Matéria sem artigos publicados na Central de Estudos (sem dossiê): baseada em conhecimento médico canônico e em diretrizes e estudos de referência — OMS Medication Without Harm, RCP NEWS2, Surviving Sepsis Campaign 2021, ESC 2019 (TEP), ATS/IDSA 2019 (pneumonia), AGS Beers 2023, HELP 1999 e MIND-USA 2018 (delirium), I-PASS 2014 (handoff) — sempre com DOI verificado. Resumo de estudo — na conduta real, confira o protocolo da sua instituição.
01
Admissão e anamnese do paciente internado
contrato diagnóstico · anamnese com fontes múltiplas · exame físico de entrada · estratificações de segurança (Caprini, Padua, Braden, Morse) · exames admissionais · primeira prescrição
Padua (clínico)
≥ 4
alto risco de TEP → profilaxia farmacológica
Caprini (cirúrgico)
≥ 5
alto risco → farmacológica + mecânica
Braden (PÚ)
≤ 16
risco de úlcera por pressão (6–23; menor = pior)
Morse (queda)
> 45
alto risco de queda
A admissão é o contrato diagnóstico da internação: em uma frase, quem é o paciente (idade, comorbidades, função basal), por que entrou (motivo definido) e qual o problema a resolver (hipótese principal + alternativas). O interno que estrutura bem a admissão economiza dias de internação — a meta funcional, o risco de complicações e a data prevista de alta se decidem nas primeiras horas.
1. Anamnese do paciente internado
História da doença atual com cronologia estrita: primeiro sintoma, evolução, exames já feitos, tratamentos tentados e por que a internação ocorreu agora.
≥ 4 pontos → enoxaparina 40 mg SC/dia (20 mg se clearance < 30 mL/min); itens de maior peso (3): neoplasia ativa, TEP/TVS prévio, trombofilia conhecida, mobilidade reduzida ≥ 3 dias
Braden (úlcera por pressão)
risco cutâneo
escore 6–23, quanto menor pior; ≤ 16 indica risco em adulto → reposicionamento seriado, superfície de apoio, proteção de proeminências
Morse (queda)
risco de queda
> 45 = alto risco → cama baixa, iluminação, acompanhante, revisar sedativos e anti-hipertensivos vespertinos
4. Exames admissionais e a primeira prescrição
Laboratório mínimo: hemograma, ureia/creatinina com TFGe, eletrólitos, glicemia, PCR; coagulograma quando indicado; tipagem ABO/Rh se risco transfusional.
ECG basal (frequência, intervalos, isquemia — comparação futura) e radiografia de tórax conforme o quadro.
Primeira prescrição estruturada: dieta e via de hidratação; medicação contínua com decisão explícita (manter / suspender / ajustar dose por função renal); sintomáticos com dose e frequência; profilaxias (TEP, úlcera, queda); oxigênio com alvo de saturação escrito; frequência de monitorização de sinais vitais.
Erros de admissão propagam-se pela internação: mais da metade dos pacientes chega com pelo menos uma divergência não intencional entre a medicação de casa e a prescrição hospitalar (53,6% na coorte clássica de Toronto), e a revisão por farmacêutico na admissão reduz esses erros. Prognóstico da boa admissão: menos delirium (estado mental basal registrado), menos TEP (profilaxia prescrita), menos demora na alta (meta funcional definida).
Questões do módulo · 01
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 78 anos, internado por pneumonia. IC crônica compensada (1 ponto), permanece restrito ao leito há 3 dias por fraqueza (3 pontos), infecção aguda ativa (1 ponto), idade ≥ 70 anos (1 ponto). Clearance de creatinina 55 mL/min. Qual a conduta de profilaxia de TEP?
2.FundamentalNa admissão de um idoso à enfermaria, qual informação coletada de rotina é indispensável para que se possa diagnosticar delirium durante a internação?
02
Visita diária, plantão, handoff e escalonamento
roteiro da visita · registro SOAP orientado por problemas · one-liner · I-PASS e SBAR · read-back · NEWS2 e agregados · RRT/MET · bundle da sepse
NEWS2 5–6
médio
revisão urgente + monitorização horária
NEWS2 ≥ 7
alto
avaliação de emergência + considerar UTI
3 em 1 parâmetro
urgente
revisão pela enfermaria em minutos
I-PASS
−23%
erros médicos após implantação (−30% de dano)
A visita diária é um procedimento diagnóstico-terapêutico repetido: seu produto é o plano novo, escrito e priorizado. Ela segue roteiro fixo — eventos da noite, dados objetivos acumulados, exame físico dirigido, decisão — e termina com três perguntas: o que muda hoje, o que permite a alta e o que pode dar errado enquanto durar a noite.
1. Roteiro da visita (o que o interno revisa todos os dias)
Eventos da noite: febre, dor, sonolência, agitação, uso de medicação de resgate, queda.
Sinais vitais em TENDÊNCIA (a curva vale mais que o número isolado) e oxigenoterapia — dá para desmamá-la?
Balanço hídrico, peso e volume clínico; diurese e fezes.
Dor com escala e resposta ao resgate.
Exame físico dirigido ao problema do dia (pulmão, abdome, pele, sensório).
Laboratório novo e PENDÊNCIAS (culturas, exames aguardando resultado — pendência sem dono é erro).
Fármacos: ajuste por função renal, dias de antibiótico, interações, retirada do que não tem mais indicação.
Dispositivos: cada sonda, cateter e dreno precisa de indicação documentada HOJE.
Profilaxias ainda indicadas? Mobilização e dieta liberadas?
Plano do dia + plano de alta (data prevista, o que falta) + metas e preferências do paciente.
2. Registro e apresentação: SOAP e one-liner
O prontuário orientado por problemas organiza a internação em lista numerada (1. pneumonia; 2. diabetes descompensado; 3. delirium...), com avaliação e plano por problema — o formato SOAP: Subjetivo (relato), Objetivo (dados), Avaliação (raciocínio), Plano (ordens). A apresentação verbal abre com o one-liner, que prova domínio do caso em uma frase.
