Baseado nos artigos publicados da matéria Oncologia Básica da Central de Estudos (fonte principal) e em diretrizes e revisões vigentes — AJCC 8ª edição, ASCO, ESMO, IDSA, USPSTF, INCA, OMS, CA Cancer J Clin e NEJM (complemento, sempre com DOI). Resumo de estudo — na conduta real, confira sempre a versão vigente do protocolo.
01
Biologia do câncer e metastização
conceito e carcinogênese · hallmarks · epidemiologia GLOBOCAN/INCA · agentes oncogênicos · cascata metastática · organotropismo e seed-and-soil
Mundo (2022)
20 mi
casos novos/ano — GLOBOCAN 2022
Óbitos
9,7 mi
mortes por câncer/ano no mundo
Brasil
≈704 mil
casos novos/ano — INCA 2023–2025
Mortalidade
≈90%
das mortes por tumor sólido decorrem de metástases
1. Conceito e carcinogênese
Câncer é doença genética-epigenética de uma célula somática (ou germinativa) que acumula mutações e ganha crescimento autônomo, invasão e capacidade de disseminar. A carcinogênese clássica tem três etapas: iniciação (mutação irreversível no DNA), promoção (expansão clonal estimulada por promotores) e progressão (instabilidade genômica, aquisição de novas alterações e heterogeneidade). O clone maligno é selecionado pelo microambiente (inflamação, hipóxia, imunidade) — não é um evento único.
2. Epidemiologia: os números que a prova cobra
GLOBOCAN 2022 estimou cerca de 20 milhões de casos novos e 9,7 milhões de óbitos por ano no mundo. Os mais incidentes: pulmão (12,4%), mama feminina (11,6%), colorretal (9,6%), próstata (7,3%) e estômago (4,9%); o pulmão é também a maior causa de morte por câncer. No Brasil (INCA, estimativa 2023–2025), cerca de 704 mil casos novos por ano, com mama feminina (≈74 mil) e próstata (≈72 mil) no topo, seguidos de colorretal e pulmão; os cânceres de pele não melanoma são o grupo mais incidente quando computados.
mama pós-menopausa, endométrio, colorretal, rim, pâncreas
3. A cascata metastática
Metástase é a causa dominante de morte por câncer (estimada em cerca de 90% dos tumores sólidos) e não é um evento passivo de queda de células na circulação — é um processo de múltiplas etapas com alta ineficiência: só uma minoria mínima das células que entram na corrente sanguínea funda uma colônia.
1. Crescimento local e angiogênese (nutrição do tumor primário).
2. Invassão: perda da adesão epitelial, transição epitélio-mesênquima (EMT) e degradação da membrana basal por metaloproteinases (MMPs).
3. Intravasação: entrada em vasos linfáticos e sanguíneos.
4. Sobrevivência na circulação (escapa do cisalhamento e da resposta imune, frequentemente protegida por plaquetas).
5. Extravasação e chegada ao órgão-alvo.
6. Colonização: crescimento no nicho metastático — ou dormência (equilíbrio, às vezes por anos) antes da progressão.
4. Organotropismo — o mapa que decide a investigação
Órgão de metástase
Primários clássicos
Osso
mama (osteolítica na maioria), próstata (osteoblástica), pulmão, rim, tireoide
praticamente todos; clássico nos sarcomas, mama, colo colorretal, rim
Cérebro
pulmão, mama, melanoma, rim (os 4 campeões da prova)
Linfonodo supraclavicular esquerdo (sinal de Troisier)
gástrico (clássico), pulmão, próstata — via ducto torácico
Complicações e prognóstico: a progressão metastática define o câncer como doença sistêmica — base da terapia sistêmica (quimioterapia, terapias-alvo, imunoterapia) e dos cuidados paliativos precoces, tratados nos próximos módulos.
Questões do módulo · 01
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalA aquisição de capacidade de divisão celular ilimitada por uma célula tumoral depende principalmente de qual mecanismo?
2.IntermediárioHomem, 72 anos, adenocarcinoma de próstata com PSA elevado; cintilografia óssea mostra lesões hipercaptantes difusas na coluna e pelve, compatíveis com metástases osteoblásticas. O padrão de disseminação para o osso é melhor explicado por qual princípio?
patológico — dado pela peça cirúrgica (o mais definitivo)
ypTNM
após terapia neoadjuvante
rTNM
recidiva tumoral
aTNM
verificado na autópsia
1. TNM na prática: câncer de pulmão (8ª edição / IASLC)
Categoria
Critério
T1
≤ 3 cm (T1a ≤ 1 · T1b > 1–2 · T1c > 2–3 cm), sem invasão local
T2
> 3–5 cm, ou brônquio principal sem atingir a carina, pleura visceral, atelectasia (T2a ≤ 4 · T2b > 4–5 cm)
T3
> 5–7 cm, ou nódulo tumoral separado no mesmo lobo, ou invasão de parede torácica / nervo frênico / pericárdio parietal
T4
> 7 cm, ou nódulo em lobo ipsilateral diferente, ou invasão de mediastino, carina, coração, grandes vasos, traqueia, esôfago, coluna
N1
linfonodos peribrônquicos/hilares ipsilaterais
N2
mediastinais/subcarinais ipsilaterais
N3
mediastinais/hilares contralaterais ou supraclaviculares (qualquer lado)
M1a
nódulo no pulmão contralateral, nódulos pleurais/pericárdicos ou derrame neoplásico
M1b
metástase extratorácica única
M1c
metástases extratorácicas múltiplas (um ou vários órgãos)
Agrupamentos por estágio: a doença I–II é localizada (cirurgia com intenção de cura ± terapia adjuvante), a III é locorregionalmente avançada (tratamento combinado, tipicamente quimiorradioterapia) e a IV é sistêmica (terapia sistêmica). Exemplos da 8ª edição no pulmão: T2bN0 agrupa-se no estágio IIA e o T3N0 no IIB — a fronteira cirúrgica é decidida pelo N e pelo M, não pelo tamanho isolado.
2. Melanoma cutâneo: Breslow e ulceração mandam no T
Categoria
Critério (8ª edição)
T1
≤ 1,0 mm — T1a < 0,8 mm sem úlcera; T1b < 0,8 mm com úlcera ou 0,8–1,0 mm (com ou sem)
T2 / T3 / T4
1,01–2 mm · 2,01–4 mm · > 4 mm — sufixo a = sem úlcera, b = com úlcera
N1 / N2 / N3
1 linfonodo · 2–3 linfonodos · ≥ 4 ou conglomerados — a = microscopicamente (sentinela), b = clinicamente detectado
N1c–N3c
metástases satélites, in-transit ou microsatélites SEM linfonodos clínicos (o c marca a doença em trânsito)
M1a / M1b / M1c / M1d
pele/tecido subcutâneo/linfonodos distantes · pulmão · outras vísceras · SNC — LDH elevada acrescenta o sufixo (0) e piora o prognóstico
3. Cirurgia oncológica: princípios
A cirurgia pode ser diagnóstica (biópsia), estadiadora, curativa (ressecção completa), citorredutora, paliativa (obstrução, sangramento, dor), profilática (mutação de alto risco) ou reconstrutora. A ressecção curativa exige margens livres — classificadas como R0 (livre, micro e macroscopicamente), R1 (comprometimento microscópico) e R2 (doença residual macroscópica). Margem R1, quando factível, indica re ressecção.
