Baseado nos artigos publicados da matéria Fisiologia da Central de Estudos (fonte principal) e em revisões de fisiologia com DOI verificado — Cowley (Physiol Rev 1992), Holst (Physiol Rev 2007), McEwen (Physiol Rev 2007), Wagner (Eur Respir J 2015), Brent (J Clin Invest 2012), Furie (NEJM 2008), Berend (NEJM 2014), entre outras — com Guyton & Hall 14ª ed. como apoio de leitura. Resumo de estudo: valores de referência variam entre laboratórios; confira os do seu serviço na prática.
01
Neurofisiologia: potenciais, sinapses, reflexos e sentidos
potencial de repouso · potencial de ação e condução · sinapses e neurotransmissores · arco reflexo, fuso e órgão tendinoso · transdução sensorial: visão, audição, olfato e gustação
Repouso
≈ −70 mV
neurônio típico, dominado pelo K⁺
Limiar
≈ −55 mV
abertura em cascata dos canais de Na⁺
Bomba Na⁺/K⁺
3 : 2
3 Na⁺ para fora, 2 K⁺ para dentro — eletrogênica
Fibra C
0,5–2 m/s
dor lenta, sem mielina
1. Potencial de repouso: por dentro é negativo
O potencial de repouso (≈ −70 mV) existe porque a membrana em repouso é muito mais permeável ao K⁺ do que ao Na⁺: o K⁺ sai por canais de vazamento seguindo seu gradiente, deixando atrás de si ânions fixos (proteínas, fosfatos). O potencial de Nernst do K⁺ (≈ −90 mV) é o piso; a pequena entrada de vazamento de Na⁺ puxa o valor final para ≈ −70 mV. A bomba Na⁺/K⁺-ATPase mantém os gradientes (3 Na⁺ para fora por 2 K⁺ para dentro, por ATP), garantindo também uma pequena contribuição eletrogênica direta de alguns mV.
2. Potencial de ação: tudo ou nada com assinatura iônica
Despolarização até o limiar (≈ −55 mV) abre canais de Na⁺ dependentes de voltagem: entrada rápida de Na⁺ (despolarização), inativação desses canais e saída de K⁺ (repolarização) e excesso breve de saída de K⁺ (hiperpolarização pós-potencial). Tudo ou nada: atingido o limiar, a amplitude é fixa; a intensidade do estímulo é codificada pela FREQUÊNCIA de disparos (codificação em frequência).
Fase
Íon/movimento
Correlato
Despolarização
entrada de Na⁺ (canais rápidos)
alvo dos anestésicos locais e da tetrodotoxina
Platô (cardíaco)
entrada de Ca²⁺ pelos canais L
base da contração e dos bloqueadores de cálcio
Repolarização
saída de K⁺
a hipercalemia apicula a onda T; a hipocalemia a achata (ondas U)
Hiperpolarização
saída continuada de K⁺
período refratário relativo
Condução: nos axônios mielinizados o potencial salta de nó de Ranvier em nó de Ranvier (condução saltatória), economizando energia e ganhando velocidade. A velocidade cresce com o diâmetro e com a mielina: fibras Aα (motora e propriocepção) 70–120 m/s; Aδ (dor rápida, térmica) 5–30 m/s; fibras C (dor lenta, pós-ganglionares autonômicas) 0,5–2 m/s, sem mielina.
3. Sinapses: químicas em quase tudo
Sinapse química: vesículas de neurotransmissor fundem-se à membrana por influxo de Ca²⁺, o transmissor atravessa a fenda (≈ 20–40 nm) e ativa receptores pós-sinápticos; há atraso sináptico de ≈ 0,5 ms e possibilidade de modulação.
Principais transmissores: glutamato (excitatório principal do SNC), GABA (inibitório principal do SNC), glicina (inibitória da medula), acetilcolina (placa motora: receptores nicotínicos; pós-ganglionares autonômicos e efetores parassimpáticos: muscarínicos), noradrenalina, dopamina, serotonina.
Receptores ionotrópicos (canal iônico, resposta em milissegundos: nicotínico, AMPA, GABA-A) × metabotrópicos (proteína G, mais lentos e moduladores: muscarínicos, adrenérgicos, GABA-B).
4. Arco reflexo, fuso muscular e órgão tendinoso
Arco reflexo: receptor sensorial → neurônio aferente (raiz dorsal) → centro integrador (medula ou tronco) → neurônio eferente (raiz ventral) → efetor. O reflexo patelar é MONOSSINÁPTICO (fibra Ia direto no motoneurônio α, níveis L2–L4); o reflexo de retirada é POLISSINÁPTICO e vem com a inversão cruzada (extensão do lado oposto).
Estrutura
O que detecta
Resposta reflexa
Fuso neuromuscular (fibras Ia e II)
ESTIRAMENTO do músculo
contração do mesmo músculo (reflexo miotático); o neurônio γ mantém o fuso sensível durante a contração
Órgão tendinoso de Golgi (fibras Ib)
TENSÃO/força no tendão
inibição do próprio músculo (autênibição inversa) — proteção contra sobrecarga
5. Sentidos: transdução é potencial graduado, não potencial de ação
Todo receptor converte a energia do estímulo em potencial receptor GRADUADO (amplitude proporcional ao estímulo); a adaptação é rápida (fásica: pele, olfato) ou lenta (tônica: nociceptores, proprioceptores, barorreatores).
VISÃO: a luz HIPERPOLARIZA o fotorreceptor — 11-cis-retinal → all-trans ativa transducina → fosfodiesterase degrada cGMP → canais de cátions FECHAM → hiperpolarização → MENOS glutamato sobre a célula bipolar. Bastonetes (≈ 120 milhões, visão de baixa luminosidade, vitamina A) e cones (≈ 6 milhões, fóvea, cor). Deficiência de vitamina A: cegueira noturna.
AUDIÇÃO: 20 a 20.000 Hz; a cóclea codifica frequência por POSIÇÃO (base = agudos, ápice = graves — teoria do lugar); as células ciliares transduzem a deflexão dos estereocílios em potencial receptor; via nervo vestibulococlear até o córtex temporal.
OLFATO: nervo I, único sentido cuja primeira sinapse prescinde de relevo talâmico (bulbo olfatório → sistema límbico direto) — por isso o cheiro evoca memória e emoção; seus receptores se renovam ao longo da vida.
GUSTAÇÃO: 5 qualidades básicas (doce, salgado, ácido, amargo, umami); amargo e ácido são guardas químicas; papilas circunvaladas (VII/IX) na parte posterior e fungiformes na anterior.
