Baseado no conhecimento canônico da assistência obstétrico-ginecológica e nas diretrizes e ensaios de referência — OMS (partograma, intraparto 2018), FIGO (monitorização fetal 2015), ACOG/SMFM (Safe Prevention, Practice Bulletins 183, 191, 195, 200, 209, 222 e 232), Collaborative Eclampsia Trial, Magpie, WOMAN, ABM 2022 e Lancet breastfeeding series (complemento, sempre com DOI verificado). Protocolos variam entre serviços: na prática, confira sempre o protocolo local vigente.
01
Admissão em trabalho de parto: triagem, toque e cardiotocografia
triagem do centro obstétrico · TP verdadeiro × falso · história e exame físico · escore de Bishop · cardiotocografia FIGO 2015: parâmetros e classificação · quando chamar o obstetra
Trabalho de parto ativo
≥ 6 cm
progressão lenta antes disso é normal (curvas contemporâneas)
Bishop
≥ 8
colo favorável; ≤ 4 desfavorável — pensar em maturar
FCF basal
110–160 bpm
fora dessa faixa persistente = traçado alterado
Variabilidade normal
5–25 ms
parâmetro que melhor reflete oxigenação fetal (FIGO)
1. Triagem: o que colher na admissão
História obstétrica e atual: idade gestacional (DUM e ultrassonografia do 1º trimestre), paridade, pré-natal (quantas consultas, sorologias, tipagem, anti-D), cicatriz uterina, contrações (início, intervalo, duração, intensidade), movimentos fetais, sangramento, perda de líquido (hora e cor), dor, sintomas de hipertensão (cefaleia, fotopsias, dor epigástrica) e medicações em uso.
Gestação com mais de 20 semanas que procura a emergência obstétrica é sempre atendida no centro obstétrico — nunca na emergência geral.
Sinais de gravidade que dispensam avaliação cervical e pedem ação imediata: sangramento vaginal abundante, bradicardia fetal, hipertensão grave com sintomas, convulsão, prolapso de cordão, distócia de ombro.
Exame físico de admissão: pressão arterial, pulso, temperatura, saturação; altura uterina e apresentação pelas manobras de Leopold; frequência cardíaca fetal (ausculta ou cardiotocografia); se em trabalho de parto provável, avaliação do colo por toque vaginal com registro de dilatação, apagamento, consistência, posição e estação da apresentação. Antes do toque com sangramento na segunda metade da gestação, a placenta precisa estar localizada — sangramento do 3º trimestre exige ultrassonografia antes de qualquer exame vaginal.
2. Escore de Bishop (modificado) — o toque estruturado
Parâmetro
0 pontos
1 ponto
2 pontos
3 pontos
Dilatação (cm)
fechado
1–2
3–4
≥ 5
Apagamento (%)
0–30
40–50
60–70
≥ 80
Consistência
firme
média
macia
—
Posição do colo
posterior
média
anterior
—
Estação (DeLee)
−3
−2
−1 a +1
+2 ou mais
Pontuação total de 0 a 13: escore ≥ 8 indica colo favorável (indução tem alta probabilidade de sucesso); ≤ 4 indica colo desfavorável — induzir direto aumenta cesárea, e o protocolo prevê maturação cervical prévia (misoprostol, dinoprostona ou sonda de Foley, conforme o serviço). O toque de admissão também confirma apresentação cefálica bem fletida, membranas íntegras ou rotas e ausência de circulares — qualquer dúvida entre apresentação cefálica e pélvica pede ultrassonografia antes de conduzir.
A CTG avalia quatro parâmetros: frequência cardíaca basal, variabilidade (oscilação minuto a minuto, o parâmetro que melhor reflete a reserva de oxigenação fetal), acelerações e desacelerações. O traçado é classificado em normal, suspeito e patológico, e a classificação muda a conduta:
Classificação
Critérios (qualquer um define)
Conduta
Normal
basal 110–160 bpm · variabilidade 5–25 ms · sem desacelerações repetidas · acelerações desejáveis, mas não obrigatórias
seguir o trabalho de parto; reavaliar conforme protocolo
Suspeito
taquicardia 161–180 ou bradicardia 100–109 · variabilidade 5–10 ms por ≥ 50 min · variabilidade < 5 ms por até 30 min · variabilidade > 25 ms · desacelerações variáveis ou tardias ocasionais · desaceleração prolongada de 5 a 10 min
medidas intraútero e reavaliação frequente do traçado
Patológico
bradicardia < 100 ou taquicardia > 180 · variabilidade < 5 ms por ≥ 30 min · traçado sinusoidal · desacelerações variáveis repetidas (> 50% das contrações) por ≥ 30 min · tardias repetidas por ≥ 20 min · desaceleração prolongada > 10 min
chamar o obstetra, executar medidas intraútero e avaliar conduta de nascimento; em alguns serviços, pH/ECG fetal para decidir
Medidas intraútero do traçado alterado (a lista que a OSCE cobra): mudança de decúbito materno (lateral), hidratação endovenosa, suspensão da ocitocina se em uso, avaliação de hiperestímulo uterino (mais de 5 contrações em 10 minutos) e, quando indicado, amniotomia com avaliação de líquido. Gestante de baixo risco em trabalho de parto espontâneo pode ser conduzida com ausculta intermitente (FIGO: após a contração, por pelo menos 60 segundos, a cada 15–30 minutos na fase ativa e a cada 5 minutos na expulsiva) — a CTG contínua é para gestação de alto risco, parto induzido ou traçado alterado.
Triagem do centro obstétrico
Gestante acima de 20 semanas chega ao CO com queixa obstétrica — por onde começar?
▼
Sinais de gravidade (sangramento, bradicardia fetal, PA ≥ 160/110, convulsão, instabilidade)
Duas vias calibrosas, monitorização materna e fetal, chamar o obstetra e a enfermagem de plantão.
Tratar a emergência (reanimação, magnésio, controle de pressão) antes de avaliar o colo.
Ultrassonografia antes do toque em todo sangramento.
Contrações regulares + colo modificado (ou rotura de membranas)
Admitir como trabalho de parto: história completa, Bishop, CTG ou ausculta, apresentação e estação.
Registrar tudo no partograma desde a admissão.
Contrações irregulares, colo fechado ou pouco modificado
Falso trabalho de parto: observar 2 horas no CO, hidratar, analgesia simples e reavaliar o colo.
Sem modificação cervical: orientar, alta com sinais de alarme e retorno.