3. Handoff e plantão: onde a internação quebra
I-PASS — componente
Conteúdo
Illness severity (gravidade)
estável / “watcher” (vigiar) / instável
Patient summary
resumo curto: idade, comorbidades, motivo, evolução, estado atual
Action list
tarefas a fazer com prazo (“refazer gasometria às 18 h”)
Situation awareness + contingency
“se X piorar, faça Y” — plano B explícito para cada risco
Synthesis by receiver
quem RECEBE repete o entendimento e as prioridades
4. Escalonamento: NEWS2 e o paciente que piora
Parâmetro
0
1
2
3
Frequência respiratória (rpm)
12–20
9–11
—
≤ 8 ou ≥ 25
SpO2 (escala 1)
≥ 96%
94–95%
92–93%
≤ 91%
Oxigênio suplementar
ar ambiente
—
qualquer O2
—
Temperatura (°C)
36,1–38,0
35,1–36,0 ou 38,1–39,0
—
≤ 35,0 ou ≥ 39,1
PAS (mmHg)
111–219
101–110
91–100
≤ 90 ou ≥ 220
FC (bpm)
51–90
41–50 ou 91–110
111–130
≤ 40 ou ≥ 131
Consciência (ACVPU)
alerta
—
—
qualquer alteração (confusão, voz, dor, não responsivo)
Agregado 0: monitorização de rotina (ao menos 12/12 h).
1–4 (baixo): reavaliar a cada 4–6 h.
3 em qualquer parâmetro único: revisão urgente pela equipe da enfermaria, monitorização de 1/1 h.
5–6 (médio): revisão urgente à beira do leito por equipe com competência em cuidado agudo; monitorização horária; considerar leito de maior suporte.
≥ 7 (alto): avaliação de EMERGÊNCIA, monitorização contínua, considerar transferência para cuidados críticos.
Escala 2 do NEWS2 (alvo de SpO2 88–92%): reservada à insuficiência respiratória hipercápnica crônica (DPOC) documentada.
Escalonamento do paciente que piora
NEWS2 ≥ 5 (ou piora clínica expressiva) na enfermaria — qual a resposta?
▼
NEWS2 5–6 → REVISÃO URGENTE
Avaliação à beira do leito em minutos; monitorização horária.
Exames imediatos: gasometria, lactato, ECG, hemograma, eletrólitos, culturas se febre.
Reavaliar NEWS2 após a conduta; considerar leito intermediário.
NEWS2 ≥ 7 ou instabilidade → EMERGÊNCIA
Avaliação imediata por equipe com competência crítica (RRT/MET); monitorização contínua.
Suspeita de sepse → bundle da primeira hora: lactato; hemoculturas ANTES do antibiótico; antibiótico de largo espectro em até 60 min; cristaloide ≥ 30 mL/kg em até 3 h se hipotensão ou lactato ≥ 4 mmol/L; noradrenalina se MAP < 65 mmHg após fluido.
Score “bom” mas equipe preocupada → ACIONA MESMO ASSIM
O NEWS2 não substitui o juízo clínico: qualquer membro da equipe pode disparar revisão.
Gatilhos clínicos clássicos: via aérea ameaçada, FR < 8 ou > 30, SpO2 < 90%, PAS < 90, queda súbita do sensório, crise convulsiva.
Questões do módulo · 02
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioPaciente com FR 23 rpm, SpO2 94% em ar ambiente, temperatura 38,4 °C, PAS 98 mmHg, FC 96 bpm, alerta e orientado. NEWS2 e conduta:
2.Prova difícilIdosa de 84 anos, dia 2 de pneumonia, fica hipotenso (PAS 84), taquipneico e confusa às 14 h. Ações mais corretas sobre a sepse:
03
Prescrição hospitalar, conciliação e segurança da medicação
elementos da prescrição segura · abreviações proibidas · medicamentos de alta vigilância · velocidades e diluições · conciliação em 5 momentos (OMS) · erro × evento adverso · ajuste renal
Divergência na admissão
53,6%
dos pacientes com ≥ 1 divergência não intencional
RAM como causa
6,5%
das internações hospitalares (coorte de Liverpool)
Polifarmácia
≥ 5
fármacos concomitantes (hiperpolifarmácia ≥ 10)
OMS — 5 momentos
2019
conciliação em cada transição de cuidado
A prescrição hospitalar é ato técnico e verbal ao mesmo tempo: é comunicação entre profissionais que vira dose no paciente. Todo item precisa de nome genérico, concentração, dose, via, frequência, velocidade de infusão/diluição quando aplicável e duração ou condição de suspensão. Erros de medicação são a fonte mais comum de dano evitável em hospitais — é o tema que a OMS elegeu como desafio global (“Medication Without Harm”).
Como escreve errado
Como pode ser lido
Forma correta
“U” para unidades de insulina
“0”, “4”, “cc” — overdose fatal
escrever “unidade” por extenso
Zero à direita: “5,0 mg”
“50 mg”
“5 mg” (nunca zero à direita após vírgula)
Vírgula sem zero: “,5 mg”
“5 mg”
“0,5 mg” (sempre zero à esquerda)
“µg”
“mg” (1000× a dose)
escrever “micrograma”
“SN”/“se necessário” sem dose máxima diária
uso repetido não monitorado
dose do resgate + intervalo mínimo + teto diário
1. Conciliação medicamentosa em 5 momentos (OMS, 2019)
Momento
O que se faz
1. Início da prescrição
coletar a medicação atual com fontes múltiplas (entrevista, brown bag, família, registros da farmácia/APS) e prescrever comparando
2. Antes de dispensar
conferir prescrição contra a lista conciliada e registrar divergências
3. Antes de administrar
checar paciente, fármaco, dose, via e horário; resolver dúvidas ANTES de aplicar
4. Após a administração
registrar e monitorar resposta e reações
5. Monitorização/avaliação
revisar efetividade e eventos adversos, sobretudo em transições (admissão, transferência, alta)
Conciliação é COMPARAR a lista de medicação do paciente com cada nova prescrição e resolver cada divergência como intencional ou não intencional, com o prescritor. A lista inclui fármacos de venda livre e fitoterápicos — o paciente não distingue “remédio” de “suplemento”, e o seu registro não deve distinguir.
