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Revisão completa sobre o início precoce de inibidores de SGLT2 após o infarto agudo do miocárdio para prevenir insuficiência cardíaca: mecanismos, remodelamento ventricular, resultados dos ensaios EMMY, EMPACT-MI e DAPA-MI, indicações práticas, doses e segurança.
[1] Veludo PK, Morais BBO. Início precoce de inibidores de SGLT2 após infarto agudo do miocárdio para prevenção de insuficiência cardíaca: revisão sistemática. Asclepius Int J Sci Health Sci. 2026;5(9):246-262 · DOI 10.70779/aijshs.v5i9.687 | [2] von Lewinski D, et al. Empagliflozin in acute myocardial infarction: the EMMY trial. Eur Heart J. 2022;43(41):4421-4432 · DOI 10.1093/eurheartj/ehac494 | [3] Butler J, et al. Empagliflozin after acute myocardial infarction (EMPACT-MI). N Engl J Med. 2024 · DOI 10.1056/NEJMoa2314091 · PMID 38579355 | [4] James S, et al. Dapagliflozin in myocardial infarction without diabetes or heart failure (DAPA-MI). NEJM Evid. 2024;3(2) · DOI 10.1056/evidoa2300286 · PMID 38320489 | [5] Hu S, et al. Cardiovascular outcome of the SGLT2 inhibitor in acute myocardial infarction: a meta-analysis. Rev Cardiovasc Med. 2025 · DOI 10.31083/rcm26136 | [6] McDonagh TA, Metra M, Adamo M, et al. 2021 ESC Guidelines for the diagnosis and treatment of acute and chronic heart failure. Eur Heart J. 2021;42(36):3599-3726 · DOI 10.1093/eurheartj/ehab368 · DOI 10.70779/aijshs.v5i9.687
O paciente que sobrevive ao infarto agudo do miocárdio (IAM) carrega um risco elevado e subestimado de desenvolver insuficiência cardíaca nos anos seguintes, e a IC pós-IAM associa-se a mortalidade várias vezes maior. A revolução terapêutica dos inibidores do cotransportador de sódio-glicose 2 (iSGLT2), construída nos ensaios de insuficiência cardíaca e doença renal, migrou para a fase precoce do infarto: três ensaios randomizados, EMMY, EMPACT-MI e DAPA-MI, testaram iniciar empagliflozina ou dapagliflozina dentro de horas a dias do IAM para impedir a evolução para IC. Este artigo revisa os mecanismos, os resultados de cada ensaio com seus números, as metanálises que os sintetizam (incluindo a revisão sistemática que originou este material) e a tradução prática: quem deve receber, quando começar, qual dose e como monitorar a segurança.
O cotransportador SGLT2, localizado no túbulo proximal, reabsorve cerca de 90% da glicose filtrada (o SGLT1 distal responde pelos 10% restantes). Sua inibição induz glicosúria de 60 a 80 g/dia e, com ela, um efeito hemodinâmico conjunto: natriurese e diurese osmótica que reduzem pré-carga, queda de 3 a 5 mmHg na pressão arterial e perda de 1,5 a 2,5 kg de peso. No cardiomiócito, os iSGLT2 inibem o trocador sódio-hidrogênio 1 (NHE-1): menos sódio citosólico significa menos cálcio influxado pelo trocador NCX em modo reverso, aliviando a sobrecarga calcica e o estresse oxidativo mitocondrial que segue a isquemia. Soma-se a favorecer cetogênese hepática: o beta-hidroxibutirato é um combustível mais eficiente para o coração, gerando mais ATP por molécula de oxigênio consumida. Há ainda efeitos anti-inflamatórios e antifibrose descritos e a correção da hiperfiltração glomerular pela restauração do feedback tubuloglomerular, base da proteção renal. Para a prova: o benefício cardiovascular é independente do efeito glicêmico, comprovado em pacientes sem diabetes, e as doses usadas são empagliflozina 10 mg/dia ou dapagliflozina 10 mg/dia, em toma único matinal.
A necrose de cardiomiócitos libera o ventrículo de sua arquitetura: há expansão da área infartada, deslizamento de camadas na zona de necrose, ativação de fibroblastos com depósito de colágeno tipos I e III e dilatação progressiva com esferização da câmara. À geometria alterada somam-se insuficiência mitral funcional e ativação neuro-hormonal (sistema nervoso simpático, RAAS e vasopressina) que retém sódio e água e alimenta mais fibrose. O resultado é a queda da fração de ejeção e a IC clínica, meses a anos depois do evento. O dogma terapêutico aprendido com betabloqueadores, IECA e BRA na era dos ensaios pós-IAM é que a janela precoce é a que muda a trajetória do remodelamento, e os biomarcadores que rastreiam essa trajetória são o NT-proBNP, a troponina seriada, a fração de ejeção ao ecocardiograma e o tamanho do infarto à ressonância. Foi exatamente essa cascata que os iSGLT2 passaram a interceptar precocemente.
