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Farmacologia dos receptores adrenérgicos, tabela de doses de todas as aminas vasoativas, a evidência do SOAP II que aposentou a dopamina, escolha por tipo de choque, titulação por PAM e perfusão, uso seguro por via periférica e desmame.
[1] De Backer D, Biston P, Devriendt J, et al. Comparison of dopamine and norepinephrine in the treatment of shock (SOAP II). N Engl J Med. 2010;362(9):779-789 · DOI 10.1056/NEJMoa0907118 | [2] Russell JA, Walley KR, Singer J, et al. Vasopressin versus Norepinephrine Infusion in Patients with Septic Shock (VASST). N Engl J Med. 2008;358(9):877-887 · DOI 10.1056/NEJMoa067373 | [3] Evans L, Rhodes A, Alhazzani W, et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2021. Crit Care Med. 2021;49(11):e1063-e1143 · DOI 10.1097/CCM.0000000000005337 | [4] Cardenas-Garcia J, Schaub KF, Belchikov YG, et al. Safety of peripheral intravenous administration of vasoactive medication. J Hosp Med. 2015;10(9):581-585 · DOI 10.1002/jhm.2394 | [5] Panchal AR, Bartos JA, Cabañas JG, et al. Part 3: Adult Basic and Advanced Life Support: 2020 American Heart Association Guidelines for CPR and ECC. Circulation. 2020;142(16_suppl_2):S366-S468 · DOI 10.1161/CIR.0000000000000916 · DOI 10.1056/NEJMoa0907118
Toda hipotensão que não corrige com volume vai encontrar um vasopressor, e a escolha da primeira droga muda desfecho: o ensaio SOAP II randomizou 1.679 pacientes em choque para dopamina ou noradrenalina e mostrou o dobro de eventos arrítmicos com dopamina (24,1% contra 12,4%), sem qualquer ganho de sobrevida. Desde então, a noradrenalina é a primeira linha em praticamente todos os choques, com exceção da anafilaxia (adrenalina, preferencialmente intramuscular) e da PCR (adrenalina em bolus). Este artigo organiza a farmacologia dos receptores, a tabela de doses, a evidência e a prática de titulação, via de administração e desmame, com os números que as bancas cobram.
Escolher vasopressor é escolher qual receptor estimular. Os adrenérgicos se distribuem em três famílias: alfa-1, predominante na musculatura lisa arterial e venosa, cuja ativação produz vasoconstrição (aumenta resistência vascular sistêmica, pressão arterial e, por venoconstrição, o retorno venoso); beta-1, cardíaco, que aumenta contratilidade, frequência cardíaca e automatismo (e, portanto, é arritmogênico); e beta-2, na musculatura lisa vascular e brônquica, que produz vasodilatação e broncodilatação. A esses somam-se o receptor V1 da vasopressina, que vasocontrai por via não adrenérgica (funciona mesmo em acidose grave e com receptores adrenérgicos downregulados), e os receptores dopaminérgicos D1-D5: os D1 vasodilatam leitos renal, mesentérico e cerebral (a base do antigo conceito de 'dopamina renal'), e os D2 atuam no sistema nervoso central (náusea, inibição de prolactina).
