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Material completo sobre delirium em terapia intensiva: definição DSM-5, subtipos, aplicação passo a passo do RASS e do CAM-ICU, ICDSC, bundle ABCDEF, sedoanalgesia conforme PADIS 2018 e papel real dos antipsicóticos, com os números e critérios que caem em prova.
[1] American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th ed (DSM-5). American Psychiatric Publishing. 2013 | [2] Ely EW, Inouye SK, Bernard GR, et al. Delirium in Mechanically Ventilated Patients: Validity and Reliability of the Confusion Assessment Method for the Intensive Care Unit (CAM-ICU). JAMA. 2001;286(21):2703-2710 · DOI 10.1001/jama.286.21.2703 | [3] Devlin JW, Skrobik Y, Gélinas C, et al (PADIS). Clinical Practice Guidelines for the Prevention and Management of Pain, Agitation/Sedation, Delirium, Immobility, and Sleep Disruption in Adult Patients in the ICU. Crit Care Med. 2018;46(9):e825-e873 · DOI 10.1097/CCM.0000000000003299 | [4] Luetz A, Heymann A, Radtke FM, et al. Different Assessment Tools for Intensive Care Unit Delirium: Which Score to Use? Crit Care Med. 2010;38(2):409-418 · DOI 10.1097/CCM.0b013e3181cabb42 | [5] Girard TD, Exline MC, Carson SS, et al (MIND-USA). Haloperidol and Ziprasidone for Treatment of Delirium in Patients in the Intensive Care Unit: A Randomized Clinical Trial. JAMA. 2018;319(7):628-637 · DOI 10.1001/jama.2018.0200 | [6] Pandharipande PP, Pun BT, Herr DL, et al (MENDS). Effect of Sedation with Dexmedetomidine vs Lorazepam on Acute Brain Dysfunction in Mechanically Ventilated Patients: The MENDS Randomized Controlled Trial. JAMA. 2007;298(22):2644-2653 · DOI 10.1001/jama.298.22.2644 | [7] Riker RR, Shehabi Y, Bokesch PM, et al (SEDCOM). Dexmedetomidine vs Midazolam for Sedation of Critically Ill Patients: A Randomized Trial. JAMA. 2009;301(5):489-499 · DOI 10.1001/jama.2009.56 | [8] Bergeron N, Dubois MJ, Dumont M, et al. Intensive Care Delirium Screening Checklist: Evaluation of a New Tool. Intensive Care Med. 2001;27(5):859-864 · DOI 10.1007/s001340100964 | [9] Marra A, Ely EW, Pandharipande PP, Patel MB. The ABCDEF Bundle in Critical Care. Crit Care Clin. 2017;33(2):225-243 · DOI 10.1016/j.ccc.2016.12.005 | [10] Inouye SK, Bogardus ST, Charpentier PA, et al. A Multicomponent Intervention to Prevent Delirium in Hospitalized Older Patients (HELP). N Engl J Med. 1999;340(9):669-676 · DOI 10.1056/NEJM199903043400901 · DOI 10.1097/CCM.0000000000003299
Delirium é a complicação neuropsiquiátrica mais frequente da terapia intensiva: acomete até 30-80% dos pacientes em ventilação mecânica, dependendo da população e do método de rastreio, e está associado de forma independente a maior mortalidade, mais dias de ventilação, internação mais longa, maior risco de demência em seguimento prolongado e pior qualidade de vida. Apesar disso, a maior parte dos episódios passa despercebida quando não existe rastreio estruturado — sobretudo o delirium hipoativo, que o aluno não pode confundir com um paciente calmo e cooperativo. A mensagem central da aula é operacional: medir nível de consciência com RASS, rastrear delirium com CAM-ICU (ou ICDSC) em todos os turnos, prevenir com o bundle ABCDEF e tratar primeiro as causas.
O DSM-5 define transtorno neurocognitivo major devido a outra condição médica — delirium — por cinco critérios centrais: perturbação da atenção e da consciência (redução da orientação ao ambiente); início agudo (horas a poucos dias) e curso flutuante ao longo do dia; pelo menos uma perturbação adicional de cognição (memória, linguagem, orientação, percepção); as perturbações não são melhor explicadas por demência prévia estabelecida nem ocorrem no contexto de nível de consciência gravemente rebaixado como coma; e há evidência de causa fisiológica subjacente direta (intoxicação, abstinência, toxina, infecção, causas metabólicas, trauma, pós-operatório). O delirium é um diagnóstico de disfunção cerebral aguda por causa orgânica — e é potencialmente reversível quando a causa é tratada, o que o diferencia conceitualmente da demência, de instalação crônica e curso progressivo, e da depressão, que não cursa com flutuação de atenção ao longo do dia (embora possa coexistir).