Questões do módulo · 01
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalNulípara de 39 semanas chega ao centro obstétrico com contrações a cada 7–10 minutos há 2 horas; toque: colo posterior, firme, apagamento 50%, dilatação 2 cm. A gestante chora e quer ficar internada. Conduta:
2.IntermediárioGestante de 38 semanas, parto induzido com ocitocina, CTG de 40 minutos: frequência basal de 105 bpm, variabilidade de 6 ms, sem acelerações, desacelerações variáveis ocasionais. Classificação do traçado e conduta:
02
Parto normal assistido e partograma
partograma da OMS e curvas de progressão · assistência do 1º estágio · período expulsivo e manobras · lacerações perineais · manejo ativo do 3º estágio · 4ª fase e hora de ouro
Progressão ativa
≥ 1 cm/h
média clássica após 6 cm; antes disso a progressão é mínima (Zhang)
Expulsiva
3 h · 4 h
nulípara · nulípara com peridural (multípara 2 h e 3 h)
Dequitação
≤ 30 min
além disso = retenção placentária
Ocitocina profilática
10 UI
IM ou IV no manejo ativo do 3º estágio
1. Assistência do 1º estágio
Acompanhante de escolha é direito (Lei 11.108/2005); deambulação, liberdade de posição, hidratação e dieta leve conforme o serviço.
Controle da dor desde cedo (ver módulo de distócias e analgesia); esvaziamento vesical periódico — bexigoma disfarça distócia.
Vigilância fetal: ausculta intermitente no baixo risco ou CTG contínua no alto risco; registrar frequência de contrações e tônus em repouso.
Amniotomia não é de rotina: reservar para aceleração do trabalho em indicação documentada ou necessidade de avaliação interna do feto.
Registrar no partograma cada toque: dilatação, apagamento, estação, líquido, tônus — a linha horizontal é o erro do interno que esquece de anotar.
2. Período expulsivo: manobras e nascimento
Limites contemporâneos: nulípara até 3 horas de esforço (4 horas com peridural) e multípara até 2 horas (3 horas com peridural) antes de considerar parada de descida. Não se instrui esforço dirigido de rotina — a mãe faz força quando sente vontade, com a glote fechada por períodos curtos. No desprendimento cefálico: controle da flexão e extensão lenta da cabeça (manobra de Ritgen modificado, protegendo o períneo), aspiração orofaríngea apenas se houver indicação (líquido meconial grosso com RN deprimido), rotação externa espontânea, expressão suave do ombro anterior no sentido ântero-posterior (Sezary), ombro posterior, e só então clampeamento do cordão em dois tempos com corte. Clampeamento tardio (30–60 segundos, ACOG; a OMS recomenda 1–3 minutos) melhora as reservas de ferro do recém-nascido — só se adia antecipado em instabilidade materna ou neonatal que exija reanimação imediata. Recém-nascido vivo a termo vai direto ao peito da mãe, pele a pele, com Apgar registrado no 1º e 5º minutos (repetir a cada 5 minutos até 20 se < 7 no 5º).
sutura do esfíncter por médico treinado, analgesia, laxante, evitar enema
4º grau
atravessa mucosa retal
sutura em planos (reto, esfíncter, corpo perineal) por especialista; antibiótico e dieta deixa de ser de rotina em muitos serviços — seguir protocolo
Episiotomia é seletiva, nunca de rotina: indicações reais incluem urgência fetal com períneo obstrutivo, parto operatório vaginal e distócia de ombro. Rotina aumenta lesão esfinteriana e sangramento sem proteger o assoalho.
3. Terceiro e quarto estágios
Parto iminente sem o obstetra na sala
A apresentação coroa e o obstetra ainda não chegou — o que o interno faz?
▼
Chamar e preparar
Acionar o obstetra por rádio/telefone e a equipe de neonatologia; nunca se apresentar sozinho se há risco (distócia de ombro, circular apertada, sofrimento fetal).
Posicionar a parturiente, abrir o kit de parto, preparar aspirador, pinça de cordão, ocitocina 10 UI e material de sutura.
Conduzir o desprendimento se o nascimento não pode ser adiado
Controle da extensão da cabeça (Ritgen), rotação externa, ombro anterior (Sezary), ombro posterior.
Clampear e cortar o cordão em dois pontos; ocitocina 10 UI IM/IV; massagem uterina.
Documentar hora do nascimento, sexo, Apgar, líquido e lacerações — o prontuário que você não anota não existiu.
Depois do nascimento
Pele a pele e aleitamento na primeira hora; vigilância do 4º estágio; entregue a placenta para inspeção e rotina do serviço.
Questões do módulo · 02
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalAssistência a parto vaginal normal a termo: logo após o desprendimento do ombro anterior, qual medida faz parte do manejo ativo do 3º estágio?
2.IntermediárioNulípara com peridural há 2 horas, dilatação completa há 2 horas e 30 minutos, apresentação cefálica em estação +1, esforço expulsivo eficaz, traçado fetal normal. Conduta:
03
Distócias, ocitocina e analgesia de parto
curvas de progressão e critérios de parada · fase latente prolongada · occipitoposterior · ocitocina: esquemas e limites · hiperestímulo · anemia no parto · analgesia: não farmacológica, opioides, peridural, raquidiana e CSE
Parada de dilatação
6 cm + 4 h
membranas rotas, sem progressão com ocitocina adequada (ou 6 h sem)
Ocitocina — máximo
20–40 mUI/min
conforme esquema de baixa ou alta dose (ACOG)
Latente prolongada
20 h · 14 h
nulípara · multípara (definição clássica; não é indicação de cesárea)
Hb para transfusão
< 7 g/dL
em paciente estável; antes disso, ferro pré-parto se anemia
Distócia
Definição
Conduta
Fase latente prolongada
nulípara > 20 h · multípara > 14 h (clássico)
não é indicação de cesárea: repouso, sedação/analgesia, ocitocina ou espera documentada
Parada de dilatação
≥ 6 cm + membranas rotas + ≥ 4 h sem progressão com ocitocina adequada (ou ≥ 6 h sem ocitocina)
cesárea
Parada de descida
sem progressão do plano de DeLee por ≥ 1 h de esforço na expulsiva (com limites de tempo respeitados)
parto operatório vaginal (fórceps/vácuo) se viável; senão cesárea
Posição occipitoposterior
dor lombar, deflexão, progressão lenta
a maioria rota espontaneamente: mudança de posição, tempo; manobras rotacionais se não evolui
Hiperestímulo uterino
> 5 contrações em 10 min ou contrações de longa duração com traçado alterado
suspender ocitocina, decúbito lateral, hidratação; tocolítico pontual se persistir
Hiperestímulo com traçado alterado
CTG alterada com taquissistolia em parto induzido — sequência de conduta
▼
Imediato
Suspender a ocitocina; chamar a enfermagem e informar o obstetra.