Situação
Conduta cirúrgica clássica
Melanoma primário
excisão ampla com margem pela espessura: in situ 0,5–1 cm · ≤ 1 mm → 1 cm · 1,01–2 mm → 1–2 cm · > 2 mm → 2 cm
Mama em estágio inicial
cirurgia conservadora (tumorectomia/quadrantectomia) + radioterapia, ou mastectomia; linfonodo sentinela se axila clinicamente negativa
Linfonodo sentinela
corante azul + radiofármaco identifica o primeiro linfonodo do dreno — se negativo, evita a linfadenectomia e o linfedema; indicado no melanoma T1b ou mais espesso
Metástases hepáticas colorretais ressecáveis
ressecção hepática — chance real de cura em doença limitada ao fígado
Câncer de ovário avançado
cirurgia de citorredução (debulking) com objetivo de resíduo macroscópico zero — a sobrevida melhora com a citoredução completa
Mama/portadora de mutação BRCA1/2
mastectomia e anexectomia redutoras de risco (profilática), após aconselhamento genético
4. Perioperatório: recuperação acelerada e tromboprofilaxia
Protocolos ERAS (Enhanced Recovery After Surgery): aconselhamento pré-operatório, evitar jejum prolongado com carboidratos claros até 2 h antes, analgesia multimodal com mínimos opioides, nutrição e deambulação precoces, remoção de sondas e drenos o quanto antes — reduzem internação e complicações.
Tromboprofilaxia: o paciente cirúrgico com câncer tem risco alto de TEV — heparina de baixo peso molecular profilática no perioperatório (diretrizes internacionais ITAC 2019); em pacientes ambulatoriais em quimioterapia com escore de Khorana alto, considerar profilaxia farmacológica.
Avaliação nutricional e função física pré-operatórias (pré-habilitação) e correção de anemia antes de grandes ressecções.
Questões do módulo · 02
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioMulher, 44 anos, melanoma cutâneo de tronco, Breslow 1,2 mm, sem ulceração, linfonodo sentinela negativo, sem metástases. Classificação T correta (AJCC 8ª edição):
2.AvançadoHomem, 61 anos, adenocarcinoma pulmonar periférico de 4,5 cm na 8ª edição do TNM (IASLC); PET/TC sem linfonodos acometidos e sem metástases à distância. Classificação T e agrupamento por estágio:
radiaobiologia e os Rs · fracionamento e hipofracionamento · modalidades (teleterapia, braquiterapia, SBRT) · indicações curativas e paliativas · toxicidades agudas e tardias
Fração padrão
1,8–2 Gy
por sessão, 5 dias/semana
Mama (START)
40 Gy / 15
frações em 3 semanas — hipofracionamento padrão
Coração (Darby)
+7,4% / Gy
eventos coronarianos por Gy de dose média
Mama conservadora
19 vs 35%
recorrência em 10 anos COM vs SEM radioterapia
1. Modalidades e técnicas
Técnica
O que é / indicação típica
Teleterapia (percutânea, acelerador linear)
feixe externo — a forma mais comum; IMRT/VMAT modulam a intensidade para poupar órgãos de risco
Braquiterapia
fonte radioativa DENTRO ou junto à cavidade/tumor (intracavitária ou intersticial) — colo do útero, endométrio, próstata; alta dose por proximidade e pouca penetração
IGRT (radioterapia guiada por imagem)
imagem diária para reposicionar o alvo — reduz margens
Radioterapia estereotáxica (SRS/SBRT)
dose ablativa em 1–5 frações para alvos pequenos (cérebro, pulmão, fígado, coluna) — lesões oligometastáticas e tumores precoces inoperáveis
Prótons
pico de Bragg — dose máxima no tumor e saída abrupta; indicada em tumores pediátricos e de base de crânio
2. Radiobiologia: os Rs do fracionamento
Repair (reparo): entre as frações, os tecidos normais reparam o dano subletal melhor que muitos tumores — é a base do fracionamento clássico.
Repopulação: o tumor residual prolifera mais rápido durante o tratamento — o tratamento não deve ser alongado sem necessidade (pausas pioram o controle).
Redistribuição (ressincronização): células morrem nas fases sensíveis (M e G2) e as sobreviventes ressincronizam para fases sensíveis à fração seguinte.
Reoxigenação: a morte celular reoxigena células hipóxicas (radioresistentes) para as sessões seguintes.
Frações diárias pequenas (1,8–2 Gy, 5 dias/semana) exploram a diferença de reparo entre tumor e tecido normal. Tecidos de resposta tardia (coração, pulmão, medula) têm alta capacidade de reparo (relação alfa/beta baixa, ~3 Gy); muitos tumores, alfa/beta alta (~10 Gy). Tumores com alfa/beta baixa (mama, próstata) respondem bem ao HIPOfacionamento — frações maiores e menos sessões.
3. Indicações: curativa, adjuvante e paliativa
Contexto
Exemplos
Definitiva (curativa, sem cirurgia)
cabeça e pescoço avançado (com quimiorradioterapia radiosensibilizante com cisplatina), colo do útero (teleterapia + braquiterapia), próstata, anal
Adjuvante (após cirurgia)
mama conservadora (obrigatória na conservação), leito tumoral em alto risco, gânglios regionais
Neoadjuvante
retossigmóide (downsizing), sarcomas de partes moles, mama localmente avançada
Paliativa
dor óssea metastática (esquema curto, ex.: 8 Gy em fração única), metástases cerebrais, compressão medular, síndrome da veia cava superior, sangramento tumoral
fibrose cutânea/pulmonar, xerostomia, estenoses, hipotireoidismo, pneumonite por radiação, segundos tumores
Curso
geralmente reversíveis
frequentemente irreversíveis — é o limite de dose dos órgãos de risco
Complicações e prognóstico: o êxito da radioterapia depende da entrega completa da dose prescrita sem pausas indevidas, do respeito às restrições dos órgãos de risco e da integração com cirurgia e sistêmicos — radioterapia adjuvante após cirurgia conservadora da mama é o exemplo mais cobrado de ganho em controle local traduzido em sobrevida.
Questões do módulo · 03
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalA radioterapia fracionada convencional (frações diárias pequenas) explora principalmente qual diferença entre tumor e tecidos normais?