6. Correlação clínica: cada mecanismo vira doença ou fármaco
Mecanismo alterado
Quadro
Canais de Na⁺ bloqueados (anestésico local)
bloqueio use-dependent: fibras pequenas em descarga (dor) são atingidas primeiro; propriocepção e motricidade, por último
Desmielinização (esclerose múltipla)
condução saltatória perdida: velocidade cai, dispersão e bloqueio de condução
Toxina do tétano (transporte retrógrado; inibe liberação de glicina nos interneurônios de Renshaw)
Toxina botulínica (cliva SNARE; impede exocitose de ACh)
paralisia flácida descendente, midríase, sem comprometimento sensorial
Anticorpo contra receptor nicotínico (miastenia grave)
fraqueza que piora com o uso e melhora com anticolinesterásico
Questões do módulo · 01
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalApós infiltrar anestésico local para uma biópsia, o paciente perde a sensibilidade dolorosa, mas continua referindo o toque grosseiro. O mecanismo que explica a seletividade é:
2.AvançadoSobre a fototransdução nos bastonetes, o evento imediatamente posterior à absorção de um fóton é:
02
Sistema nervoso autônomo e termorregulação
anatomia simpática × parassimpática · receptores e respostas por órgão · barorreflexo e quimiorreflexo · disautonomias · hipotálamo térmico · febre × hipertermia
hipotálamo pré-óptico; variação circadiana ≈ 0,5 °C
1. Organização: dois sistemas com dupla inervação
A maioria dos órgãos recebe inervação simpática E parassimpática com efeitos opostos sobre a mesma variável (bradicardia × taquicardia, broncoconstrição × broncodilatação). As fibras pré-ganglionares de AMBOS os sistemas liberam acetilcolina sobre receptores NICOTÍNICOS ganglionares; a fibra pós-ganglionar simpática libera noradrenalina (exceção clássica: glândulas sudoríparas, colinérgicas muscarínicas) e a parassimpática libera acetilcolina sobre receptores muscarínicos.
Receptor
Onde
Efeito principal
Fármaco que explora
α1
músculo liso vascular, dilatador da íris, esfíncter vesical
2. Barorreflexo: o controle de segundos da pressão
Pressorreceptores no seio carotídeo (nervo de Hering, IX) e no arco aórtico (X) detectam a DISTENSÃO da parede e projetam no trato solitário (NTS), que modula o centro vasomotor bulbar. A queda da PA (hemorragia, ortostatismo) reduz a descarga → o NTS libera o freio simpático → taquicardia, vasoconstrição, venoconstrição e liberação de adrenalina. Quimiorreceptores periféricos (corpos carotídeos, PaO₂) e centrais (bulbo, H⁺/CO₂) completam o arco.
3. Disautonomia: quando o sistema falha
Hipotensão ortostática: queda ≥ 20 mmHg de PAS (ou ≥ 10 de PAD) em 3 min de pé, sem taquicardia compensatória adequada — diabetes (neuropatia autonômica), Parkinson, hipovolemia, fármacos (alfa-bloqueadores, antidepressivos tricíclicos).
Teste de inclinação (tilt test) e variabilidade da FC confirmam a disfunção autonômica (Goldstein, Ann Intern Med 2002).
Neuropatia autonômica diabética: hiper-hidrose do torso, gastroparesia, disfunção erétil, hipoglicemias despercebidas (perda da resposta adrenérgica).
4. Termorregulação: o hipotálamo é o termostato
O hipotálamo pré-óptico integra aferências térmicas da pele e do sangue e comanda os efetores para manter a temperatura central ≈ 37 °C (ritmo circadiano de ≈ 0,5 °C, mínima matinal). Em repouso termoneutro, a maior perda é por radiação (≈ 60 %), seguida da evaporação (≈ 20–25 %). Cada mL de suor evaporado dissipa ≈ 0,58 kcal — é o único mecanismo que funciona quando a ambiente supera a corpórea.
Estímulo
Respostas integradas
FRIO
vasoconstrição cutânea (α1) · tremor (gênese no hipotálamo posterior) · piloereição · neonato: termogênese sem tremor na gordura parda (UCP1/termogenina desprega a fosforilação oxidativa)
CALOR
vasodilatação cutânea por retirada do tônus simpático · sudorese colinérgica · respostas comportamentais
Temperatura central > 40 °C: qual a fisiologia quebrada?
O set point está elevado (febre) ou normal (hipertermia)?
Resfriamento físico imediato (evaporação, gelo, manta) e reduzir a produção térmica.
Antitérmico é inútil: o termostato está normal, o problema é a carga térmica.
Questões do módulo · 02
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioAdulto sofre hemorragia aguda de 1 L. Qual sequência de eventos do barorreflexo explica a taquicardia e a vasoconstrição?
2.Prova difícilHomem, 24 anos, desaba na maratona sob sol com temperatura central de 41,2 °C, pele quente, confusão e taquicardia; sudorese ausente. Sem sinais de infecção. Qual par conduta–fundamento é o correto?
Fisiologia cardiovascular: ciclo cardíaco, débito e controle da pressão
ciclo cardíaco e bulhas · Frank-Starling e determinantes do débito · marca-passo e acoplamento excitação-contração · PA e resistência (Poiseuille, Laplace) · regulação no tempo · exercício e estresse
Débito cardíaco
≈ 5 L/min
= FC × VS; volume sistólico ≈ 70 mL
Fração de ejeção
≈ 60 %
VDV final ≈ 110–120 mL · VSV ≈ 40–50 mL (normal > 50–55 %)
Sístole : diástole
0,3 : 0,5 s
a 75 bpm; enchimento passivo ≈ 80 % do volume diastólico
FC máxima
208 − 0,7 × idade
Tanaka; melhor que a clássica 220 − idade
1. Ciclo cardíaco: eventos, válvulas e bulhas
A 75 bpm o ciclo dura 0,8 s: sístole atrial 0,1 s (contribui com os últimos ≈ 20 % do enchimento), sístole ventricular 0,3 s e diástole 0,5 s. Nos períodos isovolumétricos TODAS as válvulas estão fechadas (contração e relaxamento sem mudança de volume); a ejeção abre as semilunares e o notch dicrótico do traçado arterial marca o fechamento aórtico. B1 = fechamento das válvulas atrioventriculares (início da sístole); B2 = fechamento das semilunares; B3 = enchimento rápido (normal em jovens e gestantes); B4 = contração atrial em ventrículo pouco complacente — em adulto, sugere hipertrofia/hipertensão.
2. Débito cardíaco: os determinantes do volume sistólico
Determinante
O que é
Como subir o volume ejetado
Pré-carga
pressão/volume de enchimento (retorno venoso, volemia, complacência)
infusão e tônus venoso — até o platô da curva
Pós-carga
tensão/pressão contra a qual o ventrículo ejeta (resistência vascular)
reduzir a resistência (vasodilatador) aumenta o volume ejetado
Contratilidade
força independente do comprimento (Ca²⁺ intracelular)
FC muito alta encurta a diástole e derruba o enchimento (taquiarritmia descompensa)
Marca-passo: a despolarização diastólica lenta do nó sinoatrial é a corrente If (entrada de Na⁺ ativada pela hiperpolarização — DiFrancesco, Circ Res 2010); o nó atrioventricular impõe o atraso de ≈ 0,1 s que permite o enchimento e é o ritmo de escape mais lento. Acoplamento excitação-contração: o Ca²⁺ que entra pelo canal L desencadeia liberação maior do retículo (Ca induz Ca) — a digoxina inibe a Na⁺/K⁺-ATPase, acumula Na⁺ intracelular, freia o trocador 3Na⁺/Ca²⁺ e indiretamente eleva o Ca²⁺ disponível (inotropismo positivo).