Decúbito lateral esquerdo e hidratação endovenosa.
Avaliar contrações e traçado a cada poucos minutos.
Persiste o hiperestímulo
Tocolítico pontual: terbutalina 0,25 mg IV em dose única (ou esquema do serviço) para dar janela de reoxigenação.
Traçado volta ao normal
Reiniciar ocitocina em dose menor conforme protocolo e reavaliar continuamente; documentar o episódio.
Traçado não recupera (patológico persistente)
Decidir conduta de nascimento rápido com o obstetra — cesárea de emergência se via vaginal não é imediata.
1. Anemia no parto
Toda parturiente precisa de hemograma recente: anemia na gestação é Hb < 11 g/dL (1º e 3º trimestres) ou < 10,5 g/dL (2º). Anemia detectada antes do parto se trata com ferro elementar 120–200 mg/dia VO (checar ferritina para diferenciar ferropriva), porque o parto custa em média 500 mL e a cesárea 1.000 mL — anêmica entra no parto com reserva menor. Na internação: tipagem cruzada disponível, acesso calibroso em anemia moderada/grave e limiar transfusional Hb < 7 g/dL em paciente estável (mais precoce com sangramento ativo ou sintomas). Gestante negativa para Rh: plano de anti-D pós-parto conforme Rh do recém-nascido.
2. Analgesia do parto
Método
Como se usa
Notas de prova
Não farmacológica
suporte contínuo, massagem, respiração, banho/imersão, deambulação, bola
primeira etapa; reduz sofrimento e intervenções
Opioides sistêmicos
petidina 50–100 mg IM 3/3–4/4 h; tramadol 50–100 mg IM/IV
evitar perto do nascimento: petidina e norpetidina deprimem o RN
Óxido nitroso inalatório
mistura 50% autoadministrada
alívio moderado, ação e eliminação rápidas; disponibilidade variável no SUS
Peridural contínua
cateter em espaço peridural: anestésico local (ex.: bupivacaína/ropivacaína baixa concentração) + opioide
técnica de escolha; NÃO aumenta cesárea; pode alongar a expulsiva em 15–30 min
Raquidiana pontual
opioides ± anestésico em dose única no espaço subaracnóideo
para parto vaginal urgente ou correção rápida; duração limitada
Combinada raqui-peridural (CSE)
raqui pontual + cateter peridural
alívio rápido com resgate contínuo
Complicações da analgesia neuraxial: hipotensão (prevenir com volume e inclinação lateral esquerda), febre materna sem foco (não confundir com corioamnionite sem achados), retenção urinária, prurido, cefaleia pós-punção dural (tratamento conservador; blood patch em refratária).
Contraindicações: recusa da paciente, coagulopatia ou trombocitopenia significativa, sepse sistêmica, infecção no local da punção, hipovolemia não corrigida e (relativa) estenose/lesão neurológica do eixo — a anestesia decide.
Anticoagulação e bloqueio: heparina de baixo peso molecular profilática — aguardar cerca de 12 h; dose terapêutica — 24 h; heparina não fracionada IV — 4–6 h após a última dose (canônicos ASRA/ACOG, com variações por protocolo).
Analgésico de emergência sem bloqueio possível: lidocaína local e opioide sistêmico com vigilância neonatal.
Questões do módulo · 03
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioParturiente de 40 semanas, indução com ocitocina: CTG mostra 7 contrações em 10 minutos, com desacelerações variáveis moderadas e variabilidade preservada. Conduta imediata:
2.FundamentalParturiente de 39 semanas, Hb 8,8 g/dL, MCV 72 fL, ferritina 8 ng/mL, nega sangramento, agendada para indução hoje. Conduta sobre a anemia:
04
Cesárea: indicações, classificação de Robson e complicações
indicações clássicas · momento eletivo ≥ 39 semanas · Robson: 10 grupos e o grupo 5 · técnica e antibiótico profilático · recuperação pós-cesárea · complicações imediatas e tardias · TOLAC/VBAC
Cesárea no Brasil
~50–55%
no setor suplementar passa de 80% (Nascer no Brasil)
Eletiva
≥ 39 semanas
antes disso, cesárea eletiva a termo tardio é erro de indicação
Antibiótico profilático
cefazolina 2 g IV
até 60 min antes da incisão; 3 g se peso ≥ 120 kg
TOLAC — rotura uterina
< 1%
sucesso do VBAC 60–80% em bem selecionadas
1. Indicações e momento
Indicação
Razão
Distócia de progressão/descida
critérios de parada preenchidos e via vaginal inviável
Sofrimento fetal agudo
traçado patológico sem viabilidade de nascimento rápido pela vagina
Apresentação pélvica
padrão de segurança; via vaginal só em critérios rígidos e equipe experiente
Placenta prévia oclusiva
placenta cobrindo o orifício interno
Iteratividade com contraindicação ao parto vaginal
primeiro feto não cefálico (e protocolos locais para outros cenários)
Infecções
herpes genital em atividade no trabalho de parto; HIV com carga viral detectável
Apresentação transversa/instável
cesárea obrigatória a termo
Cesárea eletiva se programa a partir de 39 semanas (salvo indicações específicas como gemelaridade ou indications maternas documentadas). Em emergência, o que muda é o tempo-alvo e a documentação: registrar hora do alarme, hora da decisão e hora do nascimento — a nota de cesárea de emergência é uma das coisas que a banca e a residência cobram do interno.
2. Classificação de Robson (OMS)
Grupo
Descrição resumida
1
nulíparas, gestação única cefálica a termo, trabalho de parto espontâneo
2
nulíparas cefálicas a termo: induzidas (2a) ou cesárea antes do trabalho (2b)
3
multíparas sem cicatriz, cefálicas a termo, trabalho espontâneo
4
multíparas sem cicatriz, cefálicas a termo: induzidas (4a) ou cesárea pré-trabalho (4b)
5
multíparas com 1 cesárea prévia, cefálicas a termo
6
nulíparas em apresentação pélvica
7
multíparas em apresentação pélvica (inclui cicatrizes)
8
gestações múltiplas
9
apresentação transversa/oblíqua
10
cefálicas com menos de 37 semanas
A classificação de Robson é o idioma mundial para auditar taxas de cesárea (Torloni/OMS): dentro de cada grupo compara-se a taxa e discute-se redução. O grupo 5 (uma cesárea prévia) é o maior contribuinte em quase todos os serviços brasileiros — é ali que TOLAC bem selecionado e indicações de repetição mexem na estatística. A OMS não estabelece alvo de 10% para serviços individuais: em nível populacional, taxas acima de 10% não se associam a queda adicional de mortalidade materna ou neonatal (declaração da OMS no BJOG).