2. Erro de medicação × evento adverso: a taxonomia que a prova cobra
Evento
Definição
Erro de medicação sem dano
falha no processo (prescrever, dispensar, administrar) que não atingiu o paciente — o “quase-acidente” (near miss)
Erro com dano
o erro atingiu o paciente e causou lesão
Evento adverso de medicação
dano causado por fármaco, com ou sem erro (inclui RAM previsível e imprevisível)
Evento adverso PREVENÍVEL
o dano decorreu de erro — é o alvo dos sistemas de segurança
Evento sentinela
evento adverso grave, inesperado (ex.: morte por erro de dose de KCl) — notificação imediata e investigação de causa raiz
Cultura de segurança: notificar quase-acidentes é o que melhora o sistema (são muito mais frequentes e ensinam sem custar dano); punir o indivíduo esconde o erro e congela o aprendizado — modelo de “cultura justa” separa erro humano de violação imprudente. Reações adversas a fármacos respondem por cerca de 6,5% das internações hospitalares em coortes prospectivas clássicas, e boa parte é prevenível por ajuste renal e revisão de interações: metformina contraindicada com eGFR < 30 mL/min/1,73 m², glibenclamida a evitar no idoso, DOACs com cortes renais definidos.
Questões do módulo · 03
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalPaciente com K⁺ 2,0 mEq/L e alterações eletrocardiográficas, acesso periférico calibroso funcionando. A reposição de potássio segura é:
2.AvançadoIdoso polimedicado chega à admissão. Qual a sequência correta do processo de conciliação medicamentosa?
04
Raciocínio diagnóstico e tomada de decisão
Sistema 1 × Sistema 2 · heurísticas e vieses cognitivos · probabilidade pré-teste e razões de verossimilhança · escores validados · timeout diagnóstico · erro diagnóstico
Fechamento prematuro
74%
dos erros diagnósticos na série clássica de Clínica Médica
LR+
S/(1−E)
sensibilidade ÷ (1 − especificidade)
LR−
(1−S)/E
(1 − sensibilidade) ÷ especificidade
Regra prática
odds pós = odds pré × LR
o teste move a probabilidade, não a inventa
Viés
O que é
Cena típica na enfermaria
Ancoragem
fixar-se no dado/rótulo inicial
“chegou com rotação de equipe dizendo gastroenterite” — e tudo é lido como gastroenterite
Fechamento prematuro
encerrar o diagnóstico antes de considerar alternativas
achou estertores → “é IC” → sem pensar em TEP no pós-operatório
Disponibilidade
pesar pelo caso recente/memorável
“tive um linfoma este mês” → pedir TC em todo linfoadenomegalia
Momentum diagnóstico
o rótulo ganha força à medida que profissionais o repetem
enfermagem, residente e relatório já dizem “TGI” — ninguém revisa a hipótese original
Confirmação
buscar só o que confirma e ignorar o que refuta
pedir exame que confirma, nunca o teste que derrubaria a hipótese
Efeito de moldura
o enquadramento do colega dita a leitura dos dados
“paciente ansioso” no repasse → taquicardia lida como ansiedade
Negligência da taxa-base
ignorar a frequência real das doenças
perseguir doença rara (zebra) enquanto a comum continua tratável
Retração de zebra
evitar hipótese rara por medo de parecer exagerado
não suspeitar de hipertermia maligna ou feocromocitoma quando a cena pede
Viés de omissão
errar por não agir parece menos grave que errar agindo
“melhor não anticoagular hoje” frente a TEP provável e sangramento teórico
1. Raciocínio probabilístico: números que protegem
Todo exame parte da probabilidade PRÉ-TESTE (a prevalência no contexto do paciente) e é movido pela razão de verossimilhança: LR+ = sensibilidade/(1 − especificidade); LR− = (1 − sensibilidade)/especificidade. A razão de chances pós-teste = razão de chances pré-teste × LR. Regras de bolso: teste muito específico positivo fecha (SpPin); teste muito sensível negativo exclui (SnNout). Dois limiares organizam a decisão: abaixo do limiar de TESTE a doença é improvável demais para investigar; acima do limiar de TRATAMENTO é provável demais para esperar o exame — entre os dois, teste-se. Repetir um teste pouco discriminante não move a probabilidade: soma informação redundante.
2. Proteção estruturada contra o próprio cérebro
Representação do problema: traduzir o caso em qualificadores semânticos (agudo × crônico, focal × sistêmico, doloroso × indolor) — ativa os scripts corretos.
Illness scripts: associar cada hipótese ao seu “classico” (quem, como começa, como evolui) e comparar o paciente com o script — as divergências apontam para alternativas.
Peneira por mecanismo: gerar diferenciais por categorias (vascular, infeccioso, neoplásico, metabólico, tóxico, iatrogênico) em vez de por memória livre.
Timeout diagnóstico (“diagnostic time-out”): antes de fechar, perguntar — “quais outras 2 hipóteses explicam isto? que dado as refutaria? o que eu estaria vendo se estivesse errado?”
Considerar o oposto: forçar a hipótese rival e arquivar por escrito as hipóteses descartadas (permite reabrir).
Escore validado no lugar de intuição: Wells, CURB-65, Padua, NEWS2, CAM, qSOFA — padronizam decisões e anulam viés individual.
Segunda opinião e revisão do caso que piora: mudança de trajetória é gatilho obrigatório de reformular, não de intensificar o plano antigo.
Escore
Decisão que apoia
Corte de ação
NEWS2
intensidade do escalonamento
≥ 5 revisar; ≥ 7 emergência
qSOFA
risco de mau desfecho em suspeita de infecção
≥ 2 de 3 (FR ≥ 22, alteração do sensório, PAS ≤ 100)
Wells (TEP)
probabilidade pré-teste de TEP
≤ 4 improvável (D-dímero) · > 4 provável (imagem)
CURB-65
gravidade da pneumonia
≥ 2 internar; ≥ 3 gravidade alta
Padua / Caprini
profilaxia de TEP
Padua ≥ 4 · Caprini ≥ 5 = alto risco
CAM
diagnóstico de delirium
características 1 + 2 + (3 ou 4)
CIWA-Ar
gravidade da abstinência alcoólica
> 8–10 costuma indicar medicação
Charlson (CCI)
carga de comorbidade e prognóstico
na coorte original, cada ponto ≈ −3 pontos percentuais de sobrevida em 10 anos
Prognóstico do raciocínio ruim: o erro diagnóstico é categoria central de dano evitável em Clínica Médica, e a maioria dos casos analisados não decorre de falta de conhecimento, mas de fechamento prematuro e falha de síntese — conhecimento que existia e não foi acionado. Por isso os instrumentos desta matéria (escores, timeouts, repasse estruturado) são também conteúdo de prova e de OSCE: avaliam o PROCESSO de decisão, não só o rótulo final.
