Baseado nos artigos publicados da matéria Bioestatística e Medicina Baseada em Evidências da Central de Estudos (fonte principal) e nos Users' Guides to the Medical Literature (Guyatt, Sackett e Jaeschke — Evidence-Based Medicine Working Group, JAMA), Statistics Notes do BMJ (Altman e Bland), PRISMA 2020, AMSTAR 2, RoB 2, GRADE, Goodman (Ann Intern Med) e declaração da ASA sobre valores de p (complemento, sempre com DOI). Resumo de estudo — em pesquisa própria, confira sempre o protocolo e a análise planejada.
01
Desenho de estudos clínicos
hierarquia de evidência · série de casos · transversal · caso-controle · coorte · ensaio controlado randomizado · desfecho substituto (CAST)
Topo da pirâmide
RS + MA
revisão sistemática com metanálise
Padrão-ouro terapêutico
ECR
ensaio controlado randomizado
Mede incidência
Coorte
segue expostos e não expostos no tempo
Doença rara
Caso-controle
começa pela doença e olha a exposição para trás
1. A pergunta define o desenho
O desenho é o plano de como os dados serão colhidos; a escolha depende da pergunta (terapia, causa, prognóstico ou frequência), da raridade da exposição e do desfecho, do tempo até o desfecho aparecer e de ética e recursos. Perguntas de terapêutica pedem ensaio controlado randomizado (ECR); perguntas de causa raramente permitem randomizar (ninguém sorteia pessoas para fumar), e aí entram os estudos observacionais.
quanto de doença existe hoje; planejamento e rastreio
Caso-controle
do desfecho para trás (D → E)
odds ratio (OR)
doença rara, desfecho demorado, resposta rápida com poucos casos
Coorte
da exposição para frente (E → D)
incidência, risco relativo (RR)
prognóstico, causalidade, exposição rara; caro e lento
ECR
exposição atribuída por sorteio
RR, RAR, NNT
eficácia terapêutica e preventiva
Revisão sistemática + MA
síntese de todos os estudos elegíveis
estimativa combinada, mais precisa
responder quando há muitos estudos e nenhum é definitivo
2. Ensaio controlado randomizado: as três proteções
O ECR vale o topo da hierarquia terapêutica por três proteções que se somam: RANDOMIZAÇÃO (distribui fatores de prognóstico, conhecidos e desconhecidos, entre os grupos), ALOCAÇÃO OCULTA (ninguém consegue prever o próximo grupo e manipular quem entra em qual — diferente de cegamento, que protege a mensuração) e CEGAMENTO (paciente e avaliador não sabem o grupo, evitando viés de aferição e efeito placebo). A análise por INTENÇÃO DE TRATAR conserva a randomização: todos são analisados no grupo para o foram sorteados, mesmo tendo trocado de tratamento.
Checklist de validade de um ECR (Users' Guides): randomização com alocação oculta · cegamento duplo · seguimento completo — perdas menores que 5% preocupam pouco e maiores que 20% comprometem a validade · análise por intenção de tratar · desfechos clínicos (mortalidade), não apenas substitutos.
O relato deve seguir o CONSORT (fluxo de participantes, desfechos primário e secundários pré-definidos, cálculo amostral).
Estudo publicado sem registro de protocolo ou com desfechos que mudaram depois abre suspeita de p-hacking (ver módulo de valor-p).
Fluxo da escolha do desenho
Qual a pergunta do pesquisador?
▼
TERAPIA OU PREVENÇÃO → ECR
Randomização com alocação oculta + cegamento + análise por intenção de tratar.
Ético e viável quando há equilíbrio real (incerteza) entre as opções.
CAUSA OU PROGNÓSTICO COM DESFECHO NO TEMPO → COORTE
Define os grupos pela EXPOSIÇÃO e segue até o desfecho: mede incidência e RR.
Ameaças: perdas de seguimento (atrição) e confundimento — ajustar no desenho e na análise.