Complicação da cesárea
Ponto-chave
Hemorragia
cesárea sangra em média ~1.000 mL; atonia e extensões de histerotomia lideram
Infecção
endometrite e infecção de sítio cirúrgico — profilaxia reduz drasticamente; febre pós-cesárea é endometrite até prova contrária
Lesões
bexiga (mais comum), intestino, ureter — reconhecer hematúria, íleo precoce, dor em flanco
acretismo placentário cresce a cada cesárea, rotura uterina em futuros partos, istmocele (sangramento ginecológico crônico), placenta prévia em gestação seguinte
Gestante com 1 cesárea prévia — decidir a via
Cicatriz de cesárea transversa baixa e gestação única cefálica a termo: TOLAC ou repetição?
▼
Candidata ao TOLAC (VBAC)
1 cesárea com incisão transversa baixa, sem contraindicação ao parto vaginal, sem repetição da indicação prévia.
Explicar: sucesso 60–80%; rotura uterina < 1%; bradicardia fetal súbita é o sinal precoce da rotura — equipe preparada para cesárea de emergência.
Contraindicações ao TOLAC
Incisão corporal/clássica ou em T, rotura uterina prévia, cirurgia uterina transmural extensa, contraindicação ao parto vaginal (prévia oclusiva etc.).
Cesárea eletiva ≥ 39 semanas.
Zona cinzenta
Intervalo interparto < 18 meses, gemelaridade, 2 cesáreas prévias: decisão individualizada com o obstetra — documente a conversa.
Questões do módulo · 04
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.AvançadoDiretora clínica pede auditoria das cesáreas do serviço pela classificação de Robson. Qual grupo historicamente contribui com a maior parcela das cesáreas na maioria dos serviços brasileiros?
2.IntermediárioPaciente de 90 kg está em sala operatória para cesárea eletiva a 39 semanas. Sobre a antibioticoprofilaxia, conduta correta:
05
Emergências obstétricas: eclâmpsia e hemorragia puerperal
pré-eclâmpsia grave: critérios e momento do parto · sulfato de magnésio: doses, monitorização e antídoto · anti-hipertensivos IV · hemorragia puerperal: quadro de Montenegro e as 4 Ts · escada da atonia · tampão intrauterino e transfusão maciça · rotura uterina, distócia de ombro, prolapso de cordão e embolia de líquido amniótico
MgSO₄ IV
4–6 g → 1–2 g/h
ataque em 20–30 min + manutenção por 24 h pós-parto
Antídoto
gluconato de cálcio 1 g IV
a 10%; primeiro sinal de toxicidade = reflexos patelares ausentes
HPP
≥ 500 / ≥ 1.000 mL
vaginal / cesárea, nas primeiras 24 h; atonia = 70–80%
Ácido tranexâmico
1 g IV ≤ 3 h
WOMAN: reduz morte por hemorragia
1. Pré-eclâmpsia grave e eclâmpsia
Diagnóstico: PA ≥ 140/90 mmHg após a 20ª semana + proteinúria (≥ 300 mg/24 h ou relação proteína/creatinina ≥ 0,3) e/ou disfunção de órgão-alvo.
Critérios de gravidade: PA ≥ 160/110 confirmada; plaquetas < 100.000/mm³; creatinina > 1,1 mg/dL ou o dobro; TGO/TGP ≥ 2× o normal; edema pulmonar; cefaleia intratável, escotomas, dor em epigástrio/hipocôndrio direito.
Conduta com gravidade: internação, sulfato de magnésio profilático, anti-hipertensivo IV e parto após estabilização a partir de 34 semanas (expectante só em centro terciário entre 24–33 s e 6 d se mãe e feto estáveis); sem gravidade: parto em 37 semanas.
Eclâmpsia = convulsão na vigência de pré-eclâmpsia (pode ser o primeiro sinal e acontece também no pós-parto): magnésio IV de imediato, via aérea e posição lateral, e programar o nascimento após estabilização — a eclâmpsia, por si, não impõe cesárea.
Convulsão recorrente sob manutenção: bolus adicional de 2 g IV de magnésio (dose de resgate do protocolo ACOG).
2. Hemorragia puerperal (HPP)
Definição: sangramento ≥ 500 mL no parto vaginal ou ≥ 1.000 mL na cesárea nas primeiras 24 horas — ou qualquer perda que cause instabilidade. Causas pelas 4 Ts, em ordem de frequência: Tônus (atonia, 70–80%), Trauma (lacerações, roturas, extensões de histerotomia), Tecido (restos, acretismo) e Trombina (coagulopatia, CIVD). O quadro de Montenegro, clássico da obstetrícia brasileira, gradua o choque hemorrágico pela perda estimada — a volemia da gestante a termo gira em torno de 6 a 7 litros:
Histerectomia de controle — não postergar em sangramento refratário; transfusão maciça em paralelo (não depois).