Questões do módulo · 04
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.AvançadoEquipe rotula internação como “gastroenterite”. Na visita, o paciente apresenta dor em abdome difuso piorando, sem diarreia; o residente anota “mantém gastroenterite, reforça hidratação”. Nos 2 dias seguintes, três profissionais repetem o rótulo no prontuário e ninguém reexamina a hipótese. Qual viés descreve melhor o mecanismo principal?
2.Prova difícilTeste com sensibilidade 90% e especificidade 90%, aplicado a paciente com probabilidade pré-teste de 10%. Se o resultado for POSITIVO, a probabilidade pós-teste aproximada é:
05
Dispneia no paciente internado
abordagem ABC · IC descompensada · pneumonia (CURB-65) · TEP (Wells) · DPOC e VNI · pneumotórax · gasometria e biomarcadores · oxigenioterapia com alvo · antibióticos empíricos
Alvo SpO2
92–96%
88–92% na DPOC hipercápnica — alvo escrito
Wells (TEP)
≤ 4
improvável → D-dímero; > 4 → imagem
CURB-65
≥ 2
internar; ≥ 3 = gravidade alta
VNI na DPOC
pH ≤ 7,35
com pCO2 > 45 mmHg — indicação mais forte
Dispneia aguda no internado é emergência de triagem em minutos: via aérea, frequência e esforço respiratório, SpO2, sinais vitais completos e exame do tórax antes de exame de imagem. Quatro diagnósticos respondem pela maioria — IC descompensada, pneumonia, TEP e exacerbação de DPOC — e dois causam morte rápida se a conduta espera: pneumotórax de tensão e TEP massivo.
Dispneia aguda internada — caminho da conduta
Exame do tórax + radiografia — padrão dominante?
▼
Estertores difusos + turgência/ortopneia
IC descompensada: sentar, O2 com alvo, furosemida IV 20–40 mg (usuário crônico: IV ≥ 1–2,5× a dose oral diária total), nitrato IV se PA preservada.
NT-proBNP auxilia na dúvida; reavaliar volume a cada 2–4 h.
Consolidação + febre/infiltrado novo
Pneumonia: CURB-65 decide leito (≥ 2 internar; ≥ 3 gravidade alta); hemoculturas antes do antibiótico nos graves.
Escolher cobertura pela origem (comunidade × hospital) e fatores de risco para P. aeruginosa/MRSA.
Tórax silencioso/hipertimpanismo (± desvio de traqueia)
Pneumotórax de tensão: descompressão com agulha ANTES de qualquer imagem; depois drenagem.
Pneumotórax grande espontâneo: drenagem torácica; pequeno e assintomático: observação/aspiração conforme protocolo.
Exame de tórax normal + hipoxemia/quadro desproporcional
TEP: aplicar Wells; se provável (> 4) → angio-TC e ANTICOAGULAR já se alta probabilidade sem contraindicação.
Se improvável (≤ 4) → D-dímero de alta sensibilidade: negativo exclui; positivo → imagem.
1. Gasometria e biomarcadores: o que muda a conduta
Hipoxemia: PaO2 < 80 mmHg em ar ambiente; calcular gradiente alveolo-arterial quando o padrão não fecha; gravidade ventilatória pela razão PaO2/FiO2 (SDRA: ≤ 300 com PEEP ≥ 5).
NT-proBNP ≥ 300 pg/mL no contexto agudo levanta IC; normal em paciente não tratado torna improvável.
D-dímero de alta sensibilidade: valor NEGATIVO exclui TEP em probabilidade baixa/improvável; valor positivo confirma nada.
Lactato: > 2 mmol/L alerta; ≥ 4 com hipotensão define fase crítica do bundle da sepse.
POCUS à beira do leito: linhas B difusas (congestão), deslizamento pleural ausente (pneumotórax), consolidação, derrame.
Pneumonia (CAP) — cenário
Empírico usual
Ambulatorial, sem comorbidades
amoxicilina 1 g VO 8/8 h × 5–7 dias (ou macrolídeo/doxiciclina)
Internado, não grave (CURB-65 2)
amoxicilina-clavulanato 625 mg VO 8/8 h (ou ceftriaxona 1–2 g IV/dia) + azitromicina 500 mg/dia
Fatores de risco para P. aeruginosa (bronquiectasia, internação/ATB recentes)
piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6 h ou cefepima 2 g IV 8/8 h (+ segundo antipseudomonas conforme protocolo)
Risco de MRSA (prévia colonização, hospitalizações recentes)
adicionar vancomicina ou linezolida
Duração da CAP: mínimo de 5 dias, mantida até estabilidade clínica de pelo menos 48 h (afebril, hemodinâmica, oxigenação estável). Complicações que a prova cobra: atraso do antibiótico aumenta mortalidade da sepse pulmonar; congestão não tratada evolui para lesão renal; VNI tardia (ou oxigênio excessivo no DPOC) termina em intubação. Prognóstico em geral segue a causa — CURB-65 e lactato orientam a discussão de leito.