DOENÇA RARA OU DE LONGA LATÊNCIA → CASO-CONTROLE
Começa pelo desfecho e olha a exposição para trás: rápido, barato, calcula OR.
Ameaças: viés de memória (recall) e escolha dos controles — que devem vir da mesma população-base dos casos.
Questões do módulo · 01
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalPesquisadora precisa investigar, com rapidez e poucos pacientes, se um fármaco usado na gestação está associado a uma malformação congênita rara. Qual o desenho mais adequado?
2.IntermediárioUm ECR demonstrou que um novo antiarrítmico reduz significativamente as extra-sístoles ventriculares no Holter de pacientes pós-infarto. Antes de incorporar a droga, o requisito decisivo é:
casos procuram lembrar a exposição passada mais que controles
caso-controle de dieta e câncer
fontes registradas (prontuário, banco de dados)
Informação — observador não cego
quem aferi conhece o grupo e influencia a medida
avaliação subjetiva de radiografias
cegamento de pacientes e avaliadores
Informação — classificação incorreta
exposição ou desfecho medidos com erro
questionário não validado
instrumentos validados; pode ser diferencial ou não diferencial
2. Confundimento: o terceiro fator
Confundidor é o fator externo que distorce a associação entre exposição e desfecho. Os três critérios para identificá-lo: (1) estar ASSOCIADO À EXPOSIÇÃO na população estudada; (2) ser CAUSA (ou marcador de causa) do DESFECHO; (3) NÃO estar na cadeia causal entre exposição e desfecho. Exemplo clássico: quem toma mais café fuma mais, e fumo causa infarto — o tabagismo confunde a associação café-infarto. Idade e gravidade da doença são os confundidores onipresentes da clínica.
Situação
O que é
O que fazer
Fator associado à exposição e causa do desfecho, FORA da cadeia causal
confundidor
controlar (no desenho ou na análise)
Fator DENTRO da cadeia causal (exposição → fator → desfecho)
mediador / efeito intermediário
não controlar, se o interesse é o efeito TOTAL; controlar isola o efeito direto
A magnitude do efeito DIFERE entre níveis do fator (ex.: só nos idosos)
modificação de efeito (interação)
não é erro: reportar e interpretar por estrato
3. Como controlar o confundimento
Onde
Ferramenta
Alcance
Desenho
Randomização
controla confundidores CONHECIDOS e DESCONHECIDOS (só no ECR)
Desenho
Restrição (critérios de elegibilidade rígidos)
só os medidos; sacrifica generalização
Desenho
Pareamento (matching)
aproxima os grupos nos fatores pareados
Análise
Estratificação (ex.: Mantel-Haenszel)
calcula a associação dentro de estratos homogêneos e a combina
Análise
Regressão multivariável
ajusta por vários confundidores simultaneamente
Análise
Escore de propensão
equilibra a distribuição de covariáveis entre tratados e não tratados
A associação observada pode ser espúria?
Que tipo de distorção o enunciado descreve?
▼
FATOR TERCEIRO associado à exposição e ao desfecho
CONFOUNDIMENTO: distorsão sistemática do efeito.
Corrigível por estratificação/regressão (ou prevenido pela randomização).
GRUPOS que não representam as populações comparadas
VIÉS DE SELEÇÃO: recrutamento, perdas, autoseleção, Berkson, trabalhador sadio.
Não se corrige com estatística — limita a validade do estudo.
EXPOSIÇÃO OU DESFECHO medidos de forma errada
VIÉS DE INFORMAÇÃO: memória, observador não cego, instrumento ruim.
Reduz-se com cegamento e fontes objetivas/registradas.