Outras emergências
Sinal de alarme e conduta
Rotura uterina (útero cicatricial)
bradicardia fetal súbita é o sinal mais precoce, com dor, perda da estação e sangramento → cesárea imediata
Distócia de ombro
ombro anterior impactado → HELPERR: ajuda, episiotomia, McRoberts + pressão suprapúbica, rotação (Wood), braço posterior, Zavanelli por último
Prolapso de cordão
laço palpado na vagina com bradicardia → elevar a apresentação manualmente, Trendelenburg e nascimento imediato (cesárea, salvo parto iminente)
Embolia de líquido amniótico
hipóxia súbita + hipotensão + CIVD no parto/pós-parto imediato → suporte avançado; diagnóstico de exclusão, mortalidade alta
Questões do módulo · 05
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioPuérpera de 3 horas de parto vaginal, pré-eclâmpsia grave em uso de MgSO₄ 1,5 g/h, evolui com nova convulsão tônico-clônica generalizada. Conduta imediata:
2.Prova difícilParturiente em parto vaginal tem perda estimada de 1.800 mL, PA 85/50 mmHg, FC 128 bpm, diurese de 15 mL/h e agitação; útero mal contraído, já recebeu ocitocina e metilergometrina. Classificação de Montenegro e próximos passos:
06
Puerpério, amamentação e alta
involução e lóquios · rotina de vigilância e critérios de alta · amamentação: benefícios, técnica e contraindicações · mastite e abscesso · endometrite · hemorragia tardia · depressão pós-parto · contracepção e planejamento reprodutivo
Puerpério
42 dias
OMS acompanha até 6 semanas; lóquios albos até ~3 semanas
Contatos de pós-parto (OMS)
24 h · 3 d · 7 d · 6 s
primeira consulta nos primeiros 7 dias com mãe e RN
Depressão pós-parto
10–15%
rastreio com EPDS (corte habitual ≥ 10–13) em toda puérpera
Combinado na lactação
≥ 42 dias
e ≥ 21 dias mesmo sem lactação (risco trombótico)
O puerpério vai até 42 dias após o parto. Involução uterina: o fundo desce cerca de 1 cm/dia e sai da pelve em ~2 semanas. Lóquios: rubros (sanguinolentos) nos 3–4 primeiros dias, serosos até ~10 dias, albos (esbranquiçados) até a 3ª semana. Mamas: colostro nas primeiras 48–72 h, apojadura entre o 3º e 5º dia (ingurgitamento fisiológico — alívio por esvaziamento e frio entre mamadas, não por bloqueio). Vigilância diária do interno: tônus uterino e sangramento, PA e temperatura, mamas, períneo/cicatriz, diurese e eliminação intestinal, deambulação, humor e vínculo com o bebê.
1. Amamentação
Aleitamento materno exclusivo por 6 meses e complementado até 2 anos é a recomendação da OMS. A série Lancet (Victora, 2016) quantifica o que a prova cobra: amamentação quase universal previniria em torno de 823 mil mortes infantis por ano, reduz diarreia, otite média e pneumonias, leucemia infantil e diabetes tipo 1, e protege a mãe com queda do risco de câncer de mama e de ovário, além de espaçar gestações (MELA). Técnica: pega areolar (boca bem aberta, lábio evertido, mamilo fundo na boca), livre demanda, posição confortável. Fissura mamilar: corrigir a pega (a causa), lanolina/extrato de mamilos entre mamadas, manter a amamentação. Contrações uterinas nas primeiras mamadas são fisiológicas (ocitocina do reflexo de ejeção).
Contraindicações formais à amamentação: galactosemia clássica do recém-nascido; HTLV I/II; uso de medicamentos contraindicados (radiofármacos, quimioterápicos, drogas de abuso); HIV segue aconselhamento pelo protocolo vigente do Ministério da Saúde (mãe em TARV com carga viral suprimida pode amamentar com profilaxia do RN — tema em atualização; confira o protocolo local, não decore resposta fixa).
Medicamentos compatíveis com a amamentação: paracetamol, AINEs, penicilinas e cefalosporinas, sertralina, metformina, insulina, anticoncepcionais só com progestogênio — a regra é dose mínima eficaz e conferir cada fármaco em base de dados.
Apoiadora e consultora de amamentação (Equipe de Aleitamento) resolvem a maioria dos problemas técnicos antes que virem desmame.
Complicação puerperal
Reconhecer e tratar
Endometrite (causa mais comum de febre puerperal)
febre + dor uterina + lóquios fétidos + subinvolução; risco muito maior pós-cesárea; clindamicina 900 mg IV 8/8 h + gentamicina (esquema do serviço) até 24–48 h afebril
Mastite (2ª–4ª semanas)
dor, eritema, calor, febre; manter amamentação/esvaziamento; cefalexina 500 mg VO 6/6 h (ou dicloxacilina) por 5–14 dias conforme protocolo e resposta; suspeita de MRSA: cotrimoxazol ou clindamicina; ABM 2022 chama o espectro: ductal (inflamatória) × bacteriana
Abscesso mamário
massa dolorosa flutuante; confirmar com USG; drenagem (punção guiada ou incisão); manter amamentação/esvaziamento, suspendendo da mama afetada só se fístula ducto-cutânea na aréola
Hemorragia tardia (24 h a 12 semanas)
pensar em restos ovulares e endometrite: USG, reavaliação de atonia — esvaziamento uterino se restos; nunca prescrever hormônio sem excluir restos
Tromboembolismo
risco elevado até 12 semanas pós-parto (pico nas 3 primeiras); profilaxia conforme risco (cesárea + IMC/outras) e alta suspeita para dor em perna e dispneia
Hipertensão pós-parto
pré-eclâmpsia pode debutar ou reativar no pós-parto (até 6 semanas): dor de cabeça/pressão alta na puérpera é medir PA e pensar em PE pós-parto; magnésio mantido por 24 h após cesárea de PE grave
Síndrome de Sheehan
agalactia + amenorreia após HPP grave (necrose hipofisária): falha de lactação no puerpério + sinais de insuficiência hipofisária
Questões do módulo · 06
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalPuérpera de 12 dias, parto vaginal, apresenta mama esquerda com dor, eritema e febre de 38,5 °C; ao exame, placas de endurecimento difuso sem massa flutuante, pega correta confirmada. Conduta:
2.IntermediárioPuérpera de 5 semanas, amamentando exclusivamente, pergunta qual contraceptivo pode usar hoje. Melhor resposta:
07
Enfermaria ginecológica: perioperatório
avaliação pré-operatória e medicações · antibioticoprofilaxia (ACOG PB 195) · profilaxia de trombose (ACOG PB 232) · prescrição pós-operatória padrão · complicações do pós-operatório e como reconhecer · procedimentos comuns e alta
Profilaxia cirúrgica
cefazolina 2 g IV
≤ 60 min antes da incisão; 3 g se peso ≥ 120 kg
beta-hCG pré-op
toda mulher
em idade reprodutiva, antes de cirurgia ginecológica
Jejum
2 h líquidos · 6 h sólidos
protocolo de jejum abreviado conforme serviço
Enoxaparina profilática
40 mg SC 1×/dia
cirurgia de alto risco/oncológica; início ~6–12 h pós-op
O interno da enfermaria ginecológica executa a roda do perioperatório: admissão com anamnese e exames, checklist pré-op, prescrição do pós-operatório, checagem diária (dor, sangramento, diurese, intestino, ferida, drenos, deambulação e exames) e alta. Procedimentos comuns: curetagem/aspiração manual intrauterina (AMIU), histeroscopia diagnóstica e cirúrgica, conização e LEEP, miomectomia, anexectomia, histerectomia total (abdominal, vaginal ou videolaparoscópica) e cirurgias de câncer ginecológico.
