da boca, mas uma doença inflamatória crônica associada de forma bidirecional a diabetes, doença aterosclerótica e pneumonias. Para a prova e para a prática, o estudante precisa dominar três eixos: o mecanismo inflamatório que liga a gengiva a órgãos à distância, os números das associações (com destaque para a queda de HbA1c após o tratamento periodontal) e as condutas práticas de rastreamento e encaminhamento que o consenso recomenda ao generalista.
Pela classificação do World Workshop de 2017, periodontite é uma doença multifatorial inflamatória crônica associada a biofilme disbiótico e modulada pela suscetibilidade do hospedeiro, que leva à destruição progressiva do aparato de suporte do dente (gengiva, ligamento periodontal, cemento e osso alveolar). A consequência anatômica que define a doença é a perda de inserção clínica (CAL, do inglês clinical attachment loss): a gengiva deixa de estar aderida à raiz, forma-se a bolsa periodontal, o osso alveolar se reabsorve e o dente ganha mobilidade até ser perdido. Na gengivite há inflamação e sangramento, mas sem perda de inserção: o processo é reversível com controle do biofilme. Critério prático de caso para o adulto: perda de inserção interproximal detectável em pelo menos 2 dentes não adjacentes, ou CAL vestibular/lingual de 3 mm ou mais com bolsa superior a 3 mm em pelo menos 2 dentes.
A classificação 2017 organiza a periodontite em estágios (I a IV), que graduam severidade e complexidade, e graus (A, B e C), que graduam velocidade de progressão e intensidade dos fatores de risco. Existem ainda duas categorias próprias: periodontite necrosante e periodontite como manifestação de doença sistêmica (diabetes, HIV, leucemias, neutropenias, síndrome de Papillon-Lefèvre, hipofosfatasia), que caem em prova justamente por ligarem a boca à medicina interna.
| Estágio (2017) | Perda de inserção (CAL) | Perda óssea radiográfica | Perda dentária por periodontite | Complexidade |
|---|---|---|---|---|
| Estágio I — inicial | 1–2 mm | Menos de 15% do comprimento radicular | Nenhuma | Destruição localizada, sem fatores agravantes |
| Estágio II — moderada | 3–4 mm | 15–33% do comprimento radicular | Nenhuma | Complexidade moderada, recessões iniciais |
| Estágio III — grave | 5 mm ou mais | 33–50% (atinge terço médio da raiz) | Até 4 dentes | Envolvimento de furca grau II ou III, mobilidade, recessões extensas |
| Estágio IV — muito grave | 5 mm ou mais | Mais de 50% (atinge terço apical) | 5 ou mais dentes | Necessidade de reabilitação complexa com implantes ou prótese extensa |
A periodontite grave figura entre as condições humanas mais prevalentes: estimativas do Global Burden of Disease citadas pelo manifesto da EFP apontavam cerca de 743 milhões de pessoas afetadas, e levantamentos mais recentes (GBD 2019) já superam a marca de 1 bilhão de casos, o que corresponde a aproximadamente 11% da população adulta mundial (faixa de 5 a 20% conforme a população e o critério). A prevalência sobe steepmente com a idade: é incomum antes dos 30 anos e acomete a maioria dos idosos em alguma extensão. Os principais fatores de risco são tabagismo (aumenta em 2 a 3 vezes o risco e é o modificador mais importante), diabetes (risco 2 a 3 vezes maior, proporcional à HbA1c), idade, baixa renda e escolaridade, obesidade e estresse. No Brasil, os inquéritos nacionais de saúde bucal (SB Brasil 2010) demonstraram alta prevalência de perda de inserção em adultos de 35 a 44 anos, com nítido gradiente social: pior situação periodontal nos grupos de menor renda e escolaridade.