| Receptor | Localização principal | Efeito da ativação | Quem o ativa fortemente |
|---|---|---|---|
| Alfa-1 (α1) | Artérias e veias sistêmicas | Vasoconstrição: ↑SVR, ↑PAM, ↑retorno venoso | Noradrenalina, adrenalina (doses altas), fenilefrina, dopamina (>10 mcg/kg/min) |
| Beta-1 (β1) | Coração (nódulos e miócitos) | Inotropismo e cronotropismo positivos; ↑automatismo e arritmias | Adrenalina, dopamina (3-10), dobutamina; noradrenalina também tem β1 relevante |
| Beta-2 (β2) | Vasculatura e brônquios | Vasodilatação (↓SVR), broncodilatação | Adrenalina (doses baixas-médias), dobutamina (leve), isoproterenol |
| V1 (vasopressina) | Musculatura lisa vascular | Vasoconstrição independente de catecolamina | Vasopressina em baixa dose |
| D1 a D5 (dopaminérgicos) | Rim, mesentério, SNC | Vasodilatação renal e mesentérica (D1); efeitos centrais (D2) | Dopamina em doses baixas (0,5-3 mcg/kg/min) |
A noradrenalina é agonista potente de alfa-1 com beta-1 moderado e beta-2 desprezível: sobe a PAM com pouco efeito cronotrópico e, frequentemente, redução reflexa da frequência cardíaca pelo barorreflexo, o que a torna a amina mais 'limpa' para levantar pressão. A adrenalina é beta-1 e beta-2 dominante em doses baixas (0,01-0,05 mcg/kg/min) e ganha alfa-1 conforme a dose sobe, ao custo de mais arritmias, taquicardia e hiperlactatemia por glicogenólise beta-2. A fenilefrina é alfa puro: sobe a SVR sem inotropismo, e pode reduzir o débito cardíaco em corações com função limítrofe. A dopamina é o camaleão dose-dependente (D1 em 0,5-3, beta-1 em 3-10, alfa-1 acima de 10 mcg/kg/min), mas é justamente a estimulação beta-1 difusa que explica suas arritmias. Em acidose grave (pH <7,1-7,2), a resposta aos adrenérgicos cai, e é quando a vasopressina, por via não adrenérgica, mantém efeito.
Antes de qualquer droga, classifique o choque, porque a mesma hipotensão tem quatro mecanismos e tratamentos diferentes. O perfil hemodinâmico invasivo (pressão venosa central, débito cardíaco, resistência vascular sistêmica e saturação venosa central de oxigênio) distingue os quatro tipos fisiológicos: distributivo (vasoplegia), cardiogênico (bomba), hipovolêmico (volume) e obstrutivo (impedimento mecânico ao fluxo). O choque séptico é o arquétipo distributivo e o mais frequente em UTI; a mistura de mecanismos (sepse com cardiopatia, trauma com contusão miocárdica) é comum e a ecografia à cabeceira resolve a dúvida em minutos.
| Variável | Distributivo (séptico) | Cardiogênico | Hipovolêmico | Obstrutivo (TEP, tamponamento, pneumotórax hipertensivo) |
|---|---|---|---|---|
| PVC | Baixa ou normal (precoce) | Alta | Baixa | Alta (exceto hipovolemia associada) |
| Débito cardíaco | Normal ou alto | Baixo | Baixo | Baixo |
| SVR (resistência vascular) | Baixa | Alta | Alta | Alta |
| ScvO2 | Alta (frequentemente >75-80%, extração periférica prejudicada) | Baixa (<70%, frequentemente <60%) | Baixa | Baixa |
| Exemplos | Sepse, anafilaxia, neurogênico, SIRVA | IAM extenso, miocardite, IC terminal | Hemorragia, desidratação, queimaduras | TEP maciço, tamponamento, pneumotórax hipertensivo |
| Droga | Receptores | Faixa de dose (adulto) | Efeito dominante | Indicação típica |
|---|---|---|---|---|
| Noradrenalina | α1 >> β1 | 0,01-3 mcg/kg/min (início 0,05-0,1) | Vasoconststricção com leve inotropismo | Primeira linha: choque séptico, cardiogênico e obstrutivo; ponte no hipovolêmico |
| Adrenalina | β1, β2 e, em dose alta, α1 | 0,01-0,5 mcg/kg/min | Inotropismo/cronotropismo → vasoconstrição | Anafilaxia (IM 0,3-0,5 mg), PCR (1 mg IV), bradicardia (2-10 mcg/min), 3ª linha na sepse |
| Vasopressina | V1 | 0,03 U/min fixa | Vasoconstrição não adrenérgica | 2ª linha/poupadora de noradrenalina no choque séptico |