Questões do módulo · 02
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioEstudo caso-controle avalia associação entre consumo de café e câncer de pâncreas. Os entrevistadores aplicaram o questionário dietético SABENDO quem era caso e quem era controle, e aferiram maior consumo relatado nos casos. O erro caracterizado é:
2.AvançadoCoorte mostra associação entre consumo de café e infarto (RR bruto 1,6). Fumantes consomem mais café e têm mais infartes; estratificando por tabagismo, o RR combinado cai para 1,05 (IC 95% 0,9–1,2). A interpretação correta é:
risco × odds · a tabela 2×2 canônica · RR e OR · RAR e RRR · quando OR ≈ RR · exemplo resolvido de prova
Risco exposto
a/(a+b)
proporção que adoece entre expostos
Odds ratio
ad/bc
produto das diagonais da 2×2
Sem associação
RR = 1
risco igual nos dois grupos
OR ≈ RR
< 10%
aproximação válida só com desfecho raro
1. A tabela 2×2 canônica (memorize as letras)
Desfecho SIM
Desfecho NÃO
Total
EXPOSTO
a
b
a + b
NÃO EXPOSTO
c
d
c + d
Medida
Fórmula
Interpretação
Risco nos expostos (Re)
a/(a+b)
incidência do desfecho entre expostos
Risco nos não expostos (R0)
c/(c+d)
incidência entre não expostos
Risco relativo (RR)
Re ÷ R0
quantas vezes o risco é maior nos expostos
Odds ratio (OR)
(a×d)/(b×c)
razão das odds de desfecho; única medida de associação do caso-controle
Risco atribuível (RAR)
Re − R0
diferença absoluta — base do NNT
Redução relativa (RRR)
(Re − R0)/R0 = 1 − RR
fração do risco removida pelo fator/tratamento
2. Exemplo resolvido (o formato exato da prova)
ECR fictício com 1.000 pacientes por braço: placebo apresentou 100 eventos (risco 10%); tratamento apresentou 60 eventos (risco 6%). RR = 6/10 = 0,6 (RRR = 1 − 0,6 = 40%). RAR = 10% − 6% = 4% (0,04) — a diferença absoluta que gera NNT = 1/0,04 = 25. As células da 2×2 são a = 60, b = 940, c = 100, d = 900 → OR = (60×900)/(940×100) = 54.000/94.000 = 0,574 — próximo do RR 0,6 porque o desfecho é relativamente raro; se o desfecho fosse comum, o OR se afastaria do RR para longe de 1.
3. Interpretação e limites
Valor
Leitura
RR/OR = 1 (IC cruzando 1)
sem associação (hipótese nula)
RR/OR > 1
fator de risco (ou tratamento prejudicial, se comparando desfecho ruim)
RR/OR < 1
fator protetor (redução do risco)
RR = 2
o risco dobra nos expostos (risco relativo, não absoluto)
RR 0,6 em desfecho grave
40% de redução RELATIVA — o benefício absoluto depende do risco basal (ver NNT)
Questões do módulo · 04
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioCoorte de 2 anos: 200 expostos a um fator, dos quais 20 adoeceram; 400 não expostos, dos quais 16 adoeceram. O risco relativo é:
2.AvançadoEstudo caso-controle encontra OR = 4,0 entre tabagismo e DPOC — doença que atinge cerca de 15% dos adultos acima de 60 anos. A interpretação correta é:
Sensibilidade, especificidade e razões de verossimilhança
tabela 2×2 do diagnóstico · S e E · VPP e VPN (efeito da prevalência) · razões de verossimilhança · teorema de Bayes e nomograma de Fagan · curva ROC
Sensibilidade
a/(a+c)
dos doentes, quantos testam positivo
Especificidade
d/(b+d)
dos sadios, quantos testam negativo
VPP
a/(a+b)
dos positivos, quantos têm a doença
VPN
d/(c+d)
dos negativos, quantos não têm a doença
1. A tabela 2×2 do diagnóstico
Doença PRESENTE
Doença AUSENTE
Teste POSITIVO
a — verdadeiro positivo (VP)
b — falso positivo (FP)
Teste NEGATIVO
c — falso negativo (FN)
d — verdadeiro negativo (VN)
Medida
Fórmula
Pergunta que responde
Sensibilidade (S)
a/(a+c)
dos DOENTES, qual fração o teste detecta?