2.AvançadoMulher, 58 anos, hipertensa, câncer de mama esquerda em estágio inicial, indicada radioterapia da mama esquerda após cirurgia conservadora. Qual estratégia reduz especificamente a dose cardíaca?
análogos de bases/ácido fólico que travam a síntese (fase S)
Antraciclinas
doxorrubicina, daunorrubicina
intercalação no DNA + inibição da topoisomerase II + radicais livres
Taxanos
docetaxel, paclitaxel
estabilizam os microtúbulos — bloqueiam a divisão (fase M)
Alcaloides da vinca
vincristina, vinblastina
inibem a polimerização dos microtúbulos (fase M)
Epipodofilotoxinas / campetotecinas
etoposídeo (topo II) · irinotecano (topo I)
bloqueiam topoisomerases — religação do DNA
Antibiótico citotóxico
bleomicina
quebras de DNA por radicais livres — pouco mielotóxico
Agentes ciclo-específicos (antimetabólitos na fase S; taxanos e vincas na fase M) matam proporcionalmente à taxa de proliferação; os não ciclo-específicos (alquilantes) atuam em qualquer fase. Os regimes combinam classes com toxicidades não sobrepostas para maximizar morte tumoral: AC (doxorrubicina + ciclofosfamida), ABVD (Hodgkin), FOLFOX (colorretal), R-CHOP (linfoma difuso grande B).
Neoadjuvante: antes da cirurgia, para reduzir o tumor, permitir conservação de órgão e testar sensibilidade in vivo (mama localmente avançada, retossigmóide, sarcoma).
Paliativa: doença metastática — controle da doença e de sintomas com toxicidade aceitável.
Indução (leucemias/linfomas): remissão completa inicial; depois consolidação e manutenção (LLA).
4. Terapias-alvo e medicina de precisão
A terapia-alvo ataca uma alteração driver do tumor — exige biomarcador. Os dois ensaios fundadores: imatinibe na LMC (inibidor do BCR-ABL; resposta hematológica completa em 53 de 54 pacientes na fase crônica no estudo pivotal do NEJM 2001) e trastuzumabe no mama HER2+ metastático (com quimioterapia, tempo até progressão 7,4 vs 4,6 meses — NEJM 2001).
Alvo
Fármaco
Indicação exemplar
Toxicidade marcante
BCR-ABL
imatinibe (400 mg/dia VO)
LMC em fase crônica
edema periorbitário, náusea, mielotoxicidade leve
HER2
trastuzumabe
mama HER2+ (com quimio)
cardiotoxicidade — não combinar com antraciclina; eco serial
CD20
rituximabe
linfomas CD20+ (R-CHOP)
reações de infusão
VEGF
bevacizumabe
colorretal, ovário, glioblastoma
hipertensão, proteinúria, sangramento, perfuração, má cicatrização — suspender antes de cirurgia
ovário platina-resistente com alta expressão de FRα
toxicidade ocular, fadiga — exige teste de FRα por IHQ
5. Hormonioterapia (o mais esquecido em prova)
Tamoxifeno (SERM) na mama HR+ premenopausal: risco de TEV e de adenocarcinoma de endométrio (efeito agonista parcial) — investigar sangramento uterino.
Inibidores de aromatase (anastrozol, letrozol) apenas pós-menopausa: osteoporose e artralgias — monitorar densidade óssea.
Deprivação androgênica na próstata: osteoporose, síndrome metabólica, fogachos.
Questões do módulo · 04
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 24 anos, linfoma de Hodgkin em tratamento com ABVD; após o 3º ciclo, dispneia progressiva e tosse seca, sem febre; tomografia com retícula difusa e prova de função respiratória com queda da DLCO. Qual fármaco do esquema explica o quadro, e qual cuidado anestésico futuro decorre disso?
2.AvançadoMulher, 55 anos, câncer de mama metastático fortemente HER2-positivo, já tratada com antraciclina no passado (dose cumulativa relevante). Vai iniciar trastuzumabe associado a quimioterapia. Qual a vigilância específica que muda a conduta?
checkpoints CTLA-4 e PD-1 · mecanismo “tirar o freio” · indicações e biomarcadores · eventos adversos imunomediados e graduação · CAR-T e síndrome de liberação de citocinas · pseudoprogressão
Ipilimumabe
2010
primeira sobrevida demonstrada no melanoma metastático
irAE grau 2
0,5–1 mg/kg/dia
prednisona/prednisolona VO + suspender o inibidor
irAE grau 3–4
1–2 mg/kg/dia
metilprednisolona IV + internação
CAR-T (LLA B)
83%
remissão global em 3 meses (tisagenlecleucel)
1. Drogas e bases de evidência
Alvo
Fármacos
Nota de prova
CTLA-4
ipilimumabe
o primeiro a demonstrar ganho de sobrevida no melanoma metastático (NEJM 2010) — abriu a era
bexiga, pulmão (inclui consolidação após quimiorradioterapia no CPNPC estágio III)
Combinação CTLA-4 + PD-1
ipilimumabe + nivolumabe
mais resposta no melanoma — e mais toxicidade imunomediada
Indicações exemplares: melanoma (adjuvante e metastático), câncer de pulmão não pequenas células (monoterapia se PD-L1 ≥ 50%, ou combinado à quimioterapia), carcinoma urotelial, carcinoma de células renais, cabeça e pescoço, linfoma de Hodgkin clássico (que amplifica 9p24.1/PD-L1 — pegadinha clássica), mesotelioma, colo do útero, mama triplo negativo em combinação, e uso tecido-agnóstico nos tumores com instabilidade de microssatélites/deficiência de reparo de mismatch (MSI-H/dMMR).
2. Biomarcadores de resposta
PD-L1 por imuno-histoquímica: TPS (tumor proportion score) no pulmão; CPS (combined positive score) em gastroesofágico, bexiga, mama triplo negativo.
MSI-H / dMMR: o primeiro biomarcador tecido-agnóstico aprovado — indicativo de resposta a pembrolizumabe independentemente do órgão.
Carga mutacional tumoral (TMB) alta: mais neoantígenos, mais alvo para o linfócito T.
Vitiligo em pacientes com melanoma: marcador clínico de resposta — bom sinal, não evento adverso grave.
3. Eventos adversos imunomediados (irAEs): reconhecer e gradear
Ao retirar os freios, qualquer órgão pode ser atacado pelo próprio sistema imune. A maioria ocorre nas primeiras semanas a meses — mas pode surgir mais de um ano APÓS a suspensão do fármaco. Pele é o mais comum; endócrinas e gastrointestinais são as que mais confundem. A regra universal: sintoma novo de órgão em paciente sob checkpoint = irAE até prova em contrária, excluir causas alternativas (infecção, progressão, fármacos) e decidir pela gravidade.