| Fenilefrina | α1 puro | 0,5-9 mcg/kg/min (40-180 mcg/min) | Vasoconstrição sem inotropismo | Hipotensão com taquiarritmia induzida por aminas; sala de cirurgia; evitar na sepse |
| Dopamina | D1 / β1 / α1 conforme dose | 5-20 mcg/kg/min | Dose-dependente | Praticamente abandonada; reserva relativa: bradicardia hipotensa com marcapasso indisponível |
| Dobutamina | β1 > β2 | 2,5-20 mcg/kg/min | Inotropismo com vasodilatação leve | Débito baixo (ScvO2 baixa, eco) com PAM já estabilizada |
Complementos que aparecem em prova: a milrinona (0,125-0,75 mcg/kg/min) é inodilatadora não adrenérgica (inibidor da fosfodiesterase-3), útil na disfunção cardíaca com pressão arterial limítrofe e na hipertensão pulmonar, mas pode hipotensionar; a terlipressina é análogo da vasopressina usado na síndrome hepatorenal e como alternativa à vasopressina; e o glucagon (1-5 mg IV) contorna o bloqueio beta-adrenérgico no choque refratário de anafilaxia ou intoxicação por betabloqueador, agindo por receptor não adrenérgico. Toda amina deve ser diluída em bomba de infusão com sinalização visível, rótulo e via dedicada, e a troca de seringa é momento clássico de queda de pressão: preparo antecipado.
O SOAP II (De Backer, NEJM 2010) randomizou 1.679 pacientes com choque (séptico, cardiogênico e hipovolêmico) para dopamina ou noradrenalina como primeiro vasopressor. Resultado central: mortalidade em 28 dias sem diferença significativa (52,5% com dopamina contra 48,5% com noradrenalina), porém eventos arrítmicos duas vezes mais frequentes com dopamina (24,1% contra 12,4%), e uma análise de subgrupo com sinal de maior mortalidade com dopamina no choque cardiogênico. Metanálises posteriores que agruparam SOAP II e ensaios menores confirmaram menor mortalidade com noradrenalina e mais arritmias com dopamina, e o Surviving Sepsis Campaign passou a recomendar noradrenalina como primeira linha (recomendação forte) e dopamina apenas em casos selecionados de bradicardia com hipotensão.
Sobre a vasopressina, o VASST (Russell, NEJM 2008; 778 pacientes) comparou baixa dose de vasopressina (0,01-0,03 U/min) contra noradrenalina no choque séptico e não encontrou diferença na mortalidade no desfecho primário, com sugestão de benefício no subgrupo com choque menos grave; ensaios subsequentes (VANISH e outros) tampouco mostraram ganho de sobrevida, consolidando o papel da vasopressina como adjuvante fixo (0,03 U/min) que poupa noradrenalina, e não como primeira escolha. A mensagem prática é um algoritmo em escada: noradrenalina até cerca de 0,25-0,5 mcg/kg/min, somar vasopressina 0,03 U/min, reavaliar foco/volume/ácido, considerar adrenalina, hidrocortisona 200 mg/dia se dependência persistente, e medidas mecânicas nos casos refratários.
O alvo numérico clássico é PAM de 65 mmHg, validado no ensaio SEPSISPAM: alvo alto (80-85 mmHg) não reduziu mortalidade em comparação a 65-70 mmHg e aumentou fibrilação atrial, embora o subgrupo de hipertensos crônicos tenha mostrado menos lesão renal aguda com o alvo mais alto (evidência fraca para individualizar). Titula-se a noradrenalina em degraus (por exemplo, 0,02-0,05 mcg/kg/min por vez, a cada 5-15 minutos conforme a resposta), evitando picos hipertensivos e períodos prolongados hipotensos. A pressão, porém, é meio, não fim: os desfechos de perfusão que confirmam a titulação são queda do lactato (≥10-20% em 2-4 h), tempo de recrutamento capilar <3 segundos (o ensaio ANDROMEDA-SHOCK mostrou que ressuscitação guiada por recrutamento capilar foi pelo menos tão boa quanto a guiada por lactato), regressão da marmorização, débito urinário ≥0,5 mL/kg/h e melhora do nível de consciência.