Questões do módulo · 05
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioMulher, 66 anos, dia 5 de pós-operatório de quadril, imobilizada, inicia dispneia súbita e dor torácica; FC 112 bpm, SpO2 89%, exame pulmonar normal. Nenhuma condição clínica é alternativa mais provável que TEP. Wells: imobilização > 3 dias (1,5) + FC > 100 (1,5) + alternativa menos provável (3) = 6. Conduta:
2.AvançadoHomem, 71 anos, DPOC grave, dia 2 de exacerbação: piora do esforço respiratório, pH 7,28, pCO2 68 mmHg, PaO2 58 mmHg com O2 2 L/min, alerta, hemodinamicamente estável, sem critérios de intubação imediata. Melhor conduta ventilatória:
06
Dor abdominal no paciente internado
cirúrgico × clínico · peritonite e analgesia · mecanismos de dor · obstrução × íleo × pseudo-obstrução (Ogilvie) · pancreatite · isquemia mesentérica · colangite · C. difficile · conduta de espera cirúrgica
Lipase
≥ 3× LSN
fecha pancreatite aguda (imagem não é obrigatória no início)
Dilatação (RX)
delgado > 3 cm
cólon > 6 cm · ceco > 9 cm
Ceco
≥ 10 cm
risco de perfuração → descompressão
Neostigmina (Ogilvie)
2 mg IV
com monitorização cardíaca (bradicardia)
A primeira decisão em toda dor abdominal é cirúrgica ou clínica. Sinais de cirurgia imediata: defesa involuntária/rebote (peritonite), dor de início súbito com desfecho máximo no primeiro minuto (perfuração/rotura), sangramento intra-abdominal com instabilidade. Antes do cirurgião: NPO, hidratação venosa, correção de eletrólitos, antibiótico se sepse de origem abdominal — e ANALGESIA: o opioide dado cedo não mascara o diagnóstico (ensaio clássico BMJ 1992: a precisão diagnóstica se manteve), e dor sem controle impede a reavaliação seriada.
Mecanismo da dor
Característica
Exemplos
Visceral
difusa, mal localizada, em cólica ou peso, com náusea/sudorese; segue derivadas embrionárias (epigástrio = trato anterior; periumblical = intestino médio; hipogástrio = intestino posterior)
bem localizada, intensa, piora com movimento/toque; indica irritação peritoneal
peritonite, perfuração, apendicite avançada
Referida
dor percebida em dermátomo distante da origem
ombro esquerdo em sangramento/ruptura esplênica; ombro direito em doença biliar/diafragma
1. Obstrução × íleo × pseudo-obstrução colônica
Quadro
Pista clínica
Conduta
Obstrução de delgado
dor cólica + vômito + distensão; RX/TC: alças > 3 cm com níveis hidroaéreos em degrau; aderências/hérnia no histórico
NPO, sonda nasogástrica em descompressão, SF; dor contínua, febre, leucocitose em ascensão ou acidose = estrangulamento → cirurgia
Obstrução de cólon
distensão + parada de gases/fezes, vômito tardio; causa principal no adulto: neoplasia (± volvo em idoso)
imagem (TC) para localizar; descompressão/cirurgia conforme causa e estabilidade
Íleo paralítico
abdome distendido e SILENCIOSO, sem pontos de dor; causas: pós-operatório, hipocalemia, opioides, hipotireoidismo, peritonite, fármacos
corrigir a causa (K⁺!, retirar opioide), NPO, mobilização; não opera
Pseudo-obstrução colônica (Ogilvie)
cólon dilatado sem obstáculo mecânico, em idoso doente/pós-operado; risco de perfuração se ceco ≥ 10 cm
corrigir metabólico, suspender anticolinérgicos/opioides; neostigmina 2 mg IV com monitorização (descompressão em 91% × 14% no RCT original); falha ou ceco crítico → descompressão colonoscópica/cirurgia
2. Pancreatite e causas clínicas de dor no internado
Pancreatite aguda: dor epigástrica em faixa + lipase ≥ 3× o limite superior fecha o diagnóstico (imagem inicial não é obrigatória). Etiologias principais: biliar e alcoólica (e hipertrigliceridemia em valores muito elevados). Conduta: hidratação venosa precoce agressiva, analgesia, REALIMENTAÇÃO PRECOCE conforme tolerância (jejum prolongado não é mais o padrão), TC com contraste reservada para suspeita de complicações (idealmente após 72 h para definir necrose) e SEM antibioticoprofilaxia — antibiótico só em sepse documentada ou infecção confirmada. Suspeita de componente biliar com colangite → drenagem biliar urgente.
Quadro no internado
Próximo passo
Dor epigástrica em faixa + lipase ≥ 3× LSN
pancreatite: hidratação precoce, analgesia, realimentação precoce; TC se complicações
Febrícula + dor em hipocôndrio direito em paciente crítico sem cálculos
Diarreia nosocomial (≥ 3 evacuações não formadas) + antibiótico nos últimos 90 dias
C. difficile: teste fecal; suspender o antibiótico precipitante; vancomicina oral 125 mg 6/6 h × 10 dias ou fidaxomicina (metronidazol só com acesso limitado)
Dor desproporcional + lactato alto + acidose em idoso com FA/aterosclerose
Complicações e prognóstico: perfuração e sepse abdominal exigem controle de foco (drenagem/cirurgia) — antibiótico sem drenagem não controla colangite nem abscesso; obstrução estrangulada e isquemia mesentérica têm mortalidade alta ligada ao TEMPO até a descompressão; pancreatite grave morre de sepse da necrose e de falência de órgãos nas primeiras 1–2 semanas. No internado crônico, também vale lembrar a dor abdominal como apresentação atípica de infarto inferior, pneumonia basal e herpes zóster pré-eruptivo.
Questões do módulo · 06
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 44 anos, dor epigástrica em faixa há 12 h, vomitando; bebedor habitual. Lipase 5× o limite superior. Qual a conduta inicial correta?
2.AvançadoIdosa, 82 anos, dia 6 de pós-operatório de fratura de fêmur, em opioide: distensão abdominal, RX com cólon difusamente dilatado (ceco 11 cm), sem obstáculo mecânico na TC, estável, K⁺ 3,2. Melhor conduta:
07
Delirium e alteração do sensório
definição e subtipos · CAM (4 características) · precipitantes e investigação dirigida · manejo não farmacológico · antipsicótico em dose mínima · abstinência alcoólica (CIWA-Ar) · prevenção (HELP) · prognóstico
CAM
1 + 2 + (3 ou 4)
fecha delirium; sens 94–100%, esp 90–95% (validação original)
Frequência
~1/3
dos idosos em enfermaria clínica (amplitudes variam; mais na UTI)
Programa HELP
RR 0,60
redução de ~40% no risco de delirium (multicomponente)
Haloperidol (idoso)
0,25–1 mg
dose mínima, só agitação grave com risco, revisar em ≤ 24 h
Subtipo
Apresentação
Risco principal
Hiperativo
agitação, inquietação, alucinações, retirada de sondas
reconhecido fácil; trauma, exaustão da equipe
Hipoativo
letargia, apatia, fala lenta, “colaborador demais”
o mais frequente e o mais não diagnosticado; pior prognóstico
Misto
alterna os dois padrões
a flutuação é a regra — avaliar a cada turno
1. Diagnóstico: CAM em 4 características
1. Início agudo e curso flutuante (mudança do basal, com períodos de lucidez intercalados).
2. Inatenção (dificuldade de focar, manter e alternar atenção — pedir meses do ano ao contrário).
foco motor, trauma craniano, anticoagulação → TC de crânio
Investigação dirigida (não bateria cega): glicemia, eletrólitos com cálcio, função renal e hepática, hemograma, urina tipo I + urocultura, radiografia de tórax e ECG; acrescente conforme a cena — gasometria, TSH, B12, culturas, TC de crânio (foco neurológico, trauma, anticoagulação) e punção lombar se suspeita de meningite.