1. Avaliação pré-operatória
História: comorbidades (cardiopulmonar, diabetes), cirurgias prévias, histórico de trombose e de sangramento, anticoagulantes/antiagregantes, anticoncepcionais e reposição hormonal, fitoterápicos (ginkgo, alho — risco de sangramento), apneia do sono, alergias.
Exames conforme o procedimento e a idade: hemograma, tipagem (com cruzamento em cirurgias com risco de sangramento), coagulograma quando há indicação, glicemia, creatinina, eletrólitos conforme risco, ECG e radiografia por indicação (idade/comorbidade) — e beta-hCG em toda mulher com potencial de gestação.
Medicações: anticoagulante oral (varfarina ~5 dias antes, com INR < 1,5; DOACs ~48 h, ajuste renal), heparina de baixo peso molecular (conforme dose: profilática vs terapêutica e o tipo de anestesia), AAS e antiagregantes conforme o protocolo do serviço e o risco cardiovascular — nunca suspender antitrombótico sem checar a indicação.
Anticoncepcional hormonal combinado: suspender ~4 semanas antes de cirurgia de alto risco trombótico (com retorno pós-recuperação da deambulação).
Jejum abreviado: líquidos claros até 2 h e sólidos até 6 h (protocolo ERAS conforme serviço); preparo intestinal não é de rotina em cirurgia ginecológica (reservar a casos específicos).
Consentimento informado documentado e marcagem do sítio; histerectomias conversam sobre conservar anexos e sobre riscos de lesão ureteral.
conforme risco (escore); mecânica + farmacológica se alto risco
Complicação pós-op
Quando pensar e como fechar
Febre
investigar foco: urinária (D2–D3, sondada), sítio cirúrgico/endometrite (D3–D5, dor + secreção), pneumonia (días 1–3, dispneia), tromboflebite séptica pélvica (febre que não cede a antibiótico), TEV — febre pós-op não é “atelectasia esperada”
Lesão ureteral
dor em flanco, febre, oligúria, fuga de urina pela ferida/dreno com creatinina da drenagem > plasmática → TC urográfica/pielografia e urologia
Lesão vesical
hematúria, fuga de urina, oligúria com sonda clara → cistografia/cistoscopia
Sangramento
queda de Hb, taquicardia, dreno cheio → examinar, USG, reoperação se instável
Tromboembolismo
dispneia/dor torácica/dor de perna pós-op → protocolo de TEP (D-dímero de pouca especificidade pós-op, angio-TC se suspeita)
Íleo
distensão, vômitos, sem eliminação de gases → deambulação, revisar opiáceos, excluir obstrução mecânica com radiografia/TC
Questões do módulo · 07
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalPaciente de 78 kg, histerectomia total abdominal videolaparoscópica eletiva por miomatose sintomática, programada para as 8h. Conduta sobre a antibioticoprofilaxia:
2.AvançadoPaciente no 2º dia pós-histerectomia total abdominal por câncer de endométrio evolui com febre de 38,2 °C, dor em flanco direito, FC 104 bpm e dreno pélvico com líquido claro; creatinina da drenagem de 4,2 mg/dL (plasmática 1,0). Conduta:
08
Urgências ginecológicas: dor pélvica aguda e sangramento uterino anormal
dor pélvica aguda: torção anexial, cisto roto, abcesso tubo-ovariano, apendicite · fluxo diagnóstico com beta-hCG e USG-TV · sangramento uterino anormal: FIGO e PALM-COEIN · sangramento agudo grave (receita) · quando operar
beta-hCG
sempre
em toda mulher em idade reprodutiva com dor pélvica aguda ou sangramento
Torção anexial
cirurgia já
tempo é ovário; Doppler normal não exclui
Ciclo normal
24–38 dias
duração ≤ 8 dias; fluxo aceito pela paciente (FIGO)
Biópsia de endométrio
≥ 45 anos
ou mais jovem com fatores de risco de hiperplasia
Causa
Clínica
USG/beta-hCG
Conduta
Torção anexial
dor súbita unilateral intensa + náuseas/vômitos; massa dolorosa anexial
anexo aumentado; Doppler pode ser normal (fluxo dual preservado) — NÃO exclui; beta-hCG negativo
laparoscopia imediata com desdobramento (salvar o ovário mesmo escuro); ovariopexia em casos selecionados
Cisto roto (corpo lúteo/folículo)
dor súbita meio do ciclo, autolimitada; pode haver hemoperitônio
líquido livre; massa anexial pequena ou sem massa
estável: observação e analgesia; instável ou hemoperitônio maciço: cirurgia
Abcesso tubo-ovariano
dor + febre + massa anexial; corrimento; DIP de base
massa complexa multiloculada; beta-hCG negativo
internação com antibióticos IV (clindamicina + gentamicina ou esquema do serviço); drenagem se não responde/grande
Gravidez ectópica rota
dor + sangramento + instabilidade; dor em ombro
beta-hCG +; sem gestação intrauterina, líquido livre
cirurgia imediata — reanimação em paralelo
Apendicite
dor periumbilical que migra para FID, anorexia, febre baixa
USG/TC conforme protocolo; beta-hCG negativo
cirurgia (laparoscopia) — difícil de diferenciar da anexite em gestante: imagem
Fluxo da dor pélvica aguda
Mulher em idade reprodutiva com dor pélvica aguda — por onde anda a conduta?
▼
Instável (hipotensão, defesa/rebote, beta-hCG +)
Duas vias, reanimação, chamar cirurgia/ginecologia e levar ao centro cirúrgico — ectópica rota ou hemoperitônio até prova contrária.
Estável com massa anexial dolorosa
beta-hCG + USG-TV com Doppler: torção (operar já, mesmo com Doppler normal) × abcesso tubo-ovariano (internação e antibióticos IV; drenar se falha/grande).
Estável sem massa, líquido livre discreto
Cisto roto provável: analgesia, observação e alta com sinais de alarme; excluir apendicite se dor em FID com Blumberg.