A doença começa com um desvio quantitativo e qualitativo do biofilme: a disbiose. No modelo de disbiose polimicrobiana e sinergia, bactérias comensais de baixa virulência tornam-se agressivas quando a comunidade é remodelada por um patógeno keystone, a Porphyromonas gingivalis, que não precisa ser a mais abundante para coordenar a mudança. Marcadores clássicos de prova: o complexo vermelho (Porphyromonas gingivalis, Treponema denticola e Tannerella forsythia), fortemente associado a bolsas profundas, e o complexo laranja (Fusobacterium nucleatum, Prevotella intermedia), precursor. Com a ulceração do epitélio juncional, bactérias e seu LPS alcançam o tecido conjuntivo e a corrente sanguínea: receptores TLR2 e TLR4 ativam NF-kB e a resposta inflamatória do hospedeiro.
É a resposta do hospedeiro, e não a bactéria isolada, que destrói o periodonto: IL-1 beta, IL-6 e TNF-alfa recrutam neutrófilos e macrófagos; prostaglandinas (PGE2) e metaloproteinases (MMP-8 e MMP-9, colagenases) degradam colágeno; o desequilíbrio RANKL/osteoprotegerina ativa osteoclastos e produz reabsorção óssea alveolar. A bolsa formada aprofunda o nicho anaeróbio e retroalimenta o processo. Tabagismo e diabetes pioram o quadro por disfunção de neutrófilos, microangiopatia, produtos finais de glicação avançada (AGEs) e resposta imune inadequada à cicatrização. No plano sistêmico, as bacteremias transitórias diárias (mastigação, escovação, raspagem) expõem repetidamente o endotélio a LPS e antígenos: elevam PCR, IL-6 e fibrinogênio, geram disfunção endotelial, e DNA de P. gingivalis já foi recuperado de placas ateroscleróticas. Some-se o mimetismo molecular entre proteínas de choque térmico bacterianas (Hsp60) e humanas, capaz de manter inflamação crônica à distância.
| Eixo sistêmico | Associação principal | Mecanismo proposto | Nível de evidência |
|---|---|---|---|
| Cardiovascular | Doença arterial coronariana, AVC e aterosclerose subclínica com excesso de risco de cerca de 1,2 a 2 vezes | Bacteremia de repetição, inflamação sistêmica (PCR, IL-6, fibrinogênio), disfunção endotelial, DNA bacteriano em placas | Associação robusta e independente; causalidade não comprovada em ensaio randomizado |
| Diabetes mellitus | Pior controle glicêmico e mais complicações crônicas; periodontite como sexta complicação do diabetes | TNF-alfa e IL-1 beta agravam resistência insulínica (fosforilação do IRS-1); AGEs e disfunção de neutrófilos pioram a doença periodontal | Relação bidirecional; o tratamento periodontal reduz HbA1c (Cochrane 2022) |
| Respiratório | Pneumonia aspirativa em idosos institucionalizados, pós-AVC e pacientes ventilados; associação com DPOC | Placa dentária e bolsas periodontais como reservatório de patógenos aspirados; enzimas e citocinas lesando epitélio brônquico | Intervenções de higiene oral reduzem pneumonia aspirativa em institucionalizados |
| Outras associações | Artrite reumatoide, doença renal crônica, desfechos gestacionais adversos, demência | Inflamação crônica compartilhada, mimetismo molecular e produção de ACPA, carga bacteriana crônica | Evidência emergente, heterogênea e confundida por fatores compartilhados |
Estudos observacionais grandes e metanálises mostram associação independente entre periodontite e eventos ateroscleróticos, com excesso de risco modesto (aproximadamente 1,2 a 2 vezes) e, ponto favorito de prova, resposta dose-resposta: quanto mais extensa e grave a periodontite e maior o número de dentes perdidos, maior o risco cardiovascular. O consenso EFP com a World Heart Federation (Sanz 2020) concluiu que a associação é consistente, mas a causalidade não está provada, pois nenhum ensaio randomizado demonstrou ainda que tratar a periodontite reduz eventos cardiovasculares. Mesmo assim, as recomendações são práticas: pacientes com doença cardiovascular devem ser rastreados para periodontite, as duas doenças compartilham fatores de risco modificáveis (tabagismo, diabetes, obesidade, dieta, estresse) e o tratamento periodontal é seguro em cardiopatas. A mensagem sintética: a boca faz parte da avaliação cardiovascular.