Prognóstico: delirium associa-se a maior mortalidade, internação prolongada, institucionalização e risco aumentado de demência incidente; parte dos pacientes não recupera integralmente a cognição. Prevenção é o melhor tratamento: o modelo multicomponente (programa HELP — orientação, sono, mobilização, visão/audição, hidratação) reduziu o risco de delirium em cerca de 40% no ensaio original — prescrição que vale nota na enfermaria e na prova.
Questões do módulo · 07
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalIdosa, 80 anos, dia 4 de internação por ITU: ontem estava lúcida, hoje não consegue focar na conversa, diz frases sem sentido e às vezes parece sonolenta. Qual a conduta inicial?
2.Prova difícilHomem, 55 anos, etilista crônico, internado por pancreatite; no 2º dia fica taquicárdico, sudoréico, tremuloso e agitado, com alucinações visuais. CIWA-Ar 14. Qual a escolha correta?
08
Pluripatologia, polifarmácia e iatrogenia
multimorbidade e priorização · cascata de prescrição · polifarmácia (≥ 5) e hiperpolifarmácia (≥ 10) · deprescrição estruturada · critérios de Beers · interações clássicas · imobilismo e prescrição de movimento
Multimorbidade
≈ 23%
dos adultos; sobe para ~2/3 na velhice (67% em ≥ 85 anos, coorte escocesa)
Polifarmácia
≥ 5
fármacos concomitantes; ≥ 10 = hiperpolifarmácia
Triple whammy
AINE + IECA/BRA + diurético
combinação de alto risco para lesão renal aguda
Deprescrição
1 por vez
retirada sequencial, com taper quando indicado e monitorização
Situação clássica
Erro comum
Conduta com evidência
DPOC + IC com FE reduzida
suspender betabloqueador “por causa do pulmão”
manter betabloqueador CARDIOSELETIVO (bisoprolol, carvedilol, metoprolol succinato) — DPOC não é contraindicação
Idoso em diurético + IECA/BRA que iniciou AINE para artrose e a creatinina subiu
“ajustar doses dos três”
retirar o AINE (triple whammy: AINE + IECA/BRA + diurético = alto risco de LRA)
FA anticoagulada + queda recorrente
suspender anticoagulação por medo de queda
na maioria, anticoagula-se: o risco embólico supera o de trauma da queda na FA — individualizar com escore e contexto
Diabético frágil com HbA1c 6,2% em sulfonilureia
manter meta < 7% “por diretriz”
metas lenientes no frágil e retirada de sulfonilureia de meia-vida longa (hipoglicemia é a queda que se explica depois)
Paciente em fim de vida com estatinas, bisfosfonatos e antivirais múltiplos
manter tudo “até o fim”
revisar cada fármaco pelo objetivo de conforto — prevenção primária cede lugar a sintoma
1. Cascata de prescrição: o efeito adverso virou doença
Mecanismo: fármaco A causa sintoma → sintoma é lido como nova doença → prescreve-se o fármaco B para “tratar” — e a lista cresce sem fim.
Antídoto na enfermaria: diante de SINTOMA NOVO no paciente com lista longa, a primeira pergunta é “que fármaco entrou/mudou nos últimos dias?” — antes de exames e antes de novo fármaco.
2. Deprescrição: retirar também é prescrever
Deprescrição é o processo estruturado de reduzir ou parar fármacos cujos riscos superam os benefícios no contexto atual do paciente: (1) esclarecer todos os planos de cuidado; (2) identificar fármacos potencialmente inapropriados; (3) priorizar qual parar primeiro; (4) planejar a retirada — um fármaco por vez, com taper quando a farmacologia exige (benzodiazepínico, corticoide, betabloqueador crônico); (5) apoiar, monitorar e documentar o resultado. Ferramentas validadas: critérios de Beers (AGS, atualização 2023) e critérios STOPP/START.
Interações que a prova explora: digoxina + amiodarona (reduzir dose de digoxina ~50% e monitorar); varfarina + AINE ou antibiótico novo (INR em ascensão); estatina + claritromicina/eritromicina (miopatia/rabdomiólise); IECA/BRA + espironolactona + suplemento de potássio (hipercalemia); dois fármacos com carga anticolinérgica somados. Ajuste renal obrigatório por TFGe (metformina contraindicada com eGFR < 30; DOACs com cortes definidos; glibenclamida evitada no idoso).
Iatrogenia do leito: o repouso absoluto perde força muscular rapidamente no idoso e produz atelectasia, trombose, úlcera por pressão e delirium — complicações que a internação “prescreve” quando ninguém ordena o contrário. A conduta é prescrever movimento: cadeira três vezes ao dia, deambulação supervisionada, retirada precoce de sondas e cateteres, reabilitação desde o dia 1. Prognóstico da internação no multimorbido depende menos do número de diagnósticos e mais da função preservada: quem sai caminhando sai para casa.
Questões do módulo · 08
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem, 79 anos, em losartana + furosemida para IC e HAS, inicia diclofenaco por dor de artrose. Em 5 dias, creatinina sobe de 1,1 para 2,3 mg/dL, sem sinais de obstrução ou infecção. Qual a conduta mais correta?
2.AvançadoIdosa, 84 anos, há 10 dias em metoclopramida por náusea, desenvolve rigidez, bradicinesia e expressão facial reduzida; a equipe propõe diagnósticos de doença de Parkinson e iniciar levodopa. Qual a análise correta?
