Baseado no conhecimento canônico da medicina intensiva e em diretrizes e estudos de referência — Surviving Sepsis Campaign 2021 (bundle da hora 1, vasopressores, corticoide, transfusão restritiva), ARDSNet/NEJM 2000 (ventilação protetora), Boles 2007 e Yang & Tobin 1991 (desmame e RSBI), PROSEVA 2013 (decúbito ventral), PADIS 2018 e RASS/CAM-ICU (sedação e delirium), critérios KDIGO e STARRT-AKI 2020 (LRA e timing da substituição renal) e ESPEN 2019 (nutrição do crítico), todos com DOI verificado. Resumo de estudo — na prática real, siga o protocolo da sua instituição e a versão vigente de cada diretriz.
01
Admissão na UTI: critérios, escores e objetivos de cuidado
quem precisa de leito · triagem em prioridades · APACHE II · SOFA · metas de tratamento e limitação de suporte
APACHE II
0–71
pior valor das primeiras 24 h — estratifica população, não prescreve conduta individual
SOFA
+2
aumento ≥ 2 pontos define disfunção aguda de órgão (Sepsis-3)
PAM
≥ 65 mmHg
meta de perfusão da maioria dos pacientes críticos
Prioridade
1 a 4
triagem: do suporte imediato (1) ao paciente que não se beneficia (4)
1. Conceito: UTI é suporte de órgão com prazo
A unidade de terapia intensiva existe para dois propósitos: manter o paciente vivo enquanto a doença aguda reverte (suporte de órgão — ventilação mecânica, vasopressores, terapias de substituição renal) e detectar precocemente a deterioração (monitorização contínua e equipe dedicada). A admissão correta responde a duas perguntas: este paciente precisa de algo que a enfermaria não oferece, e há perspectiva real de reversibilidade? Internar quem não precisa esgota leitos e expõe o paciente a iatrogenia; internar quem não vai se beneficiar troca conforto e presença por procedimento sem ganho de sobrevida.
Indicações clássicas de admissão: necessidade de ventilação mecânica (invasiva ou VNI sustentada), vasopressor ou inotrópico, terapia de substituição renal, monitorização invasiva, pós-parada cardíaca com retorno da circulação, politrauma grave, pós-operatório de alto risco e deterioração clínica progressiva apesar do tratamento em enfermaria.
Modelo de triagem em prioridades: 1 — emergente, precisa de suporte imediato (não recusar); 2 — precisa de monitorização/suporte que pode falhar (internar e reavaliar); 3 — pode não se beneficiar do grau máximo (internar conforme recursos, com metas discutidas); 4 — não se beneficia de UTI (oferecer alternativas centradas em conforto).
Fatores que pesam na decisão: necessidades terapêuticas, resposta já obtida ao tratamento, doenças de base, estado funcional anterior, idade fisiológica e — sempre — os objetivos de cuidado definidos com o paciente ou seu representante.
2. APACHE II: a gravidade medida em 24 horas
O APACHE II soma 12 variáveis fisiológicas registradas no PIOR valor das primeiras 24 horas de internação (temperatura, pressão arterial média, frequência cardíaca, frequência respiratória, oxigenação, pH, sódio, potássio, creatinina, hematócrito, leucócitos) com a Escala de Coma de Glasgow, a idade e a doença crônica preexistente (hepatopatia, cardiopatia, DPOC, imunossupressão). O total vai de 0 a 71. Na validação original, a mortalidade hospitalar sobe de aproximadamente 8% com 0–4 pontos para cerca de 73% com 25–29 pontos e ultrapassa 85% com 30 ou mais. O escore serve para estratificar populações, calibrar UTIs e comparar estudos — não para decidir sozinho o limite do tratamento de um paciente individual.
3. SOFA: a disfunção de órgão em série
O SOFA (Sequential Organ Failure Assessment) avalia 6 sistemas de 0 a 4 pontos cada e é repetível à beira do leito — o que permite medir TENDÊNCIA, e a queda diária do SOFA é melhor marcador de prognóstico que o valor isolado. O aumento de 2 ou mais pontos em relação ao basal define disfunção aguda de órgão e, na presença de infecção, fecha a definição de sepse (Sepsis-3). Total de 0 a 24.
Sistema (SOFA)
0 ponto
4 pontos
Respiratório
PaO₂/FiO₂ ≥ 400
PaO₂/FiO₂ < 100 com suporte ventilatório
Coagulação
plaquetas ≥ 150 ×10³/mm³
plaquetas < 20 ×10³/mm³
Hepático
bilirrubina < 1,2 mg/dL
bilirrubina ≥ 12 mg/dL
Cardiovascular
PAM ≥ 70 sem vasopressor
vasopressor em dose alta (noradrenalina/adrenalina > 0,1 µg/kg/min)
SNC
Glasgow 15
Glasgow 3–5
Renal
creatinina < 1,2 mg/dL
creatinina ≥ 5,0 mg/dL ou diurese < 500 mL/dia
4. Objetivos de cuidado: definir metas antes de precisar delas
Toda internação em UTI vem acompanhada da definição dos objetivos de cuidado: o que é esperado da doença, qual resultado o paciente considera aceitável e qual suporte será oferecido se piorar. Paciente competente decide por si; sem competência, buscam-se diretivas antecipadas e o representante legal. A limitação de suporte ética (ortotanásia) significa não intensificar ou retirar medidas que só prolongam o processo de morrer — é distinta da eutanásia, proibida no Brasil. Registro em prontuário, comunicação estruturada com a família e reavaliação periódica fazem parte da conduta médica, não da renúncia dela.
Fluxo de decisão de admissão
Paciente grave na porta — há necessidade de suporte de órgão?
Admissão em UTI como prioridade 1: iniciar o suporte no local e transferir com monitorização e equipe acompanhando.
Definir metas de cuidado e informar a família desde a primeira conversa.
SEM suporte, MAS risco alto de deteriorar
Internar conforme recursos (UTI ou semi-intensiva) com plano escrito de reavaliação e escores seriados (SOFA, qSOFA, NEWS).
Reavaliar em horas: deterioração progressiva redefine a prioridade.
Estável, sem risco iminente
Enfermaria com monitorização adequada e plano terapêutico definido.
Se doença avançada irreversível: discutir objetivos antes de oferecer leito de UTI.