Especificidade (E)
d/(b+d)
dos NÃO DOENTES, qual fração o teste nega?
Valor preditivo positivo (VPP)
a/(a+b)
dos POSITIVOS, qual fração é doente?
Valor preditivo negativo (VPN)
d/(c+d)
dos NEGATIVOS, qual fração é sadia?
Razão de verossimilhança positiva (RV+)
S/(1 − E)
quanto o POSITIVO aumenta a probabilidade de doença
Razão de verossimilhança negativa (RV−)
(1 − S)/E
quanto o NEGATIVO reduz a probabilidade de doença
Prevalência no estudo
(a+c)/total
proporção de doentes na amostra — define VPP/VPN
2. Exemplo resolvido: o mesmo teste em dois cenários
Teste com S = 80% e E = 90%. CENÁRIO A — enfermaria, prevalência 50% (100 doentes e 100 não doentes): a = 80 VP, c = 20 FN, d = 90 VN, b = 10 FP → VPP = 80/90 = 88,9% e VPN = 90/110 = 81,8%. CENÁRIO B — rastreio comunitário, prevalência 5% (1.000 pessoas: 50 doentes, 950 sadios): a = 40 VP, c = 10 FN, b = 95 FP, d = 855 VN → VPP = 40/135 = 29,6% e VPN = 855/865 = 98,8%. Mesmo teste: na enfermaria o positivo quase confirma; no rastreio, 7 de cada 10 positivos são FALSOS — e o negativo quase descarta. É a pegadinha central da matéria.
Cenário (S 80% / E 90%)
VPP
VPN
Leitura prática
Enfermaria — prevalência 50%
88,9%
81,8%
positivo aproxima o diagnóstico; seguir investigando
Rastreio — prevalência 5%
29,6%
98,8%
positivo precisa de confirmação; negativo afasta com folga
3. Razões de verossimilhança: Bayes quantificado
A RV não depende da prevalência e conecta probabilidade pré e pós-teste: odds pós-teste = odds pré-teste × RV. Para converter: odds = p/(1 − p) e p = odds/(1 + odds). Atalhos de McGee (J Gen Intern Med, 2002): RV+ de 2, 5 e 10 aumentam a probabilidade em aproximadamente 15, 30 e 45 pontos percentuais; RV− de 0,5, 0,2 e 0,1 reduzem na mesma medida. O nomograma de Fagan (NEJM, 1975) faz a mesma conta graficamente — une prevalência e RV e lê a probabilidade pós-teste.
Escolher o teste pelo papel na conduta
Para que o teste será usado?
▼
DESCARTAR — rastreio/triagem
Priorizar SENSIBILIDADE alta: falso negativo é o erro grave (perder a doença).
Falsos positivos são tolerados porque serão retestados por teste mais específico.
Regra SpPIn: resultado positivo de teste muito específico confirma (praticamente fecha) o diagnóstico.
ATUALIZAR a probabilidade
Usar RV + probabilidade pré-teste (Bayes/Fagan) em vez de julgar só S e E.
Testes em série elevam a especificidade; em paralelo, a sensibilidade.
Questões do módulo · 05
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioTeste com sensibilidade 80% e especificidade 90% é proposto para rastreio populacional de uma doença com prevalência de 5%. Qual o valor preditivo positivo esperado nesse cenário?
2.Prova difícilUm teste diagnóstico apresenta sensibilidade de 90% e especificidade de 90%. Suas razões de verossimilhança positiva e negativa valem, respectivamente:
do risco relativo ao paciente real · cálculo a partir da RAR · risco basal e duração · NNH e NND · comparação e armadilhas
NNT
1/RAR
RAR em decimal — arredondar para cima
RAR
Rc − Rt
risco do controle menos o do tratamento
RRR
1 − RR
fração relativa — não basta para decidir
NNH
1/RAH
número tratado para 1 evento adverso
1. Como calcular (exemplo resolvido)
ECR de 4 anos: evento no grupo controle em 12% (0,12) e no tratamento em 8% (0,08). RAR = 0,12 − 0,08 = 0,04. NNT = 1/0,04 = 25 pacientes tratados por 4 anos para evitar 1 evento. Note a checagem reversa: RRR = 4/12 = 33% — se a questão der RRR 33% e risco basal 12%, a RAR é 0,33 × 0,12 = 0,04 e o NNT volta a ser 25.