09
Alta hospitalar e transição de cuidado
alta planejada desde o dia 1 · critérios clínicos de alta · sumário de alta e conciliação final · teach-back · consulta de 7 dias · reinternação em 30 dias · responsabilidade pela continuidade
Reinternação 30 dias
~1 em 5
19,6% das altas na coorte clássica de Medicare
Consulta pós-alta
≤ 7 dias
janela associada a menos reinternação
Ligação de retorno
48–72 h
checar medicação, sintomas e entendimento
Teach-back
sempre
o paciente repete o plano com as próprias palavras
A alta não é o fim da internação — é uma intervenção médica com protocolo próprio, que começa no dia 1 (data prevista de alta e critérios definidos na admissão). Alta mal executada devolve o paciente: reinternação em 30 dias atinge cerca de 1 em cada 5 altas em coortes clássicas, concentrada nos primeiros dias, e a maior parte dos eventos decorre de erro de medicação, pendência não resolvida ou entendimento falho do plano.
1. Critérios clínicos de alta
Estabilidade: hemodinâmica, respiratória (O2 desnecessário ou estável com alvo) e térmica em tendência.
Dor e náusea controladas por VIA ORAL; via de administração adequada ao domicílio.
Tolerando dieta e medicação oral; intestino e bexiga funcionando (ou plano para ambos).
Meta funcional atingida ou plano de reabilitação definido (cama-cadeira-walk em domícilio seguro).
Exames pendentes com PLANO escrito (quem vê o resultado, quando, e o que fazer se alterar).
Medicação final pronta, conciliada e entendida; receitas emitidas.
Domicílio seguro: cuidador, transporte, recursos; alergias e sinais de alerta comunicados.
Sumário de alta — seção
O que não pode faltar
Motivo e diagnóstico
por que internou e o que se concluiu
Evolução
eventos importantes, complicações, procedimentos
MEDICAÇÃO
novas, ALTERADAS e SUSPENDIDAS — cada mudança com justificativa (é a seção que mais evita erro)
consultas com data (≤ 7 dias em idoso/frágil/IC) e especialidade de destino
Sinais de alerta
3 sinais específicos + o que fazer + telefone de contato
Responsabilidade
quem assume o cuidado (UBS/APS/especialista) e o que cada um fará
Reinternação em 30 dias: preditores clássicos — idade avançada, polifarmácia, IC, delirium durante a internação, suporte social insuficiente, alta em horário atípico (noite/fim de semana) e encaminhamento sem agendamento. As intervenções que mudam o desfecho são as já descritas: conciliação rigorosa, consulta em até 7 dias, ligação em 48–72 h, educação com teach-back e cuidado primário avisado. Prognóstico: paciente que sai com plano entendido, medicação correta e consulta marcada chega ao seguimento — o que fecha o ciclo que começou na admissão desta matéria.
Questões do módulo · 09
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalQual item do sumário de alta é mais frequentemente omitido e mais associado a erro de medicação pós-alta?
2.IntermediárioIdosa, 86 anos, usa clonazepam 1 mg/dia há anos. Na internação por pneumonia, o fármaco não foi mantido. Ela evolui agitada e com tremor no 3º dia; amanhã receberá alta. Qual a conduta correta?
R
Revisão de alta performance
Para a véspera: o essencial, os números, os macetes e as pegadinhas que decidem a prova — e a OSCE
Resumo essencial por módulo
Módulo
A essência
Maior incidência
01 Admissão e anamnese
Contrato diagnóstico no dia 1: fontes múltiplas de história, estado mental basal, estratificações (Padua/Caprini/Braden/Morse) e profilaxias prescritas.
Padua ≥ 4 e Caprini ≥ 5 → profilaxia de TEP; Braden ≤ 16; oxigênio com alvo escrito
02 Visita, handoff e escalonamento
Visita = roteiro fixo + plano novo; I-PASS para repasse; NEWS2 decide a intensidade da resposta, não o diagnóstico.
NEWS2: 3 em 1 parâmetro = urgente · 5–6 = revisão + 1/1 h · ≥ 7 = emergência
03 Prescrição e conciliação
Prescrever com todos os elementos; alta vigilância com dupla checagem; conciliar em 5 momentos — o que SUMIU é o erro clássico.
KCl ≤ 10 mEq/h periférico; divergência na admissão em 53,6%; RAM = 6,5% das internações
04 Raciocínio diagnóstico
Sistema 1 calibrado + Sistema 2 disponível; fechamento prematuro causa 74% dos erros; escore vence intuição.
~19,6% das altas (coorte de Medicare) · consulta ≤ 7 dias · ligação 48–72 h
Macetes que salvam
Macete
Regra
NEWS2 ao quadrado
quem pontua 3 num parâmetro já é urgente; 5–6 revisa com monitorização horária; 7 ou mais é emergência — “passou de 7, corre”.
Brown bag + o que sumiu
concordância não é conciliação: além de conferir o que entrou, caçar o que SUMIU (anticoagulante, antiepilético, levodopa, insulina).
Sintoma novo = fármaco novo
que fármaco entrou/mudou nos últimos 7 dias? — a primeira pergunta do idoso polimedicado.
SpPin e SnNout
teste muito ESPECÍFICO positivo fecha o diagnóstico; teste muito SENSÍVEL negativo exclui.
Triple whammy
AINE + IECA/BRA + diurético = LRA: quem entra primeiro na receita é o primeiro a sair.
CAM 1+2
começo agudo + inatenção obrigatórios; desorganização OU consciência alterada fecham — “agudo + não presta atenção”.
O2 com alvo
prescrição de oxigênio sem número de saturação é prescrição incompleta: 92–96 (88–92 no DPOC).
As pegadinhas mais cobradas
Paciente em oxigênio suplementar pontua 2 no NEWS2 mesmo com SpO2 normal — some antes de calcular.
NEWS2 alto não é diagnóstico de sepse: orienta a resposta (quem revisa, quando), a causa você procura.
Profilaxia de TEP é decisão do dia 1: Padua ≥ 4 (clínico) e Caprini ≥ 5 (cirúrgico); AAS não é profilaxia de TEP.
Enoxaparina 20 mg é por função renal (CrCl < 30), não por idade.
Estado mental basal da admissão é o que permite diagnosticar delirium depois — sem ele, o hipoativo passa.