3. Pressão arterial: débito × resistência
PA = débito cardíaco × resistência vascular periférica. Pela lei de Poiseuille, a resistência varia com o INVERSO DA QUARTA POTÊNCIA do raio: as arteríolas concentram a maior queda de pressão e são o ponto de controle; as veias, altamente complacentes, armazenam 60–70 % do volume (sistema capacitivo) e a pressão venosa média (≈ 7 mmHg) é a força que empurra o sangue ao átrio direito. Pressão de pulso = volume sistólico ÷ complacência arterial (por isso sobe no idoso de aorta rígida). A lei de Laplace (T = P × r ÷ espessura) explica por que aneurismas dilatados rompem e por que o ventrículo hipertrofiado economiza tensão.
4. Regulação no tempo: segundos, minutos, dias
Horizonte
Mecanismo
Exemplo
Segundos
barorreflexo e respostas neurais
ortostatismo, hemorragia inicial
Minutos a horas
relaxamento/estresse vascular, desvio transcapilar de líquido, RAAS e hormônios
recuperação de perda moderada de volume
Horas a dias (dominante)
rim – volume corporal (pressão-natriurese) com apoio do RAAS
gênese e correção sustentada da hipertensão (Cowley, Physiol Rev 1992)
5. Exercício e estresse: a fisiologia integrada
FC máxima: a fórmula de Tanaka (208 − 0,7 × idade) supera a clássica 220 − idade, que superestima em jovens e subestima em idosos (JACC 2001).
Débito no esforço máximo: sedentário chega a ≈ 20–25 L/min; atleta de elite, 35–40 L/min — o volume sistólico sobe ≈ 30–50 % e depois a FC passa a dominar o ganho.
VO₂ máx = débito × diferença arteriovenosa de O₂ (Fick): a extração sobe de ≈ 4–5 mL/dL em repouso para ≈ 15 no máximo; em não atletas, o LIMITE central é o débito (Levine, J Physiol 2008).
Exercício DINÂMICO: PAS sobe e PAD mantém-se ou cai levemente (queda da resistência muscular); exercício ESTÁTICO: as duas sobem muito (compressão vascular + resposta pressora central).
ESTRESSE: eixo simpático-adrenal em segundos (luta/fuga) e eixo hipotálamo-hipófise-adrenal em minutos; o cortisol é PERMISSIVO — mantém a resposta vascular às catecolaminas (na insuficiência adrenal, hipotensão refratária a vasopressor) e, cronicamente, promove alostase e dano (McEwen, Physiol Rev 2007).
Questões do módulo · 03
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalVoluntário saudável recebe infusão rápida de 500 mL de soro fisiológico. O aumento do volume ejetado que se segue decorre principalmente de:
2.AvançadoHomem, 48 anos, sedentário, no máximo do teste ergométrico: FC 172 bpm, PAS 192 mmHg, PAD 78 mmHg. Qual leitura fisiológica está correta?
Fisiologia respiratória: ventilação, trocas gasosas e controle
volumes e capacidades · ventilação alveolar e espaço morto · difusão e relação V/Q · gradiente alvéolo-arterial · curva de dissociação do O₂ · quimiorreceptores e ritmo
Ventilação alveolar
≈ 4,2 L/min
(500 − 150) × 12 rpm
PAO₂ / PaO₂
≈ 100 / 80–100
gradiente A-a normal < 10–15 mmHg no jovem
Difusão CO₂ : O₂
≈ 20 ×
solubilidade — a hipercapnia é de hipoventilação/V-Q, não de barreira
Estímulo hipóxico
PaO₂ < 60
limiar dos corpos carotídeos
1. Volumes, capacidades e o espaço morto
Adulto jovem do sexo masculino: corrente 500 mL, reserva inspiratória ≈ 3.000, reserva expiratória ≈ 1.100, residual ≈ 1.200 mL; capacidades: vital ≈ 4.600, funcional residual ≈ 2.300, total ≈ 5.800 mL (mulheres ≈ 20–25 % menores). A espirometria mede tudo EXCETO o volume residual e as capacidades que o contêm (FRC e CPT — exigem diluição de hélio ou pletismografia). Ventilação alveolar = (volume corrente − espaço morto anatômico ≈ 150 mL) × frequência: aumentar a frequência com volume corrente raso é ineficaz — a fração morta dilui a ventilação útil.
2. Trocas: difusão e a relação ventilação-perfusão
A difusão segue a lei de Fick: proporcional à área (≈ 70 m²) e ao gradiente, inversa à espessura (≈ 0,5 μm). Gases mais solúveis difundem mais rápido: o CO₂ atravessa a barreira ≈ 20 vezes melhor que o O₂ — retenção de CO₂ por defeito de DIFUSÃO praticamente não existe; ela indica hipoventilação ou distúrbio V/Q. O O₂ é limitado por perfusão em condições normais (equilibra-se em cerca de 0,25 s, menos que o tempo de trânsito do sangue) e passa a limitar por difusão no exercício, na altitude e nas doenças de barreira (Wagner, Eur Respir J 2015).
No pulmão ereto, a perfusão cai mais que a ventilação do ápice para a base: relação V/Q ≈ 3 no ápice (mais espaço morto relativo — ambiente favorável ao bacilo da tuberculose) e ≈ 0,6 na base (mais sangue mal ventilado); a média global é ≈ 0,8. A vasoconstrição hipóxica local (reflexo de Euler-Liljestrand) desvia sangue de alvéolos mal ventilados — perdida em áreas consolidadas, gera hipoxemia por shunt verdadeiro.
3. Transporte de oxigênio e a curva de dissociação
Cada grama de hemoglobina carrega 1,34 mL de O₂: conteúdo arterial ≈ 20 mL/dL (Hb 15 g/dL, saturação ≈ 98 %), entrega em repouso ≈ 1.000 mL/min, dos quais ≈ 250 mL são consumidos (extração ≈ 25 %). A curva sigmoidal tem P50 ≈ 26–27 mmHg: a porção plana (PaO₂ acima de ≈ 60 mmHg) protege a saturação e a porção íngreme (tecido) libera muito O₂ com pequena queda de pressão. A afinidade cai (curva à DIREITA: P50 sobe, melhora a entrega) com H⁺/CO₂ (efeito Bohr), temperatura e 2,3-DPG; a hemoglobina fetal fica à esquerda para captar O₂ materno.
4. Controle da respiração
Ritmo: complexo pré-Bötzinger no bulbo (marca-passo respiratório); o grupo dorsal comanda a inspiração; a expiração só é ativa no esforço.