Questões do módulo · 01
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 67 anos, DPOC grave, internado em enfermaria com pneumonia; frequência respiratória 30/min, SpO₂ 88% com máscara de reservatório e acidose respiratória em piora (pH 7,31) após 1 h de VNI, com SOFA passando de 2 para 6 em 12 h. Conduta:
2.Prova difícilIdosa, 89 anos, demência avançada, pneumonia aspirativa em choque séptico refratário a volume e vasopressores em dose máxima; a família pede fazer tudo, mas a equipe avalia que não há perspectiva de benefício. Conduta ética correta:
02
Monitorização hemodinâmica: PAM, lactato e a leitura do choque
hipoperfusão além da pressão · classes de choque · lactato seriado · avaliação dinâmica de volume · ultrassom à beira do leito
mmol/L — anormal / hipoperfusão grave; repetir em 2–4 h
Diurese
≥ 0,5
mL/kg/h — monitor contínuo da perfusão renal
TCR
> 3 s
tempo de recoloração capilar — leitura da microcirculação no leito
A pressão arterial média resulta de débito cardíaco × resistência vascular sistêmica. Toda hipotensão e toda hipoperfusão derivam de queda do débito (volume insuficiente, bomba fraca, obstrução) ou queda da resistência (vasodilatação). É esse raciocínio que organiza a monitorização: medir pressão, medir fluxo e perfusão (débito, diurese, pele, lactato) e identificar a variável que responde pelo quadro.
Classe de choque
Débito cardíaco
RVP
Estase/PCP
Exemplos
Hipovolêmico
baixo
alta
baixa
hemorragia, perdas gastrointestinais e renais, queimadura
Cardiogênico
baixo
alta
alta
IAM extenso, miocardite, valvopatia aguda, arritmia
Distributivo
normal ou alto
baixa
baixa
sepse, anafilaxia, neurogênico
Obstrutivo
baixo
alta
baixa
TEP maciço, tamponamento, pneumotórax hipertensivo
1. O que monitorar e com quais números
PAM: meta ≥ 65 mmHg na maioria (alvo individualizado pode ser maior no hipertenso crônico com deterioração renal em choque). Manguito serve para começar; em vasopressor, preferir cateter arterial (fidelidade da medida + gasometrias seriadas).
Lactato: > 2 mmol/L é anormal; ≥ 4 define hipoperfusão grave (gatilho do bundle). Repetir em 2–4 h até normalizar — a tendência importa mais que o valor isolado.
Diurese horária: meta ≥ 0,5 mL/kg/h; queda mantida por 2–6 h é sinal precoce de hipoperfusão renal.
Microcirculação: marmorização, extremidades frias e tempo de recoloração capilar > 3 s graduam gravidade e resposta.
ScvO₂ central: < 70% sugere oferta insuficiente ou consumo aumentado; > 80% no choque sugere extração prejudicada.
Resposta a volume (dinâmica): elevação passiva de pernas, variação de pressão de pulso/débito > 13% em ventilado sem esforço e com ritmo regular, ou desafio de cristaloide 250–500 mL com reavaliação em minutos. Parâmetros estáticos (PVC, PAOP) não preveem resposta sozinhos.
Ultrassom à beira do leito (PoCUS): VCI (colapso/repleção), linhas B e derrames (congestão), função de VE e VD, pericárdio, pneumotórax — separa as classes de choque em minutos.
Fluxo da hipoperfusão
Lactato alto, oligúria ou marmorização — qual o mecanismo?
▼
Débito baixo por volume (VCI colabada, resposta a volume)
Cristaloide em alíquotas de 250–500 mL com reavaliação dinâmica após cada alíquota.
Hemorragia ativa: controle da causa e transfusão — cristaloide não substitui sangue.
Bomba falhando ou obstruída (eco: VE hipocinético, VD dilatado, derrame)
Cardiogênico: inotrópico (dobutamina), alívio de congestão e definição rápida da causa (isquemia, arritmia).
Obstrutivo: TEP (reperfusão), tamponamento (pericardiocentese), pneumotórax (descompressão) — o tratamento é mecânico, não farmacológico.
Vasodilatação (distributivo — sepse, anafilaxia)
Volume + noradrenalina para PAM ≥ 65 desde cedo; hidrocortisona se refratário.
Reavaliar perfusão após cada manobra (lactato, diurese, capilares) — não perseguir balanço positivo.
Questões do módulo · 02
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioMulher, 74 anos, febre e confusão; PA 96/52, FC 112, lactato 4,6 mmol/L, diurese 0,2 mL/kg/h nas últimas 3 h e marmorização em joelhos. Após cristaloide 30 mL/kg: lactato 4,4 e diurese 0,3 mL/kg/h. Interpretação e conduta:
2.AvançadoHomem ventilado, sedado, ritmo regular, PAM 58 e lactato 3,2; variação de pressão de pulso 18%, VCI colabada, sem linhas B e VE normocinético no ultrassom. Próxima manobra:
03
Ventilação mecânica invasiva: proteção pulmonar na prática
indicações · peso predito e VT 6 mL/kg · modos VCV/PCV/PSV · PEEP e FiO₂ · platô ≤ 30 · decúbito ventral · complicações
VT
6 mL/kg
de PESO PREDITO (4–8 conforme platô) — nunca do peso real
se PaO₂/FiO₂ < 150 na SDRA moderada-grave (PROSEVA)
1. Indicações e o conceito de proteção pulmonar
Indicações de intubação: insuficiência respiratória hipoxêmica refratária (hipoxemia com esforço e desconforto crescentes apesar de oxigênio/VNI), insuficiência hipercapênica com acidose (pH < 7,25–7,30, falha da VNI na DPOC), incapacidade de proteger vias (nível de consciência, tosse ineficaz), trabalho respiratório excessivo e choque/parada. O ventilador não cura o pulmão — mantém a troca gasosa enquanto a causa reverte; por isso todo ajuste é protetor por padrão.
2. Instalação: os números do primeiro ajuste
Calcular o peso predito (PBW): homem 50 + 0,91 × (altura em cm − 152,4); mulher 45,5 + 0,91 × (altura − 152,4). O VT é prescrito em PBW — usar o peso real no obeso gera volumes catastróficos.
VT inicial 6 mL/kg PBW (intervalo 4–8 conforme platô e esforço). Exemplo: mulher de 1,60 m → PBW ≈ 52 kg → VT ≈ 315 mL.