Benzodiazepínico piora o delirium comum — a única exceção de rotina é a abstinência alcoólica/sedativa (CIWA-Ar).
Antipsicótico não encurta delirium (MIND-USA): dose mínima, agitação perigosa, revisão em ≤ 24 h.
Analgesia não mascara o abdome agudo (BMJ 1992) — dor sem controle impede a reavaliação seriada.
Íleo paralítico é silencioso e se trata da causa (K⁺, opioide); obstrução mecânica é cólica com ruído aumentado.
D-dímero só exclui TEP em probabilidade baixa/improvável; no provável (> 4) vai direto à imagem e anticoagula se alta probabilidade sem contraindicação.
Hiperoxia lesiona: O2 sem alvo escrito (92–96; 88–92 no DPOC) é prescrição incompleta — e VNI é a resposta ao pH ≤ 7,35 do DPOC.
Suspensão de betabloqueador cardioseletivo no DPOC+IC é erro: DPOC não contraindica betabloqueador.
Dupla checagem só vale se INDEPENDENTE — conferir por cima do ombro não é checagem.
Sumário de alta sem a lista de medicações SUSPENDIDAS (com justificativa) é sumário incompleto — omissão é o erro da transição.
Informações que não podem ser esquecidas
Toda admissão estratifica: TEP (Padua/Caprini), pele (Braden), queda (Morse) e anota o estado mental basal — as profilaxias são prescritas no dia 1.
Toda piora passa pelo NEWS2 — e “equipe preocupada” aciona mesmo com score baixo; instável vai para leito adequado, nunca para casa.
Toda prescrição de alta vigilância (insulina, opioide, anticoagulante, KCl, metotrexato) recebe dupla checagem independente.
Toda transição (admissão, transferência, alta) repete a conciliação: o que entrou, o que mudou, o que PAROU — com justificativa.
Todo idoso com sintoma novo recebe a pergunta “que fármaco entrou/mudou nos últimos 7 dias?” antes de exames.
Todo delirium caça precipitante (fármaco, infecção, retenção, metabólico) e trata com pacote não farmacológico — o fármaco é exceção calibrada.
Toda dor abdominal define primeiro cirúrgico × clínico; peritonite chama cirurgião com NPO + hidratação + antibiótico se sepse.
Toda alta tem data prevista desde o dia 1, teach-back, consulta em ≤ 7 dias e ligação em 48–72 h.
Quadro-síntese: diagnóstico pela palavra-chave
Se a questão diz…
Pense em…
Mobilidade reduzida ≥ 3 dias + neoplasia + infecção em paciente clínico
Padua ≥ 4 → enoxaparina 40 mg SC/dia
“Confuso de manhã, lúcido à tarde” em idoso internado
delirium (CAM: início agudo + flutuação + inatenção)
FR 26 + SpO2 93% em O2 + PAS 96 + confusão
NEWS2 alto → resposta de emergência (≥ 7)
Dispneia súbita pós-operatória com exame pulmonar normal
TEP → Wells → anticoagular se provável
Dor abdominal desproporcional ao exame em idoso com FA
isquemia mesentérica → lactato + angio-TC
Cólon dilatado sem obstáculo mecânico, ceco ≥ 10 cm, pós-operatório
Ogilvie → neostigmina 2 mg IV monitorizada
Creatinina que sobe após AINE em diurético + IECA/BRA
triple whammy → suspender o AINE
Rigidez e bradicinesia após metoclopramida
parkinsonismo iatrogênico — cascata de prescrição
“Tranquilo, dormindo demais, colaborador” no 4º dia de internação
delirium hipoativo — o mais perdido
Fármaco de casa que “sumiu” na prescrição da enfermaria
divergência não intencional — conciliação obrigatória
Prova final — bateria geral
8 questões cobrindo todos os módulos proporcionalmente + gabarito
1.IntermediárioMulher, 74 anos, internada por pneumonia, permanece restrita ao leito há 3 dias (3 pontos), com infecção aguda ativa (1), IC crônica (1) e idade ≥ 70 (1). Clearance de creatinina 28 mL/min. Profilaxia de TEP:
2.AvançadoPaciente da enfermaria apresenta: FR 24 rpm, SpO2 92% com O2 suplementar, temperatura 37,8 °C, PAS 94 mmHg, FC 118 bpm, alerta. NEWS2 e conduta:
3.FundamentalSobre medicamentos de alta vigilância e segurança de administração, qual afirmativa está CORRETA?
4.Prova difícilPaciente internado com “pancreatite” melhora da dor, mas desenvolve diarreia persistente e queda do estado geral. A equipe mantém o rótulo inicial, aumenta analgesia e pede TC de controle. No repasse, um interno nota fezes com odor fétido e antibiótico amplo em uso há 8 dias. Qual o erro cognitivo-prático predominante e a conduta?
5.IntermediárioHomem, 58 anos, dispneia súbita, FC 108 bpm, SpO2 90%, dia 4 de imobilização por lombalgia; nenhuma alternativa diagnóstica é mais provável que TEP; hemodinamicamente estável. Wells = 6. Conduta:
6.Prova difícilIdoso, 80 anos, dia 10 de internação, distensão abdominal progressiva; RX/TC com cólon difusamente dilatado, ceco 12 cm, sem obstáculo mecânico; estável, K⁺ corrigido, opioides suspensos. Conduta de escolha:
7.IntermediárioIdosa, 82 anos, dia 3 de internação por ITU, agitada, retirando sonda vesical, com CAM positivo. Já iniciaram medidas não farmacológicas e trata-se a infecção; a família não consegue conter a agitação e há risco de lesão. Conduta farmacológica correta:
8.IntermediárioNa revisão final antes da alta de paciente idoso, qual prática reduz mais diretamente o erro de medicação pós-alta?
Gabarito rápido
1-C · 2-B · 3-C · 4-B · 5-B · 6-B · 7-A · 8-B
Referencial teórico
24 fontes reais · DOI verificado
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notaResumo didático elaborado a partir das diretrizes e revisões acima (verificáveis pelo DOI) e dos artigos publicados desta matéria na Central de Estudos (fonte principal). Nenhuma referência inventada; em caso de divergência entre fontes, vale a versão vigente do protocolo oficial — confira sempre antes da conduta real.
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