Órgão
Apresentação típica
Nota
Pele
prurido, rash maculopapular, vitiligo
a mais comum e geralmente a mais leve (grau 1)
Gastrointestinal
diarreia/colite (muco, sangue), risco de perfuração
colite mais típica do ipilimumabe; diferenciar de diarreia por quimioterapia/ Clostridioides difficile
Hepática
elevação de transaminases ± bilirrubina
excluir metástases, hepatites virais, outros fármacos
Endócrina
tiroide (tiroide com fase hiper depois hipo), hipofisite (astenia, hiponatremia, hipotensão), insuficiência adrenal primária, DM1 com cetoacidose
hipofisite é classicamente do ipilimumabe; reposição hormonal costuma ser definitiva
Pulmonar
pneumonite: tosse, dispneia, hipoxemia
mais comum com anti-PD-1/PD-L1 e radioterapia torácica prévia
SUSPENDER o inibidor de checkpoint + prednisona/prednisolona 0,5–1 mg/kg/dia VO com retirada gradual em ≥ 1 mês.
Retomar só quando ≤ grau 1 com corticoide ≤ 10 mg/dia.
GRAU 3–4 (grave/ameaça à vida)
Diarreia > 7/dia, perfuração, transaminases > 5–10×, pneumonite com hipoxemia, miocardite, endocrinopatia com instabilidade.
Suspensão DEFINITIVA (a maioria), internação, metilprednisolona 1–2 mg/kg/dia IV.
Refratário em 48–72 h de corticoide: infliximabe 5 mg/kg na colite (EVITAR na hepatite), micofenolato/tacrolimo na hepatite, vedolizumabe na colite refratária, imunoglobulina/plasmaférese nas neurológicas.
4. CAR-T e outros biológicos
Células CAR-T são linfócitos T do próprio paciente geneticamente modificados para reconhecer CD19 (linfomas e leucemias B). O tisagenlecleucel foi aprovado com base no estudo pivotal de 75 crianças e adultos jovens com leucemia linfoblástica B recidivada/refratária: remissão global em 3 meses de 83% (NEJM 2018). Também há CAR-T anti-CD19 para linfoma difuso de grandes células B (axicabtagene ciloleucel).
Toxicidade do CAR-T
Quadro
Tratamento
Síndrome de liberação de citocinas (CRS)
febre, hipotensão, hipóxia, elevação de IL-6 — primeiros dias após a infusão
tocilizumabe (anti-IL-6R) ± corticoide em graus maiores; suporte hemodinâmico
corticoide (dexametasona) em esquema decrescente; anakinra nos casos graves
Blinatumomabe (anticorpo bispecífico CD19/CD3): alternativa imunológica na LLA B — também causa CRS.
Talimogene laherparepvec: vírus oncolítico injetado em lesões de melanoma.
Interleucina-2 em altas doses: resposta histórica no melanoma/rim com toxicidade capilar leak — hoje de uso restrito.
Questões do módulo · 05
3 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalO mecanismo dos anticorpos anti-PD-1 (nivolumabe, pembrolizumabe) na oncologia é corretamente descrito como:
2.IntermediárioMulher, 63 anos, melanoma metastático em uso de pembrolizumabe; há 3 dias diarreia líquida 5 evacuações/dia acima do basal, sem sangue, sem febre; exame com leve desconforto abdominal, sinais vitais estáveis; pesquisa de Clostridioides difficile e coprocultura negativas. Conduta correta:
3.Prova difícilHomem, 59 anos, melanoma em ipilimumabe + nivolumabe; há 1 semana astenia intensa, anorexia, hipotensão 82/50, natremia 126 mEq/L; glicemia normal; sem febre. Cortisol sérico baixo com ACTH baixo. Qual a conduta imediata correta?
neutropenia febril · síndrome da lise tumoral · hipercalcemia · síndrome da veia cava superior · compressão medular maligna · tamponamento e hipertensão intracraniana
Definição (IDSA): neutrófilos absolutos < 500/mm³ (ou < 1.000 com queda esperada para < 500 em 48 h) + temperatura única ≥ 38,3 °C (axilar/oral) ou ≥ 38,0 °C sustentada por 1 hora. É emergência: mortalidade da sepse do neutropênico é alta e a fonte frequentemente é oculta (mucosite, cateter, períneo).
Fluxo da neutropenia febril
Paciente em quimioterapia com febre — como conduzir na primeira hora?
▼
TODOS
Avaliação focada (mucosa oral, sítio de cateter, pele, períneo — SEM toque retal e SEM supositórios) + hemoculturas (2 pares, incluindo cada lúmen do cateter), urina I/cultura e radiografia se sintomático.
Iniciar betalactâmico antipseudomonas IV em até 1 hora: cefepima, piperacilina-tazobactam ou carbapenêmico — NÃO aguardar cultura.
Adaptar por gravidade
Instabilidade hemodinâmica, suspeita de infecção do cateter, pneumonia, infecção de pele/tecidos moles ou colonização por MRSA: SOMAR vancomicina (não é rotina em todos).
Febre persistente além de 4–7 dias de terapia adequada: acrescentar antifúngico empírico (anfotericina lipoidal, azol).
Baixo risco (MASCC ≥ 21) estável, sem contraindicação social: opção de tratamento ambulatorial oral (ciprofloxacino + amoxicilina-clavulanato) com reavaliação em 48–72 h.
Duração e profilaxia
Manter antibiótico até afebril ≥ 48 h e ANC ≥ 500 em ascensão; desfazer o foco (cateter) quando indicado.
Profilaxia: fluoroquinolona (levofloxacino/ciprofloxacino) em regimes de alto risco de neutropenia febril (ASCO); antifúngico profilático (posaconazol) em alto risco; G-CSF profilático quando risco de febre neutropênica do regime ≥ 20% (ASCO) — G-CSF não é rotina no episódio estabelecido.
2. Síndrome da lise tumoral (SLT)
Destruição maciça e rápida de células tumorais (espontânea ou nas primeiras 12–72 h de terapia) libera conteúdo intracelular: ácido úrico (nucleoproteínas), potássio e fósforo; o fósforo elevado quela cálcio (hipocalcemia). Consequências: lesão renal aguda por precipitação intratubular e arritmias pelo hiperpotassemia.
SLT laboratorial (≥ 2 critérios, 3 dias antes a 7 dias após terapia)
Corte (adultos)
Ácido úrico
≥ 8 mg/dL ou aumento ≥ 25% do basal
Potássio
≥ 6 mEq/L ou aumento ≥ 25%
Fósforo
≥ 4,5 mg/dL (crianças ≥ 6,5) ou aumento ≥ 25%
Cálcio (corrigido)
< 7 mg/dL ou queda ≥ 25%
SLT clínica = laboratorial +
insuficiência renal aguda, arritmia ou convulsão
Risco maior: doenças de alta proliferação e carga — linfoma de Burkitt, LLA de alto risco, LMA com leucocitose intensa — e LDH elevada, doença volumosa, desidratação ou nefropatia prévia. Prevenir é mais fácil que tratar: hidratar AGRESSIVAMENTE antes e durante a primeira semana de terapia.