Quimiorreceptores CENTRAIS (superfície bulbar): respondem ao H⁺ gerado do CO₂ que atravessa a barreira hematoencefálica — o CO₂ é o estímulo dominante, com resposta ventilatória linear.
Quimiorreceptores PERIFÉRICOS (corpos carotídeo e aórtico): disparam com PaO₂ < 60 mmHg e, mais rápido que os centrais, com H⁺/CO₂.
Consequência clínica: no retentor crônico de CO₂ (DPOC grave) o estímulo restante é a HIPOXIA — oxigênio não titulado pode agravar a hipercapnia; meta de SpO₂ ≈ 88–92 % nesses pacientes.
Correlação com a ventilação mecânica: a fisioterapia respiratória e o desmame precoce previnem a pneumonia associada à ventilação porque restauram volume alveolar, clearance mucociliar e a relação V/Q — o artigo da Central sobre PAV aprofunda essa ponte fisiologia-prática.
Questões do módulo · 04
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioHomem resgatado de incêndio doméstico: cefaleia intensa, náusea, PaO₂ 98 mmHg, SpO₂ 98 %, lactato discretamente elevado. Qual exame fecha a suspeita e por que o oxímetro é normal?
2.AvançadoMulher, 30 anos, comatosa após superdosagem de opioides: PaO₂ 62 mmHg, PaCO₂ 60 mmHg, pH 7,28, em ar ambiente. Qual a análise fisiológica correta?
Fisiologia renal: filtração, transporte tubular e concentração urinária
forças de Starling glomerulares · autorregulação e feedback tubuloglomerular · RAAS · transporte segmentar e diuréticos · multiplicador contracorrente · TFGe e correlações
TFG
≈ 125 mL/min
≈ 180 L/dia filtrados; ≈ 99 % reabsorvidos
Fluxo renal
≈ 1.100 mL/min
20–25 % do débito cardíaco
Autorregulação
80–180 mmHg
miogênica + tubuloglomerular
Osmolalidade urinária
50–1.200 mOsm/kg
gradiente medular de ≈ 300 a ≈ 1.200
1. Filtração glomerular: forças e alavancas
TFG ≈ Kf × pressão efetiva. A pressão hidrostática glomerular (≈ 60 mmHg) empurra; opõem-se a pressão hidrostática da cápsula (≈ 15 mmHg) e a oncótica capilar, que sobe de ≈ 28 para ≈ 36 mmHg ao longo do leito (proteínas concentradas pela filtração). Resultado: pressão efetiva que cai de ≈ 17 para próximo de 0 mmHg — a filtração ocorre sobretudo na porção inicial do capilar. Fração de filtração ≈ 20 % do plasma renal (Sands & Layton, Semin Nephrol 2009).
Manobra
TFG
Leitura fisiológica
Constrição da arteríola AFERENTE (simpático, adenosina, AINE)
cai
menos pressão dentro do glomérulo
Constrição da EFERENTE em tônus fisiológico (angiotensina II)
mantida ou levemente ↑
sobe a pressão glomerular — defesa da TFG na hipotensão
Dilatação da eferente (IECA/BRA)
cai
por isso a creatinina sobe > 30 % com IECA na estenose funcional/bilateral
A autorregulação mantém a TFG constante entre PA 80–180 mmHg: resposta MIOGÊNICA da arteríola aferente ao estiramento e FEEDBACK TUBULOGLOMERULAR — a mácula densa monitora o NaCl que chega ao túbulo distal: NaCl alto → adenosina local → constrição da arteríola aferente (derruba a TFG); NaCl baixo → estímulo às células granulares para liberar renina. O aparelho juxtaglomerular é, ao mesmo tempo, sensor e barreira de segurança.
2. Transporte segmentar: onde cada coisa é reabsorvida
Segmento
% do Na⁺/H₂O
Mecanismos-chave
Fármaco que atua aí
Túbulo proximal
≈ 65 %
cotransporte com Na⁺ (glicose via SGLT2, aminoácidos) e NHE; reabsorção isosmótica; 85 % do HCO₃⁻; 100 % da glicose (tampão plasmático ≈ 180 mg/dL)
acetazolamida (anidrase carbônica), SGLT2i
Alça ascendente grossa
≈ 25 %
NKCC2 (Na-K-2Cl) — o motor do gradiente medular; reabsorve Mg²⁺ e Ca²⁺ paracelular
furosemida
Túbulo distal
≈ 5 %
NCC (Na-Cl); Ca²⁺ sob PTH
hidroclorotiazida
Túbulo coletor
1–2 %
ENaC (aldosterona) e aquaporina-2 (ADH); intercaladas bombeiam H⁺
espironolactona, amilorida; ADH/desmopressina
3. Concentração e diluição: o multiplicador contracorrente
A alça de Henle dos néfrons justamedulares constrói, pelo transporte ativo de NaCl na ascendente grossa (segmento diluidor) e pelo arranjo em contracorrente, um gradiente osmótico corticopapilar de ≈ 300 a ≈ 1.200 mOsm/kg. A ureia reciclada pelos coletores medulares responde por cerca de metade do gradiente; os vasa recta, em troca contracorrente, nutrem a medula sem lavá-la. O produto final depende do coletor: sem ADH ele é impermeável — urina diluída (até ≈ 50 mOsm/kg); com ADH (receptor V2 → cAMP → inserção de aquaporina-2) a água segue o gradiente — urina concentrada (até ≈ 1.200 mOsm/kg).
4. TFGe e correlações clínicas
TFGe na prática: equações com creatinina (CKD-EPI 2021, sem fator raça; cistatina C melhora a acurácia — Inker, NEJM 2021). Categorias: G1 ≥ 90 · G2 60–89 · G3a 45–59 · G3b 30–44 · G4 15–29 · G5 < 15 mL/min/1,73 m².
A creatinina sobe tarde: perder metade da função dobra a creatinina com TFGe ainda em faixa aceitável — interprete sempre junto à equação.
SIADH: hiponatremia euvolêmica com Na⁺ urinário > 30 mEq/L e osmolalidade urinária > 100 mOsm/kg; na sintomática grave, NaCl 3 % em bólus (100–150 mL) com meta de elevar 4–6 mEq/L nas primeiras horas e limite de ≈ 8 mEq/L em 24 h (Verbalis, Am J Med 2013).
A diurese osmótica do diabetes descompensado arrasta água (glicose acima do tampão): poliúria com osmolalidade urinária ALTA — ao contrário do diabetes insipidus.
Furosemida crônica depleciona o gradiente medular: cai a capacidade de concentrar a urina (poliúria/polidipsia).