2. O risco basal manda no NNT
Risco basal no controle
RRR do tratamento
RAR
NNT
40%
33%
13,2%
8
12%
33%
4%
25
4%
33%
1,3%
75
Mesma RRR de 33% em três populações: tratar pacientes de ALTO risco (40% de eventos) evita 1 desfecho a cada 8 pacientes; em prevenção primária de BAIXO risco (4%), são 75. É a razão estatística de por que estratificar risco antes de prescrever — e de por que o NNT de rastreios é tipicamente grande, exigindo a balança com o NNH e com custo e adesão (Laupacis, Cook & Sackett, McAlister).
3. NNH e a decisão clínica líquida
NNH = 1/aumento absoluto do dano — quantos tratados para causar 1 evento adverso.
NNT e NNH comparam desfechos de gravidade DIFERENTE: evitar 1 infarto (NNT 25) pode valer causar 1 mialgia (NNH 10); não vale causar 1 sangramento grave (NNH 8).
Benefício líquido exige desfecho, duração e população equivalentes nos dois lados da balança.
Questões do módulo · 06
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.FundamentalEnsaio clínico randomizado de 4 anos: o desfecho ocorreu em 10% do grupo placebo e 6% do grupo tratamento. O número necessário para tratar é:
2.AvançadoUm tratamento reduz o risco relativo de eventos em 33% (RRR fixa). É aplicado a dois cenários: população A com risco basal de 6% e população B com risco basal de 30%. Os NNTs serão, respectivamente, aproximadamente:
Identificação: busca em bancos (MEDLINE, EMBASE, CENTRAL/LILACS), registros de ensaios e literatura cinza.
Triagem: remoção de duplicatas → títulos e resumos → textos completos; dois revisores independentes, discordâncias por consenso/terceiro.
Fluxograma PRISMA obrigatório: registros identificados → elegíveis → incluídos, com motivos de exclusão.
Avaliação do risco de viés de cada ensaio incluído: RoB 2 (Cochrane) — domínios de randomização, desvios das intervenções, desfechos faltantes, mensuração e seleção de relato.
Síntese: metanálise se combinável; GRADE para a certeza da evidência.
2. Lendo o forest plot (o gráfico mais cobrado)
Elemento
O que é
Cada linha
um estudo incluído, com seu efeito (OR/RR/HR) e IC 95%
Quadrado
estimativa pontual do estudo; o TAMANHO é proporcional ao peso na combinação
Linha horizontal
IC 95% do estudo — cruzou a linha do nulo (1 ou 0), o estudo é não significante
Linha vertical
o nulo (RR/OR = 1; diferença de médias = 0)
Losango
estimativa COMBINADA da metanálise; centro = efeito pooled, largura = IC
Rodapé
heterogeneidade (Q, I², valor-p) e pesos — comece a leitura por ali
3. Heterogeneidade: efeitos fixos × aleatórios
I² mede a proporção da variação entre estudos que é real, e não acaso (Higgins, BMJ 2003): em torno de 25% baixa, 50% moderada, 75% alta. Modelo de EFEITOS FIXOS assume um único efeito verdadeiro comum — a variação entre estudos é acaso. Modelo de EFEITOS ALEATÓRIOS assume efeitos verdadeiros diferentes entre estudos — distribui pesos de forma mais igualitária e produz IC mais largo. A escolha vem da clínica e da heterogeneidade, NUNCA do desejo de o losango ficar de um lado só.
I² alto na metanálise — o que fazer?