3. Hipercalcemia da malignidade
Mecanismo
Tumores típicos
Marcador
Humoral (PTHrP)
carcinomas epidermoides: pulmão, cabeça e pescoço, esôfago, colo do útero; também mama, rim
PTH suprimido + PTHrP detectável
Osteolítico (metástases/mieloma)
mama, mieloma múltiplo
PTH suprimido; lesões osteolíticas
Produção de calcitriol
linfomas, doenças granulomatosas
calcitriol elevado; responde a corticoide
Clínica: polúria/polípsia (diabetes insipidus nefrogênico → desidratação que piora a calcemia), náusea, constipação, confusão até coma, fraqueza; eletrocardiograma com QT CURTO e arritmias. Corrigir o cálcio total para a albumina: somar 0,8 mg/dL para cada 1 g/dL de albumina abaixo de 4,0 (ou dosar o cálcio iônico). PTH dosado diferencia da causa primária hiperparatireoidista.
4. Síndrome da veia cava superior (SVCS)
Obstrução do retorno venoso cefálico: no adulto a causa mais comum é o câncer de pulmão (clássicamente o pequenas células), seguido do linfoma (a causa clássica do adulto jovem) e de tumores germinativos do mediastino; em pacientes com cateter central, considerar trombose. Clínica: edema de face, pescoço e membros superiores (piora ao deitar e ao abaixar), dispneia, tosse, sensação de cabeça cheia, circulação colateral torácica e sinal de Pemberton (plethora facial ao elevar os braços). Tomografia de tórax com contraste fecha a avaliação anatômica.
Fluxo da SVCS maligna
Suspeita de SVCS — qual a sequência?
▼
Estável
Posição sentada/elevada, oxigênio se hipoxemia.
Obter DIAGNÓSTICO HISTOLÓGICO antes de tratar: biópsia do sítio acessível (linfonodo, mediastino por endoscopia/cirurgia).
Tratamento específico pela histologia: quimioterapia no linfoma e no pequenas células (quimiossensíveis); radioterapia no não pequenas células.
Grave
Compromisso de vias aéreas (estridor), comprometimento de consciência ou colapso do retorno venoso grave: stent endovascular imediato.
Trombose associada: anticoagulação.
Armadilha
Corticoide e diurético têm papel LIMITADO (edema por obstrução mecânica, não retenção de sódio) — e o corticoide pode linfopenizar a amostra e mascarar o linfoma.
Radioterapia empírica ANTES da biópsia compromete o material histológico.
5. Compressão medular maligna
Complicação dos tumores com afinidade óssea — mama, pulmão e próstata são os primários mais frequentes; a coluna TORÁCICA é o sítio mais acometido. A sequência clínica clássica: dor nas costas (primeiro sintoma, com agravamento NOTURNO e em REPOUSO — ao contrário da dor mecânica, que piora com movimento) → fraqueza motora → nível sensitivo → disfunção esfincteriana (tardia e de mau prognóstico). Toda suspeita exige exame neurológico completo e ressonância de TODA a coluna (lesões múltiplas em parte dos casos).
6. Outras emergências em uma linha
Metástases cerebrais com edema e risco de hérnia: dexametasona IV (ex.: 4 mg de 6/6 h) e radiocirurgia vs radioterapia de todo o cérebro conforme número/tamanho.
Tamponamento pericárdico maligno: turgência + hipotensão + abafamento (Beck) → pericardiocentese guiada por eco e janela pericárdica em selecionados.
Leucostase/hiperviscosidade na LMA com blastose muito alta: hidratação, alopurinol (lise), leucaférese e quimioterapia urgente.
Hemoptise maciça e obstrução de via aérea por tumor: posição lateralizada, controle endoscópico/radioterapia hemostática urgente.
Questões do módulo · 06
3 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioMulher, 34 anos, com leucemia mieloide aguda em indução (dia +7), temperatura axilar 38,6 °C, ANC 120/mm³, estável hemodinamicamente, mucosite oral importante. Após coleta de hemoculturas, qual a conduta antibiótica inicial correta?
2.AvançadoJovem, 19 anos, linfoma de Burkitt com massa abdominal volumosa (LDH 8× o normal); 18 h após o início da quimioterapia: potássio 6,4 mEq/L, ácido úrico 11 mg/dL, fósforo 6,8 mg/dL, cálcio 6,1 mg/dL, creatinina 1,9 mg/dL (basal 0,8). Conduta correta:
3.Prova difícilHomem, 68 anos, câncer de próstata com metástases ósseas; há 2 semanas dor lombar progressiva, PIOR À NOITE e em repouso; há 2 dias fraqueza dos membros inferiores e hoje retenção urinária. Qual a sequência de conduta correta?
definição OMS e modelo precoce (Temel/ASCO) · escada analgésica da OMS (receita) · dispneia e náusea · caquexia e nutrição (ESPEN) · comunicação, diretivas antecipadas e fim da vida
A evidência que mudou a prática vem do ensaio de Temel (NEJM 2010): pacientes com câncer de pulmão não pequenas células metastático randomizados para cuidados paliativos PRECOCEs associados à oncologia padrão tiveram melhor qualidade de vida e humor, menos depressão (16% vs 38%), menos tratamento agressivo no último mês de vida (33% vs 54%) e SOBREVIDA MEDIANA MAIOR (11,6 vs 8,9 meses). A diretriz da ASCO recomenda integrar cuidados paliativos ao cuidado oncológico padrão precocemente; no Brasil, a Portaria GM/MS nº 3.681/2024 instituiu a Política Nacional de Cuidados Paliativos no SUS.
1. Dor: avaliar mecanismo antes de prescrever
Classifique a dor: nociceptiva somática (bem localizada, em pontada), nociceptiva visceral (difusa, em cólica), neuropática (queimação, choque, alodinia) ou mista — porque a neuropática precisa de adjuvante e responde mal a opioide isolado. E avalie o componente total: sofrimento espiritual e social amplificam dor.
Degrau da escada da OMS
Fármacos
Nota
1 — Não opioide ± adjuvantes
dipirona, paracetamol, AINEs
respeitar plaquetopenia e função renal da quimioterapia
2 — Opioide leve ± não opioide
codeína, tramadol
teto analgésico; limite de paracetamol da associação
Dispneia: opioide em dose baixa (ex.: morfina 2,5–5 mg VO), posicionamento, ventilador na face; oxigênio apenas se hipoxemia documentada ou alívio subjetivo; tratar causas reversíveis (derrame pleural, anemia intensa, TEV, obstrução).
Náusea/vômito pelo mecanismo: quimioreceptores (haloperidol), gástrico/esvaziamento (metoclopramida), serotoninérgico pós-quimio (ondansetrona), obstrução intestinal (haloperidol + octreotídeo, corticoide no inflamatório).
Delirium terminal: haloperidol; “death rattle” (secreções): hioscina SC e explicação à família (o ruído perturba mais os presentes que o paciente).
Ansiedade, insônia e sofrimento espiritual: parte do plano terapêutico, não “detalhe psicológico”.