A frase clássica é que a periodontite é a sexta complicação do diabetes, ao lado da retinopatia, nefropatia, neuropatia, doença macrovascular e pé diabético. A relação é bidirecional: o diabético tem 2 a 3 vezes mais periodontite, e o risco sobe com a HbA1c; por outro lado, a inflamação periodontal mantém níveis altos de TNF-alfa e IL-1 beta que agravam a resistência à insulina e pioram o controle glicêmico, e a periodontite grave associa-se a mais complicações diabéticas, incluindo nefropatia e retinopatia. A prova de que o efeito é clinicamente relevante veio da revisão Cochrane de 2022: o tratamento periodontal reduziu a HbA1c em 0,29% (IC 95% de 0,40 a 0,19 de queda) em 3 a 4 meses, magnitude comparável à adição de um segundo antidiabético oral. Duas condutas derivam disso: todo diabético deve ter saúde periodontal avaliada e tratada; e o paciente com periodontite grave de início precoce ou grau C deve rastrear glicemia e HbA1c, pois a periodontite pode ser a primeira manifestação de um diabetes ainda não diagnosticado.
Em idosos institucionalizados, pacientes pós-AVC com disfagia e doentes críticos entubados, a placa dentária e as bolsas periodontais funcionam como reservatório contínuo de microrganismos que atingem o pulmão por microaspiração: além dos patógenos periodontais, a placa de pacientes com higiene precária é colonizada por enterobactérias, Staphylococcus aureus e Pseudomonas. Enzimas e citocinas das bactérias periodontais também lesionam o epitélio brônquico e facilitam a adesão de patógenos respiratórios. As revisões sistemáticas de cuidados orais em instituições de longa permanência mostram redução da incidência de pneumonia aspirativa e da mortalidade associada; por isso a higiene oral profissional integra os bundles de prevenção de pneumonia associada à ventilação mecânica nas UTIs. A associação com DPOC é descrita em estudos observacionais, mas fortemente confundida pelo tabagismo comum às duas doenças.
O diagnóstico da periodontite é clínico e feito pelo cirurgião-dentista com sonda periodontal: profundidade de sondagem (sulco fisiológico de 1 a 3 mm), perda de inserção clínica, sangramento à sondagem (BOP, marcador de inflamação ativa), recessão gengival, mobilidade (graus I a III) e envolvimento de furca. A radiografia (periapical ou panorâmica) quantifica a perda óssea em porcentagem do comprimento radicular e diferencia perdas horizontais de defeitos verticais. Não há exame laboratorial para o diagnóstico, mas o grau C, o início precoce e a doença desproporcional ao biofilme pedem investigação de glicemia, HbA1c e, quando indicado, HIV. Para o médico, o rastreamento em consultório se faz por três perguntas: a gengiva sangra com facilidade ou espontaneamente; algum dente afrouxou ou mudou de posição; houve extrações por problema de gengiva. Qualquer resposta positiva em adulto justifica encaminhamento odontológico.