Questões do módulo · 05
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalPaciente em uso crônico de furosemida apresenta poliúria com urina persistentemente hipotônica mesmo em privação hídrica. O mecanismo é:
2.AvançadoHomem em uso de lítio: poliúria de 4 L/dia, sódio 148 mEq/L, osmolalidade urinária 120 mOsm/kg; após desmopressina intranasal a osmolalidade urinária sobe apenas para 150. A falha está em:
Henderson-Hasselbalch e tamponamento · os 4 distúrbios e a compensação esperada · anion gap e MUDPILES · rim e o manuseio do H⁺ · potássio: deslocamentos, ECG e tratamento
Normal
pH 7,35–7,45
PaCO₂ 35–45 · HCO₃⁻ 22–26 mEq/L
Anion gap
8–12 mEq/L
Na⁺ − (Cl⁻ + HCO₃⁻), sem potássio
Potássio
3,5–5,0 mEq/L
98 % do K⁺ é intracelular
Winter
PCO₂ = 1,5 × HCO₃⁻ + 8
± 2 — compensação da acidose metabólica
1. O sistema em uma equação
pH = 6,1 + log ([HCO₃⁻] ÷ (0,03 × PaCO₂)): o pH depende apenas da RAZÃO bicarbonato/PaCO₂ (20 : 1 para pH 7,40). O tamponamento é imediato (bicarbonato extracelular, proteínas, hemoglobina) e depois vem a compensação: o PULMÃO ajusta o PaCO₂ em minutos a horas; o RIM reabsorve bicarbonato, regenera base e excreta H⁺ (como NH₄⁺ e ácido titulável) em horas a dias (Berend, NEJM 2014).
3. Anion gap: a porta de entrada da acidose metabólica
Gap = Na⁺ − (Cl⁻ + HCO₃⁻), normal 8–12 mEq/L: mede ânions não medidos. Elevado — MUDPILES: Metanol, Uremia, DKA, Propilenoglicol, Isoniazida/Ferro, Lactato, Etilenoglicol, Salicilatos. Normal (hiperclorêmica): diarreia (perda de HCO₃⁻), acidose tubular renal, derivação ureteral, acetazolamida. Lactato ≥ 4 mmol/L marca acidose láctica grave (Kraut, NEJM 2014); na acidoses grave de UTI, o bicarbonato (BICAR-ICU, JAMA 2018) não mudou o desfecho primário global, mas reduziu o desfecho combinado no subgrupo com pH ≤ 7,15 — uso restrito, sempre depois de tratar a causa.
4. Potássio: o cátion que se desloca
Só 2 % do K⁺ está no plasma (3,5–5,0 mEq/L): pequenos deslocamentos intra/extracelulares mudam a calemia sem alterar o total corporal. Acidose (mineral) e lise celular empurram K⁺ para fora; insulina, β2-agonistas e alcalose o levam para dentro; o exercício extenuante libera K⁺ transitoriamente. O rim excreta K⁺ no distal/coletor sob aldosterona — e o fluxo tubular e o sódio distal também contam (hipovolemia + diurético = perda urinária).
HIPERCALEMIA
HIPOCALEMIA
Causas típicas
DRC, IECA/BRA/espironolactona, AINE, acidose, lise celular (rabdomiólise, tumorólise)
vômitos/diarreia, diuréticos de alça e tiazídicos, hipomagnesemia refratária, alcalose, insulina
ECG
T apiculada → QRS alarga → P achata → onda senoidal
T achatada, onda U, infra do ST; arritmias — atenção ao uso de digoxina
Risco imediato
fibrilação ventricular e assistolia
fraqueza, íleo, arritmia (principalmente com digoxina)
K⁺ 7,2 mEq/L com ECG alterado — a ordem que salva
Qual o primeiro passo farmacológico?
▼
1. ESTABILIZAR A MEMBRANA (minutos)
Gluconato de cálcio 10 %, 10–30 mL IV (ou cloreto de cálcio por via central) — NÃO baixa o K⁺; protege o coração.
2. TRANSFERIR PARA DENTRO DA CÉLULA (30–60 min)
Insulina regular 10 U IV + glicose (por exemplo, 25 g), monitorando glicemia.
Salbutamol nebulizado 10–20 mg; bicarbonato apenas se houver acidose concomitante.
3. REMOVER DO ORGANISMO (horas)
Diurético de alça se função renal preservada; patiromer/ciclosilicato (horas); hemodiálise na refratária ou anúrica (Sterns, Kidney Int 2016).
Questões do módulo · 06
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioJovem com cetoacidose diabética: pH 7,20, PaCO₂ 25 mmHg, HCO₃⁻ 10 mEq/L, Na⁺ 140, Cl⁻ 100. Qual a leitura completa?
2.AvançadoHomem em diálise com K⁺ 7,3 mEq/L, ECG com T apiculada e QRS alargado, sem acesso de hemodiálise imediato. Conduta imediata:
Fisiologia endócrina: eixos, reprodução e gestação
hipotálamo-hipófise e feedback · tireoide · eixo adrenal e cortisol · prolactina · ciclo menstrual (GnRH pulsátil, pico de LH) · adaptações da gestação
Feedback
negativo
o hormônio final freia hipotálamo e hipófise — base da interpretação laboratorial
T₃
3–4 × T₄
≈ 80 % do T₃ vem da conversão periférica do T₄
Ciclo
14 + 14 dias
folicular variável; fase lútea fixa
Volemia na gestação
+40–50 %
contra +20–30 % de massa eritrocitária
1. Arquitetura dos eixos
Hipófise POSTERIOR: terminal de axônios hipotalâmicos — ADH (núcleo supraóptico) e ocitocina (paraventricular), liberadas direto na circulação.
Hipófise ANTERIOR: controlada pelo sistema porta hipotálamo-hipofisário — GH, prolactina, TSH, ACTH, LH e FSH.
PULSATILIDADE: o GnRH precisa vir em pulsos para estimular LH/FSH; em infusão CONTÍNUA faz downregulation dos receptores hipofisários (base dos agonistas como leuprolida no mioma, na endometriose e na puberdade precoce).
Feedback negativo em três níveis (hipotálamo, hipófise, glândula-alvo) é a chave laboratorial: hormônio final baixo com trofina ALTA = falha primária da glândula; trofina baixa com final baixo = eixo central.
2. Tireoide
Síntese: captação de iodo pelo NIS → oxidação e organificação pela peroxidase tireoidiana (TPO) → acoplamento de MIT/DIT na tireoglobulina → secreção majoritariamente de T₄. O T₄ circulante (fortemente ligado à TBG) funciona como pró-hormônio: a desiodação periférica (fígado/rim) gera ≈ 80 % do T₃ (3–4 vezes mais ativo), além do T₃ reverso inativo. A ação é predominantemente GENÔMICA (receptores nucleares TR): eleva o metabolismo basal e a Na⁺/K⁺-ATPase, a sensibilidade β-adrenérgica cardíaca, o catabolismo de LDL e a maturação óssea/neural (Brent, J Clin Invest 2012). Laboratório: TSH é o melhor rastreio de doença primária; na gestação o hCG estimula fracamente o receptor de TSH e ABAIXA o TSH no 1º trimestre.
3. Adrenal: cortisol e mineralocorticoide
Camadas: glomerulosa (aldosterona, sob RAAS), fasciculata (cortisol, sob ACTH), reticularis (andrógenos).