3. Caquexia e nutrição (ESPEN)
Caquexia oncológica é síndrome metabólica inflamatória (TNF, IL-1, IL-6, IFN): perda > 5% do peso em 6 meses (ou > 2% em paciente com IMC baixo ou sarcopenia), anorexia e perda muscular — DIFERENTE de desnutrição por falta de oferta: aumentar calorias isoladamente não reverte o processo inflamatório. Rastrear risco nutricional desde o diagnóstico, com aconselhamento dietético e atividade física; suplementos orais quando útil; nutrição parenteral reservada a casos selecionados (obstrução intestinal não operável, síndrome do intestino curto, falha intestinal) — não é terapia de rotina na caquexia avançada. Corticoide e progestágenos podem estimular o apetite, com objetivos claros e por períodos definidos.
4. Comunicação, decisões e fim da vida
Protocolo SPIKES para notícias difíceis: preparar o ambiente (Setting), explorar a Percepção do paciente, obter o convite (Invitation) para quanto quer saber, dar o conhecimento em blocos, responder com Empatia às emoções e fechar com Strategy/Sumário.
Decisão compartilhada e objetivos de cuidado documentados; diretivas antecipadas de vontade têm amparo na Resolução CFM nº 1.995/2012.
Ortotanásia (permitir o processo natural da morte, suspendendo tratamentos fúteis) é aceita pelo CFM desde a Resolução nº 1.805/2006; eutanásia permanece proibida no Brasil; distanásia é o excesso terapêutico que se quer evitar.
Sedação paliativa proporcional em sintoma refratário (dose para alívio do sintoma, não para abreviar a vida) é prática ética distinta da eutanásia.
Suporte à família e ao luto fazem parte do cuidado — o paciente é a unidade de cuidado (paciente + família).
Questões do módulo · 07
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 66 anos, câncer de pulmão não pequenas células metastático recém-diagnosticado, iniciando quimioterapia. Segundo o ensaio de Temel (2010) e a diretriz da ASCO, o encaminhamento precoce à equipe de cuidados paliativos está associado a qual desfecho?
2.FundamentalMulher, 72 anos, câncer de pâncreas avançado, iniciada morfina de liberação imediata para dor forte. Qual orientação/prescrição associada é OBRIGATÓRIA desde o primeiro dia?
níveis de prevenção e vacinas · princípios do rastreio · mama, colo do útero, colorretal e pele (USPSTF/INCA) · epidemiologia pediátrica · Wilms × neuroblastoma · LLA e sinais de alarme
1. Prevenção: os três níveis
Primária (impedir a doença): combate ao tabagismo (a maior causa evitável de câncer — OMS), controle do álcool e do peso, atividade física, proteção solar, vacinas contra HPV (colo do útero e orofaringe) e hepatite B (carcinoma hepatocelular).
Secundária (detectar precoce): rastreamento em assintomáticos — mama, colo do útero, colorretal; condição para funcionar: doença prevalente e grave, fase pré-clínica longa, teste aceitável e tratamento precoce eficaz.
Terciária: tratar e reabilitar — reduzir mortalidade e sequelas nos diagnosticados.
2. Rastreio dos tumores comuns — a tabela da prova
Tumor
População e intervalo
Teste e notas
Mama (USPSTF 2024)
mulheres 40–74 anos, MAMOGRAFIA BIANUAL
a atualização de 2024 antecipou o início para 40 anos; acima de 75, individualizar
Mama (Brasil, MS/INCA)
50–69 anos, mamografia a cada 2 anos
rastreamento populacional do SUS; alto risco (mutação/história forte) → protocolo individual, com RM em selecionadas
Colo do útero (USPSTF 2018)
21–29: citologia 3/3 anos · 30–65: HPV 5/5, ou citologia 3/3, ou coteste 5/5
suspender após 65 se rastreio adequado e negativo
Colo do útero (Brasil, INCA 2025)
25–64 anos: citologia a cada 3 anos ou teste de HPV como primário a cada 5 anos
vacinação HPV no SUS entre 9 e 14 anos; estratégia OMS de eliminação 90-70-90
Colorretal (USPSTF 2021)
45–75 anos: sangue oculto fecal anual, colonoscopia 10/10 anos ou retossigmoidoscopia 5/5
início aos 45 (antes era 50); 76–85 individualizar
Pele (USPSTF 2023)
adultos assintomáticos: EVIDÊNCIA INSUFICIENTE para rastreamento
proteção solar e avaliação de lesões suspeitas; ABCDE do melanoma
Próstata
sem rastreamento populacional no Brasil (INCA)
PSA em decisão compartilhada a partir dos 50 (45 se risco), explicando riscos de sobre-diagnóstico
3. Oncologia pediátrica: epidemiologia
O câncer infantil é raro (≈1% dos cânceres), mas é a principal causa de morte por doença entre crianças de 1 a 14 anos em países de alta renda. Estimativas por simulação apontam cerca de 400 mil casos novos por ano no mundo em menores de 20 anos — bem acima dos cerca de 225 mil captados por registros populacionais, sinal de subnotificação (Ward e colaboradores, Lancet Oncology 2019). No Brasil, estimam-se cerca de 8 mil casos novos por ano (INCA). Distribuição: LEUCEMIAS lideram (≈30%, e a LLA é o câncer infantil mais comum), seguidas de tumores do SNC e linfomas. A sobrevida de 5 anos da LLA supera 90% em países de alta renda, com desigualdade marcante em renda baixa e média (Pui, Lancet Child & Adolescent Health 2018) — a cura é a regra quando o diagnóstico é precoce e o tratamento protocolar.
olheiras orbitárias (metástases), opsoclonus-mieloclonus (“olhos dançantes”), hipertensão às vezes
Marcador
não há de rotina
catecolaminas urinárias elevadas (VMA/HVA); calcificações na imagem
Prognóstico/nota
muito bom com nefrectomia + quimioterapia (vincristina + actinomicina)
amplificação de N-myc piora; estágio 4S (lactentes com metástases hepáticas/cutâneas) pode regredir espontaneamente
5. LLA pediátrica: o câncer infantil mais comum
Pico de incidência 2–5 anos; apresentação por insuficiência medular (palidez/anemia, febre/neutropenia, equimoses/trombocitopenia), dor óssea — inclusive NOTURNA que simula reumatismo, adenomegalias, hepatoesplenomegalia, envolvimento testicular e SNC.
Diagnóstico: hemograma com blastos no esfregaço + mielograma com ≥ 25% de blastos e imunofenotipagem por citometria de fluxo; citogenética estratifica (hiperdiploidia e t(12;21) bons; hipodiploidia, t(9;22) Filadélfia e rearranjo KMT2A ruins).
Fases do tratamento: indução (vincristina + corticoide [dexametasona] + asparaginase ± antraciclina), profilaxia do SNC com quimioterapia intratecal (radioterapia cranial evitada na maioria), consolidação/intensificação e MANUTENÇÃO (6-mercaptopurina + metotrexato) por 2–3 anos.
Toxicidades da fase: síndrome da lise na indução (ver módulo 6), pancreatite e trombose (asparaginase), neuropatia e constipação (vincristina), necrose avascular e hiperglicemia (corticoide), cardiotoxicidade tardia (antraciclina).