| Subtipo | Manifestação dominante | Frequência relativa | Armadilha clínica |
|---|---|---|---|
| Hipoativo | Letargia, apatia, hipoatividade psicomotora, respostas lentas ou ausência de resposta | O mais comum na UTI (muitas séries com mais da metade dos episódios, puros ou como componente do misto) | Passa como bom paciente; associa-se a pior prognóstico e a menor detecção sem escala |
| Hiperativo | Agitação psicomotora, puxar cateteres, tentar sair do leito, alucinações, agressividade | Minoritário como forma pura (em torno de 5% ou menos) | É o que todos reconhecem; risco de lesão e extubação acidental |
| Misto | Alternância entre hipoatividade e hiperatividade no mesmo episódio | Muito frequente | A flutuação é a assinatura: registrar a variação entre turnos |
A prevalência depende do cenário: em pacientes clínicos não ventilados de UTI fica em torno de 20-30%, subindo para 60-80% nos ventilados graves e em pós-operatórios de grande porte. Nas comparações multicêntricas de ferramentas, o CAM-ICU apresentou a melhor validade entre os instrumentos à beira do leito, com sensibilidade e especificidade acima de 90% nos estudos de validação originais de Ely (JAMA 2001), embora estudos pragmáticos de rotina real (como a coorte alemã de Luetz) mostrem sensibilidade menor — o que reforça a necessidade de treinamento e de aplicações repetidas (ao menos uma vez por turno). Delirium é fator independentemente associado a mortalidade em 6 e 12 meses, a aumento de dias de ventilação e internação, a maior incidência de comprometimento cognitivo persistente (perfil semelhante a demência leve em parcela dos sobreviventes) e a maior risco de sintomas de estresse pós-traumático. Associação não é causalidade pura — delirium também marca doença mais grave —, mas é o melhor preditor modificável de desfecho neurológico que a equipe consegue medir diariamente.
A Escala de Sedação-Agitação de Richmond (RASS) deve ser aplicada antes de qualquer teste cognitivo: ela quantifica o nível de consciência em 10 níveis, de +4 a −5, com excelente reprodutibilidade interobservadores e é o parâmetro sobre o qual se define a meta de sedação e a própria aplicabilidade do CAM-ICU. Com RASS de −4 ou −5 (sedação profunda/coma), o paciente não consegue participar dos testes de atenção e o CAM-ICU fica incomunicável naquele momento — registra-se como não avaliável e repete-se mais tarde. O procedimento padrão tem três degraus: observação do paciente por uns segundos (escores 0 a +4); chamado pelo nome sem estímulo físico (−1 a −3); e estímulo físico — sacudir o ombro ou estímulo traqueal — para os níveis mais profundos (−4 e −5).
| RASS | Termo | Descrição operacional |
|---|---|---|
| +4 | Combate | Violento, perigo imediato para a equipe, exige contenção física |
| +3 | Muito agitado | Puxa ou remove cateteres e tubos, agressividade |
| +2 | Agitado | Movimentos frequentes não propositivos, luta contra o ventilador |
| +1 | Inquieto | Ansioso, apreensivo, movimentos discretos |
| 0 | Alerta e calmo | Contato ocular espontâneo e sustentado |
| -1 | Sonolento | Não está completamente alerta, mas acorda com estímulo verbal sustentado por mais de 10 segundos |
| -2 | Sedação leve | Acorda com estímulo verbal e mantém contato ocular por menos de 10 segundos |
| -3 | Sedação moderada | Qualquer movimento ou abertura ocular ao estímulo verbal, sem contato ocular |
| -4 | Sedação profunda | Sem resposta ao estímulo verbal; movimento ou abertura ocular ao estímulo físico |
| -5 | Não responsivo | Sem resposta a voz nem a estímulo físico |
O CAM-ICU é a adaptação do Confusion Assessment Method para pacientes de UTI, aplicável mesmo a pacientes intubados, sem fala. O resultado é binário (positivo ou negativo) e deriva de quatro features. Pré-requisito: RASS entre −3 e +4; com RASS −4/−5, examinar mais tarde.
O algoritmo de decisão é o ponto mais cobrado: o CAM-ICU é POSITIVO (delirium presente) quando existe a feature 1 E a feature 2 E (feature 3 OU feature 4) — escrevendo, positivo = 1 e 2 e (3 ou 4). Se o paciente flutua e falha no teste de atenção, já basta nível alterado ou pensamento desorganizado para fechar o diagnóstico; em contrapartida, desatenção isolada sem início agudo não fecha nada. Na prática de rotina, aplica-se em todos os turnos (ideal a cada 8-12 horas) e após qualquer mudança abrupta do estado mental, sempre registrando o RASS concomitante, pois a dupla RASS + CAM-ICU compõe o monitoramento neurológico básico recomendado pela diretriz PADIS 2018 para todos os adultos de UTI.