O EMMY randomizou 476 pacientes com IAM com supradesnivelamento de ST submetidos à angioplastia primária para empagliflozina 10 mg ou placebo, iniciada em até 72 horas da intervenção, com seguimento de 26 semanas. O desfecho primário foi um composto da variação do NT-proBNP e de parâmetros ecocardiográficos de função e dimensões ventriculares. Resultado: o grupo da empagliflozina apresentou redução do NT-proBNP cerca de 15% maior que o placebo (razão de 0,85), com melhora consistente de medidas de função sistólica e de dimensões do ventrículo esquerdo. O perfil de segurança foi o conhecido da classe, sem excesso de eventos renais, cetoacidose ou infecções graves. Lição de prova: o EMMY é um ensaio de desfechos substitutos (surrogates), pequeno, porém consistente, que estabeleceu a plausibilidade de modificar o remodelamento quando o fármaco é iniciado dentro das primeiras 72 horas.
O EMPACT-MI randomizou 6.522 pacientes com IAM agudo que apresentavam disfunção ventricular recente (fração de ejeção abaixo de 45%) ou sinais e sintomas de congestão para empagliflozina 10 mg ou placebo, iniciada durante a hospitalização (a maioria dentro dos primeiros dias, admitindo-se até 14 dias do evento). O desfecho primário composto, primeira hospitalização por insuficiência cardíaca ou morte por qualquer causa, não foi significativamente reduzido (cerca de 8,6% vs 9,1% dos pacientes; 5,9 vs 6,6 eventos por 100 pacientes-ano, hazard ratio em torno de 0,90 com intervalo de confiança cruzando 1). As análises secundárias pré-especificadas, porém, mostraram o efeito esperado da classe: redução de aproximadamente 23% na primeira hospitalização por insuficiência cardíaca e de cerca de 33% no total de hospitalizações recorrentes por IC. Interpretação honesta para provas e discussões: o desfecho duro primário foi neutro, provavelmente por poder estatístico, população heterogênea e mortalidade não relacionada a IC, mas a direção do benefício em desfechos de IC foi consistente com toda a literatura da classe.
O DAPA-MI inovou no desenho: ensaio randomizado, duplo-cego e pragmático, conduzido com mais de 5.700 pacientes na Suécia e no Reino Unido usando os registros nacionais de saúde como infraestrutura, em pacientes com IAM sem diabetes nem insuficiência cardíaca prévios, mas com disfunção ventricular esquerda ou NT-proBNP elevado. Dapagliflozina 10 mg versus placebo. O desfecho primário foi um composto cardiometabólico hierárquico (morte, hospitalização por IC, diabetes incidente, queda da função renal, peso, HbA1c e classe funcional) analisado por win ratio, que foi favorável (aproximadamente 1,2), impulsionado sobretudo pelos componentes metabólicos: perda de peso, menor HbA1c, menos diabetes incidente e melhor classe funcional. Os componentes duros de morte cardiovascular e hospitalização por IC foram numericamente menores, porém sem significância estatística. A grande lição metodológica: a escolha do desfecho primário define o veredicto do ensaio, e o benefício metabólico precoce pós-IAM é real e clinicamente útil mesmo quando o desfecho cardiovascular duro permanece neutro.
A revisão sistemática de Veludo e Morais (Asclepius, 2026) sintetizou a evidência sobre o início precoce de iSGLT2 após o IAM com foco na prevenção de insuficiência cardíaca, concluindo direção convergente de benefício e segurança compatível com a conhecida da classe. Metanálises de ensaios randomizados, como a de Hu e colaboradores (Rev Cardiovasc Med, 2025), indicam que o uso de iSGLT2 após infarto agudo reduz hospitalizações por insuficiência cardíaca e eventos cardiovasculares maiores (MACE), com efeito independente da presença de diabetes. As limitações são as esperadas: heterogeneidade de populações (com e sem disfunção ventricular), desfechos substitutos em parte dos ensaios e follow-up relativamente curto para desfechos duros; ensaios adicionais ampliam a base de evidência para pacientes sem disfunção ventricular.