Frequência respiratória inicial 16–24/min, titulada para manter pH ≥ 7,25–7,30 (hipercapnia permissiva; o protocolo ARDSNet tolera pH até ~7,15 com medidas sequenciais de frequência).
FiO₂ e PEEP: começar com FiO₂ 1,0 na instalação e reduzir rapidamente; combinar pela tabela, buscando a menor FiO₂ que mantenha SpO₂ 88–95% ou PaO₂ 55–80 mmHg.
Modo inicial: assistido-controlado a volume (VCV), com fluxo constante e medida da pressão de platô a cada mudança.
Sedação para conforto e sincronia (meta RASS −2 a 0 na maioria): paciente que briga com a máquina recebe analgesia e ajuste de parâmetros antes de aprofundar sedação.
FiO₂
PEEP (cmH₂O)
≤ 0,3
5
0,4
5–8
0,5
8–10
0,6
10
0,7
10–14
0,8
14
0,9
14–16
1,0
18–24
Tabela PEEP/FiO₂ do protocolo ARDSNet (as reproduções variam ligeiramente nas faixas superiores; siga o protocolo local). A lógica: cada degrau de FiO₂ compra um degrau de PEEP, e a PEEP só sobe se o platô continuar ≤ 30 cmH₂O — PEEP mantém alvéolos abertos, mas pressuriza o pulmão inteiro.
3. Modos e monitorização obrigatória
Modo
Como funciona
Quando usar e cuidado
VCV (volume-controlado)
entrega VT fixo; a pressão varia com a mecânica do pulmão
padrão inicial na insuficiência respiratória/SDRA — exige medir platô
PCV (pressão-controlado)
pressão inspiratória fixa; o VT varia com a compliance
útil com fuga aérea; risco de hipo/hiperventilação quando a compliance muda
PSV (pressão de suporte)
cada esforço é suportado; o paciente define frequência e VT
desmame e paciente espontâneo; exige esforço presente e vias estáveis
SIMV
ciclos obrigatórios sincronizados com os esforços
uso limitado hoje; pode esconder trabalho respiratório importante
Pressão de platô: pausa inspiratória de ~0,5–1 s no fim da inspiração; meta ≤ 30 cmH₂O. Se > 30, reduzir VT de 6 para 5 e depois 4 mL/kg PBW.
Pressão de dirigir (driving pressure = platô − PEEP total): quanto menor, melhor; manter ≤ 15 cmH₂O quando possível.
Auto-PEEP (pausa expiratória): relevante em DPOC/asma — suspeitar de hipotensão, fluxo expiratório persistente no gráfico e paciente que não dispara o ciclor (conduta: reduzir frequência e tempo inspiratório, aumentar fluxo inspiratório).
Gasometria após cada mudança e capnografia contínua (EtCO₂ monitora ventilação e eventos súbitos).
Radiografia/ultrassom para posição do tubo (cerca de 2 cm acima da carina) e complicações (pneumotórax, atelectasias, consolidação).
SDRA instalada — protocolo de proteção
Platô ≤ 30 cmH₂O com VT 6 mL/kg de peso predito?
▼
SIM
Manter VT 6, titulando PEEP/FiO₂ pela tabela e frequência pelo pH.
Reavaliar diariamente para SAT/SBT — proteção pulmonar é decisão diária, não só da instalação.
NÃO — platô > 30
Reduzir VT para 5 e depois 4 mL/kg PBW; checar auto-PEEP, esforço e posição do tubo.
Decúbito ventral por ≥ 16 h/dia (PROSEVA: reduz mortalidade na SDRA moderada-grave).
Considerar bloqueante neuromuscular nas primeiras 48 h em casos selecionados (controverso) e escalonar com o centro (ECMO como resgate).
Complicações da VM: barotrauma (pneumotórax, pneumomediastino), pneumonia associada à ventilação (após 48–72 h — prevenir com cabeceira 30–45°, higiene oral, interrupção diária de sedação e aspiração subglótica quando se prevê ventilação prolongada), hipotensão por pressão intratorácica e auto-PEEP, lesão de vias aéreas, sinusite, imobilidade e descondicionamento, e lesão diafragmática por sobre-assistência.
Questões do módulo · 03
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalMulher, 1,60 m de altura, 92 kg, com SDRA por pneumonia, sendo intubada. Qual o volume corrente e o cálculo corretos:
2.AvançadoPaciente em VCV com VT 6 mL/kg PBW e PEEP 15 cmH₂O; pressão de pico 42 cmH₂O e platô 36 cmH₂O. Conduta:
04
Desmame da ventilação mecânica e traqueostomia
screening diário · critérios de prontidão · teste de respiração espontânea · RSBI < 105 · falha de extubação · timing da traqueostomia
SBT
30–120 min
T-piece ou PSV 5–8 cmH₂O — a prova diária do desmame
RSBI
< 105
frequência ÷ VT (L) — acima disso, alto risco de falha (Yang & Tobin)
Prontidão
PEEP ≤ 5–8
cmH₂O com FiO₂ ≤ 0,4–0,5 e PaO₂/FiO₂ > 150–200 para testar
Traqueostomia
> 14 dias
considerar quando se antecipa ventilação/proteção de vias além de 2 semanas
1. Conceito: o desmame começa no dia da intubação
O desmame ocupa cerca de 40% do tempo total de ventilação mecânica, e o erro mais comum é o atraso: todo paciente ventilado deve ser rastreado todos os dias (idealmente a cada turno) para o teste de respiração espontânea, em par com a interrupção diária de sedação (SAT + SBT pareados) — protocolos pareados reduzem tempo de ventilação, dias de delirium e mortalidade. Desmame não é vencer o paciente pela vontade: é protocolo com critérios definidos, em que a falha do teste é dado clínico que aponta a causa, não castigo.
Causa da insuficiência respiratória em reversão (pulmão melhorando, sem nova demanda, sem procedimento iminente).
Oxigenação: PaO₂/FiO₂ > 150–200 com FiO₂ ≤ 0,4–0,5 e PEEP ≤ 5–8 cmH₂O.
Hemodinâmica estável: sem vasopressor ou em dose baixa e estável; sem isquemia ativa, arritmia grave ou dor descontrolada.