Menstruação normal (FIGO): frequência de 24 a 38 dias, duração até 8 dias, volume aceito pela paciente, regularidade cíclica (± 7–9 dias). Fora disso, é sangramento uterino anormal, classificado em PALM (estruturais: Pólipo, Adenomiose, Leiomioma, Malignidade/hiperplasia) e COEIN (não estruturais: Coagulopatia, disfunção Ovulatória, distúrbio Endometrial, Iatrogênico, Não classificado). Em adolescentes predomina o anovulatório (eixo imaturo) — e sangramento abundante desde a menarca rastreia doença de von Willebrand; no climatério (≥ 45 anos) ou com fatores de risco (obesidade, SOP, tamoxifeno) pede biópsia de endométrio. Investigação-base: beta-hCG, hemograma com ferritina, TSH e USG transvaginal em toda paciente; biópsia conforme idade e risco.
Causa (PALM-COEIN)
Conduta-chave
Pólipo
histeroscopia com polipectomia
Adenomiose
SIU-LNG e hormonal; histerectomia no refratário sem desejo reprodutivo
Leiomioma (submucoso FIGO 0–2)
ressecção histeroscópica
Malignidade/hiperplasia
biópsia; atipia → condução oncológica (SIU-LNG ou histerectomia conforme caso)
Coagulopatia
ácido tranexâmico + hematologia
Disfunção ovulatória (SOP, perimenopausa)
progestogênio cíclico ou combinado contínuo — proteger o endométrio
1.AvançadoAdolescente de 14 anos, do lado direito do abdômen com dor súbita há 6 horas, intensa, com náuseas e dois vômitos; beta-hCG negativo; USG com ovário direito aumentado para 7 cm com cisto simples, Doppler com fluxo arterial e venoso presentes. Conduta:
2.IntermediárioMulher de 34 anos, sangramento menstrual profuso há 9 dias, trocando absorvente a cada 1 h, Hb 7,4 g/dL, estável; beta-hCG negativo; USG sem alterações estruturais. Conduta inicial para controlar o sangramento:
09
Abortamento e gravidez ectópica
classificação do abortamento e condutas (expectante, misoprostol, AMIU) · abortamento infectado e recorrente · gravidez ectópica: diagnóstico e zona discriminatória · condutas expectante, metotrexato e cirúrgica · anti-D e alta
Abortamento
10–15%
das gestações clinicamente reconhecidas; aneuploidia é a causa mais comum
Zona discriminatória
~3.500 mUI/mL
acima dela deve haver saco intrauterino na USG-TV
Metotrexato
50 mg/m² IM
dose única; beta nos dias 4 e 7 (queda ≥ 15%)
Ectópica expectante
beta < 1.500
em queda, massa pequena, assintomática, seguimento garantido
1. Abortamento: classificação e conduta
Perda gestacional até 20–22 semanas (ou embrião/feto < 500 g). A maior parte se deve a aneuploidia — explicar isso à paciente é parte da conduta. Classificação e conduta:
Forma
Achados
Conduta
Ameaça
sangramento + cólicas, colo fechado, embrião vivo
expectante e reavaliar; repouso não muda evolução
Inevitável
colo aberto, produto ainda retido, sangramento
esvaziar o útero (misoprostol/AMIU)
Incompleto
restos ovulares com colo aberto
expectante (se estável) por até ~2 semanas, misoprostol 800 mcg vaginal dose única ou AMIU
Retido
embrião/óvulo morto retido, colo fechado, assintomático
expectante monitorada, misoprostol (800 mcg vaginal a cada 3 h até 5 doses) ou AMIU
Infectado
febre, dor uterina, lóquios/corrimento fétidos
antibióticos IV (clindamicina + gentamicina) e esvaziamento uterino SEM demora
Implantação fora do endométrio (tubária na maioria; > 95% em trompa). Fatores de risco: doença inflamatória pélvica prévia (o principal), cirurgia tubária, ectópica prévia, laqueadura (a gestação que falha a laqueadura é frequentemente ectópica), DIU in situ (previne a intrauterina, não a ectópica), tabagismo e idade. Clínica: atraso menstrual + dor pélvica (frequentemente unilateral) + sangramento escuro em pequena quantidade; rotura tubária produz instabilidade, defesa e dor em ombro (irritação diafragmática). Diagnóstico: beta-hCG quantitativo + ultrassonografia transvaginal — a zona discriminatória (~3.500 mUI/mL) é o nível acima do qual a gestação intrauterina deve aparecer; abaixo dela, segue-se a curva (repetir em 48 h: subir ≥ 50% sugere gestação intrauterina viável; platô/queda inadequada sugere ectópica ou abortamento).
Fluxo beta-hCG + USG transvaginal
Beta-hCG positivo e USG sem gestação intrauterina — como conduzir?
▼
Estável, beta < 1.500–2.000 em queda, sem massa/sintomas
Expectante: repetir beta em 48 h e semanalmente até negativar; alta criteriosa com sinais de alarme e retorno garantido.
Estável com critérios de metotrexato
Metotrexato 50 mg/m² IM dose única: hemodinamicamente estável, sem atividade cardíaca embrionária, massa ≤ 3,5 cm, beta idealmente < 5.000, sem contraindicação e com seguimento.
Dosar beta nos dias 4 e 7: queda ≥ 15% entre eles prevê sucesso; depois semanal até negativar; queda insuficiente → repetir dose (protocolo até 3) ou cirurgia.
Instável, dor crescente, beta alto, atividade cardíaca, massa grande
Cirurgia imediata: reanimação em paralelo; salpingectomia (padrão, sobretudo se trompa danificada ou contralateral normal) ou salpingostomia se desejo reprodutivo e trompa preservável.
Salpingostomia: seguir beta semanal — trofoblasto persistente em 5–20%.
Questões do módulo · 09
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioMulher de 28 anos, 6 semanas de amenorreia, dor pélvica leve à direita, estável. Beta-hCG 1.800 mUI/mL; USG-TV sem gestação intrauterina, sem massa anexial, sem líquido livre. Conduta:
2.FundamentalMulher de 32 anos, G3P2A0, 9 semanas, colo fechado, embrião sem atividade cardíaca confirmado, assintomática. Diagnóstico e opções que pode oferecer:
R
Revisão de alta performance
Para a véspera do plantão, da avaliação ou da OSCE: o essencial, os números, os macetes e as pegadinhas que decidem
Resumo essencial por módulo
Módulo
A essência
Maior incidência
01 Admissão em TP
TP verdadeiro = contração regular + colo modificado; ativa ≥ 6 cm; Bishop e CTG FIGO estruturam a admissão.
