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Anatomia e fisiopatologia da hérnia de disco lombar e da estenose degenerativa, tabela de dermatomos e reflexos L4-L5-S1, Lasègue e sinal crossover, claudicação neurogênica versus vascular, red flags com síndrome de cauda equina, critérios para pedir RM e tratamento conservador versus cirúrgico à luz do trial SPORT.
[1] NICE. Low back pain and sciatica in over 16s: assessment and management. Guideline NG59. National Institute for Health and Care Excellence. 2016 · nice.org.uk/guidance/ng59 | [2] Kreiner DS, Hwang SW, Easa JE, et al. An evidence-based clinical guideline for the diagnosis and treatment of lumbar disc herniation with radiculopathy. Spine J. 2014;14(1):180-91 · DOI 10.1016/j.spinee.2013.11.002 | [3] Weinstein JN, Lurie JD, Tosteson TD, et al. Surgical vs nonoperative treatment for lumbar disk herniation: the Spine Patient Outcomes Research Trial (SPORT) randomized trial. JAMA. 2006;296(20):2441-50 · DOI 10.1001/jama.296.20.2441 | [4] Weinstein JN, Lurie JD, Tosteson TD, et al. Surgical versus nonoperative treatment for lumbar disc herniation: four-year results for the Spine Patient Outcomes Research Trial (SPORT). Spine. 2008;33(25):2789-800 · PMID 19018250 · DOI 10.1001/jama.296.20.2441
Dor lombar atinge até 80% dos adultos em algum momento da vida e é a principal causa mundial de anos vividos com incapacidade; a radiculopatia por hérnia de disco (lombociatalgia) acomete cerca de 2 a 5% da população, concentrada entre 30 e 50 anos, e a estenose degenerativa do canal domina após os 60. Juntas, formam um dos motivos de consulta mais frequentes da atenção primária e a porta de entrada mais comum dos ambulatórios de coluna e neurocirurgia. Para a prova, o aluno precisa dominar três eixos: mapear a raiz comprometida pelo exame físico (dermatomos, miótomos e reflexos), reconhecer as red flags que transformam lombalgia em emergência e saber quando (e quando não) pedir imagem e operar. A grande mensagem da evidência moderna: a maioria absoluta das hérnias melhora sem cirurgia em 6 a 12 semanas.
A coluna lombar tem cinco vértebras articuladas por três junções: o disco intervertebral à frente e as duas articulações zigapofisárias (facetárias) atrás. O disco é um amortecedor formado pelo ânulo fibroso periférico (lamelas de colágeno tipo I) e pelo núcleo pulposo central (proteoglicanos e colágeno tipo II, com 70 a 88% de água), que perde água e altura com o envelhecimento. A inervação do disco e do ligamento amarelo vem do nervo sinuvertebral (de Luschka), o que explica a dor lombar discogênica. O ligamento amarelo é um ligamento elástico que fecha o canal posteriormente: com a degeneração, hipertrofia e perde elasticidade, abaulando para dentro do canal na extensão da coluna, um dos principais contribuidores da estenose, junto com a hipertrofia facetária e o abaulamento discal.
Na região lombar, a medula termina em nível L1-L2 (cone medular) e abaixo disso seguem as raízes da cauda equina dentro do saco dural. Cada raiz sai do canal pelo forame de vértebra de mesmo número, passando abaixo do pedículo correspondente: a raiz L4 sai no forame L4-L5 e a L5 sai no forame L5-S1. Consequência prática que cai em prova: uma hérnia posterolateral em L4-L5 comprime a raiz que ATRAVESSA esse nível (a L5, rumo ao forame abaixo), enquanto uma hérnia foraminal ou extraforaminal em L4-L5 comprime a raiz que SAI nesse nível (a L4). Por isso 90 a 95% das hérnias lombares sintomáticas em L4-L5 e L5-S1 produzem síndromes L5 e S1.