Neurológico: RASS entre −1 e +1, sedação mínima, paciente desperto e colaborativo.
Capacidade de iniciar esforço inspiratório e de tossir e proteger as vias (requisito para a extubação).
2. Teste de respiração espontânea (SBT)
Conectado a T-piece ou PSV baixa (5–8 cmH₂O), o paciente respira sozinho por 30–120 min. Sucesso: SpO₂ ≥ 90% com FiO₂ ≤ 0,5, frequência < 35/min, estabilidade hemodinâmica (sem taquicardia ou hipertensão novas; variação < 20%) e ausência de agitação, sudorese, tiragem ou dor. Falha → retornar ao suporte, tratar a causa e repetir no dia seguinte (insistir no mesmo dia cansa, traumatiza e não muda a mecânica). Extubou-se quem passou no SBT E mantém tosse eficaz, secreção controlável e nível de consciência adequado.
SBT/extubação falhou
Pista clínica
Conduta
Padrão superficial-rápido (RSBI > 105)
pulmão fraco ou rígido, fadiga precoce
manter suporte, tratar causa (edema, atelectasia, dor, delirium) e retestar em 24 h
Estridor após extubação
edema laríngeo — testar vazamento do balonete antes
dexametasona profilática no paciente de risco; plano de reintubação sempre pronto
Tosse fraca + secreção abundante
falha de proteção de vias
fisioterapia e aspiração; projetar traqueostomia se a ventilação se estenderá
Edema agudo pós-extubação
balanço volêmico positivo + disfunção de VE
diurético; reextubar após compensar
Polineuropatia/miopatia do crítico
fraqueza generalizada, desmame arrastado
mobilização precoce, minimizar corticoide, bloqueante e sedação, nutrição adequada
Fluxo diário do desmame
Ventilado estável há 24 h — respira sozinho hoje?
▼
Critérios de prontidão ausentes
Tratar a causa: sedação em excesso, dor, sobrecarga, secreção, delirium, fraqueza.
Repetir o screening no dia seguinte — sem pausar o protocolo por conveniência.
Critérios presentes → SBT 30–120 min
Sucesso + tosse e secreção controláveis + consciência adequada → EXTUBAR.
Avaliar risco de edema laríngeo (teste de vazamento do balonete) e ter plano de reintubação pronto.
Falha do SBT ou da extubação
Retornar ao suporte confortável, identificar a causa e não insistir no mesmo dia.
Falhas repetidas com projeção de ventilação > 14 dias → planejar traqueostomia.
3. Traqueostomia: quando e por quê
Timing: considerar quando se ANTECIPA ventilação ou necessidade de proteção de vias por mais de 14 dias; antecipar para os primeiros 4–10 dias não reduz mortalidade nem pneumonia — os ganhos são de conforto, menor sedação, nutrição e comunicação, higiene, segurança da via e logística (transferência e desmame gradual).
Vantagens: via mais estável, retirada da sonda orotraqueal (menos lesão e sinusite), menor consumo de sedativo, desmame prolongado em etapas (PSV via traqueostomia) e fala possível com válvula.
Complicações precoces: sangramento, falso caminho, deslocamento, hipoxemia no procedimento; tardias: estenose traqueal, fístula traqueoesofágica, infecção de estoma.
Questões do módulo · 04
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem no SBT em T-piece: frequência 34/min, VT 0,3 L, SpO₂ 93%, PA e FC estáveis, desperto e colaborativo. Interpretação e conduta:
2.AvançadoMulher ventilada há 9 dias por SDRA, com falhas repetidas de SBT por tosse fraca e secreção abundante; projeção realista de mais duas semanas de ventilação. Sobre a traqueostomia:
05
Choque e vasopressores: noradrenalina em primeiro lugar
ordem da reanimação · noradrenalina · vasopressina · adrenalina · dobutamina · acesso e extravasamento · corticoide no choque refratário
Noradrenalina
0,01–1
µg/kg/min — 1ª linha na maioria dos choques, titulada para PAM ≥ 65
Vasopressina
0,03 U/min
dose fixa, quando a noradrenalina já está em dose moderada/alta
Dobutamina
2–20
µg/kg/min — hipoperfusão com débito baixo documentado
Hidrocortisona
200 mg/dia
IV (50 mg 6/6 h ou infusão contínua) no choque com vasopressor em dose moderada/alta
1. Conceito e ordem da reanimação
O vasopressor devolve pressão de perfusão; nunca substitui o tratamento da causa (foco infeccioso, sangramento, isquemia, tamponamento). A sequência do choque séptico: volume (cristaloide 30 mL/kg se hipotensão ou lactato ≥ 4) e noradrenalina cedo — a SSC 2021 autoriza iniciar vasopressor por via periférica durante a ressuscitação inicial quando a hipotensão persiste, sem esperar o cateter central. Alvo: PAM ≥ 65 mmHg. Depois de cada passo, reavaliar perfusão (lactato, diurese, capilares, consciência).
1ª linha na sepse e na maioria dos choques; menos taquiarritmia que a adrenalina
Vasopressina
V1; 0,03 U/min fixa (não titula)
somar quando a noradrenalina exige dose moderada/alta; poupa catecolamina; isquemia periférica é rara
Adrenalina
α + β1 + β2; 0,01–0,5 µg/kg/min; PCR: 1 mg IV a cada 3–5 min
2ª linha no choque séptico; 1ª linha na anafilaxia (IM 0,3–0,5 mg) e na bradicardia grave; gera lactato alto por β2
Dobutamina
β1; 2–20 µg/kg/min
inotrópico para hipoperfusão com débito baixo (eco); pode derrubar a PAM — combinar com noradrenalina
A escada dos vasopressores
PAM < 65 com hipoperfusão — volume e noradrenalina já em curso?
▼
NÃO — começar agora
Cristaloide 250–500 mL (30 mL/kg na sepse) com reavaliação dinâmica a cada alíquota.
Noradrenalina iniciada cedo, por acesso periférico ou central; alvo PAM ≥ 65.
Noradrenalina em dose baixa (≤ ~0,25 µg/kg/min) com PAM sustentada
Titular por PAM; revisar sedação, dor e hipovolemia antes de somar drogas.
Monitorizar lactato e diurese — o alvo é perfusão, não número de aparelho.
Noradrenalina ≥ ~0,25–0,5 µg/kg/min sem controlar
Somar vasopressina 0,03 U/min.