Heterogeneidade substancial (I² em torno de 50% ou mais):
▼
EXPLORAR causas clínicas
Análises de subgrupo DEFINIDAS a priori (população, dose, seguimento) e metarregressão.
As diferenças encontradas viram conhecimento, não problema.
REAVALIAR o risco de viés
Análise de sensibilidade: retirar estudo a estudo — um ECR viciado com peso grande pode sozinho gerar heterogeneidade.
COMBINAR DE QUALQUER JEITO (efeitos fixos)
Errado: soma laranjas com maçãs e devolve um número sem significado clínico.
Se a heterogeneidade persiste inexplicada: relatar os estudos separadamente ou usar efeitos aleatórios com cautela explícita.
4. Viés de publicação
Estudos positivos são publicados (e traduzidos em manchetes) mais que os nulos. O FUNIL PLOT espalha os estudos por efeito × precisão: simetria esperada; assimetria — ausência de estudos pequenos e nulos no fundo do funil — sugere viés de publicação, testável pelo teste de Egger (BMJ 1997). Contramedidas: buscar registros de ensaio e literatura cinza; no GRADE, suspeita de viés de publicação REDUZ a certeza da evidência.
Questões do módulo · 07
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioEm um forest plot de metanálise com desfecho binário, o losango da estimativa combinada está deslocado à esquerda (favorecendo o tratamento), mas o intervalo de confiança do losango cruza a linha vertical do valor 1. A conclusão correta é:
2.Prova difícilMetanálise de 10 ECRs mostra I² = 65%; um único estudo concentra 55% do peso e apresenta risco de viés alto no RoB 2 (alocação não oculta). A conduta metodológica mais adequada é:
Estatística bayesiana e leitura crítica de artigos
frequencista × bayesiano · teorema de Bayes na clínica · fator de Bayes (Goodman) · reanálise EOLIA · PICO e Users' Guides · validade do ECR · ITT
Bayes na clínica
odds pré × RV
= odds pós-teste (nomograma de Fagan)
Fator de Bayes
BF
quanto os dados favorecem H1 vs H0 (Goodman 1999)
p = 0,05
≤ 3:1
odds máximas contra a nula — bem menos que 95%
Users' Guides
V · R · A
Validade → Resultados → Aplicabilidade
1. Bayes aplicado: do odds pré ao pós (a conta que cai)
Probabilidade pré-teste de 20% (suspeita clínica moderada) → odds pré = 0,2/0,8 = 0,25. Teste com RV+ = 8 → odds pós = 0,25 × 8 = 2,0 → probabilidade pós = 2/(1+2) = 67%. A mesma conta na forma direta é o VPP da tabela 2×2 do módulo de testes diagnósticos — as duas linguagens dizem o mesmo: o resultado do teste não substitui a probabilidade prévia, ele a transforma.
2. Fator de Bayes: o p pela ótica bayesiana
O fator de Bayes (BF) é a razão de verossimilhanças entre hipóteses concorrentes — quantas vezes os dados são mais prováveis sob uma hipótese que sob a outra. Goodman (Ann Intern Med, 1999) mostrou o desconforto do limiar usual: um p de 0,05 corresponde, no máximo, a odds de cerca de 3:1 contra a hipótese nula — bem longe dos 95% de certeza que o senso comum atribui ao resultado significante. O BF permite dizer com que força os dados apoiam cada hipótese, em vez de rejeitar a nula por um limiar arbritário.
3. O caso EOLIA: quando o p não significante engana
O EOLIA (ECMO em DRA grave) foi interrompido precocemente com p = 0,09 no desfecho de mortalidade — um ensaio negativo pelo critério frequentista. A reanálise bayesiana (Goligher, JAMA 2018) estimou a probabilidade posterior de o ECMO reduzir a mortalidade entre 76% (com priori fortemente cética) e 98% (priori entusiasta). Lição dupla: p não significante NÃO prova ausência de efeito (o estudo pode estar subdimensionado ou parado cedo — falta de poder não é falta de efeito, Altman & Bland), e a pergunta clinicamente útil é quanto vale a probabilidade de benefício, não apenas se um limiar foi cruzado.