Cortisol: ritmo circadiano com pico de madrugada e resposta ao estresse; ações — gluconeogênese, proteólise, lipólise permissiva, efeito anti-inflamatório (inibe a fosfolipase A₂), catabolismo ósseo e PERMISSIVIDADE vascular às catecolaminas (McEwen, Physiol Rev 2007).
Deficiência de 21-hidroxilase (HAC clássico): bloqueia cortisol E aldosterona → ACTH ↑ (hiperpigmentação), andrógenos ↑ (virilização; genitália ambígua na menina) e perda de sal no recém-nascido; marcador: 17-hidroxiprogesterona.
Insuficiência adrenal: hipotensão refratária a vasopressor sem reposição de hidrocortisona — falta o efeito permissivo do cortisol.
4. Ciclo menstrual: o jogo dos dois feedbacks
Fase folicular (variável): o FSH recruta folículos e estimula a aromatase da granulosa → estradiol sobe → endométrio proliferativo. O estradiol exerce feedback NEGATIVO em níveis baixos, mas quando SUSTENTADO e alto (por ≈ 48 h) vira feedback POSITIVO → pico de LH → ovulação 24–36 h depois (10–12 h após o pico). Fase lútea (FIXA, ≈ 14 dias): o corpo lúteo produz progesterona (endométrio secretor, temperatura basal +0,3–0,5 °C); sem hCG, a luteólise no final derruba estradiol e progesterona e vem a menstruação (Mihm, Anim Reprod Sci 2011).
5. Gestação: o corpo materno reprogramado
Sistema
Adaptação
Implicação clínica
Cardiovascular
débito +30–50 %, FC +15–20 bpm, resistência vascular ↓
PA mais BAIXA no 2º trimestre; sopros funcionais são comuns
Hematológico
plasma +40–50 % × hemácias +20–30 %
anemia fisiológica por diluição (Hb ≈ 11 g/dL é esperada)
Renal
TFG e fluxo +50 %
creatinina cai (0,5–0,7 mg/dL é o novo normal); glicosúria fisiológica
hCG resgata o corpo lúteo até 8–10 semanas (transferência lúteo-placentária); hPL e cortisol geram resistência insulínica
TSH rebaixado no 1º trimestre (hCG); rastreio de diabetes entre 24–28 semanas
Coagulação
fatores ↑, proteína S ↓, estase uterina
estado pró-trombótico: TEV 4–5 vezes maior (ver módulo de hemostasia)
Soma-Pillay e cols. (Cardiovasc J Afr 2016) consolidam esses números: interpretar exames na gestação exige a régua gravídica — uma creatinina normal de não gestante já é alterada na gestante, e um PaCO₂ de 35 mmHg significa hipoventilação para uma gestante do 3º trimestre.
Requisitos nutricionais: a contrapartida metabólica das adaptações
Nutriente
Pré-gestação → gestação (final)
Por quê
Energia
+340 kcal/dia (2º tri) → +452 kcal/dia (3º tri)
crescimento fetal acelerado; 1º trimestre SEM acréscimo
Proteínas
46 → 71 g/dia
síntese de tecidos fetais e placentários, expansão do volume sanguíneo
Folato
400 → 600 μg/dia (suplemento de 400 μg pré-concepcional)
neurulação — defeitos do tubo neural fecham até a 4ª semana
Ferro
18 → 27 mg/dia
massa eritrocitária +20–30 % e estoques fetais — o micronutriente mais deficiente na gestação
Iodo
150 → 220 μg/dia
hormônios tireoidianos fetais e desenvolvimento cerebral
Cálcio / vitamina D
1000 mg / 600 UI (mantêm-se)
mineralização óssea fetal — a mãe supre pelo aumento da absorção, não da ingestão
Questões do módulo · 07
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioCasal planeja gestação usando kit de LH urinário. O pico de LH foi detectado hoje pela manhã. Qual informação está correta?
2.FundamentalGestante de 32 semanas: Hb 10,8 g/dL, sem sangramento, ferritina e ferro sérico normais para a gestação. A interpretação é:
Fisiologia gastrointestinal: motilidade, secreção, digestão e hormônios
ondas lentas e complexo motor migratório · sucos e seus estímulos (secretina × CCK) · bile e circulação enterohepática · absorção segmentar · incretinas (GLP-1)
Ondas lentas
3 /min
estômago; duodeno 12/min e íleo 8–9/min (células intersticiais de Cajal)
MMC
90–120 min
onda de limpeza do jejum, comandada pela motilina
Bile
≈ 95 %
dos sais biliares é reabsorvido no íleo terminal
Água
≈ 9 L/dia
apresentados ao tubo; fezes ≈ 100–200 mL/dia
1. Motilidade: marca-passo e limpeza
As células intersticiais de Cajal geram ondas lentas que fixam o RITMO máximo das contrações (estômago 3/min, duodeno 12/min, íleo 8–9/min) — os estímulos nervosos e hormonais decidem SE e com que força o músculo responde, mas nunca acima do ritmo elétrico. Em jejum, o complexo motor migratório varre resíduos e bactérias a cada 90–120 min sob comando da MOTILINA (o eritromicina é agonista — pró-cinético); a ingestão de alimento suspende o ciclo. Deglutição: fase oral voluntária e fases faríngea/esofágica reflexas; o esfíncter inferior do esôfago relaxa na onda e permanece tônico no resto do tempo — a perda desse tônus é a doença do refluxo; o relaxamento falho com peristalse ausente é a acalasia.
2. Secretões: quem manda em cada suco
Suco
Gatilho fisiológico
Célula/produto
Alvo farmacológico
Salivar
parassimpático (M3)
serosa: amilase e lipase lingual
anticolinérgicos ressecam; pilocarpina estimula
Gástrico
gastrina (peptídeos, distensão), histamina (ECL), ACh vagal
parietal: HCl (H⁺/K⁺-ATPase) e fator intrínseco
omeprazol (bomba protônica), bloqueadores H2
Pancreático aquoso
SECRETINA pelo ácido (pH < 4,5) no duodeno
ductos: HCO₃⁻
—
Pancreático enzimático
CCK por gordura/proteína duodenal
acinos: amilase, lipase, tripsinogênio
—
Biliar
CCK: contração vesicular + relaxamento do esfíncter de Oddi
hepatócito: sais biliares, bilirrubina
—
3. Ativação das proteases e a bile que recicla
O pâncreas secreta zimogênios inativos: a enteropeptidase da borda em escova converte o tripsinogênio em tripsina, que ativa os demais zimogênios — o inibidor de tripsina pancreático protege contra a ativação prematura; quando vencido, o quadro é a pancreatite. A bile emulsifica a gordura com sais biliares que o ÍLEO TERMINAL reabsorve (≈ 95 %) e devolve ao fígado pela veia porta — a circulação enterohepática perde ≈ 5 % ao dia, reposta por síntese nova. A bilirrubina conjugada (direta) é hidrossolúvel e aparece na urina na colestase; a indireta viaja ligada à albumina e não passa pelo rim.