Bishop; classificação do traçado; quando chamar o obstetra
02 Parto normal
Partograma documenta; manejo ativo do 3º estágio (ocitocina 10 UI) e vigilância da 4ª fase salvam vidas.
Manobras do desprendimento; clampeamento tardio; episiotomia seletiva
03 Distócias e analgesia
Parada = ≥ 6 cm + rotas + 4 h com ocitocina (ou 6 h sem); hiperestímulo: suspender ocitocina primeiro.
Critérios de parada; esquemas de ocitocina; peridural não aumenta cesárea
Toda mulher em idade reprodutiva com dor pélvica aguda ou sangramento recebe beta-hCG — sem exceção, antes de qualquer imagem ou conduta.
Todo traçado patológico: medidas intraútero (decúbito, hidratação, suspender ocitocina) e chamar o obstetra em paralelo — nunca em sequência.
Todo parto tem manejo ativo do 3º estágio: ocitocina 10 UI, tração controlada do cordão, massagem — e vigiar a 4ª fase.
Toda pré-eclâmpsia grave recebe magnésio profilático e anti-hipertensivo IV; o parto vem depois da estabilização (≥ 34 semanas com gravidade).
Toda HPP: chamar ajuda, duas vias, ocitocina já, procurar as 4 Ts e escalar — transfusão maciça aciona-se cedo.
Toda puérpera recebe rastreio de depressão (EPDS) e orientação de contracepção na alta — a alta não termina no prescrito.
Toda histerectomia tem profilaxia antibiótica (≤ 60 min) e plano de TEV conforme risco; histeroscopia e curetagem não têm antibiótico.
Toda massa anexial dolorosa com ovário aumentado é torção até prova contrária — tempo é ovário.
Toda nota de emergência registra hora: da decisão, da droga, do nascimento — o prontuário que não anota não existiu.
Quadro-síntese: diagnóstico pela palavra-chave
Se a questão diz…
Pense em…
Contrações irregulares + colo fechado
Falso trabalho de parto — observar, não induzir
Variabilidade < 5 ms por 45 min com desacelerações tardias
Traçado patológico FIGO — chamar o obstetra
Dilatação 7 cm estagnada há 4 h com rotas e ocitocina
Parada de dilatação — cesárea
Gestante hipertensa que convulsiona
Eclâmpsia — MgSO₄ 4–6 g IV de ataque
Reflexos patelares ausentes sob magnésio
Toxicidade — parar droga, gluconato de cálcio 1 g
Útero flácido com 1.500 mL de perda e hipotensão
HPP grau III de Montenegro — escada da atonia + transfusão
Bradicardia fetal súbita em cicatriz de cesárea
Rotura uterina — cesárea imediata
Ombro anterior impactado após a cabeça
Distócia de ombro — McRoberts + pressão suprapúbica
Puérpera febril com lóquios fétidos
Endometrite — clindamicina + gentamicina
Mama eritematosa febril na 3ª semana pós-parto
Mastite — amamentar e cefalexina
Dor súbita em anexo com ovário de 7 cm e Doppler normal
Torção anexial — laparoscopia imediata
Beta-hCG 4.000 com massa de 3 cm e sem batimento
Ectópica elegível a metotrexato 50 mg/m²
Sangramento abundante em adolescente desde a menarca
AUB anovulatório — rastrear von Willebrand
Prova final — bateria geral
8 questões cobrindo todos os módulos proporcionalmente + gabarito
1.FundamentalSobre o escore de Bishop modificado, qual parâmetro NÃO faz parte da pontuação?
2.IntermediárioGestante de 39 semanas em trabalho de parto espontâneo, CTG de 40 minutos: basal 152 bpm, variabilidade de 3 ms por 45 minutos, desacelerações tardias em mais da metade das contrações. Classificação e conduta:
3.AvançadoParturiente com indução por ocitocina evolui com 7 contrações em 10 minutos, variabilidade preservada e desacelerações variáveis moderadas. Após suspender a ocitocina, mudar de decúbito e hidratar, o hiperestímulo persiste. Conduta:
4.IntermediárioSobre cesárea eletiva e a classificação de Robson, assinale a correta:
5.Prova difícilPuérpera de cesárea, 2 horas pós-parto, sangramento de 2.200 mL estimados, PA 80/45 mmHg, FC 132 bpm, anúria, prostrada; útero atônico que não responde a massagem, ocitocina, metilergometrina e carboprost. Equipe completa acionada. Próximos passos:
6.FundamentalPuérpera de 3 semanas, amamentando exclusivamente, mama esquerda com placa de endurecimento, eritema e febre de 38,4 °C, sem massa flutuante à palpação. Conduta:
7.IntermediárioPuérpera lactante de 30 dias, em consulta de puerpério, pergunta quando pode iniciar contraceptivo hormonal combinado. Resposta correta:
8.AvançadoMulher de 26 anos, 7 semanas de amenorreia, estável, dor leve à direita. Beta-hCG 3.800 mUI/mL; USG-TV: massa anexial direita de 2,8 cm, sem gestação intrauterina, sem líquido livre; sem atividade cardíaca embrionária descrita. Conduta:
diretriz / revisãoLavender T, Hart A, Smyth RMD. Effect of partogram use on outcomes for women in spontaneous labour at term. Cochrane Database Syst Rev. 2013;(7):CD005461.doi.org/10.1002/14651858.CD005461.pub4
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diretriz / revisãoAmerican College of Obstetricians and Gynecologists. ACOG Practice Bulletin No. 209: Obstetric Analgesia and Anesthesia. Obstet Gynecol. 2019;133(3):e208-e225.doi.org/10.1097/AOG.0000000000003132
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diretriz / revisãoMunro MG, Critchley HOD, Fraser IS. The two FIGO systems for normal and abnormal uterine bleeding symptoms and classification of causes of abnormal uterine bleeding in the reproductive years: 2018 revisions. Int J Gynaecol Obstet. 2018;143(3):393-408.doi.org/10.1002/ijgo.12666
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diretriz / revisãoAmerican College of Obstetricians and Gynecologists. ACOG Practice Bulletin No. 191: Tubal Ectopic Pregnancy. Obstet Gynecol. 2018;131(2):e65-e77.doi.org/10.1097/AOG.0000000000002464
notaResumo didático elaborado a partir das diretrizes e revisões acima (verificáveis pelo DOI) e dos artigos publicados desta matéria na Central de Estudos (fonte principal). Nenhuma referência inventada; em caso de divergência entre fontes, vale a versão vigente do protocolo oficial — confira sempre antes da conduta real.
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