4. Leitura crítica: o método dos Users' Guides
A pergunta de pesquisa se monta no PICO — Population (pacientes), Intervention, Comparison, Outcome — e o artigo se julga em três perguntas, NESTA ORDEM: (1) os resultados são VÁLIDOS (o método sustenta a conclusão)? (2) quais são os RESULTADOS (magnitude do efeito, IC, NNT/NNH)? (3) ajudarão MEU paciente (aplicabilidade: semelhança clínica, viabilidade, risco basal comparável)? Validade antes de tudo: se o método falhou, números bonitos não valem nada (Guyatt, Sackett, Jaeschke — Evidence-Based Medicine Working Group).
Checklist de validade do ECR (Users' Guides)
O que procurar
Randomização com alocação OCULTA
central de randomização/alocate sobresselada — impede manipulação de quem entra
Cegamento duplo
paciente e avaliador de desfecho cegos (placebo ativo quando possível)
Seguimento completo
perdas < 5% preocupam pouco; > 20% comprometem a validade
Análise por INTENÇÃO DE TRATAR
todos analisados no grupo sorteado — conserva a randomização
Desfecho clínico primário, definido a priori
mortalidade/desfecho duro; sem trocar desfecho depois (CONSORT)
Cálculo de poder pré-especificado
tamanho amostral para o efeito minimamente importante
Comparações planejadas
poucos testes, corrigidos se múltiplos (Bonferroni)
Randomização oculta · cegamento · perdas < 20% · ITT · desfecho a priori.
Falha grave aqui encerra a análise: não existe resultado bom em estudo inválido.
RESULTADOS + APLICABILIDADE
Magnitude do efeito com IC 95% · NNT/NNH · duração do seguimento.
Aplicar ao MEU paciente exige risco basal parecido — mesmo RR, NNT diferente.
Questões do módulo · 08
2 questões · níveis misturados · 5 alternativas
1.IntermediárioProbabilidade pré-teste de uma doença estimada em 20% após anamnese e exame físico. Solicita-se teste com razão de verossimilhança positiva de 8. A probabilidade pós-teste de um resultado POSITIVO é aproximadamente:
2.Prova difícilUm ECR de terapia salvadora em doença grave foi interrompido precocemente e reportado como negativo (p = 0,09 para mortalidade), com intervalo de confiança amplo. Uma reanálise bayesiana mostra probabilidade posterior de benefício entre 76% e 98% conforme a priori. A inferência correta é:
PICO monta a pergunta; Validade → Resultados → Aplicabilidade julga o artigo — nessa ordem.
Floresta
Quadrado = estudo (tamanho = peso) · linha = IC · losango = combinado · linha vertical = nulo (1 ou 0).
As pegadinhas mais cobradas
Caso-controle não calcula incidência nem prevalência — a proporção de casos é fixada pelo pesquisador.
OR com desfecho comum EXAGERA o efeito: não traduzir em risco relativo.
Cálculo de NNT com RRR em vez de RAR (ou com % sem converter para decimal) — o resultado sai errado por fator de 100.
VPP do laboratório não vale no seu cenário: prevalência diferente, VPP diferente.
p > 0,05 não é prova de ausência de efeito — pode ser falta de poder (IC largo).
n gigante + p minúsculo com diferença trivial: significância estatística não é relevância clínica.
Randomização é a única que controla confundidores desconhecidos; estratificação/regressão só os medidos.
Losango deslocado que cruza a linha do nulo = metanálise NÃO significante.
Per-protocol infla o efeito e quebra a randomização — ITT é a análise principal.
Recall bias é viés de INFORMAÇÃO clássico do caso-controle, não de seleção.
Escolher modelo de efeitos aleatórios/fixos pelo resultado desejado é má prática — a escolha é clínica e pela heterogeneidade.
Trocar AMSTAR 2 (julga a revisão) por RoB 2 (julga os ensaios incluídos) — ferramentas diferentes.