O Intensive Care Delirium Screening Checklist (ICDSC) de Bergeron é a principal alternativa: oito itens avaliados por enfermagem com base nas observações do turno — nível de consciência alterado, desatenção, desorientação, alucinação ou ilusão, agitação ou retardo psicomotor, comunicação/fluxo de pensamento inapropriado, distúrbio do sono e flutuação de sintomas. Cada item positivo soma 1 ponto; escore ≥ 4 de 8 define delirium. A comparação prática: o CAM-ICU é um teste objetivo e binário com realização no momento da avaliação; o ICDSC é um checklist de observação contínua ao longo do turno, mais sensível para formas hipoativas leves em algumas séries, porém com mais variabilidade entre avaliadores. A PADIS considera ambas aceitáveis (recomendação de melhor prática), desde que aplicadas de forma treinada e rotineira; o 4AT é alternativa rápida validada em enfermaria e emergência.
| Característica | CAM-ICU | ICDSC |
|---|---|---|
| Formato do resultado | Binário: positivo ou negativo | Escore de 0 a 8; positivo se ≥ 4 |
| Momento da avaliação | Teste direto com o paciente (minutos) | Checklist preenchido com base no turno de observação |
| Teste de atenção | Sim, letras SAVEAHAART com mais de 2 erros | Item de desatenção avaliado clinicamente |
| Melhor uso | Rastreio objetivo por turno em pacientes participativos | Ferramenta de enfermagem, boa para formas hipoativas e monitoramento de tendência |
A memorização clássica organiza os fatores de risco em predisponentes (do paciente) e precipitantes (da internação), lembrando que delirium quase sempre resulta da soma dos dois — um cérebro vulnerável exposto a múltiplos insultos. Entre os modificáveis, os benzodiazepínicos consistentemente se destacam como o maior fator de risco medicamentoso associado ao desenvolvimento de delirium na UTI — razão pela qual as diretrizes sugerem evitá-los como sedação de rotina.
| Não modificáveis (predisponentes) | Modificáveis (precipitantes) |
|---|---|
| Idade avançada (em especial acima de 65-70 anos) | Benzodiazepínicos — o maior fator medicamentoso modificável |
| Demência prévia e declínio cognitivo | Dor não tratada (rastrear com CPOT ou BPS) |
| Gravidade da doença aguda (escores altos de gravidade) | Infecção, sepse e resposta inflamatória |
| Alcoolismo e abstinência | Desequilíbrios metabólicos: sódio, glicose, cálcio, ureia, hipóxia, hipercapnia |
| Deficiência visual e auditiva não corrigidas | Imobilização no leito e ausência de reabilitação precoce |
| Histórico de AVC ou doença cerebrovascular | Privação de sono, ruído, ausência de relógio e de orientação temporal |
| Depressão e fragilidade | Retenção urinária, fecaloma, sondas e restrições físicas |
A prevenção começa com medidas não farmacológicas, porque nenhum medicamento previne delirium. O protótipo é o programa HELP (Hospital Elder Life Program) de Inouye (NEJM 1999), que reduziu a incidência de delirium em idosos hospitalizados com intervenções dirigidas aos fatores de risco: reorientação frequente com relógio e calendário, protótipo de protocolo de sono (ruído e luz reduzidos à noite, agrupamento de tarefas noturnas), mobilização e deambulação precoces, correção de déficits visuais e auditivos (óculos e aparelhos), e hidratação adequada. Na terapia intensiva, essas medidas foram sistematizadas no bundle ABCDEF, cuja implementação completa associa-se a mais dias livres de delirium e coma, mais dias livres de ventilador e maior sobrevida.
A diretriz PADIS (Devlin, Crit Care Med 2018) estabelece as recomendações-chave: tratar a dor antes de sedar (analgesia primeiro, com alvos habituais de CPOT menor que 2-3 e BPS menor que 6); manter sedação leve em adultos ventilados, com meta de RASS entre −2 e 0 (sedação profunda de rotina aumenta tempo de ventilação e mortalidade em coortes); realizar diariamente a combinação SAT seguido de SBT; sugerir não usar benzodiazepínicos como sedativos de primeira linha; e monitorizar delirium com CAM-ICU ou ICDSC. Sobre escolha do sedativo, dois ensaios fundamentam a preferência por dexmedetomidina quando há risco de delirium: no MENDS (JAMA 2007), dexmedetomidina versus lorazepam em pacientes ventilados aumentou os dias vivos sem delirium ou coma; no SEDCOM (JAMA 2009), dexmedetomidina versus midazolam proporcionou sedação equivalente com prevalência menor de delirium (aproximadamente 44% versus 54%). O propofol permanece útil por meia-vida curta e titulação rápida, embora não tenha o mesmo perfil de redução de delirium.