4. Absorção: cada nutriente tem seu sítio e seu transportador
Nutriente
Absorção
Nota de prova
Glicose/galactose
SGLT1 (cotransporte com Na⁺) no enterócito; sai por GLUT2
base dos sais de reidratação oral
Frutose
GLUT5 (difusão facilitada)
o excesso sobrecarrega — má absorção com H₂ expirado alto
Peptídeos
PepT1 (cotransporte com H⁺)
mais eficiente que aminoácidos livres
Lipídios
micelas → enterócito → quilomícrons → LINFÁTICOS
não passam pela veia porta: pulmão antes do sistema
B12
fator intrínseco + ÍLEO TERMINAL
gastrectomia e doença de Crohn ileal levam anos para esgotar estoques
Ferro e cálcio
DUODENO (o meio ácido favorece o Fe²⁺; o Ca²⁺ depende de vitamina D)
IPP crônico e ressecção reduzem a captação
5. Hormônios GI e incretinas: a ponte com a clínica
Cólera: a enterotoxina ativa a adenilil ciclase → cAMP → o CFTR secreta Cl⁻, que arrasta Na⁺ e água — diarreia aquosa volumosa SEM destruir a mucosa e QUE PERSISTE EM JEJUM (secretora, não osmótica).
Deficiência de lactase: o carboidrato não digerido fermenta no cólon — diarreia OSMÓTICA que cessa com a retirada do leite, pH fecal baixo e H₂ expirado alto.
Doença celíaca (proximal): má absorção de ferro e folato ANTES da B12 (o íleo terminal é poupado até fases tardias).
Ressecção do íleo terminal: perde B12 E sais biliares — esteatorreia e litíase biliar por bile empobrecida.
Procinéticos: eritromicina (agonista da motilina) e metoclopramida (antidopaminérgico com ação colinérgica) aceleram o esvaziamento gástrico.
Questões do módulo · 08
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalApós uma refeição gordurosa, qual par hormonal-efeito está correto?
2.AvançadoDiabética tipo 2 em uso de sitagliptina pergunta como o fármaco age. A explicação fisiológica correta é:
hemostasia primária (vWF, plaqueta) · via do fator tecidual e as provas TP/aPTT · anticoagulantes naturais e fibrinólise · fármacos por alvo · coagulação na gestação e hemorragia pós-parto
Plaquetas
150–400 ×10³/mm³
sobrevida 7–10 dias; sem núcleo
Fator VII
meia-vida 4–6 h
o mais curto — o TP/INR é o primeiro a alterar na varfarina
TEV na gestação
4–5 ×
fatores ↑, proteína S ↓, estase uterina
HPP
≥ 500 / ≥ 1.000 mL
parto vaginal × cesárea, nas primeiras 24 h
1. Hemostasia primária: o tampão plaquetário
A lesão expõe o colágeno: o fator de von Willebrand liga o colágeno ao receptor plaquetário GPIb (ADESÃO); a plaqueta ativa-se, libera ADP e tromboxano A₂ (via COX-1) recrutando vizinhas (ATIVAÇÃO); o receptor GPIIb/IIIa muda de conformação e liga fibrinogênio entre plaquetas (AGREGAÇÃO). A aspirina inibe irreversivelmente a COX-1 e, como a plaqueta não tem núcleo, o efeito dura a vida da célula (7–10 dias); o clopidogrel bloqueia o P2Y12 do ADP; o abciximabe, o GPIIb/IIIa (Furie & Furie, NEJM 2008).
2. Coagulação: no organismo, começa no fator tecidual
In vivo, o fator VIIa exposto ao FATOR TECIDUAL (via extrínseca) ativa os fatores IX e X; o complexo IXa-VIIIa (tenase) e o Xa-Va (protrombinase) amplificam a geração de trombina sobre a superfície fosfolipídica plaquetária, com Ca²⁺. A trombina é a enzima central: converte fibrinogênio em fibrina, ativa os fatores V, VIII, XI e XIII e as plaquetas; o XIIIa RETICULA a fibrina — e o D-dímero é produto da degradação dessa fibrina reticulada. A via intrínseca (XII-XI-IX-VIII) amplifica sobre superfícies: importante no laboratório (aPTT), mas a deficiência de XII alonga o aPTT SEM sangramento.
Prova
O que avalia
Alonga em
TP/INR
extrínseca + comum (VII, X, V, II, I)
varfarina, hepatopatia, deficiência de VII
aPTT
intrínseca + comum (XII, XI, IX, VIII + comum)
heparina, hemofilias, anticoagulante lúpico, fator XII
Contagem/PFA
número e função plaquetária
trombocitopenia, doença de von Willebrand, antiagregantes
Tempo de trombina
fibrinogênio → fibrina
hipofibrinogenemia, heparina
3. Freios naturais e fibrinólise
Antitrombina: inibe trombina e Xa — a heparina é seu COFATOR (potencializa milhares de vezes; a deficiência é trombofilia).
Proteínas C e S: a trombina ligada à trombomodulina endotelial ativa a proteína C, que (com a proteína S) inativa Va e VIIIa — ambas dependem de vitamina K, como os fatores II, VII, IX e X.
TFPI: inibe o complexo VIIa-fator tecidual; o endotélio intacto produz NO e prostaciclina (antiagregantes locais).
Fibrinólise: o tPA do endotélio converte plasminogênio em plasmina, que digere a fibrina (gerando D-dímero); a α2-antiplasmina limita o processo; o ácido tranexâmico bloqueia a ligação do plasminogênio à fibrina — antifibrinolítico.
4. Fármacos por alvo
Fármaco
Mecanismo
Monitoração/vigilância
Heparina não fracionada
potencializa a antitrombina (IIa + Xa)
aPTT; risco de HIT (queda > 50 % das plaquetas)
Heparinas de baixo peso molecular
predomínio anti-Xa
clearance renal; doses fixas
Varfarina
inibe a epóxido-redutase da vitamina K (II, VII, IX, X + C e S)
INR; teratogênica; cobertura inicial com heparina
Anticoagulantes orais diretos
anti-IIa (dabigatrana) ou anti-Xa (rivaroxabana, apixabana)
sem monitoração de rotina; ajuste renal
Ácido tranexâmico
antifibrinolítico
útil em sangramento com hiperfibrinólise
5. Gestação, coagulopatias hereditárias e hemorragia pós-parto
A gestação é estado pró-trombótico fisiológico (fatores I, II, VII, VIII, IX, X e vWF elevados, proteína S reduzida, estase venosa uterina): risco de TEV 4–5 vezes maior — a profilaxia é decisão frequente no puerpério. A hemorragia pós-parto (perda ≥ 500 mL no parto vaginal e ≥ 1.000 mL na cesárea em 24 h) é a principal causa evitável de mortalidade materna no mundo: a conduta combina uterotônicos (ocitocina em primeira linha) com o ácido tranexâmico 1 g IV até 3 h após o parto, que no ensaio WOMAN (Lancet 2017) reduziu a mortalidade por sangramento.