A degeneração discal segue uma cascata: fissuras circunferenciais radiais no ânulo (fase de disfunção), instabilidade segmentar com perda de altura discal e sobrecarga facetária (fase de instabilidade) e, por fim, estabilização fibrótica com osteófitos (fase de reestabilização). Quando o núcleo ultrapassa as fibras do ânulo, forma-se a hérnia. A dor radicular não é só compressão mecânica: o material do núcleo exposto libera mediadores inflamatórios (TNF-alfa, IL-1 beta, fosfolipase A2, óxido nítrico) que sensibilizam a raiz, o que explica por que hérnias pequenas podem doer muito e por que corticoides e o tempo têm efeito.
| Tipo morfológico | Definição | Comportamento clínico |
|---|---|---|
| Protrusão | Material discal deslocado ainda contido pelas fibras mais externas do ânulo; base mais larga que a altura do abaulamento | Geralmente menos sintomática; menor taxa de reabsorção espontânea |
| Extrusão | Ruptura completa do ânulo; o material se estende além do espaço discal em pelo menos um plano, com base mais estreita que o fragmento | Frequentemente sintomática; alta taxa de regressão espontânea |
| Sequestração | Fragmento extradiscal livre, sem continuidade com o disco de origem (subtipo extremo de extrusão); pode migrar cranial ou caudalmente | Pode causar compressão aguda grave, inclusive síndrome de cauda equina; é o tipo que mais reabsorve |
| Localização da hérnia | Raiz comprimida (exemplo em L4-L5) | Padrão clínico |
|---|---|---|
| Central | Raiz em travessia (L5) e, se volumosa, a cauda equina | Dor lombar irradiada bilateralmente; grandes hérnias centrais podem causar síndrome de cauda equina |
| Posterolateral (a mais comum) | Raiz em travessia (L5) | Lombociatalgia L5 clássica de distribuição lateral da perna e dorso do pé |
| Foraminal e extraforaminal (lateral) | Raiz de saída (L4) | Dor anterior da coxa e medial da perna; teste de tração do nervo femoral positivo; mais difícil de ver em cortes axiais de RM de rotina |
A queixa típica é lombociatalgia: dor lombar com irradiação abaixo do joelho, seguindo um dermatomo, piorada por tosse, espirro ou defecação (manobra de Valsalva aumenta a pressão no canal) e por sentar (flexão prolongada carrega o disco). Déficit sensitivo é frequentemente mais extenso que a dor. Pede-se força, sensibilidade e reflexos nos três territórios de prova. Na estenose, o quadro é de claudicação neurogênica; na hérnia, de radiculopatia tensional; na cauda equina, somam-se disfunção esfincteriana e anestesia em sela.
| Raiz | Distribuição da dor e hipoestesia | Força a testar | Reflexo |
|---|---|---|---|
| L4 | Face anterolateral da coxa e região medial da perna até o tornozelo | Extensão do joelho (quadríceps) e dorsiflexão do tornozelo (tibial anterior); teste de andar sobre os calcanhares | Patelar (rotuliano) diminuído ou ausente |
| L5 | Face posterolateral da coxa e perna, dorso medial do pé e primeiro espaço interdigital | Extensão do hálux (extensor longo do hálux) e abdução do quadril (glúteo médio); andar sobre os calcanhares | Sem reflexo tendinoso específico (costuma estar normal) |
| S1 | Face posterior da coxa e perna, face lateral do pé e sola | Flexão plantar do tornozelo (tríceps sural); andar sobre as pontas dos pés | Aquileu (aquiliano) diminuído ou ausente |
A manobra de Lasègue (elevação da perna estendida) estica as raízes L5 e S1: positiva quando reproduz a dor irradiada entre 30 e 70 graus de elevação; abaixo de 30 graus sugere causa não radicular e acima de 70, dor mecânica. Tem sensibilidade de cerca de 80 a 90% para hérnia de disco, mas especificidade baixa (25 a 40%). O sinal crossover (elevação da perna ASSINTOMÁTICA reproduz a dor do lado afetado) é o oposto: pouco sensível (25 a 45%), porém muito específico (85 a 95%) para hérnia discal. A manobra de Bragard (dorsiflexão do pé com a perna elevada até o limiar da dor) aumenta a especificidade. Para raízes altas (L2-L4), usa-se o teste de tração do nervo femoral em decúbito ventral. Sempre se examina a marcha, o trofismo e, na suspeita de cauda equina, o tônus esfincteriano, a sensibilidade perineal e o resíduo pós-miccional (por sonda ou ultrassonografia: maior que 100-200 mL é retenção).