Eco: débito baixo ou VE hipocinético → dobutamina; choque refratário → hidrocortisona 200 mg/dia; e rever a causa (foco, sangramento, tamponamento).
2. Alvo de pressão e erros de guerra
Alvo ≥ 65 mmHg na maioria: elevar para 80–85 mmHg não melhora desfecho na média (mais arritmias — SEPSISPAM) e fica reservado a casos individuais, como hipertenso crônico com deterioração renal em choque.
Não perseguir balanço positivo: fluido só com resposta dinâmica documentada; o excesso congestiona pulmão e rim.
Vasopressor sem volume no hipovolêmico agrava vasoconstrição e isquemia; volume sem vasopressor no vasodilatado só enche o pulmão.
Hipotensão em paciente ventilado: pensar auto-PEEP, sedação e pneumotórax antes de dobrar a dose do vasopressor.
Questões do módulo · 05
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalPaciente em choque séptico: 30 mL/kg de cristaloide concluídos, PAM 56 com noradrenalina 0,3 µg/kg/min, lactato caindo. Próxima medida farmacológica:
2.Prova difícilChoque séptico com noradrenalina 0,5 µg/kg/min e vasopressina 0,03 U/min, PAM 61, lactato 5,2 caindo para 4,1, eco com VE hiperdinâmico e débito alto, sem sangramento ativo. Medida adicional com benefício demonstrado:
06
Sepse na UTI: bundle da primeira hora e manejo Surviving Sepsis 2021
Sepsis-3 · hora 1 em cinco passos · antimicrobianos por foco · controle de foco · cristaloide 30 mL/kg · corticoide · suporte
Lactato
2–4 h
repetir neste intervalo se o inicial for > 2 mmol/L — a tendência guia
Antibiótico
≤ 60 min
do reconhecimento da sepse ou choque séptico
Cristaloide
30 mL/kg
se hipotensão ou lactato ≥ 4 mmol/L (carga inicial, com reavaliação)
PAM
≥ 65 mmHg
com noradrenalina durante ou após o volume
1. Definição e reconhecimento ativo
Sepse é infecção com disfunção aguda de órgão (aumento ≥ 2 pontos no SOFA); choque séptico é sepse com hipotensão que exige vasopressor para PAM ≥ 65 mmHg e lactato > 2 mmol/L persistente após reposição adequada. A UTI reconhece por triagem ativa: qualquer paciente com infecção e sinais de hipoperfusão (confusão, frequência respiratória alta, PAS ≤ 100, marmorização, oligúria) recebe lactato, culturas e bundle — sem esperar que a febre confirme algo.
2. A hora 1 (Surviving Sepsis Campaign 2021)
1) Medir lactato; se > 2 mmol/L, repetir em 2–4 h (a tendência orienta a reanimação).
2) Colher hemoculturas ANTES do antibiótico (2 pares periféricos + do dispositivo, se cateter) — sem que a colheita atrase a dose.
3) Administrar antimicrobiano de amplo espectro IV em dose plena em ≤ 60 minutos, conforme foco e ecologia local.
4) Cristaloide 30 mL/kg em até 3 h se hipotensão ou lactato ≥ 4 mmol/L.
5) Vasopressores (noradrenalina) se PAM < 65 durante ou após o volume — início por via periférica é aceito na ressuscitação inicial.
3. Antimicrobianos e controle de foco
Cenário
Cobertura empírica típica (ajustar à ecologia local)
Pneumonia comunitária grave
betalactâmico + macrolídeo (ampliar cobertura se fatores de P. aeruginosa)
Abdome agudo infeccioso
cobertura de gram-negativos e anaeróbios (pip-tazo, carbapenem ou 3ª geração + metronidazol)
Trato urinário / urosepse
ceftriaxona, pip-tazo ou carbapenem conforme risco de resistência
vancomicina ou daptomicina + gram-negativo; retirar o dispositivo
Neutropênico febril
antipseudomonas (cefepima, pip-tazo ou meropeném); vancomicina só com indicação
Controle de foco o mais cedo possível: drenar abscesso, desbridar tecido necrótico, retirar cateter infectado, corrigir obstrução biliar ou urinária — antibiótico não drena pus.
Des-escalonar em 48–72 h conforme culturas e clínica; duração usual de ~7 dias com foco controlado (SSC 2021: mínimo de 5 dias, com reavaliação diária; mais longo em cenários definidos).
Cobertura antiviral quando indicada (influenza, herpes) — e nunca antibiótico contínuo sem evidência de infecção.
4. Depois da hora 1: as recomendações que caem
Cristaloide como fluido preferido; albumina quando grandes volumes são necessários; recarga extra guiada por resposta dinâmica, nunca por carga de rotina.
Noradrenalina 1ª linha; vasopressina em dose moderada/alta; dobutamina com débito baixo; hidrocortisona 200 mg/dia se choque com vasopressor em dose moderada/alta.
Transfusão restritiva: limiar Hb < 7 g/dL (não 9) em pacientes sem isquemia miocárdica ou sangramento ativo.
Ventilação protetora quando intubado (VT 6 mL/kg PBW, platô ≤ 30); PAM ≥ 65; glicemia ≤ 180 mg/dL com protocolo de insulina.
Profilaxias: tromboembolismo (HBPM), pneumonia associada à VM (cabeceira 30–45°, higiene oral, SAT diário), úlcera de estresse em risco; nutrição enteral precoce (sem jejum prolongado e sem parenteral precoce de rotina).
LRA com TRS: CRRT ou hemodiálise intermitente equivalentes (dose da CRRT 20–25 mL/kg/h); SSC 2021 NÃO recomenda vitamina C, tiamina, estatinas ou filtragem de rotina para sepse.
Suspeita de sepse na UTI
Infecção + sinais de hipoperfusão ou SOFA +2?
▼
SIM — iniciar hora 1
Lactato → culturas → antibiótico em ≤ 60 min → cristaloide 30 mL/kg se hipotensão/lactato ≥ 4 → noradrenalina se PAM < 65.
Definir e tratar o foco: imagem depois da hora 1, procedimento o quanto antes.
Lactato > 2 sem hipotensão
Reavaliar em 2–4 h; garantir antibiótico precoce conforme o cenário; monitorizar SOFA.