Hemofilia A/B
Doença de von Willebrand
Herança
ligada ao X (recessiva): filhas portadoras; tios maternos do afetado
autossômica (tipo 1 em ≈ 70–80 %) — a mais comum das coagulopatias hereditárias
Sangramento
profundo: hemartroses e musculares
mucocutâneo: epistaxe, gengival, menorragia
Plaquetas/PFA
normais
PFA/tempo de sangramento alterado
aPTT
alongado (VIII ou IX baixos)
normal ou pouco alongado (o vWF carrega o VIII)
Teste funcional
dosagem dos fatores VIII/IX
agregação com ristocetina e dosagem de vWF
Tratamento
concentrado de fator
desmopressina (tipo 1), concentrado de vWF/fator VIII
Questões do módulo · 09
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioMenino, 7 anos, com hemartrose de joelho recorrente; tios maternos com o mesmo quadro. Plaquetas 320 ×10³/mm³, TP normal, aPTT alongado, tempo de sangramento normal. O defeito mais provável é:
2.Prova difícilMulher, 62 anos, inicia varfarina por fibrilação atrial e, no 4º dia, apresenta lesões livedóides e necróticas em mamas e coxas; INR 3,2. O mecanismo é:
Para a véspera: o essencial, os números, os macetes e as pegadinhas que decidem a prova
Resumo essencial por módulo
Módulo
A essência
Maior incidência
01 Neurofisiologia e sentidos
Repouso −70 mV (K⁺); potencial de ação tudo-ou-nada codificado em frequência; glutamato excita e GABA freia; fuso estira-contraí, Golgi tensiona-relaxa; a luz HIPERPOLARIZA o fotorreceptor.
Fases iônicas do PA; anestésico local; fuso × órgão tendinoso
02 SNA e termorregulação
Pré-ganglionar nicotínico nos dois sistemas; pós-simpático noradrenérgico (sudorese é colinérgica); barorreflexo controla segundos (com reset) e o rim controla dias; febre = set point elevado por PGE₂.
Receptores por órgão; febre × hipertermia; mecanismos de perda de calor
03 Cardiovascular
DC = FC × VS (pré-carga/Starling, contratilidade, pós-carga); PA = DC × RVP com resistência ∝ 1/r⁴; no exercício dinâmico a PAS sobe e a PAD se poupa.
Frank-Starling; resposta ao exercício; regulação no tempo (Cowley)
04 Respiratória
VA = (VC − 150) × f; A-a normal = hipoventilação/altitude, A-a alto = difusão/V-Q/shunt (shunt não corrige com O₂); o CO₂ é o drive e o O₂ < 60 é estímulo periférico.
Gradiente A-a; curva do O₂ e deslocamentos; CO e oxímetro
05 Renal
TFG 125 mL/min com autorregulação 80–180 e defesa eferente pela angiotensina II; o gradiente medular 300–1.200 move a água via ADH/aquaporina-2.
Segmentos e diuréticos; cascata do ADH; TFGe (CKD-EPI 2021)
06 Ácido-base e potássio
O pH segue a razão HCO₃⁻/PaCO₂; Winter valida a compensação; gap elevado = MUDPILES; hiperK com ECG alterado: cálcio primeiro, remoção sempre.
Compensações esperadas; ECG do potássio; sequência da hipercalemia
07 Endócrina e gestação
O feedback negativo organiza o laboratório; o GnRH precisa ser pulsátil; estradiol alto sustentado vira feedback positivo (pico de LH); gestação: hCG até 8–10 semanas, anemia dilucional, TFG +50 %, TEV 4–5 ×.
Eixos e TSH; fase lútea fixa; régua gravídica dos exames
08 Gastrointestinal
Cajal dita o ritmo; secretina bicarbonata e CCK digere; B12 e sais biliares são ileais; o GLP-1 é a incretina glicose-dependente degradada pela DPP-4.
Secretina × CCK; sítios de absorção; efeito incretínico e fármacos
09 Hemostasia
Primária em 3 A (vWF-GPIb; TXA₂/ADP; GPIIb/IIIa); in vivo começa no TF-VIIa; TP/INR = extrínseca, aPTT = intrínseca; a varfarina derruba a proteína C primeiro.
Acidose de gap elevado com hiperventilação proporcional
Cetoacidose/lactato com compensação adequada (Winter)
T apiculada + QRS alargado em paciente anúrico
Hipercalemia — cálcio IV primeiro
Maratona, 41 °C, pele quente e confusão
Golpe de calor (set point normal — resfriar)
Rigidez + hipertermia após antipsicótico
Síndrome neuroléptica maligna (bloqueio D2)
Dor abolida antes da propriocepção após anestesia local
Bloqueio use-dependent de Na⁺ (fibras finas primeiro)
Creatinina 0,6 e Hb 11 na gestante de 30 semanas
Hiperfiltração e anemia fisiológicas da gestação
Pico de LH no kit urinário
Ovulação nas próximas 24–36 h (feedback positivo do estradiol)
Hemartrose em menino com aPTT longo e plaquetas normais
Hemofilia A (fator VIII, ligada ao X)
Prova final — bateria geral
8 questões cobrindo todos os módulos proporcionalmente + gabarito
1.IntermediárioApós ressecção extensa do íleo terminal por doença de Crohn, o paciente cursará, nos anos seguintes, com:
2.FundamentalO mediador final que eleva o set point térmico hipotalâmico na febre é:
3.AvançadoPaciente com insuficiência cardíaca congestiva crônica melhora da congestão após furosemida. O determinante do volume sistólico mobilizado pela intervenção foi:
4.IntermediárioPaciente séptico com acidose láctica. O efeito da acidose sobre a curva de dissociação da hemoglobina é:
5.AvançadoIdosa com hiponatremia: Na⁺ 122 mEq/L, euvolêmica, osmolalidade sérica 250 mOsm/kg, osmolalidade urinária 480 mOsm/kg, Na⁺ urinário 45 mEq/L, TSH e cortisol normais. O mecanismo é:
7.FundamentalGestante de 30 semanas, sem queixas, com gasometria: pH 7,44, PaCO₂ 31 mmHg, HCO₃⁻ 20 mEq/L. Interpretação:
8.Prova difícilPuérpera com hemorragia pós-parto de 900 mL e sangramento ativo por útero atônico. Já em ocitocina e compressão uterina, acrescenta-se ácido tranexâmico. Fundamento e janela:
Gabarito rápido
1-A · 2-B · 3-B · 4-B · 5-A · 6-B · 7-A · 8-A
Referencial teórico
25 fontes reais · DOI verificado
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notaResumo didático elaborado a partir das diretrizes e revisões acima (verificáveis pelo DOI) e dos artigos publicados desta matéria na Central de Estudos (fonte principal). Nenhuma referência inventada; em caso de divergência entre fontes, vale a versão vigente do protocolo oficial — confira sempre antes da conduta real.
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