Recidiva refratária da LLA B: CAR-T anti-CD19 (tisagenlecleucel) — remissão de 83% em 3 meses no estudo pivotal pediátrico (ver módulo 5).
6. Outros tumors pediátricos cobrados
Retinoblastoma: o tumor intraocular mais comum da criança — LEUCOCORIA (reflexo branco) é o sinal clássico, seguido de estrabismo; diagnóstico habitualmente antes dos 3–5 anos; forma hereditária (RB1) é bilateral/multifocal e predispõe a osteossarcoma; encaminhamento oftalmológico URGENTE.
Tumores de SNC (2º grupo mais comum): medulloblastoma de fossa posterior — ataxia + cefaleia matinal com vômitos (hipertensão intracraniana); astrocitoma pilocítico cerebelar de bom prognóstico; craniofaringioma com déficits visuais e endócrinos.
Linfoma de Hodgkin no adolescente: adenomegalia cervical endurecida, sintomas B; sarcoma de Ewing/osteossarcoma: dor óssea persistente com massa — não tratar como “dor de crescimento”.
Questões do módulo · 08
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioMulher, 33 anos, assintomática, com histórico de citologia cervical normal e atual, sem imunossupressão. Segundo a recomendação da USPSTF (2018), qual estratégia de rastreamento do câncer do colo do útero é adequada para ela?
2.AvançadoMenina, 3 anos, aparentemente saudável, levada por massa abdominal indolor notada pela mãe ao vestir a criança; a massa é lisa, não cruza a linha média; pressão arterial acima do percentil 95 para a idade; hemograma e VMA/HVA urinários normais; ultrassonografia mostra massa renal sólida. Qual o diagnóstico mais provável?
Hipotensão + hiponatremia + ACTH baixo sob ipilimumabe
Hipofisite → hidrocortisona IV antes de investigar
Dispneia e queda de DLCO após ABVD
Bleomicina (fibrose pulmonar) — evitar FiO₂ alta
DLCO normal, FE caindo em uso de antraciclina/trastuzumabe
Cardiotoxicidade — eco serial
Criança de 3 anos, bem, massa renal + hipertensão
Tumor de Wilms
Reflexo branco no olho de criança pequena
Leucocoria = retinoblastoma
Prova final — bateria geral
8 questões cobrindo todos os módulos proporcionalmente + gabarito
1.Prova difícilHomem, 58 anos, tabagista grave, há 2 semanas edema progressivo de face e membro superior direitos, dispneia e tosse; TC de tórax com contraste mostra massa mediastinal anterior comprimindo a veia cava superior, sem compromisso de via aérea, SpO₂ 95%, estável. Qual a conduta correta?
2.IntermediárioMulher, 54 anos, melanoma metastático em pembrolizumabe; na reavaliação surgem áreas despigmentadas difusas (vitiligo), sem rash, sem outros sintomas, com resposta parcial do tumor na imagem. Qual a conduta?
3.AvançadoHomem, 66 anos, carcinoma epidermoide de pulmão; confuso, desidratado, cálcio total corrigido 13,8 mg/dL, albumina 2,8 g/dL, creatinina 2,1 mg/dL (basal 0,9). Qual a sequência terapêutica correta?
4.IntermediárioMulher, 38 anos, melanoma cutâneo de 0,6 mm de Breslow, sem ulceração, tronco, margens da biópsia excional comprometidas. Qual a conduta complementar correta?
5.AvançadoHomem, 46 anos, leucemia mieloide crônica em fase crônica, BCR-ABL positivo, sem comorbidades. Qual a terapia inicial de escolha?
6.AvançadoHomem, 70 anos, câncer de pâncreas avançado; perdeu 12% do peso em 4 meses, anorexia importante, exames sem obstrução intestinal; a família pede “soro e nutrição parenteral para fortalecer”. Qual a melhor conduta?
7.IntermediárioMulher, 45 anos, assintomática, sem fatores de risco para câncer de mama, pergunta sobre rastreamento. Segundo a USPSTF (2024), qual a recomendação?
8.Prova difícilMenina, 7 anos, com leucemia linfoblástica B recidivada refratária, recebeu tisagenlecleucel (CAR-T anti-CD19) há 36 horas; agora febre 39 °C, hipotensão que responde parcialmente a volume, taquicardia e elevação de IL-6; sem déficit neurológico. Qual o tratamento específico imediato da toxicidade?
diretriz / revisãoBray F, Laversanne M, Sung H, et al. Global cancer statistics 2022: GLOBOCAN estimates. CA Cancer J Clin. 2024;74(3):229-263.doi.org/10.3322/caac.21834
diretriz / revisãoAmin MB, Edge SB, Greene FL, et al (eds). AJCC Cancer Staging Manual. 8ª ed. Springer; 2017.doi.org/10.1007/978-3-319-40618-3
diretriz / revisãoGershenwald JE, Scolyer RA, Hess KR, et al. Melanoma staging: evidence-based changes in the AJCC eighth edition. CA Cancer J Clin. 2017;67(6):472-492.doi.org/10.3322/caac.21409
diretriz / revisãoGoldstraw P, Chansky K, Crowley J, et al. The IASLC Lung Cancer Staging Project: proposals for revision of the TNM stage groupings (eighth edition). J Thorac Oncol. 2016;11(1):39-51.doi.org/10.1016/j.jtho.2015.09.009
diretriz / revisãoLjungqvist O, Scott M, Fearon KC. Enhanced Recovery After Surgery: A Review. JAMA Surg. 2017;152(3):292-298.doi.org/10.1001/jamasurg.2016.4952
diretriz / revisãoFarge D, Frere C, Connors JM, et al. 2019 international clinical practice guidelines for the treatment and prophylaxis of venous thromboembolism in patients with cancer. Lancet Oncol. 2019;20(10):e566-e581.doi.org/10.1016/S1470-2045(19)30336-5
diretriz / revisãoSmith BD, Bentzen SM, Correa CR, et al. Radiation therapy for the whole breast: ASTRO evidence-based guideline, executive summary. Pract Radiat Oncol. 2018;8(3):145-152.doi.org/10.1016/j.prro.2018.01.012
diretriz / revisãoSTART Trialists' Group. The UK Standardisation of Breast Radiotherapy (START) trials of radiotherapy hypofractionation: 10-year follow-up. Lancet Oncol. 2013;14(11):1086-1094.doi.org/10.1016/S1470-2045(13)70386-3
diretriz / revisãoEBCTCG, Darby S, McGale P, Correa C, et al. Effect of radiotherapy after breast-conserving surgery on 10-year recurrence and 15-year breast cancer mortality. Lancet. 2011;378(9804):1707-1716.doi.org/10.1016/S0140-6736(11)61629-2
diretriz / revisãoDarby SC, Ewertz M, McGale P, et al. Risk of ischemic heart disease in women after radiotherapy for breast cancer. N Engl J Med. 2013;368(11):987-998.doi.org/10.1056/NEJMoa1209825