Sem hipoperfusão
Tratar a infecção pela diretriz do foco; qualquer deterioração reativa qSOFA/SOFA e o fluxo acima.
Questões do módulo · 06
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioChega da emergência: urosepse com PAM 55, lactato 5,2 e cateter vesical há 12 dias. Qual sequência da primeira hora está correta:
2.Prova difícilPaciente com sepse abdominal drenada no dia 1, hemodinamicamente estável no dia 3; culturas com E. coli sensível a ceftriaxona, sem necessidade de meropeném. Conduta antimicrobiana:
em 48 h fecha o diagnóstico (ou × 1,5 do basal em 7 dias)
Diurese
< 0,5 mL/kg/h
por ≥ 6 h já caracteriza LRA pelo critério urinário (KDIGO)
Estágio 3
× 3,0 ou ≥ 4,0
mg/dL (com aumento agudo ≥ 0,5), TRS iniciada ou anúria ≥ 12 h
CRRT
20–25 mL/kg/h
dose de efluente da terapia contínua (SSC 2021)
1. Conceito e definição
Lesão renal aguda (LRA) é a queda abrupta da função renal em horas a dias, com retenção de resíduos nitrogenados e desregulação de volume, eletrólitos e ácido-base. Critérios KDIGO: aumento da creatinina ≥ 0,3 mg/dL em 48 h, ou ≥ 1,5× o basal em 7 dias, ou volume urinário < 0,5 mL/kg/h por ≥ 6 h. Na UTI, a forma dominante é a necrose tubular aguda por hipoperfusão, sepse e nefrotóxicos — e a LRA que exige diálise multiplica a mortalidade da sepse. LRA é potencialmente reversível, e diurese não é sinal de cura: a fase de diurese pós-ATN segue com perda da capacidade de concentração.
Estágio KDIGO
Creatinina
Diurese
1
× 1,5–1,9 do basal OU aumento de 0,3 mg/dL
< 0,5 mL/kg/h por 6–12 h
2
× 2,0–2,9 do basal
< 0,5 mL/kg/h por ≥ 12 h
3
× 3,0 do basal OU creatinina ≥ 4,0 com aumento agudo ≥ 0,5 OU início de TRS
anúria ≥ 12 h
2. Abordagem: três perguntas na cabeceira
Há obstrução? Ultrassom para hidronefrose, sonda vesical, histórico de anúria súbita — causa reversível em minutos.
Há hipoperfusão? Choque, sangramento, balanço negativo agressivo de diurético, hipotensão em ventilação — corrigir volume e pressão.
Há nefrotóxico ativo ou causa intrínseca? AINE, aminoglicosídeo, vancomicina, contraste, IECA/BRA em instabilidade, rabdomiólise, síndrome de lise tumoral, mieloma, glomerulonefrite — o sedimento orienta.
Sedimento e índices urinários: cilindros granulosos acastanhados = ATN; hematúria dismórfica com cilindros eritrocitários = glomerulopatia; leucocitúria com eosinófilos em contexto de droga = nefrite intersticial; urina pouco alterada com proteinúria forte = pensar mieloma. Fração de excreção de uréia (FEUr) < 1% apoia causa pré-renal — e o corte perde valor em quem usa diurético. Repor volume no hipovolêmico, suspender o nefrotóxico, ajustar doses de TODOS os fármacos e redosar contrastes é a prevenção que importa.
Fluxo da LRA
Creatinina subiu ou diurese caiu — há indicação de emergência para substituição renal?
contínua, hemodinamicamente mais estável; remove volume devagar
choque com vasopressor, sobrecarga refratária, necessidade de estabilidade
Diálise peritoneal
menor eficácia aguda em adultos
contextos específicos e quando as outras não estão disponíveis
Dose da CRRT: 20–25 mL/kg/h de efluente — mais que isso não melhora desfecho (SSC 2021).
Anticoagulação do circuito: citrato regional é a preferida (menor sangramento); heparina sistêmica é alternativa; cuidado com acúmulo de citrato na insuficiência hepática grave.
AJUSTAR TODOS os fármacos em TRS (antibióticos, anticonvulsivantes, opioídes) e reavaliar níveis quando possível — subdose de antibiótico em UTI mata tanto quanto sobredose.
Prevenção diária: euvolemia, menor dose possível de contraste com hidratação, revisão da lista de drogas e dose ajustada à função renal do dia.
Questões do módulo · 07
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioPaciente em choque com noradrenalina, anúria de 20 h, potássio 6,8 mEq/L refratário a cálcio, insulina e resina, pH 7,10 com bicarbonato em curso e edema pulmonar na radiografia. Conduta:
2.AvançadoMulher com LRA oligúrica em estágio 3, hemodinamicamente estável e sem indicação de emergência; o interno propõe iniciar CRRT hoje para não perder a janela. Melhor resposta baseada em evidência:
08
Sedação, analgesia, delirium e nutrição do crítico
analgosedação e RASS · CAM-ICU · dexmedetomidina · bundle ABCDEF · mobilidade precoce · nutrição enteral precoce e glicemia
RASS
−2 a 0
meta habitual de sedação leve — profunda só com indicação formal
mg/dL — insulina em protocolo a partir de 180 em duas medidas
Enteral
≤ 48 h
iniciar nutrição enteral no paciente estável/estabilizando e progredir após 3–7 dias
1. Analgosedação: dor primeiro, sedação o mínimo
Todo paciente de UTI sente dor (procedimentos, tubos, imobilidade), e a dor agita, gera delirium e trava o desmame. O sequencial é: avaliar a dor (NRS quando o paciente se expressa; escala comportamental BPS ou CPOT quando não), tratar com analgésico titulado e só então ajustar o sedativo para a meta de RASS −2 a 0. Sedação profunda tem indicações formais (ventilação com bloqueante neuromuscular, hipoxemia grave, neuroproteção, homogeneização mecânica em casos específicos) — fora delas é iatrogenia com nome e sobrenome: mais dias de ventilação, delirium, VAP e fraqueza.