A estenose é a redução do diâmetro do canal central, do recesso lateral ou do forame, por combinação de abaulamento discal, hipertrofia do ligamento amarelo e das facetas, e escorregamento vertebral (espondilolistese degenerativa). Pode ser congênita (canal constitucionalmente estreito, como na acondroplasia) ou, na imensa maioria, degenerativa, acima dos 60 anos. O quadro clássico é claudicação neurogênica: dor, parestesias e fraqueza nos membros inferiores ao ficar de pé e caminhar (posição de extensão do canal estreita ainda mais), com alívio ao sentar, agachar ou flexionar o tronco, o chamado sinal do carrinho de compras, porque o paciente melhora empurrando o carrinho no supermercado, posição que flexiona a lombar e abre o canal. O tempo de alívio é de minutos (5 a 10), mais lento que o da claudicação vascular.
| Achado | Claudicação neurogênica (estenose) | Claudicação vascular |
|---|---|---|
| Gatilho | Ficar de pé e caminhar (inclusive descida, que estende a lombar) | Qualquer marcha, inclusive no plano; sem relação com postura |
| O que alivia | Sentar, agachar, flexionar o tronco (carrinho de compras); alívio em 5 a 10 minutos | Parar de andar, em qualquer postura; alívio em 1 a 2 minutos |
| Teste da bicicleta | Pedalando flexiona a lombar: costuma tolerar bem (teste de van Gelderen) | Sintomático ao pedalar, pois o déficit é de fluxo |
| Sintomas | Dor lombar prévia, parestesias e fraqueza difusas, podem melhorar inclinando-se sobre o guidão | Aperto e dor em panturrilha, unilateral ou bilateral, sem dor lombar típica |
| Exame vascular | Pulsos presentes, pele normal | Pulsos diminuídos ou ausentes, sopros, trofismo alterado, ITB baixo |
Cerca de 1 a 3% das lombalgias que chegam ao ambulatório escondem causa grave. A triagem por red flags é o que separa o manejo expectante da investigação urgente, e é o conteúdo mais cobrado da matéria. A emergência máxima é a síndrome da cauda equina: compressão das raízes lombossacras inferiores, classicamente por hérnia central grande, com retenção urinária (resíduo pós-miccional maior que 100-200 mL) ou incontinência por transbordamento, anestesia em sela (hipoestesia da região perineal, S2-S4), déficit motor progressivo, ciatalgia bilateral e perda do tônus esfincteriano anal. Exige RM urgente e descompressão em até 24-48 horas, porque a recuperação vesical e intestinal é muito melhor quando a cirurgia é precoce.
| Suspeita | Sinais e sintomas | Conduta |
|---|---|---|
| Síndrome da cauda equina | Retenção urinária ou incontinência, anestesia em sela (S2-S4), déficit motor progressivo, ciatalgia bilateral, laxidade anal | EMERGÊNCIA: RM urgente e descompressão cirúrgica em até 24-48 h |
| Infecção (discite, abscesso epidural) | Febre, dor noturna não mecânica, uso recente de drogas endovenosas, imunossupressão, diabetes, bacteremia ou procedimento espinhal recente; VHS e PCR elevados | RM com contraste, hemoculturas, antibiótico venoso precoce; drenagem se abscesso ou déficit |
| Fratura | Trauma significativo, ou trauma mínimo em osteoporose/portador de corticoide crônico; dor incapacitante com contratura | Radiografias e TC; avaliar estabilidade e tratar |
| Neoplasia | História prévia de câncer, perda de peso inexplicada, dor noturna que não alivia com repouso, idade acima de 50 anos, anemia | RM com contraste, VHS/PCR, hemograma, cálcio; investigar tumor primário |
A regra de ouro da escolha sensata (Choosing Wisely, NICE NG59) é não solicitar RM (nem radiografias) na lombalgia mecânica simples e na radiculopatia com menos de 4 a 6 semanas de evolução, desde que ausentes red flags, porque o resultado não muda a conduta: o tratamento continua conservador. A RM é o exame de escolha para hérnia e estenose (sensibilidade e especificidade acima de 90% para compressão radicular) e deve ser obtida quando há red flag, déficit motor progressivo, suspeita de cauda equina ou radiculopatia persistente além de 4-6 semanas apesar do tratamento, sobretudo se cirurgia está em consideração. A TC avalia melhor o osso (fraturas, artrodese prévia) e a eletroneuromiografia reserva-se aos casos de discordância clínico-radiológica, detectando denervação a partir de 2 a 3 semanas do início do déficit. Cuidado com o achado incidental: protrusões e extrusões existem em 20 a 40% dos adultos assintomáticos, com prevalência crescente com a idade, de modo que a RM só tem valor quando o nível comprimido coincide com a síndrome radicular do exame físico.