Se a dose de noradrenalina escala acima de aproximadamente 0,5-1 mcg/kg/min sem controlar a PAM, o diagnóstico é 'choque refratário' e a resposta é um checklist, não mais dose: o foco foi controlado (cirurgia, dreno, antimicrobiano adequado)? o volume foi otimizado com medidas dinâmicas (elevação passiva das pernas, VTI)? há acidose grave, hipoxemia, hipercapnia ou hipocalcemia corrigíveis (o cálcio iônico baixo reduz a resposta às catecolaminas)? foi adicionada vasopressina e considerados adrenalina e hidrocortisona? é realmente o diagnóstico (tamponamento, TEP, sangramento oculto, tireotoxicia, feocromocitoma de crise, mixedema)?
A necessidade de acesso central não pode atrasar o início do vasopressor no choque. A série de Cardenas-Garcia (2015, unidade de terapia intensiva) e metanálises subsequentes com milhares de pacientes mostraram que a administração periférica de noradrenalina é segura, com eventos sérios raros e taxas de extravasamento em torno de 1-2%, desde que um protocolo seja seguido. As regras práticas: veia calibrosa e proximal (antebraço ou fossa cubital, nunca dorso da mão, punho, e idealmente não membros inferiores), cateter calibroso (20G ou maior), concentração habitual de 4 a 16 mcg/mL (diluições padronizadas da instituição), inspeção do trajeto a cada 1-2 horas, tempo de uso preferencialmente limitado e planejamento de acesso central (ou midline) se a dose ou a duração crescerem.
O desmame começa quando a causa do choque está tratada e a perfusão está se recuperando: lactato em queda clara, recrutamento capilar e diurese adequados, sem novas agressões (sedação, ventilador, sangramento). A ordem prática é descer a escada inversa à subida: suspende-se primeiro a vasopressina (efeito teto, dose fixa), depois a adrenalina se ela estava somada, e a noradrenalina é a última a sair, sendo reduzida gradualmente (degraus de 0,02-0,05 mcg/kg/min, com intervalos de 15-30 minutos e vigilância da PAM). Se a PAM cai ao reduzir, verifica-se volume (pode haver hipovolemia relativa pós-liberação da vasoplegia), dor, sedação e sedação profunda. Nos pacientes em uso de hidrocortisona, o corticoide é desmameado por último, em dose decrescente, para evitar instabilidade (a suspensão abrupta pode reativar a vasoplegia).
1.Qual o perfil receptor e a faixa de dose da noradrenalina no adulto?
2.No SOAP II, qual foi o principal achado que aposentou a dopamina como primeiro vasopressor?
3.Qual a dose e a forma de uso da vasopressina no choque séptico?
4.A 'dopamina em dose renal' (0,5-3 mcg/kg/min) tem qual papel atual?
5.No choque séptico com taquiarritmia atribuída à noradrenalina e PAM limítrofe, qual amina teoricamente 'troca' a noradrenalina nessa situação descrita em textos clássicos?
6.Paciente com choque séptico tem ScvO2 de 82%, débito cardíaco alto e SVR baixa. O achado de ScvO2 elevada indica:
7.Anafilaxia com hipotensão e sem PCR: qual a via e dose iniciais de adrenalina no adulto?
8.Noradrenalina por acesso periférico extravasou no antebraço. Tratamento específico?
9.Segundo o SEPSISPAM, qual PAM-alvo deve ser buscado no choque séptico?
10.Sobre o desmame dos vasopressores, qual afirmação é correta?
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