| Entidade | Achado discriminatório | Conduta |
|---|---|---|
| Gengivite | Inflamação e sangramento à sondagem sem perda de inserção (CAL ausente) | Higiene oral e profilaxia; quadro totalmente reversível |
| Periodontite | Perda de inserção interproximal em 2 ou mais dentes não adjacentes, com bolsas e perda óssea | Tratamento pelas 4 etapas da diretriz EFP |
| Abscesso periapical | Dor intensa, tumefação vestibular, radiolucidez periapical e teste de vitalidade negativo | Tratamento endodôntico ou extração; drenagem; antibiótico se sinais sistêmicos |
| Hiperplasia gengival medicamentosa | Hiperplasia fibrosa em usuário de fenitoína, ciclosporina ou bloqueador de canal de cálcio | Higiene oral rigorosa e discussão do ajuste medicamentoso com o prescritor |
| Gengivite ulceronecrosante | Dor intensa, necrose das papilas, pseudomembrana amarelada e odor fétido | Desbridamento, clorexidina 0,12% e investigação de imunossupressão, incluindo HIV |
| Etapa | Objetivo | Intervenções e números-chave |
|---|---|---|
| Etapa 1 — controle das causas | Reduzir o biofilme e eliminar fatores de risco | Higiene oral personalizada: escovação 2 vezes ao dia mais limpeza interdental diária; cessação do tabagismo; controle do diabetes; correção de fatores de retenção de placa |
| Etapa 2 — tratamento da causa | Remover biofilme e cálculo subgengivais | Raspagem e alisamento radicular (manual ou ultrassônica), podendo ser boca toda em 24 a 48 horas; clorexidina 0,12% tópica em casos selecionados; reavaliação em 1 a 3 meses |
| Etapa 3 — correção cirúrgica | Tratar bolsas residuais e defeitos anatômicos | Retalho de acesso para instrumentação a céu aberto; cirurgia ressectiva; regeneração com enxertos ósseos, membranas guiadas ou derivado de matriz do esmalte |
| Etapa 4 — terapia de suporte | Prevenir recidiva por toda a vida | Manutenção periodontal a cada 3 a 6 meses (intervalos menores em grau C, jovens e diabéticos), com reavaliação de bolsas, higiene e reforço de cessação |
Antibióticos sistêmicos não fazem parte da rotina: a base do tratamento é mecânica. A terapia antimicrobiana adjunta fica restrita a situações selecionadas, como periodontite grau C com progressão rápida, formas necrosantes, imunossuprimidos e resposta insuficiente à instrumentação; o regime clássico derivado dos workshops da EFP é amoxicilina 500 mg associada a metronidazol 250 mg, três vezes ao dia por 7 dias, iniciado no dia da instrumentação final. Bochechos com clorexidina 0,12% por até 2 semanas têm papel na gengivite ulceronecrosante e no pós-operatório; uso mais prolongado mancha os dentes e altera o paladar. O prognóstico com as quatro etapas e manutenção regular é bom: a maioria dos dentes é mantida por décadas; sem terapia de suporte, a recidiva é a regra.
As complicações locais incluem abscesso periodontal, dor, halitose, mobilidade e perda dentária, que é o desfecho final da doença não tratada. A perda dentária tem custo sistêmico: piora a qualidade da dieta (menos frutas, legumes e fibras), compromete a nutrição de idosos, associa-se a pior controle glicêmico e reduz qualidade de vida e função social. O prognóstico da periodontite tratada com as quatro etapas e manutenção é excelente em termos de retenção dentária; o grau C não tratado leva a perda dentária precoce. Quanto aos desfechos sistêmicos, o tratamento periodontal melhora a HbA1c dos diabéticos e as intervenções de higiene oral reduzem pneumonia aspirativa em institucionalizados; a demonstração de redução de eventos cardiovasculares permanece objetivo de ensaios clínicos em andamento, e por isso o consenso fala em associação e manejo de risco, não em cura cardiovascular.
1.O achado clínico que diferencia periodontite de gengivite é:
2.No estadiamento de 2017, um paciente com CAL de 6 mm, perda óssea de 40% da raiz e 3 dentes perdidos por periodontite é classificado como:
3.Grafar C na classificação de periodontite indica:
4.O patógeno considerado keystone na disbiose periodontal, capaz de remodelar a comunidade microbiana, é:
5.Sobre a relação entre periodontite e diabetes, a afirmativa correta é:
6.A revisão Cochrane de 2022 mostrou que o tratamento periodontal em diabéticos reduz a HbA1c em aproximadamente:
7.Sobre periodontite e doença cardiovascular, o consenso EFP/World Heart Federation conclui que:
8.Na diretriz S3 da EFP, a etapa 2 do tratamento da periodontite corresponde a:
9.Paciente com prótese valvar metálica será submetido a raspagem periodontal com sangramento previsto. A profilaxia recomendada é:
10.Segundo o consenso EFP/WONCA 2024, a conduta esperada do médico generalista frente à saúde periodontal é:
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