O tratamento conservador bem conduzido resolve a maioria dos casos e tem três pilares: anti-inflamatório, manutenção da atividade e tempo. A história natural é favorável: 60 a 80% dos pacientes melhoram substancialmente em 6 a 12 semanas, e o disco tem biologia de reabsorção, com regressão total ou parcial de 60 a 95% das extrusões e sequestrações ao longo de meses, mediada por infiltrado inflamatório macrófágico e neovascularização (quanto maior a hérnia, maior a tendência a regredir).
A cirurgia na hérnia de disco trata radiculopatia, não lombalgia: opera-se a dor que irradia quando há concordância clínico-radiológica, depois de esgotar o tratamento conservador, ou imediatamente nas situações de emergência.
Técnicas: a microdiscectomia (discectomia aberta assistida por microscópio ou endoscópio, com incisão de 2 a 3 cm e ressecção mínima do ligamento amarelo e da lâmina) é o padrão-ouro da hérnia contida ou extrusa, com alívio da radiculopatia em 80 a 90% dos casos, alta em 1 a 2 dias e retorno ao trabalho em semanas. A discectomia endoscópica percutânea ganhou espaço com evidência de resultados semelhantes em casos selecionados. Para a estenose, a laminectomia descompressiva clássica (retirada das lâminas, do ligamento amarelo e da parte medial das facetas) abre o canal; alternativas menos invasivas são a laminotomia unilateral com descompressão bilateral e os espaçadores interespinhosos em idosos sem deformidade. A artrodese (fusão com parafusos pediculares, como na TLIF) está indicada quando há instabilidade ou espondilolistese significativa, deformidade progressiva, recidiva no mesmo nível com dor mecânica ou revisão complexa; não é rotina na hérnia simples, e a literatura mostra resultados semelhantes com e sem fusão na estenose sem listese.
Após microdiscectomia, 80 a 90% dos pacientes obtêm alívio da ciática e a maioria retorna às atividades anteriores; a dor lombar residual é comum porque a degeneração discal permanece. A recidiva de hérnia ocorre em 5 a 15% dos operados, no mesmo nível ou em nível adjacente, com maior risco no primeiro ano e em jovens com defeito amplo do ânulo. Complicações específicas: ruptura dural com fístula de líquor (1 a 5%, manifestada por cefaleia posicional; na maioria resolve com repouso e hidratação), lesão radicular (menos de 1%), discite e infecção de ferida (1 a 2%, com febre, dor intensa e PCR alta: investigar com RM com contraste), lesão de grande vasos ou de ureter (rara). A síndrome da cirurgia falida da coluna, com dor lombar persistente ou recorrente, é a principal causa de reoperação tardia, e sua prevenção começa na seleção correta da indicação: concordância entre clínica, exame e imagem. Na síndrome de cauda equina, a recuperação das funções vesical, intestinal e sexual é significativamente melhor quanto mais precoce a descompressão, idealmente dentro de 48 horas do início dos sintomas esfincterianos.
1.Homem de 42 anos com lombociatalgia direita há 3 semanas: dor na face lateral da perna até o dorso medial do pé, dificuldade para elevar o hálux e reflexos patelar e aquileu preservados. Qual o nível da hérnia e a raiz comprometida?
2.Na síndrome radicular S1, qual achado é esperado no exame físico?
3.Paciente de 68 anos refere dor e parestesias nas pernas ao caminhar, que aliviam completamente após 8 minutos sentado em um banco, empurrando o carrinho no mercado agachado; pulsos pediosos presentes e ITB normal. Qual o diagnóstico mais provável?
4.Qual conjunto de achados configura síndrome da cauda equina e exige RM urgente?
5.Sobre o sinal crossover na radiculopatia lombar, qual afirmativa é correta?
6.Mulher de 35 anos com lombociatalgia esquerda há 10 dias, sem trauma, sem febre, sem déficit motor, Lasègue positivo a 40 graus. Qual a conduta de imagem correta?
7.Qual é a história natural da hérnia de disco lombar não operada?
8.Qual foi a principal mensagem do estudo SPORT para a hérnia de disco lombar?
9.Homem de 45 anos com hérnia L5-S1 concordante na RM evolui, nas primeiras 2 semanas de tratamento conservador, de flexão plantar 5/5 para 3/5 no lado afetado, com dor intratável apesar da analgesia otimizada. Qual a conduta?
10.Qual a taxa aproximada de recidiva de hérnia após microdiscectomia e o momento de maior risco?
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