diretriz / revisãoDruker BJ, Talpaz M, Resta DJ, et al. Efficacy and safety of a specific inhibitor of the BCR-ABL tyrosine kinase in chronic myeloid leukemia. N Engl J Med. 2001;344(14):1031-1037.doi.org/10.1056/NEJM200104053441401
diretriz / revisãoSlamon DJ, Leyland-Jones B, Shak S, et al. Use of chemotherapy plus a monoclonal antibody against HER2 for metastatic breast cancer. N Engl J Med. 2001;344(11):783-792.doi.org/10.1056/NEJM200103153441101
diretriz / revisãoRibas A, Wolchok JD. Cancer immunotherapy using checkpoint blockade. Science. 2018;359(6382):1350-1355.doi.org/10.1126/science.aar4060
diretriz / revisãoHodi FS, O'Day SJ, McDermott DF, et al. Improved survival with ipilimumab in patients with metastatic melanoma. N Engl J Med. 2010;363(8):711-723.doi.org/10.1056/NEJMoa1003466
diretriz / revisãoHaanen JBAG, Carbonnel F, Robert C, et al. Management of toxicities from immunotherapy: ESMO Clinical Practice Guidelines. Ann Oncol. 2017;28(supl 4):iv119-iv142.doi.org/10.1093/annonc/mdx225
diretriz / revisãoMaude SL, Laetsch TW, Buechner J, et al. Tisagenlecleucel in Children and Young Adults with B-Cell Lymphoblastic Leukemia. N Engl J Med. 2018;378(5):439-448.doi.org/10.1056/NEJMoa1709866
diretriz / revisãoLewis MA, Hendrickson AW, Moynihan TJ. Oncologic emergencies: pathophysiology, presentation, diagnosis, and treatment. CA Cancer J Clin. 2011;61(5):287-314.doi.org/10.3322/caac.20124
diretriz / revisãoHoward SC, Jones DP, Pui CH. The tumor lysis syndrome. N Engl J Med. 2011;364(19):1844-1854.doi.org/10.1056/NEJMra0904569
diretriz / revisãoFreifeld AG, Bow EJ, Sepkowitz KA, et al. Clinical practice guideline for the use of antimicrobial agents in neutropenic patients with cancer: 2010 update by IDSA. Clin Infect Dis. 2011;52(4):e56-e93.doi.org/10.1093/cid/cir073
diretriz / revisãoFlowers CR, Seidenfeld J, Bow EJ, et al. Antimicrobial prophylaxis and outpatient management of fever and neutropenia in adults treated for malignancy: ASCO clinical practice guideline. J Clin Oncol. 2013;31(6):794-810.doi.org/10.1200/jco.2012.45.8661
diretriz / revisãoSmith TJ, Bohlke K, Lyman GH, et al. Recommendations for the use of WBC growth factors: ASCO clinical practice guideline update. J Clin Oncol. 2015;33(28):3199-3212.doi.org/10.1200/jco.2015.62.3488
diretriz / revisãoWilson LD, Detterbeck FC, Yahalom J. Superior vena cava syndrome with malignant causes. N Engl J Med. 2007;356(18):1862-1869.doi.org/10.1056/NEJMcp067190
diretriz / revisãoPatchell RA, Tibbs PA, Regine WF, et al. Direct decompressive surgical resection in the treatment of spinal cord compression caused by metastatic cancer: a randomised trial. Lancet. 2005;366(9486):643-648.doi.org/10.1016/S0140-6736(05)66954-1
diretriz / revisãoTemel JS, Greer JA, Muzikansky A, et al. Early palliative care for patients with metastatic non-small-cell lung cancer. N Engl J Med. 2010;363(8):733-742.doi.org/10.1056/NEJMoa1000678
diretriz / revisãoFerrell BR, Temel JS, Temin S, et al. Integration of palliative care into standard oncology care: ASCO clinical practice guideline update. J Clin Oncol. 2017;35(1):96-112.doi.org/10.1200/jco.2016.70.1474
diretriz / revisãoArends J, Bachmann P, Bally M, et al. ESPEN guidelines on nutrition in cancer patients. Clin Nutr. 2017;36(1):11-48.doi.org/10.1016/j.clnu.2016.07.015
diretriz / revisãoUS Preventive Services Task Force. Screening for Breast Cancer: US Preventive Services Task Force Recommendation Statement. JAMA. 2024;331(19):1918-1930.doi.org/10.1001/jama.2024.5534
diretriz / revisãoUS Preventive Services Task Force. Screening for Cervical Cancer: US Preventive Services Task Force Recommendation Statement. JAMA. 2018;320(7):674-686.doi.org/10.1001/jama.2018.10897
diretriz / revisãoUS Preventive Services Task Force. Screening for Skin Cancer: US Preventive Services Task Force Recommendation Statement. JAMA. 2023;329(14):1290-1295.doi.org/10.1001/jama.2023.4342
diretriz / revisãoUS Preventive Services Task Force. Screening for Colorectal Cancer: US Preventive Services Task Force Recommendation Statement. JAMA. 2021;325(19):1965-1977.doi.org/10.1001/jama.2021.6238
diretriz / revisãoPui CH, Yang JJ, Bhakta N, Rodriguez-Galindo C. Global efforts toward the cure of childhood acute lymphoblastic leukaemia. Lancet Child Adolesc Health. 2018;2(6):440-454.doi.org/10.1016/S2352-4642(18)30066-X
diretriz / revisãoWard ZJ, Yeh JM, Bhakta N, Frazier AL, Atun R. Estimating the total incidence of global childhood cancer: a simulation-based analysis. Lancet Oncol. 2019;20(4):483-493.doi.org/10.1016/S1470-2045(18)30909-4
diretriz / revisãoInstituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa de incidência de câncer no Brasil 2023-2025. Rio de Janeiro: INCA; 2022. inca.gov.br
diretriz / revisãoInstituto Nacional de Câncer (INCA). Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero. Rio de Janeiro: INCA; 2025. inca.gov.br
diretriz / revisãoWorld Health Organization. Palliative care fact sheet. Genebra: OMS; 2020. who.int
diretriz / revisãoBrasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 3.681, de 2024: Política Nacional de Cuidados Paliativos no SUS. bvsms.saude.gov.br
diretriz / revisãoConselho Federal de Medicina. Resoluções CFM nº 1.805/2006 e nº 1.995/2012 (ortotanásia e diretivas antecipadas de vontade). portal.cfm.org.br
diretriz / revisãoDeVita VT Jr, Lawrence TS, Rosenberg SA (eds). Cancer: Principles and Practice of Oncology. 11ª ed. Wolters Kluwer; 2019.
notaResumo didático elaborado a partir das diretrizes e revisões acima (verificáveis pelo DOI) e dos artigos publicados desta matéria na Central de Estudos (fonte principal). Nenhuma referência inventada; em caso de divergência entre fontes, vale a versão vigente do protocolo oficial — confira sempre antes da conduta real.
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