RASS
Descrição
+4
combativo, violento, risco para a equipe
+3
muito agitado, retira tubos e cateteres
+2
agitado: movimenta-se com frequência, dessincroniza do ventilador
+1
inquieto, ansioso, movimentos não agressivos
0
alerta e calmo
−1
sonolento: desperta ao chamado, contato visual ≥ 10 s
−2
sedação leve: desperta brevemente ao chamado (contato visual < 10 s)
−3
responde ao chamado com movimentos, sem contato visual
−4
não responde ao chamado; abre os olhos ou se move à estimulação física
−5
sem resposta a qualquer estímulo
Droga
Dose usual
Pontos-chave
Fentanil
início 25–100 µg/h IV, titulada pela escala de dor
opioide de referência na UTI; atenção a acúmulo e íleo
Propofol
5–50 µg/kg/min (0,3–3 mg/kg/h), titulada por RASS
desperta rápido; hipotensão; síndrome da infusão de propofol em doses altas/prolongadas (acidose, rabdomiólise, arritmia)
Midazolam
0,02–0,1 mg/kg/h
evitar uso prolongado (> 48–72 h): acumula e favorece delirium
Dexmedetomidina
0,2–1,4 µg/kg/h
sedação leve sem depressão respiratória (permite SBT); bradicardia e hipotensão; não aprofunda sedação profunda
2. Delirium: diagnóstico e manejo
Delirium = alteração AGUDA e FLUTUANTE da atenção e da consciência; atinge a maioria dos pacientes ventilados em algum momento e se associa a mortalidade, VM prolongada e declínio cognitivo.
CAM-ICU (validado por Ely e colaboradores): (1) alteração aguda/flutuante do estado mental + (2) inatenção + (3 ou 4) nível de consciência alterado OU pensamento desorganizado → positivo. Rastrear a cada turno.
Fatores de risco: ventilação mecânica, sedativos (especialmente benzodiazepínicos), infecção, privação de sono, imobilidade, idade avançada, demência prévia, abstinência de álcool.
O tipo HIPOATIVO é o mais comum e o mais perdido: paciente quieto, letárgico, inatento — RASS baixo não exclui CAM-ICU positivo.
Prevenção e manejo: bundle ABCDEF, reorientação (relógio, quadro, família), protocolo de sono (luz e ruído), óculos e aparelhos auditivos, mobilidade precoce, minimizar benzodiazepínicos. PADIS 2018: NÃO usar haloperidol, outros antipsicóticos ou estatinas de rotina para tratar delirium; dexmedetomidina é opção quando a agitação impede o desmame (não é rotina para delirium instalado).
Abstinência alcoólica é a exceção: CIWA-Ar com benzodiazepínico titulado — delirium tremens pede benzodiazepínico.
3. Bundle ABCDEF e mobilidade precoce
A — Avaliar, prevenir e tratar DOR.
B — Ambos: interrupção de sedação E teste de respiração espontânea (SAT + SBT pareados).
C — Escolha da analgesia/sedação com meta definida e reavaliação (sedação leve).
D — Delirium: avaliar (CAM-ICU), prevenir e tratar.
E — Exercício/mobilidade precoce.
F — Família engajada e presente.
Estudos de implementação mostram que quanto maior a adesão (dose) do bundle, menos mortalidade e delirium e mais dias sem ventilação — o bundle é medida de sobrevida, não conforto opcional.
4. Nutrição do crítico (ESPEN)
Via enteral é a regra: iniciar em 24–48 h no paciente hemodinamicamente estável ou estabilizando; jejum prolongado atrofia a mucosa e aumenta infecção.
Primeiros 3 dias: iniciar com dose baixa/hipocalórica (não ultrapassar ~70% do gasto energético estimado), progredindo depois para ~20–25 kcal/kg/dia conforme tolerância.
Proteína: alvo ~1,3 g/kg/dia (desnutridos e queimados podem exigir mais).
NÃO iniciar nutrição parenteral nas primeiras 48 h (sem benefício demonstrado); parenteral complementar apenas se a via enteral se mostrar insuficiente após ~3–7 dias.
Intolerância gástrica: não suspender por resíduo gástrico isolado baixo (não parar por resíduo < 500 mL sem outros sinais); procinético (metoclopramida ou eritromicina) e sonda pós-pilórica se persistir.
Glicemia ≤ 180 mg/dL com protocolo de insulina; a hipoglicemia (< 70–80) é o risco real da estratégia.
Desnutrido que volta a se alimentar: iniciar devagar e vigiar síndrome de realimentação — repor fósforo, potássio, magnésio e tiamina.
Questões do módulo · 08
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioPaciente ventilado no 3º dia, RASS −4, sem indicação formal de sedação profunda, em midazolam e fentanil em infusão contínua. Conduta:
2.AvançadoHomem, 58 anos, choque séptico estabilizando no 2º dia (noradrenalina em queda), sem contraindicação digestiva. Plano nutricional segundo a ESPEN:
R
Revisão de alta performance
Para a véspera (ou para o plantão): o essencial, os números, os macetes e as pegadinhas da UTI
Resumo essencial por módulo
Módulo
A essência
Maior incidência
01 Admissão na UTI
Leito = suporte de órgão + reversibilidade; APACHE II estratifica população (pior valor em 24 h), SOFA mede tendência de órgão; metas discutidas antes de precisar.
Critérios de admissão; SOFA +2 = sepse; limitação de suporte
02 Monitorização
Choque é hipoperfusão (lactato, oligúria, capilares), não número de pressão; PAM ≥ 65 e lactato em série (2–4 h) guiam a reanimação.
Lactato > 2 / ≥ 4; resposta dinâmica a volume; classes de choque
03 VM invasiva
VT 6 mL/kg de peso predito, platô ≤ 30 na pausa, PEEP/FiO₂ pela tabela, ventral ≥ 16 h se PaO₂/FiO₂ < 150.
PBW; platô; hipercapnia permissiva; PROSEVA
04 Desmame
SAT + SBT diários: prontidão (P/F > 150–200, RASS −1 a +1), SBT de 30–120 min, RSBI < 105; traqueostomia quando se projeta > 14 dias.
RSBI; critérios de prontidão; timing da traqueostomia
05 Choque e vasopressores
Noradrenalina 0,01–1 µg/kg/min 1ª linha; vasopressina 0,03 U/min na dose moderada/alta; dobutamina só com débito baixo; hidrocortisona 200 mg/dia no refratário.
Doses; escada do escalonamento; extravasamento
06 Sepse
Hora 1: lactato, culturas antes do ATB, ATB ≤ 60 min, cristaloide 30 mL/kg, noradrenalina para PAM ≥ 65; foco drenado e des-escalonamento em 48–72 h.