Informações que não podem ser esquecidas
Toda questão de teste diagnóstico começa pela prevalência: ela define VPP/VPN antes de qualquer cálculo.
Todo efeito se reporta com IC 95% — magnitude + incerteza valem mais que o p isolado.
Todo NNT vem com desfecho, duração e população — sem isso não é interpretável nem comparável.
Toda associação observacional: pergunte primeiro o que pode confundir, depois o que pode viciar, e só então o acaso.
Toda decisão de rastreio: sensibilidade alta primeiro; confirmação depois com especificidade alta.
Todo ensaio negativo: checar poder, IC e razão da interrupção antes de descartar o tratamento (EOLIA).
Toda leitura crítica: validade antes dos resultados — resultado bom em estudo inválido não existe.
Todo desfecho substituto pede desfecho clínico duro de suporte (CAST é o lembrete eterno).
Quadro-síntese: diagnóstico pela palavra-chave
Se a questão diz…
Pense em…
Estudo que começa pelo desfecho e olha a exposição para trás
Caso-controle (OR)
Seguir expostos e não expostos ao longo do tempo
Coorte (incidência, RR)
Casos lembram a exposição melhor que os controles
Viés de memória (recall)
Terceiro fator associado à exposição e causa do desfecho, fora da cadeia causal
Confundidor
População de trabalhadores mais sadia que a geral
Viés do trabalhador sadio
Não rejeitar H0 quando ela é falsa
Erro tipo II (β); poder = 1 − β
ad/bc
Odds ratio
1/RAR
Número necessário para tratar
Teste negativo em método muito sensível
Descarta — SnNOut
I² em torno de 50% ou mais entre os estudos
Heterogeneidade substancial — explorar antes de combinar
Funil assimétrico + teste de Egger positivo
Viés de publicação
Ensaio com p = 0,09 reanalisado com P(benefício) de 76%–98%
Reanálise bayesiana do EOLIA
Prova final — bateria geral
8 questões cobrindo todos os módulos proporcionalmente + gabarito
1.FundamentalUm estudo planejado com poder de 80% e α de 5% deixou de encontrar diferença entre os grupos (p = 0,32), com intervalo de confiança amplo cruzando o nulo. A leitura correta é:
2.IntermediárioEstudo caso-controle: 80 casos, dos quais 60 tinham a exposição; 80 controles, dos quais 30 tinham a exposição. O odds ratio é:
3.IntermediárioUm teste tem sensibilidade 90% e especificidade 70%. Sua razão de verossimilhança positiva é:
4.FundamentalEm um ECR de 5 anos, o desfecho ocorreu em 24% do grupo controle e 18% do grupo ativo. O NNT é:
5.IntermediárioEstudo que avalia risco de doença pulmonar comparando trabalhadores de uma fábrica com a população geral encontra risco MENOR nos trabalhadores, embora a exposição seja tóxica. A explicação metodológica é:
6.AvançadoUm ensaio reporta 6 desfechos secundários, um deles com p = 0,03. Para interpretar esse achado com correção para multiplicidade (Bonferroni), o limiar de significância passa a ser:
7.Prova difícilProbabilidade pré-teste de doença 10%; o teste solicitado tem RV+ = 10. Após resultado positivo, a probabilidade pós-teste é aproximadamente:
8.IntermediárioMetanálise apresenta I² = 70% e os estudos têm populações e durações de seguimento muito distintas. A conclusão metodológica correta é:
Gabarito rápido
1-C · 2-D · 3-D · 4-B · 5-B · 6-D · 7-C · 8-B
Referencial teórico
26 fontes reais · DOI verificado
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notaResumo didático elaborado a partir das diretrizes e revisões acima (verificáveis pelo DOI) e dos artigos publicados desta matéria na Central de Estudos (fonte principal). Nenhuma referência inventada; em caso de divergência entre fontes, vale a versão vigente do protocolo oficial — confira sempre antes da conduta real.
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