| Ensaio | Droga e dose | População | Desfecho primário | Resultado |
|---|---|---|---|---|
| EMMY (2022) | Empagliflozina 10 mg, início em até 72 h da angioplastia primária | 476 pacientes pós-STEMI sem IC prévia | Composto de NT-proBNP e parâmetros ecocardiográficos em 26 semanas | Positivo: NT-proBNP 15% menor (razão 0,85) e melhor remodelamento |
| EMPACT-MI (2024) | Empagliflozina 10 mg durante a hospitalização (até 14 dias) | 6.522 pacientes com IAM e FE abaixo de 45% ou congestão | Primeira hospitalização por IC ou morte por qualquer causa | Neutro no primário; hospitalizações por IC reduzidas (primeira em cerca de 23%, total em cerca de 33%) |
| DAPA-MI (2024) | Dapagliflozina 10 mg via registros nacionais (Suécia e Reino Unido) | Mais de 5.700 pacientes com IAM sem diabetes nem IC, com disfunção VI ou NT-proBNP alto | Composto cardiometabólico hierárquico por win ratio | Positivo (win ratio cerca de 1,2), impulsionado por componentes metabólicos; desfechos duros neutros |
| Evento adverso | Frequência aproximada | Conduta e prevenção |
|---|---|---|
| Cetoacidose euglicêmica | Rara, em torno de 0,1 a 0,6% dos usuários | Suspeitar em náuseas, vômitos e dor abdominal com glicemia quase normal; dosar cetonas; suspender em jejum, cirurgia e estresse metabólico grave |
| Infecções genitais micóticas | Cerca de 5 a 10% em mulheres, 2 a 4% em homens | Higiene local e orientação prévia; casos leves tratados topicamente; fasciíte necrosante perineal (Fournier) é raríssima |
| Depleção de volume e hipotensão | Mais comum em idosos e com diuréticos | Avaliar volêmia antes de iniciar; reduzir diurético quando indicado; monitorar pressão arterial nos primeiros dias |
| Queda inicial do eGFR | Até 10 a 15% nos primeiros meses | Esperada e reversível, por hemodinâmica glomerular; não suspender por queda discreta; reavaliar se queda for maior que 30% |
| Hipoglicemia | Rara em monoterapia | Risco relevante apenas em associação com insulfina ou sulfonilureia, que devem ser revisadas |
| Amputações | Sinal observado apenas com canagliflozina no ensaio CANVAS | Não é efeito de classe; advertência retirada pelo FDA em 2020; nenhuma implicação para empagliflozina e dapagliflozina |
Reavalie em 2 a 4 semanas após o início: pressão arterial, peso, estado volêmico, creatinina e potássio, além da tolerância. A queda inicial do eGFR de até 10 a 15% é esperada e não justifica suspensão; quedas maiores que 30% pedem investigação de hipovolemia ou outra causa. Eduque o paciente nas regras dos dias de doença (sick day rules): suspender temporariamente o comprimido em vômitos, diarreia, febre alta, jejum e no pré-operatório de cirurgias de grande porte (habitualmente 2 a 3 dias antes), por risco de cetoacidose euglicêmica. Reforce que a glicemia não é o termômetro do benefício: o efeito cardiorenal persiste em não diabéticos e a hemoglobina glicada não mede a adesão ao benefício cardiovascular. Sintomas de alerta para procurar o serviço: dor abdominal, náuseas, vômitos, sede intensa, confusão e polyúria com glicemia pouco elevada.
1.O efeito dos iSGLT2 no cardiomiócito, proposto como mecanismo de proteção pós-isquemia, é:
2.O desfecho primário do ensaio EMMY foi:
3.Sobre o EMPACT-MI, a afirmativa correta é:
4.A característica metodológica distintiva do ensaio DAPA-MI foi:
5.A dose e o esquema dos iSGLT2 no cenário pós-IAM são:
6.Paciente em uso de empagliflozina chega com náuseas, vômitos, dor abdominal, glicemia de 140 mg/dL e ânion gap aumentado. O diagnóstico provável e a conduta são:
7.Duas semanas após iniciar dapagliflozina, o eGFR cai de 60 para 54 mL/min/1,73 m2, assintomático. A conduta correta é:
8.Pelas diretrizes, os iSGLT2 têm recomendação classe I em:
9.O sinal de segurança relacionado a amputações, descrito em um ensaio da classe, refere-se a:
10.Sobre a cetoacidose e a cirurgia, a orientação correta ao paciente em uso de iSGLT2 é:
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