Bundle; controle de foco; SSC 2021
07 LRA e TRS
KDIGO: +0,3 mg/dL/48 h, × 1,5 em 7 d ou diurese < 0,5/6 h; dializa-se por AEIOU, não por número; CRRT 20–25 mL/kg/h no choque.
Estágios KDIGO; indicações; timing STARRT-AKI
08 Sedação/delirium/nutrição
RASS −2 a 0, CAM-ICU por turno, sem haloperidol de rotina, bundle ABCDEF; enteral ≤ 48 h (~70% do gasto → 20–25 kcal/kg; proteína 1,3 g/kg), glicemia ≤ 180.
RASS/CAM-ICU; PADIS 2018; ESPEN
Números que você precisa saber de cor
Tema
Número
PAM
≥ 65 mmHg (PAM ≈ (PAS + 2 × PAD)/3)
Lactato
> 2 anormal · ≥ 4 grave · repetir em 2–4 h
APACHE II
0–71 · pior valor das primeiras 24 h · ~73% de mortalidade com 25–29 pontos (validação original)
SOFA
6 sistemas × 0–4 · aumento ≥ 2 = disfunção aguda de órgão (sepse)
Choque estabilizando no dia 2, sem contraindicação digestiva
Nutrição enteral precoce hipocalórica
Família pede fazer tudo em paciente irreversível
Reunião estruturada e limitação ética documentada (ortotanásia)
Prova final — bateria geral
8 questões cobrindo todos os módulos proporcionalmente + gabarito
1.IntermediárioHomem, 71 anos, cirrose descompensada, em enfermaria por hemorragia digestiva variceal; após 4 concentrados de hemácias e terlipressina mantém PAS 82, FC 124, lactato 4,8, confusão e oligúria, Glasgow 14. Decisão de internação:
2.FundamentalPaciente com PA 118/74, lactato 4,2 mmol/L, diurese 0,2 mL/kg/h e marmorização de joelhos. Interpretação correta:
3.Prova difícilMulher, 1,55 m e 98 kg, SDRA; em VT 6 mL/kg PBW e PEEP 12 cmH₂O: pico 38, platô 31, driving 19 cmH₂O. Ajuste mais adequado:
4.IntermediárioSobrevivente de SDRA ventilado há 5 dias: RASS 0, sem vasopressor há 24 h, PaO₂/FiO₂ 240 com FiO₂ 0,4 e PEEP 6 cmH₂O; no T-piece: FR 24/min, VT 0,45 L, SpO₂ 95%, estável, sem sudorese. RSBI e conduta:
5.AvançadoChoque séptico: 30 mL/kg concluídos; noradrenalina titulada até 0,35 µg/kg/min com PAM 58; adicionada vasopressina 0,03 U/min, PAM 64 e lactato caindo de 5,2 para 3,8; eco com VE hiperdinâmico e débito alto. Medida adicional indicada:
6.FundamentalPrimeira hora da sepse — qual conjunto está completo e correto:
7.IntermediárioQual NÃO é indicação clássica (AEIOU) de iniciar terapia de substituição renal de emergência:
8.AvançadoPaciente ventilado, RASS −1, dor controlada (NRS 2); CAM-ICU positivo com inatenção e pensamento desorganizado; em midazolam contínuo há 4 dias. Medidas adequadas:
Gabarito rápido
1-A · 2-A · 3-A · 4-A · 5-A · 6-A · 7-A · 8-A
Referencial teórico
11 fontes reais · DOI verificado
diretriz / revisãoEvans L, Rhodes A, Alhazzani W, et al. Surviving Sepsis Campaign: international guidelines for management of sepsis and septic shock 2021. Crit Care Med. 2021;49(11):e1063–e1143.doi.org/10.1097/CCM.0000000000005337
diretriz / revisãoARDS Network. Ventilation with lower tidal volumes as compared with traditional tidal volumes for acute lung injury and the acute respiratory distress syndrome. N Engl J Med. 2000;342(18):1301–1308.doi.org/10.1056/NEJM200005043421801
diretriz / revisãoBoles JM, Bion J, Connors A, et al. Weaning from mechanical ventilation: statement of the Sixth International Consensus Conference on Intensive Care Medicine. Eur Respir J. 2007;29(5):1033–1056.doi.org/10.1183/09031936.00010206
diretriz / revisãoYang KL, Tobin MJ. A prospective study of indexes predicting the outcome of trials of weaning from mechanical ventilation. N Engl J Med. 1991;324(21):1445–1450.doi.org/10.1056/NEJM199105233242101
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diretriz / revisãoSessler CN, Gosnell MS, Grap MJ, et al. The Richmond Agitation-Sedation Scale: validity and reliability in adult intensive care unit patients. Am J Respir Crit Care Med. 2002;166(10):1338–1344.doi.org/10.1164/rccm.2107138
diretriz / revisãoEly EW, Inouye SK, Bernard GR, et al. Delirium in mechanically ventilated patients: validity and reliability of the CAM-ICU. JAMA. 2001;286(21):2703–2710.doi.org/10.1001/jama.286.21.2703
diretriz / revisãoDevlin JW, Skrobik Y, Gélinas C, et al. Clinical practice guidelines for the prevention and management of pain, agitation/sedation, delirium, immobility, and sleep disruption in adult patients in the ICU (PADIS). Crit Care Med. 2018;46(9):e825–e873.doi.org/10.1097/CCM.0000000000003299
diretriz / revisãoBagshaw SM, Wald R, Adhikari NKJ, et al. Timing of initiation of renal-replacement therapy in acute kidney injury (STARRT-AKI). N Engl J Med. 2020;383(3):240–251.doi.org/10.1056/NEJMoa2000741
diretriz / revisãoSinger P, Reintam Blaser A, Berger MM, et al. ESPEN guideline on clinical nutrition in the intensive care unit. Clin Nutr. 2019;38(1):48–79.doi.org/10.1016/j.clnu.2018.08.037
notaResumo didático elaborado a partir das diretrizes e revisões acima (verificáveis pelo DOI) e dos artigos publicados desta matéria na Central de Estudos (fonte principal). Nenhuma referência inventada; em caso de divergência entre fontes, vale a versão vigente do protocolo oficial — confira sempre antes da conduta real.
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