| Fármaco | Dose usual em UTI | Vantagens | Cautelas |
|---|---|---|---|
| Dexmedetomidina | 0,2-1,4 mcg/kg/h IV contínuo, sem carga em UTI | Sedação com despertabilidade, sem depressão respiratória relevante; reduz delirium versus benzodiazepínicos (MENDS e SEDCOM) | Bradicardia e hipotensão; não é amnéstico nem anticonvulsivante |
| Propofol | 5-50 mcg/kg/min IV (titulação; evitar exposição prolongada acima de 4-5 mg/kg/h) | Meia-vida curta, despertar rápido, favorece SAT diário | Hipotensão, hipertrigliceridemia e síndrome rara de infusão (acidose lática, rabdomiólise) em doses altas prolongadas |
| Midazolam | 0,02-0,1 mg/kg/h IV contínuo | Rápido, amnéstico, barato | Acúmulo em disfunção renal e hepática, delirium, sedação prolongada — evitar como rotina |
| Fentanil (analgesia) | 25-200 mcg/h IV contínuo ou bolus de 0,25-1 mcg/kg | Potente, hemodinamicamente estável | Acúmulo com infusão longa; constipação; tratar a dor antes de sedar |
O ensaio MIND-USA (Girard, JAMA 2018) randomizou 566 pacientes de UTI com delirium para haloperidol, ziprasidona ou placebo e mostrou que nenhum dos antipsicóticos aumentou os dias vivos sem delirium ou coma (mediana em torno de 10 dias nos três grupos) — e o seguimento de longo prazo não encontrou benefício cognitivo ou funcional. Em conjunto com outros ensaios, a conclusão operacional é firme: antipsicóticos NÃO previnem delirium (a PADIS recomenda expressamente contra uso profilático rotineiro) e não curam a causa; são sintomáticos, reservados para agitação significativa ou sofrimento (por exemplo, alucinações aflitivas) que não responde a medidas não farmacológicas, sempre após tratamento das causas. O tratamento real do delirium é o tratamento da causa: rever sedativos e drogas deliriogênicas, tratar dor, infecção, retenção urinária, desequilíbrios metabólicos, hipóxia e privação de sono.
A maior parte dos episódios de delirium em UTI não exige neuroimagem, mas bandeiras vermelhas mudam a conduta: novo déficit neurológico focal, trauma craniano ou queda recente, anticoagulação plena ou diátese hemorrágica, status mental que não melhora após reversão dos fatores óbvios, cefaleia, febre com rigidez de nuca, crises convulsivas observadas ou suspeita de estado de mal não convulsivo. Nesses cenários, a tomografia de crânio está indicada; o EEG é o exame de escolha quando se suspeita de estado de mal não convulsivo (alteração de consciência inexplicada, flutuação abrupta, movimentos sutis, história de epilepsia, ou delirium refratário em paciente neurológico), patologia presente em parcela relevante dos pacientes com consciência alterada de causa indefinida. O rastreio laboratorial básico de todo delirium inclui glicemia, eletrólitos (sódio, potássio, cálcio, magnésio, fósforo), ureia e creatinina, hemograma, gasometria, função hepática, screen de infecção e revisão completa da lista de medicamentos — anticolinérgicos, opioides em altas doses, benzodiazepínicos, corticoides e anticonvulsivantes são deliriogênicos frequentes.
1.Sobre os subtipos de delirium na UTI, qual assertiva é correta?
2.Paciente com RASS −4 (sedação profunda) no momento do rastreio de rotina. Qual conduta correta?
3.No teste das letras do CAM-ICU (SAVEAHAART), qual critério define a feature 2 (desatenção)?
4.O algoritmo do CAM-ICU é positivo para delirium quando:
5.Ponto de corte do ICDSC para diagnóstico de delirium:
6.Qual o maior fator de risco medicamentoso MODIFICÁVEL para delirium na UTI?
7.Segundo a PADIS 2018, qual a meta de sedação para adultos em ventilação mecânica?
8.O que o ensaio MIND-USA (JAMA 2018) demonstrou sobre antipsicóticos no delirium da UTI?
9.Paciente com delirium de início agudo apresenta novo déficit motor à direita e usa varfarina por fibrilação atrial. Próximo passo:
10.Qual sequência de avaliação à beira do leito está correta?
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